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Série Barracões: Unidos de Padre Miguel faz o resgate histórico no Grupo Especial com a força de Iyá Nassô

Alexandre Louzada e Lucas Milato unem tradição afro, matriarcado e grandiosidade para celebrar o retorno após 52 anos

A Unidos de Padre Miguel retorna ao Grupo Especial do carnaval carioca após mais de cinco décadas de ausência, abrindo os desfiles do domingo com um enredo que mergulha nas raízes afro-brasileiras. Sob a batuta dos carnavalescos Alexandre Louzada – tetracampeão com quatro escolas diferentes – e Lucas Milato – estreante no Especial após título na Série Ouro com o Boi Vermelho –, a agremiação da Zona Oeste apresenta “Egbé Iyá Nassô”, narrativa sobre a sacerdotisa que fundou o primeiro terreiro de candomblé do Brasil, a Casa Branca do Engenho Velho.

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Gênese do enredo: identidade e ancestralidade

A escolha do tema surgiu da necessidade de aliar a tradição da escola em abordagens afro-religiosas ao seu perfil matriarcal. “Buscávamos um enredo que honrasse nossa história e representasse a força das mulheres que comandam a UPM”, explica Louzada. Durante pesquisas, descobriram a trajetória pouco explorada de Iyá Nassô, figura central na resistência cultural e religiosa dos africanos escravizados.

A conexão definitiva veio em visita ao terreiro da Casa Branca. “Quando Mãe Neusa, líder espiritual, validou nossa pesquisa durante um ritual, choramos de emoção. Era como se a própria Iyá Nassō aprovasse o enredo”, revela Milato. A história entrelaça a saga da sacerdotisa – nobre do Reino de Oyó trazida ao Brasil – com a luta pela liberdade religiosa, tema que ressoa na comunidade da Vila Vintém.

Descobertas e conexões espirituais

A pesquisa revelou coincidências surpreendentes. Lisa, historiadora especializada na Casa Branca, era justamente uma filha-de-santo do terreiro. “Ela estava lá quando chegamos, como se fosse um sinal”, conta Milato. Louzada destaca a dimensão épica: “É uma novela de capítulos: tráfico negreiro, resistência, sincretismo. Trouxemos sínteses, mas cada detalhe carrega fundamento”.

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A grandiosidade do desfile reflete esse rigor. São 11 alegorias repletas de esculturas simbólicas, como tronos de orixás e navios que remetem à diáspora. “Nada é aleatório: até as 300 saias das baianas têm padrões iorubás”, enfatiza Louzada. A comunidade, porém, é o “motor”: “Eles cantam como ninguém. Serão nossa voz na avenida”, vibra Milato.

Magia da primeira vez: parceria e pressão

Para Milato, a estreia no Especial é “um turbilhão”. “Nem penso na minha carreira. O foco é garantir que a UPM nunca mais saia do Grupo”, diz. Louzada, veterano, elogia o parceiro: “Ele desenha um carro em minutos, tem energia de quem nasceu carnavalesco”. A dupla evitou conflitos criativos com diálogo constante. “Cada fantasia foi debatida. Não há ‘minha’ ou ‘sua’ ideia – é tudo nossa”, resume Milato.

O desafio é imenso: a escola subiu de grupo com estrutura limitada e precisou refazer 70% dos carros. “Mas a comunidade entendeu: este carnaval é um recomeço, não um ponto final”, afirma Louzada.

O trunfo: O boi, a comunidade e a fé

Os carnavalescos apostam em símbolos. “O Boi da UPM é tão amado quanto a águia da Portela. Ele guiará a narrativa”, adianta Louzada. Milato completa: “Nossa força vem da Vila Vintém. Eles entrarão na avenida com fome de permanecer no Especial”.

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Para encerrar, uma promessa: “Será um desfile que une arte e devoção. Quando o Boi passar, verão o coração da Zona Oeste pulsando”, concluem. A Unidos de Padre Miguel não quer apenas voltar – quer renascer.

Conheça o desfile da UPM

A Unidos de Padre Miguel virá com as seis alegorias permitidas pelo regulamento. O abre-alas é composto de três chassis. A escola ainda trará um elemento cenográfico para a comissão de frente e um tripé para contar o enredo. Os carnavalescos ressaltaram que o abre-alas tem 118 esculturas, e o segundo carro terá 98, sendo considerados todos os elementos que estão decorando o carro ou sendo inseridos no carro. Os componentes virão, além dos carros e outros segmentos, em 28 alas. Alexandre Louzada e Lucas Milato falaram ao CARNAVALESCO sobre os setores que o desfile vai apresentar para retratar a história de Iyá Nassô.

