A fusão entre Brasil e Países Baixos (outrora chamado de Holanda) está muito em alta no Carnaval de São Paulo. Prova viva disso é o Águia de Ouro: em 2026, a escola levará para o Anhembi o desfile “Mokun Amsterdã, o vôo da águia pela cidade libertária”, que trará o abraço da capital neerlandesa à festa de Momo. Segunda escola a desfilar no sábado, última noite do Grupo Especial paulistano, o experiente carnavalesco Alexandre Louzada estreia na agremiação da Pompeia, Zona Oeste da capital paulista. Querendo saber mais sobre tudo que acontecerá no Sambódromo vindo do Águia de Ouro, o CARNAVALESCO foi até o barracão da escola e conversou com Louzada e com Jacqueline Meira, diretora de Carnaval da agremiação.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Antes da definição

Ao contrário de outras coirmãs, o Águia de Ouro, em momento algum, escondeu que havia um patrocínio envolvido com a definição pelo enredo – no caso, a cervejaria que patrocina o Carnaval de São Paulo há alguns anos. Jacque Meira explicou: “O presidente tinha três possibilidades – e uma delas era Amsterdam. E, aí, começaram as tratativas, também. A Amstel já tinha a intenção, o presidente buscou e trouxe a possibilidade de fazer esse enredo. Já levou o projeto meio que pronto, discutido, já alinhado. Eles toparam e deu samba”, relembrou.

Louzada complementou e destacou que estava pronto para qualquer uma das escolhas: “Antes, eu preciso esclarecer que essas três ideias foram para o papel, também. Nós três (no começo do trabalho eram só nós três) tínhamos a cabeça fervilhando com essas possibilidades. Mas, transformar o tema em enredo, para mim, foi levar para um lado emocional, com a essência básica do Carnaval. No Carnaval, você é aquilo que você sonhou, você pode realizar os seus anseios através da fantasia do Carnaval”, destacou.

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Falando especificamente sobre o tema do enredo azul e branco, o carnavalesco complementou afirmando que o início e o final do desfile trarão as semelhanças entre Brasil e Países Baixos (e, mais especificamente, São Paulo e Amsterdam) como mote: “Nós pegamos esse monte de similaridades, de nós sermos súditos de um rei (que é o reino do Carnaval, regido por Momo), e a gente vai aprender o que é liberdade com o reino, de fato, dos Países Baixos. Amsterdam é a capital, é a cidade que respira liberdade e inspira a humanidade a respeitar as individualidades, a diversidade, a não ter preconceito, a ser inclusiva, A águia já tem asas para voar, é um pássaro que sugere a liberdade. É o encontro de dois reinos que vivem a liberdade – um de fato e o outro de fantasia”, afirmou.

Pesquisas e desafios

Ao falar sobre tudo que foi consultado para a produção do desfile, Louzada fez questão de elogiar, além de Jacqueline, a figura de Sidnei Carrioulo Antonio, presidente da agremiação desde 1982: “O Águia tem um terceiro olho, que é o nosso presidente. Ele e a Jacque cuidaram mais da parte do patrocínio – primeiro veio o enredo, depois o patrocínio, para a gente poder estar dentro do que o Carnaval precisa mostrar, como carnavalização de um tema. E, também, para atender a expectativa de quem está nos ajudando. A pesquisa não foi feita só por mim. Cada um de nós tinha alguma coisa para dizer, para contribuir. Eu tenho uma irmã que mora em Amsterdam, ouvi ela também em relação à questão de jeito de viver. Enredos CEP, na minha carreira, eu só tive Amapá, na Beija-Flor. Eu nunca vi estrangeiros, como os holandeses, participarem tanto de um projeto de Carnaval quanto como eles. Isso me fez ter uma satisfação maior, uma tranquilidade maior para construir. Eu ouvi aqui que eles iam me dar uma aula de como falar determinadas palavras, porque o holandês é difícil. Imagina falar holandês!”, comentou, aproveitando para relembrar uma apresentação campeã assinada, entre outros nomes, por ele.

