De volta ao Pérola Negra, o carnavalesco André Machado aposta na força simbólica de Maria Bonita para conduzir o desfile da escola no Grupo de Acesso. A escolha do enredo nasceu de um encontro entre projeto pessoal e a identificação da presidente Sheila com a personagem, resultando em uma proposta que une pesquisa histórica, cultura nordestina e protagonismo feminino.

Dividido em três setores e três alegorias, o desfile percorre a trajetória da cangaceira desde o ingresso no cangaço até sua influência na cultura popular e na religiosidade. Com predominância de tons terrosos e uso de couro ecológico nas alegorias, a escola pretende aliar impacto visual à força do canto da comunidade na avenida.
Com o enredo “Valei-me, cangaceira arretada, Maria que abala a gira, valente e bonita que vence demanda”, assinado pelo carnavalesco André Machado, a Pérola será a sexta escola a passar pela Avenida no domingo de Carnaval.
Para o CARNAVALESCO, o artista abriu as portas do barracão e contou sobre todo o projeto para 2026.
A chegada do tema
“Assim que eu entrei na escola, por coincidência, eu tinha três enredos — e os três tinham mulheres como homenageadas. Eu contei para a presidente Sheila e, quando ela viu Maria Bonita, o olho dela começou a brilhar e ela deu um sorrisinho. Aí eu falei: ‘E aí, o que você acha?’. Ela respondeu: ‘Eu quero Maria Bonita’.
Como eu já tinha feito outros trabalhos envolvendo a cultura nordestina, gostei da decisão dela. Acho que é o momento ideal, porque a escola, no ano passado, foi campeã no Grupo de Acesso 2 com um enredo que contava a história de Exu mulher. Tem uma sequência bacana sobre isso.
Três anos atrás, fiz o enredo da Mancha Verde sobre o xaxado, então já tinha muito material de pesquisa, o que me facilitou bastante. E é um enredo que eu sempre tive vontade de fazer.
Uns dez anos atrás, em uma papelaria, me encantei com um livro que contava a história dela. Comprei pensando em, futuramente, desenvolver um enredo. Quando fui carnavalesco da Mancha e tive a oportunidade de conhecer a bisneta de Maria Bonita, mostrei o livro — e quem tinha escrito era uma tia dela, que inclusive autografou para mim.

A parte de pesquisa foi muito fácil nesse sentido. É um enredo muito bonito porque minha mãe é nordestina, meu pai é nordestino — essa cultura me encanta demais. E, graças a Deus, a Sheila escolheu esse enredo, porque facilita muito também a construção de um samba-enredo bacana”, contou.
Pesquisa do tema
“Eu já tinha um livro sobre Maria Bonita. Depois, quando fui para a Mancha fazer o xaxado, comprei outros e ganhei mais alguns. Juntei tudo isso para desenvolver o carnaval — me enriqueceu muito na pesquisa.
As pessoas, quando falam de Maria Bonita, pensam logo na figura do cangaço. É uma personagem controversa, porque tem um nome simbólico e vivia no meio de cangaceiros, um movimento que muita gente reprova por conta da violência.
É curioso ver uma mulher que largou a família — ela era casada, sofria no casamento, era espancada — e teve coragem de abandonar tudo para ir para o cangaço. Mesmo apaixonada, viveu no meio de homens. Isso mostra a força da mulher. Acho que a mulher nordestina tem muito de Maria Bonita, e isso tudo me fascinou para fazer esse enredo”, disse.
O desenvolvimento entre alas e alegorias
“A gente dividiu o enredo em três partes, três setores — e cada alegoria representa um setor.
Abrimos falando da Maria Bonita no cangaço, desde quando ela entra até sua morte. A comissão de frente mostra esse momento de transformação em cangaceira, o confronto com a polícia e a vivência no bando.
Logo depois vem a ala das baianas, representando a Rainha do Cangaço, quando ela se torna essa figura emblemática. Em seguida, temos o Bando de Lampião e Maria Bonita, e o nosso primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representa os dois.
O abre-alas fala da Maria do Cangaço. Nas pesquisas vi que os cangaceiros eram exímios na confecção das próprias roupas em couro. Como eu nunca tinha feito um carro com esse material, aproveitei — até porque dialoga com a paleta de tons terrosos da frente da escola.

Depois entramos na cultura: mostramos a caatinga, a dificuldade de viver naquele ambiente, até chegar à música. Temos uma ala sobre ‘Mulher Rendeira’, canção entoada pelos cangaceiros.
No segundo setor, mostro a influência de Maria Bonita na cultura nordestina — mulheres que lutam pelo sustento, que migram para a cidade grande inspiradas nessa coragem. Temos também Luiz Gonzaga, que cantou muito sobre ela, e uma encenação de festas juninas, onde muita gente quer ser Maria Bonita por um dia.
O meu xodó é o último carro: Maria Bonita na Umbanda, até se tornar entidade. O quanto ela é forte culturalmente a ponto de virar essa representação espiritual. Essa ideia foi da própria Sheila”, contou.
A recepção da comunidade
“Foi uma recepção muito boa, talvez por dois motivos. Primeiro pelo meu retorno ao Pérola. Graças a Deus fiquei aqui seis anos e fiz seis grandes carnavais.
E esse enredo é muito comentado desde que surgiu. Quando anunciei Maria Bonita, a aceitação foi imediata, porque ainda está viva na memória da comunidade”, disse.
Ponto alto do desfile
“Tenho alguns pontos-chave que acho que, visualmente, vão ser muito fortes, como a ala das baianas na frente da escola.
Mas o último carro é meu xodó. O piso não é só madeira — é todo trançado, um trabalho super artesanal. Acredito muito na força disso.
Apesar da parte plástica, acho que um grande foco do desfile vai ser o povo cantando”, destacou.
As cores e os materiais
“Uma cor que eu nunca tinha utilizado em carros alegóricos é o marrom. E outro material é o couro ecológico. Quando fiz a ala das baianas com esse material, percebi como funcionava bem.
Isso também dialoga com a história, porque os cangaceiros produziam suas próprias roupas. Então o material não está ali à toa”, explicou.
Aos telespectadores
“Vai ser um carnaval mágico. Quem estiver em casa ou na avenida vai se identificar muito com o enredo. O nosso samba — não é porque é nosso, não — mas acho que é um dos melhores do Grupo de Acesso.
Podem esperar uma escola com muita garra, com muita vontade de chegar ao Grupo Especial”, finalizou.
Ficha técnica
Alegorias: 3
Alas: 12
Componentes: 980
Diretor de barracão: Tonico










