Recém-chegada ao Grupo Especial, a Acadêmicos de Niterói decidiu não seguir o roteiro tradicional das escolas que chegam à elite do carnaval carioca. Em vez de apostar em um enredo “seguro”, a agremiação escolheu homenagear Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente da República, em um momento em que o país ainda vive os efeitos de uma forte polarização política.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A decisão colocou a escola no centro do debate desde o início da temporada. Internamente, porém, a escolha também dialoga com outra disputa: a que envolve o próprio lugar da agremiação no Grupo Especial. Para o carnavalesco Tiago Martins, a lógica de sobrevivência que costuma orientar as recém-promovidas precisava ser transformada.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Procurei fazer algo diferente porque todas as escolas que sobem estão sempre fazendo o certinho. E é aquele ditado: ‘Quem sobe, desce’. Isso me deu a oportunidade de criar e ousar, de fazer o melhor para a Acadêmicos de Niterói”, declarou o carnavalesco.

A ousadia aparece também na dimensão do projeto. Mesmo recém-promovida, a escola prepara um desfile de grande porte, com alegorias robustas e ambição visual de quem não pretende apenas permanecer.

“Perguntam: ‘Ah, é político?’. É, assim como Rita Lee é [um enredo] político, como Ney Matogrosso é político. Todos eles têm passagens por lugares difíceis e complicados. E o carnaval é político. Estamos aí para fazer essa grande homenagem para esse homem”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o carnavalesco diz que houve cuidado para que o desfile não fosse confundido com propaganda eleitoral. Segundo ele, a construção do enredo evitou qualquer referência que pudesse caracterizar campanha:

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“A gente não tem slogan, a gente não tem número, a gente não tem faixas, frases, nada que fale sobre eleição. Nos preocupamos muito para o desfile não virar uma campanha”.
O ponto de partida: a fome, o fantástico e o amor de mãe

Antes de chegar ao operário, ao sindicalista ou ao presidente, o enredo da Acadêmicos de Niterói começa na infância, em Garanhuns. É ali que o desfile se ancora para apresentar a experiência da fome pelo imaginário popular.

No primeiro setor entram as lendas da cabra cabriola, do bicho-papão e da cobra muçurana — histórias contadas às crianças quando alguém morria de fome ou não sobrevivia ao parto. O fantástico surge como recurso narrativo para tratar de uma realidade dura, criando uma abertura que mistura fantasia e escassez.

Ao falar sobre a pesquisa, Tiago Martins destacou outro elemento que o marcou profundamente: a relação entre Lula e a mãe, Dona Lindu.

“O que acho de mais interessante na pesquisa do enredo é o amor da mãe pelo filho e o amor do Lula pela mãe”, contou.
Entre os episódios que atravessaram o processo de pesquisa está a morte de Dona Lindu, em 1980, quando Lula estava preso durante a ditadura militar.

“E, quando a mãe morre, o Lula está preso. E ele é carregado pelo povo até o caixão da sua mãe para poder fazer o sepultamento”.

A partir desse conjunto — a infância marcada pela fome e o vínculo com a mãe — o desfile constrói sua base emocional antes de avançar para os capítulos da migração, da metalurgia e da projeção nacional do homenageado.

Um desfile que se transforma

Se o enredo começa no agreste pernambucano, a estética também acompanha essa travessia. Tiago Martins afirma que o desfile foi pensado como um percurso visual que muda ao longo da Avenida, acompanhando as fases da vida do homenageado.

“Esse é um desfile em homenagem ao Lula que vai se modificando. Começamos com o mundo fantástico da criança, depois continuamos em Garanhuns, no Sertão, na seca, o pau de arara trazendo a família para São Paulo. Chegando em São Paulo, abordamos a ditadura, a greve, a metalúrgica.

Em seguida, os projetos sociais que foram feitos quando ele se tornou presidente. E terminamos com os dias atuais, com tudo o que vem acontecendo e que estamos acompanhando pela TV, pela rádio, pela internet”, detalhou o artista.