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Desfile em si

Quando perguntado sobre a setorização do Águia de Ouro, Louzada aproveitou para falar de maneira extensa: “Nós utilizamos o número máximo de alegorias com a possibilidade do desmembramento que existe aqui no regulamento. A gente, no início do desfile, no primeiro setor, atravessa o portal. É esse início, esse voo, que utilizamos para conhecer esse reino da liberdade, o reino da liberdade. No segundo setor, a gente mostra principalmente nomes, personalidades que ajudaram a construir a história holandesa – e, com exceção da Anne Frank e do Mondrian, todos os outros fizeram parte do Século de Ouro dos Países Baixos, com as Grandes Navegações, a observação de estrelas e etc. Mas, principalmente, no segundo setor, a gente fala de grandes ícones da pintura, como Van Gogh e Rembrandt; como o pensador Baruch Espinosa; Joost van den Vondel, que foi o primeiro e mais famoso escritor e dramaturgo – que, hoje, é nome de um espaço onde acontecem os festivais. Primeiro, a gente tem essa fantasia do lúdico, da água, do céu que encontra as gerações, para chegar e contar realmente o que é importante a gente aprender com Amsterdã. Partindo daí, continua com essas contribuições, a gente adentra a questão primordial da liberdade. Nesse setor, a gente mostra a liberdade de imprensa, a liberdade, a diversidade de gênero, o respeito e o entendimento do pertencimento ao corpo das mulheres, o uso da cannabis sem libertinagem em determinados lugares – porque, para tudo, existe uma regra. Além deles terem a liberdade, eles também respeitam as limitações, as leis. Esse é o grande segredo. E, por último, tem uma confraternização. Acima de tudo, Amsterdam talvez seja a cidade que mais festeja, que mais eventos tenha na Europa. A gente mostra um pouquinho desses eventos, da chegada de Sinterklaas (que é o Papai Noel, ou São Nicolau), os festivais de queijo – algo com que os holandeses se identificam tanto quanto a cerveja. A música eletrônica, que tem um grande festival que acontece lá – o Amsterdam Dance Event (ADE). E a gente termina com esse abraço desses dois reinos. Nós levamos a nossa alegria, representada por uma ala, que tanto homenageia os dois reis como a folia do carnaval. É uma ala que é formada ao contrário do que normalmente formaria. Esse é o resumo”, explicou.

Desafios encontrados

Quando perguntado sobre os principais obstáculos para produzir o desfile, Louzada elencou dois, um de cada vez, entretanto. O primeiro deles versava sobre dois pontos polêmicos: “Esses pontos sobre a cannabis e a De Wallen [também conhecida como “Red Zone District” ou “Bairro da Luz Vermelha”, em que a prostituição é legalizada] talvez tenham sido o maior desafio. O Águia se preocupou, em como tratar de um assunto sério com a seriedade que merece, sem fazer apologia a nada. Como, nesse capítulo do nosso enredo, a gente trata da liberdade sem libertinagem, da qual ela faz parte, tinha que ter. A identidade com o enredo é o grande forte do Águia de Ouro”, prometeu.

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Outro contratempo, bastante específico e bem menos polêmico, também foi relembrado pelo carnavalesco: “A coisa mais difícil foi fazer uma fantasia para Mondrian. Foi a fantasia que demorou mais para a montagem. Foi uma coisa que teve que ser estudada. O presidente falou uma coisa muito certa: tudo que o samba fala, a gente vai mostrar, mas nem tudo que a gente vai mostrar está no samba. É um universo muito grande. Eu não tive grandes dificuldades, porque teve muita reunião. O samba-enredo do Águia de Ouro de 2026 foi construído graças à união que fizeram, demorou talvez mais tempo caso fosse uma composição. Foi, talvez, a parte que mais exigiu de todos nós. Eu era sempre consultado para alguma coisa. Posso até dizer que o samba que ganhou foi apontado logo no primeiro dia da audição aqui. Eu não inventei uma história e vai para a avenida. Tudo tem que ser fundamentado”, comentou, citando a canção da agremiação.

Ícones presentes

De acordo com Louzada, diversas referências serão vistas na apresentação: “Tudo é carnavalizado, mas o mais importante é a gente mostrar esses ícones, essas inspirações de liberdade. Mas, antes de tudo isso acontecer, a gente faz um voo – e esse voo se transforma em um mergulho, porque a gente atravessa do nosso reino para o deles nas asas da liberdade. Só que a Holanda é um país construído sob a água, com canais e etc – logo, a gente precisa mergulhar. Ao mergulhar, você adentra a história – e esse mergulho é lúdico, é de fantasia. Quando eu falei que as pessoas vão identificar Van Gogh aqui, vão identificar Rembrandt ali, bicicleta, cannabis, a De Wallen, a primeira união homoafetiva oficializada com direitos, isso tudo vai estar. Até mesmo essa fantasia do rei Guilherme Alexandre estar abraçando o nosso rei Momo, um sentado no queijo e outro num barril de cerveja, tudo em Amsterdam vira Carnaval no final”, afirmou.

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Espírito favorável

De acordo com Jacque, toda a comunidade está em polvorosa com a preparação para o desfile: “A escola foi abaixo com o samba e com o enredo, com certeza. Na realidade, com os momentos que esse enredo está proporcionando para a comunidade. A escola está muito feliz, está muito engajada, está muito leve e muito tranquila. Isso, de certa forma, nos conforta bastante nas escolhas que foram feitas aqui”, relembrou.

