Na Em Cima da Hora, a comissão abre caminhos para o desfile “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras!”. Com o título “Sob a Proteção das Sete Catacumbas”, o segmento ressignifica o cemitério, tradicionalmente associado ao temor, e o apresenta como espaço de força espiritual, transformação e poder feminino.

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Elemento Alegórico da Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A encenação propõe um embate simbólico entre energias masculinas e femininas até a manifestação soberana de Maria Padilha das Sete Catacumbas, conduzida por Exu. No centro da narrativa, não está a morte, mas o renascimento.

Em entrevista ao CARNAVALESCO, o coreógrafo Márcio Moura explicou que a proposta parte de uma mudança de olhar sobre o território representado em cena.

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Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

“O cemitério não é um lugar de fim, é um espaço de passagem. Ele representa ciclo, despedida, continuidade da energia. Dentro das religiões de matriz africana, muitos rituais acontecem próximos a esse espaço porque ali existe força espiritual. A nossa comissão mostra mulheres que sofreram violência, que foram silenciadas, e que buscam auxílio em uma entidade que habita esse território sagrado”, explicou o coreógrafo.

Segundo Márcio, o confronto apresentado em cena não é gratuito, ele traduz uma realidade social.

“A força masculina na coreografia simboliza transformação. Já chegou a hora do protagonismo feminino aparecer com clareza. Quando mulheres assumem seus espaços de poder, isso incomoda. A comissão é essencialmente feminina. O único personagem masculino é Exu, e ele não está ali para confrontar, mas para reverenciar essas mulheres”, disse.

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Márcio Moura e Suellen Gonçalves. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para o coreógrafo, a Umbanda e o culto às Pombagiras trazem uma mensagem direta ao público:

“Quando falamos de Pombagira, falamos de sincretismo, de resistência e de força feminina. Elas são fundamentais no plano espiritual. São protagonistas dessa história e dessa festa”.

A assistente de coreografia, Suellen Gonçalves, destacou que a construção cênica foi pensada para evidenciar o conflito estrutural entre homens e mulheres, tema que dialoga com a trajetória de muitas Pombagiras.

“A gente trabalhou o embate entre o masculino e o feminino porque, infelizmente, essa violência ainda é uma realidade. Muitas histórias atribuídas às Pombagiras falam de agressões, abusos físicos ou emocionais. A comissão traz esse contexto para a Avenida, mostrando dor, mas principalmente superação”, afirmou.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ao transformar o cemitério em palco de afirmação feminina, a comissão da Em Cima da Hora deslocou o olhar do público: o que antes era associado à escuridão se revela território de proteção e soberania.

Maria Padilha das Sete Catacumbas surge não como figura temida, mas como símbolo de autonomia e reorganização das forças. Sob sua presença, o conflito se dissolve e o feminino ocupa o centro.

Mais do que um espetáculo coreográfico, a comissão apresenta um posicionamento: onde houve silenciamento, haverá voz. Onde houve medo, haverá poder.