Terceira colocada no Grupo de Acesso I logo na primeira vez em que a agremiação disputou tal pelotão na história, a Dom Bosco de Itaquera chega para o desfile em 2025 mais próxima do que nunca de chegar ao Especial. Para realizar o sonho da agremiação ligada à obra social católica de mesmo nome, Fábio Gouveia, carnavalesco estreante na agremiação, produziu o enredo “O Circo Místico das Ilusões”, que será o último a desfilar no domingo de carnaval (02 de março), já na manhã de segunda-feira. Para conhecer um pouco mais sobre o tal circo místico e, também, saber mais detalhes sobre o enredo apresentado pela agremiação itaquerense, o CARNAVALESCO foi entrevistar o profissional responsável pela produção do enredo para saber de tudo que envolve a azul e branca da Zona Leste.
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Circo?
Estreante na agremiação, Fábio Gouveia já falou ao CARNAVALESCO sobre como surgiu a ideia de falar do circo em 2025 na final do samba-enredo da agremiação, ainda em junho de 2024. A ideia foi complementada por ele próprio: “Quando eu vim para cá, eu não tinha uma ideia formada de qual enredo seria. E eles têm um projeto aqui que é visitar todas as ações da obra Dom Bosco. Eu fui convidado a ir em uma dessas ações, e ali eu comecei a formar a ideia do que poderia ser o enredo. Eu tinha algumas coisas na cabeça, mas nada formado. A partir do conhecimento da obra e identificar algumas situações com relação ao Dom Bosco propriamente dito, eu entendi que poderia ser o circo”. iniciou.
Vale destacar que uma das áreas sociais da Dom Bosco é, justamente, o Circo Social – localizado próximo da estação Corinthians-Itaquera do Metrô. A própria final de samba-enredo foi realizada no espaço.
O carnavalesco continuou: “Mas eu não queria que fosse apenas o circo da forma como todo mundo fazia, porque é muito clichê. Todo mundo já fez o circo e todo mundo vai ver as mesmas formas. Tem algo a mais na nossa história: Dom Bosco é o patrono do circo. Ele é o patrono dos mágicos e dos ilusionistas. Eu quis trazer essa atmosfera desse saltimbanco (ele é chamado de ‘saltimbanco de Deus’) para dentro dessa história. A narrativa parte daí. Surge esse circo místico a partir da narrativa que Dom Bosco vai contar essa história. Ele vai unir a história da união das famílias em torno da festividade, da musicalidade – como o povo cigano, que acabava se tornando os próprios artistas daquele lugar. Daí surgem as caravanas, os circos em movimento e os teatros mambembes”, contou.
A integração circense com a Dom Bosco foi citada logo na sequência: “Nós vamos viajar por esse caminho. E vamos de encontro com Dom Bosco sendo o grande narrador dessa história, de encontro com a própria história da escola de samba de 25 anos. O Padre Rosalvino, quando ele começa a escola, ele começa exatamente com o mesmo intuito de Dom Bosco com a música, com a arte e com a escola de samba. A partir disso, ele começou a unir as pessoas em torno da sua obra em torno de tudo aquilo que ele queria construir em Itaquera. Aí, surge a escola de samba. Era um jeito de reunir aquelas crianças, aquela molecada, na batucada. Aa gente une a história do santo, a própria história do Padre Rosalvino, cria-se essa alusão à história que a gente quer contar, de caravanas, de famílias, de pessoas que se uniam para fazer arte e atrair essas pessoas em torno da fé e do amor desse coração solar. É um enredo inteiro em primeira pessoa”, comentou.
Imagens valem mais que mil palavras
Ao ser perguntado sobre o que encontrou de mais interessante nas pesquisas para desenvolver o enredo, Fábio foi bastante específico: “O mais curioso de todo o desfile é uma fotografia que existe quando você entra na Obra Social da Dom Bosco. É ele se equilibrando na corda bamba da vida, tem uma corda e ele está brincando com essa corda. Ele usava esse artifício pra atrair as pessoas, trazer as pessoas para dentro de si. Vi a imagem e pensei que lá estava o enredo. Essa imagem vai e volta na minha cabeça e encerra o nosso desfile”, revelou.
Sempre presente em tudo que envolve não apenas a escola, mas, também, a obra social como um todo, o presidente da agremiação novamente foi citado pelo carnavalesco: “Eu já sabia o enredo porque eu já tinha feito essas visitas. Depois, em uma segunda visita, eu identifiquei aquele quadro, achei que era uma obra de arte que só existia naquele lugar, e eu fui perguntar para as pessoas o que era aquilo. Ouvi que era o Dom Bosco, o nosso saltimbanco. É a partir dessa imagem que surgiu toda a história dele. Eu pensei que aquilo tinha que estar no carnaval. Tudo foi se juntando: tivemos umas visitas do padre Rosalvino no barracão e ele começou a contar como ele iniciou a escola. Esse carnaval em si foi sendo construído de um projeto planejado, mas que teve acréscimos de algumas informações que ele mesmo foi me dando. A ideia do caminhão é outro desses acréscimos: quando ele começou a obra, tinha um caminhão que transportava as pessoas e o material da marcenaria. Isso está no desfile, porque faz parte da caravana o buscar e trazer pessoas, trazer essas pessoas para o entorno da obra”, comentou.
