Falar de Moacyr da Silva Pinto, o mestre Ciça, é lidar com a responsabilidade de transformar em enredo alguém que está vivo, presente e em plena atividade. Para o carnavalesco Tarcísio Zanon, a homenagem que a Viradouro levará à Sapucaí em 2026 nasce de um desejo: falar “de um dos nossos” com paixão e ousadia.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Com participação direta do homenageado em todas as etapas do processo, o enredo se constrói como uma metalinguagem do próprio carnaval, transformando ritmo em fantasia, memória em alegoria e a trajetória de um grande personagem do carnaval carioca em afirmação coletiva de escola de samba.
“É bem desafiador porque, quando a gente fala de um dos nossos, precisamos nos dedicar ainda mais. Falar do Ciça em pleno exercício da função é motivar toda uma geração de sambistas. Estamos vendo o Ciça feliz, motivado, vivo mais do que nunca e em um momento genial da carreira dele”, declarou Tarcísio Zanon.
Ciça além da bateria
A decisão de homenagear Ciça no Carnaval 2026 partiu da diretoria da Viradouro e foi recebida com entusiasmo pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. A proposta ganhou contornos ainda mais simbólicos por reunir, em um mesmo desfile, três marcos históricos: os 55 anos de trajetória de Ciça no samba, seus 70 anos de vida e os 80 anos da própria escola.
Para Tarcísio, tratar de um personagem importante da história do samba, ainda em plena atividade, impôs desde o início um desafio.
“Foi muito difícil recortar o enredo”, afirmou o carnavalesco, ao comentar o volume de histórias, funções e invenções acumuladas por Ciça ao longo de mais de cinco décadas de atuação no carnaval. A longevidade do mestre de bateria, somada à sua presença ativa no cotidiano da escola, exigiu um processo de pesquisa cuidadoso, capaz de transformar uma trajetória extensa em desfile.

Ao longo desse trabalho, surgiram aspectos pouco conhecidos do público, que ajudaram a ampliar a compreensão sobre a formação de Ciça para além da bateria. Um deles foi a descoberta de que o mestre já havia atuado como mestre-sala de um bloco no início de sua trajetória.
“Se você sentar para conversar com o Ciça, descobre muita coisa inusitada”, disse Tarcísio, que revelou que Ciça chegou a demonstrar alguns riscados quando questionado sobre o passado bailarino. “Ele mostrou que tem um ‘molho’ para o negócio”, resumiu.
Do menino ritmista ao mestre de bateria
A partir das descobertas da pesquisa, o enredo da Viradouro se organiza como uma narrativa que acompanha Ciça desde a infância até a consolidação como mestre de bateria. Segundo o carnavalesco, a proposta vai além de uma narrativa biográfica e busca apresentar um personagem formado integralmente dentro da escola de samba.
“Ciça é uma escola de samba inteira em si”, afirmou.
“O Ciça foi formado e forjado em escola de samba. Toda a estética, todo o carnaval do Ciça é escola de samba em todos os seus segmentos, em todos os seus fundamentos, porque ele carrega tudo isso com ele.”
A proposta é mostrar Ciça para além da função de mestre de bateria, conectando ritmo, dança e experimentação artística em uma mesma trajetória.
“É um enredo de metalinguagem”, explicou Tarcísio, ao indicar que a história do homenageado se confunde com a própria história da escola de samba. No visual, o ritmo, elemento fundamental da atuação de Ciça, deixa de ser apenas musical e passa a ser traduzido em fantasias e alegorias, influenciando a estética do desfile.
A ousadia, marca recorrente da trajetória do mestre, também aparece como princípio criativo do projeto. Tarcísio prometeu reviver momentos marcantes da carreira do mestre de bateria, como o desfile “A Viradouro Vira o Jogo” (2007), no qual Ciça sobe com os ritmistas da bateria Furacão Vermelho e Branco em uma alegoria.
“Toda vez que vamos fazer um ‘revival’, precisamos trazer um tempero a mais. E o tempero a mais é o que se espera do Ciça”, declarou o artista, relembrando a frase do homenageado: “Eu não vou para a Avenida para fazer feijão com arroz”.
O Leão da Estácio coroado na Viradouro
Símbolo da Estácio, escola de coração de Ciça, o Leão ocupa lugar carinhoso na construção visual do enredo da Viradouro para 2026. Ao comentar o tema, Tarcísio Zanon chegou a brincar com a expectativa em torno do símbolo.
“Nem sei se vai ter leão”, disse, em tom de brincadeira, antes de detalhar o cuidado envolvido na criação da imagem.
Segundo ele, o Leão foi objeto de um estudo detalhado, que levou em conta tanto a trajetória de Ciça quanto sua própria relação com as duas escolas, ambas vermelha e branca. O carnavalesco já atuou na Estácio antes de assumir a Viradouro, fator que, segundo ele, reforça o cuidado no tratamento visual do símbolo estaciano.
“Podem esperar o melhor leão da minha vida para homenagear o Ciça”, prometeu.
Fantasias: leveza e conforto para os componentes
Para o Carnaval 2026, a Viradouro aposta em fantasias mais leves, com atenção especial à ergonomia e ao conforto do componente. Segundo Tarcísio Zanon, a decisão dialoga diretamente com o enredo e com a trajetória de Ciça, marcada pela valorização dos ritmistas.
O projeto de figurinos retoma referências de carnavais das décadas de 1970 e 1980 — períodos vividos intensamente pelo mestre — conhecidos por indumentárias menos pesadas e maior liberdade corporal. A releitura, no entanto, incorpora materiais contemporâneos e soluções técnicas atuais.
“Queremos reviver esses carnavais utilizando tecnologia como o tecido dry fit, tecido de atleta que troca calor, para possibilitar maior conforto para a temperatura corporal do componente. Estamos fazendo tudo para trazer esse conforto, até porque esse enredo pede muito a espontaneidade do componente. É um enredo vivo, um enredo folião, um enredo leve”, revelou ao CARNAVALESCO.
A expectativa é que o conjunto contribua para uma leitura mais fluida da escola na Avenida, sem comprometer o impacto visual.
Estética do metal
A presença do metal como eixo da estética da Viradouro em 2026 não é apenas uma escolha visual, mas parte da narrativa construída em torno da trajetória de mestre Ciça.

