A poucos dias do carnaval, o Salgueiro abre as portas para o CARNAVALESCO e mostra o esplendor de iluminação cênica, brilho e movimentos que levará para a avenida em homenagem à mestra Rosa Magalhães. A escola saudará o legado da professora com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira e pelos enredistas Leonardo Antan, Alan Barbosa e Ricardo Hessez.

“Memória” é a palavra-chave para o que será posto na avenida — a começar pela decisão de homenagear a carnavalesca, que faleceu em 2024, motivada pela recordação afetiva do presidente André Vaz, que foi presidente de ala nos anos em que Rosa trabalhou na escola. Filha da Revolução Salgueirense difundida por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, e responsável por carnavais de glória da escola nos anos 1990, o desfile é uma forma de trazer Rosa “de volta para casa”.
“Nós tínhamos algumas possibilidades de enredo, a gente estava trabalhando em cinco outras propostas. E quando eu digo trabalho, é pesquisar mesmo, desenhar. A gente estava realmente desenvolvendo outras ideias. E aí, quando aconteceu o sorteio e o Salgueiro foi consagrado como a última escola a desfilar, era o argumento necessário para conversar com o presidente e entender a importância de usar esse momento para fazer essa grande homenagem. E ele, de pronto, aceitou e entendeu. Ele tinha grandes memórias da época em que era presidente de ala no Salgueiro, quando Rosa era carnavalesca, e tinha uma memória afetiva da relação com ela. Entendeu de imediato a relevância e a importância de o Salgueiro falar desse tema, especialmente porque Rosa nasce artisticamente no Salgueiro. Ela construiu uma carreira linda em diversas escolas, contribuiu com o legado de várias agremiações. O principal período dela é na Imperatriz Leopoldinense, com vários títulos, mas ela é filha da Revolução Salgueirense, do Arlindo e do Pamplona. E depois volta a ser carnavalesca do Salgueiro em 1990 e 1991. Quando ele entendeu esse vínculo, esse elo, imediatamente se criou o sentimento de que era como se ela voltasse para casa. Poder voltar para o local onde começou a trajetória e como seria bonito construir essa última imagem do Carnaval prestando essa homenagem. Foi dessa maneira que a gente entendeu que Rosa era o nosso caminho e acho que foi a decisão mais acertada que tivemos”, contou o carnavalesco.
Representar a carnavalesca nesse desfile, além do saudosismo para sambistas e salgueirenses, é também reverenciar a memória pública. A professora doou seu acervo de desenhos para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que disponibilizou ao público cerca de 5 mil desenhos de autoria da carnavalesca. Esses documentos foram base da pesquisa desenvolvida por Jorge e seu time de criação, servindo de referência visual para as obras de Rosa. O carnavalesco destaca a importância da valorização dessa memória.
“É fundamental que a gente eternize essa memória. Ela faz parte de um momento do Carnaval de construção de imaginário. Ela nos ajudou, literalmente, como diz a letra do samba, a amar a festa. Acho fundamental que a gente se debruce sobre essa memória, que não deixe isso cair no esquecimento, porque não existe Carnaval no Rio de Janeiro sem pensar o legado de Rosa — nem para o passado, nem para o presente, nem para o futuro. Hoje temos uma geração inteira de profissionais diretamente influenciados pela estética dela, pela sua lógica de construção e de contar histórias. Em última análise, penso que, como estamos falando de memória, o carnavalesco tem por função contar histórias. Fazer fantasias e carros alegóricos é obrigação; saber contar histórias é a narrativa principal do carnavalesco. E Rosa foi a maior contadora de histórias da história. Num universo extremamente machista, dominado por homens, ela ensinou todo mundo como se contam verdadeiras histórias. E ganhou de todos eles”, destacou.
Na pesquisa do acervo iconográfico de Rosa, um fato curioso. Todo o material disponibilizado pela UERJ foi baixado pelo enredista Leonardo Antan e, por uma lacuna nos arquivos, eles tiveram acesso a uma preciosidade que deu um tom ainda mais emocional à homenagem.
“Nós tivemos o carinho de ter contato com cada um desses desenhos para poder mergulhar no universo criativo dela com as referências que criou. E aí, curiosamente, na pesquisa, os anos que faltavam — que não tinham documentos visuais — eram exatamente 1990 e 1991, os dois anos em que Rosa foi carnavalesca do Salgueiro. Eu não tinha desenho nenhum que me ajudasse a contar esse pedaço. Faltavam essas figurinhas no meu álbum. No começo do ano, fizemos uma celebração para Rosa na quadra, um tributo a ela. E, nesse dia, as pessoas que cuidam do patrimônio dela encontraram, na casa dela, as pastas que guardavam os desenhos desses dois anos. Esses desenhos chegaram para nós no dia do tributo. Foi muito emocionante, porque pudemos ter contato com as aquarelas originais da Rosa, não só com os arquivos digitais da UERJ, mas com os desenhos físicos. E eram justamente os que faltavam para completar o arquivo visual da pesquisa. Muitas coisas têm acontecido e acho que isso nos marca de maneira muito afetiva”, contou.