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Ao ser perguntada sobre o ponto alto da exibição da agremiação em 2026, a diretora de Carnaval destaca que existe algo que difere o desfile sobre Amsterdam de outras apresentações da azul e branca: “Todo ano tem uma ala que você não gosta, uma fantasia que não te agrada tanto… às vezes, até o próprio samba. Mas, nesse ano, não tem nada que eu possa falar que eu não gostei. O desfile como um todo, o chão do Águia de Ouro, vai ser o nosso ponto forte. A escola Águia de Ouro é indescritível. Eu estou confiando muito nos meus componentes, muito no canto da escola, e isso vai fazer muita diferença no nosso desfile”, comentou.

Louzada concordou, embora, com outro ponto de vista: “Eu espero que seja tudo que a gente faz, a gente precisa enviar essa mensagem. Eu acredito que é o nosso samba. Quando o Serginho do Porto dá um grito lá em cima, que você vê a reação, foi uma surpresa para mim. Eu vi essa energia! É o contexto geral, mas a força dos componentes, a dedicação e a satisfação que eles estão tendo vai se refletir através do samba. Quando eu falo que eu acredito no samba é porque eu já fui campeão aqui – e a gente precisa, para ser campeão, dessa catarse. Tem grandes chances do Águia construir essa catarse através de um samba que devolve a alegria do carnaval”, comemorou.

Diferenciais

A reportagem perguntou para os dois integrantes do Águia que foram ouvidos na entrevista quais materiais e cores seriam vistos com mais frequência no desfile. Louzada foi enfático: “Luz. Foi uma coisa que o presidente me falou que ele iria usar bastante, tem bastante efeito de luz. Em relação à produção de Carnaval, aqui é uma escola diferente. O presidente e a diretora têm um assistente que é autorizado e todos eles sabem a fonte de cada coisa”, maravilhou-se.

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Jacque aproveitou para explicar a declaração do carnavalesco: “Uma coisa que o Águia tem de diferente é essa participação muito ativa do presidente em tudo. A iluminação desse ano, por exemplo, assim como no ano passado, nós não terceirizamos: nós estamos fazendo aqui, também. O presidente foi a campo, comprou o material e a gente está fazendo de acordo com o que ele idealizou. Espelhos? A gente tem espelho na escola inteira. Nós temos uma máquina que corta espelho. A gente compra a placa e a gente produz aqui na espessura e no corte que a gente quiser. A escola vem aí, graças a Deus, bem rica no espelho. A gente também tem uma CNC [Controle Numérico Computadorizado, método automatizado para controlar máquinas-ferramentas] que faz os detalhes, faz os apliques das coisas. A gente tem a máquina de ráfia, também. Isso tudo facilita muito. A gente vem sem miséria. Se a gente tiver que desenvolver um búzio, como a gente fez no carnaval de 2022, a gente desenvolve o búzio aqui. Ninguém sabia que era búzio de resina. Isso é um diferencial que a gente tem aqui. Tudo é muito caseiro, tudo muito com a nossa cara. Nós temos tintas desenvolvidas só para o Águia de Ouro. Vocês vão acompanhar, por exemplo, o carro azul que foi desenvolvido com uma tinta exclusiva para o Águia de Ouro. O dourado que o Águia de Ouro usa já é patenteado, inclusive, em um parceiro nosso de tinta. A gente busca fazer o mais original possível, mas com aquele toque nosso, mesmo”, comentou.

Recados

Os dois também aproveitaram para deixar mensagens para quem acompanhar o desfile na arquibancada do Anhembi ou na televisão. Louzada começou: “Eu vou citar uma frase do nosso presidente, na primeira reunião que eu participei com a escola: que todos que venham desfilar no Águia de Ouro sejam pedreiros. A gente precisa de pedreiros, não de arquitetos e engenheiros”, afirmou.

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Jacque foi mais ampla: “O recado que a gente deixa é que todo munda curta, seja feliz, seja liberto de muitas coisas que ainda nos prendem muito aqui no Carnaval de São Paulo – mas com muita responsabilidade, com muito cuidado. Que a gente celebre o nosso Carnaval, temos que agradecer por todas as oportunidades que tivemos esse ano – porque cada Carnaval e cada enredo são um aprendizado, é uma história nova a ser contada. Eu espero muito que o público celebre junto com a gente, que curta e que fique muito louco nesse carnaval, mas com muito juízo, com muita responsabilidade, que é o que a gente está pregando aí”, finalizou.

Ficha técnica
Alegorias: Cinco – e dois quadripés
Componentes: 2500
Alas: 20
Diretor de barracão: Raimundo Nonato (Bitoca)
Diretor de alegoria: Rodrigo Mineiro