A Nenê de Vila Matilde gabaritou os quesitos plásticos no Carnaval de 2025 e, para 2026, pretende manter o êxito.

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Foto: Divulgação

A escola, que está há alguns anos na briga para adentrar o Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, investirá em um enredo de fácil leitura, que relembra os gloriosos anos em que os matildenses desfilaram homenageando São Paulo. Com um enredo espiritualizado, lúdico e patrocinado, a Nenê promete trazer organização, confiança e ancestralidade para a Avenida.

Desfilará com o enredo “Encruzas – Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo”, assinado pelo carnavalesco Danilo Dantas, e será a quinta escola a passar pela passarela do Anhembi.

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Foto: Divulgação

Danilo abriu as portas do barracão e contou ao CARNAVALESCO o projeto que será desenvolvido na pista.

A chegada do tema

O carnavalesco contou como o tema chegou à escola e como foi desenvolvido até a conclusão final.

“O enredo começou com a sugestão do pessoal do Bar Brahma para o presidente e, com isso, ele pediu para tentarmos desenvolver vários caminhos. Tivemos umas cinco ou seis ideias até chegarmos aonde chegamos. Ficamos com três ideias e, juntando essas ideias, sobrou para mim fazer o resumo, transformar o que aconteceu em enredo.

Foram três ideias, três propostas de sinopse feitas, com desenvolvimento e com toda a criação. Uma era minha e, depois de juntadas as três, não chegamos a um consenso sobre qual seria o melhor caminho. Com isso, o presidente jogou na minha mão e disse: ‘Danilo, se vira, você tem que desenvolver uma linha lógica para esse enredo’.

Foi o caminho que seguimos. Desde o início o enredo era para falar algo ligado à rua, mas eu não queria ir para um caminho que muitas escolas já desenvolveram, seja no Rio, seja em São Paulo. Portanto, fomos para a ideia de falar de São Paulo através da vertente da Ipiranga com a São João, que é a esquina mais famosa do Brasil. Eu já tinha feito algo parecido em outros carnavais, em escolas de grupos inferiores, então dominava um pouco esse assunto. Foi fácil desenvolver e discorrer sobre a Ipiranga com a São João”, contou.

A dificuldade do desenvolvimento

Danilo contou sobre a dificuldade de entrelaçar todas as ideias até chegar a uma base sólida.

“A maior dificuldade foi tentar encaixar as três propostas. Tínhamos oito linhas de caminho para esse enredo. Dividimos em três e elas dialogavam de uma forma: uma iria para o lado religioso da rua em si, outra para o lado histórico e outra para o lado lúdico, que foi o que escolhemos — lúdico e poético.

Eu precisava trabalhar na área que tenho domínio, então procurei pegar um pouco de cada uma para desenvolver essa linha de raciocínio. Também precisava de algo que ligasse tudo isso à Nenê de Vila Matilde, porque seria muito sem sentido não falar da escola. O matildense precisa ter identificação com o enredo.

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Foto: Divulgação

No ano passado coloquei as duas águias voando numa história e, este ano, precisava de um link com a escola. Pesquisando, vimos que a Nenê tinha uma relação muito grande com a São João: foi tricampeã do carnaval da São João quando o desfile foi instituído oficialmente em São Paulo, em 1968, 1969 e 1970. Esse foi o fio condutor para mostrar a relação da Nenê com o centro da cidade”, disse.

A aceitação da comunidade

“No início acharam que o enredo era só sobre as religiões dos povos de rua e já gostaram disso. Outros torceram o nariz, achando que seria apenas isso, e teve quem dissesse: ‘Nossa, Ipiranga com São João é boêmio, é nostálgico’.

Quando entenderam que o enredo é sobre a esquina e que usamos uma pincelada de espiritualidade, compreenderam que não é um enredo religioso, mas uma homenagem à cidade de São Paulo — algo que a Nenê domina e já fez com sucesso. Colocamos também um toque de malemolência e africanidade no samba, encaixando isso na ideia de encruza”, explicou.

O enredo em setores

“Estaremos divididos em três setores.

O primeiro é histórico, mostrando a relação da Nenê — os ecos de um povo. A rua é tratada como uma alma encantada, com vida própria, gerando histórias. Mostramos construções históricas do centro, como o atual Santander, o Mercado Municipal e o Teatro Municipal, além do surgimento do Bar Brahma como polo da boemia.

O segundo setor fala da esquina musicada. Grandes artistas passaram por lá: Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Caetano Veloso. O bar virou ponto de encontro de toda a sociedade, inclusive estudantes na ditadura.

No terceiro setor voltamos à Nenê, mostrando o encontro da Ipiranga com São João com o Anhembi, especialmente pelo camarote do Bar Brahma. Encerramos com Exu abrindo e fechando os caminhos”, explicou.

O ponto alto do desfile

“O ponto alto é a mistura de espiritualidade com boemia. Isso mexeu com a escola. Nos ensaios, vimos gente de vermelho, com indumentárias religiosas. Incorporaram o enredo.

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Foto: Divulgação

Mostramos também a personificação do Seo Nenê nos malandros e boêmios, porque ele frequentava a São João. Esse início e final fortes mostram que a Nenê pode voltar a ser protagonista”, afirmou.

Desfile em cores

“A bateria vem de vermelho, assim como as passistas. Temos carro em preto e branco quando falamos de São Paulo. O abre-alas vem dourado, lembrando a era de ouro da cidade. É uma Nenê colorida, mas sem abandonar o azul e branco”, disse.

Materiais

“Usamos muito tecido brilhoso, glitterizado, lunita, estampados. O abre-alas é praticamente todo esculpido, com réplicas de cartões-postais. Vamos investir mais em iluminação e cenografia, com grupo cênico em todos os carros e um abre-alas com dois chassis”, contou.

Para comunidade

“Quero dizer que dá para acreditar. Pelas notas, fomos a escola que mais tirou 10, mas o descarte nos tirou o título. Temos condições de ganhar.

O samba foi criticado no pré-carnaval, mas hoje levanta a comunidade. É um trabalho pensado, milimétrico. Não é gigantismo — é acabamento, coesão e clareza”, finalizou.

Ficha técnica

3 carros alegóricos

14 alas

1.700 componentes

Diretor de barracão: Cristiano Paixão