“O que tem permeado muito a estética desse desfile é o metal, porque a bateria é feita de metal”, explicou Tarcísio. Para além dos instrumentos, ele lembrou que o material também remete à história pessoal do homenageado fora do samba.
“O primeiro ofício do Ciça foi trabalhando com solda, com mecânica. Então o metal vai estar presente em todos os setores da escola.”
A proposta dialoga com uma linguagem assumidamente carnavalesca, que o artista define como “pamplonesca”, sem abrir mão do rigor técnico.
Entre os setores está o chamado “Bonde do Caveira”, que traduz, em linguagem alegórica, a forma como Ciça exerce sua liderança à frente da bateria.
“A gente não pode falar do Ciça sem a jocosidade. Ele é um cara leve, divertido, mas, ao mesmo tempo, de muita responsabilidade. É o primeiro a chegar e o último a sair.”
Permanência e vínculo com a escola
À frente do carnaval da Viradouro desde 2020, Tarcísio Zanon afirma o desejo de seguir na escola, embora ressalte que qualquer definição depende do resultado do desfile.
“Querer estar na Viradouro, sempre. É claro que a gente só sabe quando termina o carnaval. Depende de muitas coisas, de resultado.”
O envolvimento com o enredo de 2026 reforça esse sentimento:

“Amo estar aqui, amo essa equipe, amo essa escola, amo essa comunidade, amo essa presidência. Amo estar fazendo Ciça. Tudo aqui é só amor esse ano”, finalizou.
Conheça o desfile
A Viradouro levará para a Marquês de Sapucaí, no Carnaval 2026, um desfile estruturado em seis alegorias, dois tripés e o elemento alegórico da Comissão de Frente. Ao todo, a escola contará com 23 alas e um contingente estimado entre 2.500 e 2.700 componentes.
O enredo acompanha a trajetória de Moacyr da Silva Pinto, o mestre Ciça, desde a formação no samba até o legado construído como mestre de bateria. Em vez de setores, o carnavalesco chama os segmentos de cabines.
1ª Cabine
Apresenta o berço do samba e a origem do menino ritmista, destacando o contato inicial com o ritmo, sobretudo pela dança. O desfile aborda a passagem de Ciça como passista e mestre-sala, evidenciando sua relação com o corpo e a cena.
2ª Cabine
Ciça surge como percussionista na bateria do São Carlos, período em que ganha destaque. O setor retrata sua formação rítmica, o apelido de “Rei dos Naipes” e momentos como o campeonato de 1992 com “Pauliceia Desvairada”, da Estácio.
3ª Cabine
Marca a fase das grandes ousadias, com passagens por diferentes escolas e inovações coreográficas: tambores erguidos, bateria ajoelhada em “Sete Pecados Capitais” (Viradouro 2001) e ritmistas sobre alegorias em “A Viradouro Vira o Jogo” (2007), até os títulos de 2020 e 2024.
4ª Cabine
Apresenta o Bonde do Caveira, simbolizando sua liderança e a formação de novos mestres de bateria.
5ª Cabine
Encerra o percurso com grande celebração: os 70 anos de Ciça, 55 de samba e 80 da Viradouro, além do futuro da escola, com participação de jovens da mirim Virando Esperança.