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Setor 1: “A gente abre com essa África real, um cortejo real de Oyó. O Boi vermelho vai buscar um reino de Oyó, o início da nossa história para contar essa saga, que é de onde a Iyá Nassô veio, onde ela tinha um grande cargo. Inclusive, Iyá Nassô é o cargo que ela tinha dentro do reino de Oyó. Então, esse primeiro setor é todo dedicado a essa imponência desse reino”.

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Setor 2: “A gente já parte para a travessia, que é no momento que esses impérios, tanto o de Oyó quanto o de Ketu, entram em um declínio. E essas princesas, tanto o Iyá Nassô de Oyó, e a Iyá Adetá e Iyá Kalá de Ketu, partem nessa travessia, já na condição de escravizadas, rumo a Salvador. É esse momento de travessia. Só que a gente mostra isso de uma forma que tentamos desmistificar essa travessia mais dolorosa. A gente tira isso. Não que a gente tenha apagado a dor, mas a gente quer mostrar mais, como o nosso samba fala, sangue de preto é mais forte que a travessia. Então, eles vêm ao mesmo tempo nessa saga de sacrifício, eles também vêm abençoados pelas entidades do mar, que conduzem para chegarem vivos e fazer iniciações. Então, essa é a travessia dessas realezas, da realeza de Ketu, da realeza de Oyó. A travessia é essa, realizada em decorrência desse declínio dos impérios, mas que foi realizada sob as proteções de Iemanjá, e com também ali as bênçãos e a proteção de Olokum. Então, elas chegam em Salvador, já com essas bênçãos de Iemanjá e Olokum”.

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Setor 3: “Já começa o primeiro culto, na Igreja da Barroquinha, mais precisamente nos fundos da igreja, onde a Iyá Nassô começa a difundir esse culto aos orixás, e é reconhecida pelos seus iguais, que também vieram dos mesmos lugares. E a gente faz essa alegoria três para mostrar um sincretismo, a gente mistura alguns elementos da religião católica com a iorubá. O que seria sagrado para os católicos é sagrado também para o povo iorubá que vem para cá. A gente mistura essas duas características africanas e europeias nesse cenário que a gente chama de Igreja da Barroquinha. As iás chegam a Salvador, aportam a Salvador, plantam o primeiro axé ali na região da Barroquinha e em um ceário de intenso preconceito e repressão religiosa, principalmente com as religiões de matriz africana, elas utilizavam as igrejas católicas como uma espécie de fachada. Elas se apropriam dessas irmandades para que elas consigam manifestar a sua fé nesse primeiro cenário inicial de extrema intolerância religiosa, nesse primeiro momento que elas chegam a Salvador na região da Barroquinha, já na condição de escravizadas”.

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Setor 4: “O próximo setor é um marco decisivo que é um divisor de águas. Quando eclode a Revolta dos Malês, a Iyá Nassô já estabelecida, já casada aqui, constituindo uma família, filhos. Pelo culto aos orixás, principalmente a Xangô, os filhos são confundidos com os revoltosos malês pela cor da sua vestimenta, por algumas características. Os malês também lutavam pela sua religião. E a Iyá Nassô tem um ato de inteligência, além de bravura, para livrar os filhos do castigo de uma prisão, possível até de morte. Ela escreve uma carta para o imperador pedindo que, oferecendo o banimento da sua família, em troca da liberdade, com a promessa de que retornem ao África, e nunca mais voltarem ao Brasil, mas é o que acontece.

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Setor 5: “Depois disso tudo, depois que a Iyá Nassô negocia com o governo baiano e retorna para a África, ela retorna para a África com Marcelina, uma de suas filhas, mas Marcelina depois de um tempo retorna para o Brasil para continuar o legado de Yá nasceu. Marcelina retorna para a Barroquinha, mas a Barroquinha está passando por um período de reestruturação, de uma pseudo modernização, mas na realidade não era, era mais um ato do governo para desapropriar aquela região da Barroquinha de manifestações afro-brasileiras. Então é nesse momento que Marcelina migra para o Engenho Velho e de fato levanta na estrutura do terreiro da Casa Branca onde ele está, onde ele se encontra até hoje. Então é esse momento do terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, localizado no Engenho Velho, com o terreno dedicado a Oxóssi, o Axé de Oxum e o trono dedicado a Xangô. E é ali que, com ela, que vem o que nós chamamos de Jogo de Búzios”.

Setor 6: “E, por fim, a gente fecha o nosso carnaval fazendo essa comparação do Egbé de Iyá Nassô com o Egbé da Unidos de Padre Miguel, em que a gente fala de comunidade. E a gente poderia dizer que o final tem a representatividade dos ancestrais, que respeitavam a sua ancestralidade. A gente traz a nossa ancestralidade da Unidos de Padre Miguel no último quadro, como se o Olorum, o Deus maior, estivesse abençoando e cuidando do boi, seja lá onde ele for”.

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https://www.youtube.com/watch?v=U3MULzm6YSw

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