A transformação não é apenas temática, mas também cromática. Segundo o carnavalesco, o desfile altera suas cores e atmosferas conforme avança, culminando em uma imagem final que recupera as cores da bandeira nacional.

“Do início até o final, as pessoas vão ver um desfile que muda esteticamente, muda de cor. Guardei as cores da bandeira do Brasil para encerrar o nosso desfile”, revelou.

No setor da metalúrgica, o projeto aposta em materiais que remetem ao metal e em uma representação ampliada do operário. Já no momento dedicado aos programas sociais, a alegoria central assume a forma de uma pirâmide social em transformação, sintetizando visualmente a ideia de mobilidade — e também de retrocesso — social.

Liberdade criativa

O desfile marca o retorno de Tiago Martins ao Grupo Especial. Em 2022, ele assinou pela São Clemente o enredo “Minha Vida é uma Peça”, em homenagem a Paulo Gustavo. A escola acabou rebaixada naquele ano, e o processo criativo, segundo ele, foi atravessado por interferências.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Eu tinha um enredo e, de um dia para o outro, o enredo era outro. Pensei se ficaria ou não, mas estava passando por necessidade, praticamente dois anos sem carnaval por causa da pandemia. Comecei a escrever uma sinopse, comecei a levar a história para um lado, quando recebi uma sinopse com áudio falando como eu deveria fazer o carnaval. Eles, ao mesmo tempo, deram e não deram a oportunidade para eu ser carnavalesco”, contou.

Depois da saída, Tiago foi convidado para assumir a Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2024. A parceria resultou no título da Série Ouro em 2025 e no acesso ao Grupo Especial.
“Perguntei ao presidente se poderíamos [eu e o enredista Igor Ricardo] desenvolver o enredo da nossa maneira, e ele disse que tínhamos liberdade total”.

Para o carnavalesco, o momento representa uma virada profissional:
“Eu precisava disso para me sentir importante como artista. Fui muito desvalorizado e a Niterói me abraçou de uma forma que muito me valoriza. Hoje estou no lugar certo, na hora certa, no momento certo, com o enredo certo para fazer história”.
Brasília e a expectativa da Avenida
A construção do enredo levou a equipe até Brasília para apresentar o samba ao presidente. O encontro foi marcado por emoção.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Quando acabamos de escutar o samba lá, ele começou a chorar e a contar, com a voz embargada, a história dele”, contou.
Segundo Tiago, Lula relembrou episódios ligados à fome e à pobreza:
“Quando ele vai inaugurar uma praça ou qualquer coisa e alguém fala para ele sobre a pobreza e a fome, ele diz que entende, porque também passou por isso. Ele entende a dor de não ter. E isso mexeu muito comigo”.
A presença do presidente na Sapucaí ainda é incerta. A escola reservou espaço no último carro alegórico, mas não há confirmação.
“Ah, meu coração vai pirar, a Sapucaí vai pirar! É o sonho da gente ter ele presente no nosso desfile para concretizar esse enredo”.
Caso não participe, a primeira-dama Janja ocupará o espaço ao lado de 45 convidados.

Conheça o desfile

A Acadêmicos de Niterói levará para a Avenida um desfile com 7 alegorias, 25 alas e cerca de 3 mil componentes.

1º Setor – A fome pelo imaginário popular
Abre-alas ambientado no agreste pernambucano, com lendas como cabra cabriola, bicho-papão e cobra muçurana. O carro terá três chassis e trará Lula criança sobre um pé de mulungu, simbolizando esperança.

2º Setor – Garanhuns
O sol, a seca, a fome e os retirantes partindo em pau de arara rumo a São Paulo.

3º Setor – O operário
Lula engraxate, ambulante e torneiro mecânico. Surge o sindicalista, as greves e a prisão na ditadura. Destaque para uma grande metalúrgica com escultura monumental do homenageado.

4º Setor – A pirâmide social
Representação dos programas sociais, mobilidade econômica e combate à fome. A alegoria central é uma pirâmide em transformação.

5º Setor – Brasil contemporâneo
Diálogo com os dias atuais e encerramento com as cores da bandeira nacional, reforçando que pertencem ao povo brasileiro.