Da vasta gama de signos visuais do universo criativo de Rosa Magalhães, o mais lembrado é o luxo. Em sua passagem pelo Salgueiro, em 1990 e 1991, o refinamento característico da carnavalesca levou a escola a outro patamar, com um terceiro lugar e um vice-campeonato. Para 2026, Jorge garante que o requinte da professora estará presente na avenida, com materiais e técnicas reconhecíveis ao público.
“A ideia do luxo e do requinte permeia o desfile todo — fantasias e alegorias. Eu recriei algumas texturas que a Rosa levava para a avenida. Estou utilizando materiais clássicos que ela usava no áureo tempo dela. Até um bordado chamado ‘bordado de Barra Mansa’, feito à mão, estou utilizando nas fantasias. O público vai identificar muito claramente as texturas, o grafismo, a estampa de onça, os desenhos medievais, as simbologias — tudo que ela impregnava no traço estará presente como forma de textura”, compartilhou.
Relembrar Rosa também é lembrar que ela era a única carnavalesca que se misturava aos brincantes e desfilava fantasiada em sua própria criação, de forma discreta, em algum carro alegórico. Jorge garante que essa marca estará presente — mas em segredo.
“Vai sim, mas vou deixar em segredo para surpreender o pessoal. A Rosa vai estar presente com a gente. Ela está no dia a dia conosco, pode ter certeza disso. E no desfile estará muito bem representada”, disse.
Como homenagem aos carnavalescos em atividade na Sapucaí — “alunos” de Rosa —, há um lugar especial reservado no último carro, em um momento que promete emocionar ao encerrar o Carnaval 2026. O convite também foi feito à carnavalesca do Arranco do Engenho de Dentro, do Grupo Ouro, Annik Salmon.
É impossível falar de Rosa sem falar da representação feminina no Carnaval. Com poucas mulheres no cenário, a folia sofreu perdas impactantes com o falecimento de Rosa, seguido pelos de Márcia Lage e Maria Augusta em curto espaço de tempo. Hoje, Annik Salmon é a única mulher carnavalesca na Marquês de Sapucaí. Para Jorge, ela é fundamental para a homenagem e para que as escolas atentem aos talentos femininos.
“Ela acabou se tornando a última. Infelizmente, porque precisamos que haja muitas mais. Espero que esse olhar sobre a Rosa seja importante para as escolas quebrarem preconceitos, abrirem possibilidades para novas profissionais e para que outras meninas se encorajem com a história dessa grande mulher e encarem o barracão como seu lugar de criação, de direito. O olhar feminino é sagrado, especial e agrega muito ao Carnaval”, afirmou.

Jorge Silveira garante que, em um ano de enredos de homenagem, o trunfo de exaltar Rosa Magalhães é a emoção e o pertencimento dos amantes do Carnaval, já que sua memória e trabalho perpassam a identidade contemporânea da festa.
“O desfile se propõe a buscar a emoção. Quando falamos de memória, falamos de algo que nos pertence. É um ano de grandes homenagens, vários personagens sendo exaltados. Talvez o que nos diferencie é que estamos falando de um símbolo universal. Todos nós que amamos o samba e sentamos na arquibancada fomos educados pela obra dessa senhora. E quem não tem conexão com ela, simplesmente não tem conexão com o Carnaval”, declarou.
Entenda o desfile
Levando para a avenida a “delirante jornada carnavalesca” de Rosa Magalhães, o Salgueiro desfilará com cinco carros alegóricos, dois tripés e 3.300 componentes.
O desfile se debruça sobre o universo criativo da carnavalesca, partindo da “biblioteca de Rosa”, já que seu ponto inicial de criação era “devorar” livros sobre os temas abordados. Jorge Silveira e Leonardo Antan reforçam que não é um desfile biográfico, mas um olhar afetivo e de memória sobre sua jornada, reverenciando signos visuais e referências estéticas sob o traço de Jorge.
O Salgueiro levará à avenida maior imponência e interatividade. Os carros terão iluminação cênica, efeitos especiais — como fumaça saindo de dragões —, camas elásticas ocupadas por acrobatas do Circo do Marcos Frota e movimentações inspiradas em Parintins, feitas por equipe do boi Caprichoso.
O abre-alas terá 70 metros de comprimento, ocupando integralmente o Setor 1 da Sapucaí.
Entre os símbolos reconhecíveis estarão querubins, ornamentos rococós, misturas de estilos, personagens de carnavais assinados por Rosa, realezas — com referências às escolas em que trabalhou (Vila Isabel, Imperatriz e Império Serrano) —, o universo lúdico infantil, deslocamentos e a natureza brasileira.
Setores
Setor 1
“Salgueiro abre seu desfile entrando na biblioteca da Rosa, convidando o público a reencontrar a memória afetiva dos seus carnavais. Cada pedaço do enredo é um fragmento dessa grande biblioteca.”
Setor 2
“O segundo módulo é o setor das cortes, onde apresentamos Rosa dedicada ao universo da realeza e da nobreza que tantas vezes representou.”
Setor 3
“É o universo literário, com enfoque especial na literatura infantil, que ela muito bem representou.”
Setor 4
“Temos uma Rosa viajante, mostrando como viajamos pelo mundo sem sair do lugar com seus enredos.”
Setor 5
“Rosa nos ensinando a amar o Brasil por meio da natureza.”
Setor 6
“Rosa nos ensinando a amar os movimentos estéticos que pensaram a brasilidade.”
Setor 7
“Encerramos convidando Rosa a retornar ao Acadêmicos do Salgueiro, numa grande festa em vermelho e branco, sendo recebida de volta à academia do samba onde nasceu artisticamente para o mundo.”