Nem um, nem outro
Cada vez mais carnavalescos em São Paulo falam que não seguem uma setorização pré-definida, preferindo montagens de desfile mais fluidos. Fabio optou por um terceiro caminho: “Eu tenho trazido uma proposta bem diferente de tudo isso que você falou. Tudo tem ligação. É impossível eu começar o desfile sem ter ligação com o final do desfile. Tudo aqui está ligado. Por mais que seja um enredo não-linear, a proposta que a gente está trazendo é de que as pessoas vejam algo na comissão de frente e elas consigam repetir o olhar dela para outra coisa que acontece em outro instante da apresentação. Eu sou artista, então eu tenho que mexer com o seu imaginário, não posso cansar a sua vista. Eu tenho que brincar com o lúdico, e é essa a proposta do enredo. Eu vou na contramão de tudo isso. Se vai dar certo, aí é outra história”, intrigou.
Trunfo
Sempre direto, Fábio foi perguntado sobre qual era o grande ponto positivo da agremiação para 2025: “A escola é muito jovem, ela tem um espírito muito jovem. Não estou falando na questão de idade, tenho falado muito isso para as pessoas sobre o espírito da agremiação. Ela tem um espírito muito jovem, é uma escola muito alegre, e o enredo propõe uma alegria ainda maior do que a gente está planejando. Eu falo muito para as pessoas aqui que o trunfo maior da escola é ser a escola. Ela alcançou o êxito que ela alcançou graças ao chão dela, graças à comunidade dela. Eu só vim para cá para dar uma pincelada na plástica, dar um outro visual para a escola, que é algo que eles queriam. Eu venho pra entregar isso. Meu trabalho se resume a dar beleza, um pouco mais de carinho com essa questão plástica”, disse.
Início de relação
Ao ser perguntado sobre o andamento dos trabalhos no barracão da Dom Bosco, Fábio foi extremamente sincero: “A escola passou por um processo muito rápido de crescimento – e isso acaba gerando uma cobrança ainda maior sobre a escola e, também, sobre o profissional que vem aqui. A escola vem de um terceiro lugar no Grupo de Acesso I, a cobrança se torna muito maior e eu tentei, de todas as maneiras, colocar isso na cabeça deles. O processo de adaptação, tanto do Fábio para a escola, quanto da escola para o Fábio, foi muito complicado, foi bem difícil. Eu às vezes estou lá na frente e a escola está aqui; ou, às vezes, a escola está lá e eu estou aqui. A gente patinou muito, e eu sou muito verdadeiro nesse ponto, mas a gente conseguiu se equilibrar, conseguiu se entender, e estamos caminhando para a finalização desse projeto. Foi um processo que a escola não tinha equipes formadas de barracão, a escola não tinha o costume de ter equipes fixas, então ela contratava grupos que vinham realizar o seu projeto em horários determinados, mas não tinha uma função. Hoje, nós temos um barracão reestruturado e eu criei um grupo de trabalho real, diário, com horário certinho, para que esse projeto acontecesse”, destacou.
O profissional prosseguiu: “A escola passou por esse processo e não é fácil. A escola não tinha esse costume, então ela teve também que aprender nesse sentido. A escola não tinha um ateliê – tinha um prédio, mas não funcionava. Tinha uma outra forma de produzir fantasias, e nós passamos a produzir dentro da escola. A escola tinha um anseio de aprender, os diretores me cobraram muito o fazer, o início, a modelagem, a costura, a primeira peça, o arame. A escola tinha necessidade desse aprendizado. Eles me pediram para que eu seguisse esse caminho. Tudo que é novo, tudo que exige uma grande mudança, gera dores, confusões e brigas. E a gente teve muito disso, falamos abertamente a respeito. Mas a escola, para entender o tamanho do projeto que ela quer entregar, tem um anseio, tem um sonho, e ela sabe que, para isso ela precisava se adaptar a muita coisa. Eu também tive que me adaptar, porque eu venho de um outro processo de carnaval, com uma outra leitura carnavalesca, com uma outra ideia”, disse.
Ele próprio, entretanto, destacou o bem que a instituição o fez e o quanto os diálogos são francos entre as duas partes: “O Fábio não se resumia só àquele tipo de projeto. O Fábio é outro tipo de projeto, também. A gente se adaptou, foi fazendo, e estamos entregando. O Fábio é isso, gente. Não adianta: é isso. E eu falo isso com eles. A gente tem uma conversa muito aberta. Eu e a Dom Bosco, a gente tem uma conversa muito aberta. Foi um processo de um ano de aprendizado para a escola e um ano de aprendizado para o Fábio. Agora, a gente espera alcançar um bom resultado”, comentou.
Indagado sobre o quão feliz estava com o primeiro ano dele na Dom Bosco, o carnavalesco, como é de praxe, foi bastante sincero: “Eu chego com 80% de satisfação. Eu acho que só o resultado completa isso. A gente está trabalhando para alcançar um resultado bacana para a escola, a gente vem de um estar em um grupo que a posição se tornou ingrata para a escola, porque ela precisa trabalhar mais. Mas a gente está em um grupo que já era difícil e se tornou mais difícil ainda – com escolas que são monstruosas. A Dom Bosco tem que ser correta, eu falo muito isso com o meu diretor de harmonia, o Ricardo Fervorini. A escola é jovem, você tem o chão na mão, a gente está conseguindo resolver a plástica em todos os campos. Nós vamos simplesmente passar com essa caravana, é esse movimento que a gente tem que ter. Quem quiser brigar pelo título, brigue lá em cima. Nós só vamos passar”, finalizou.
Ficha técnica
Enredo: “O Circo Místico das Ilusões”
Componentes: 1200
Alas: 14
Número de carros: 03
Número de tripés: 01 (comissão de frente)
Diretor de ateliê: Ninho Zago
Diretor de barracão: Dimas Antunes