Entre ferragens, esculturas em formação e o som constante do trabalho manual, o barracão da Unidos da Ponte pulsa no mesmo ritmo que embala o enredo da escola para o Carnaval 2026. Com o tema “Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black!”, a agremiação de São João de Meriti transforma o espaço de criação em um verdadeiro território de memória, identidade e afirmação cultural, onde o funk é tratado como herança, linguagem política e elo comunitário.

Durante a visita ao barracão, foi possível acompanhar de perto o trabalho intenso de profissionais que dão forma ao desfile: soldadores, escultores, pintores e aderecistas dividem o espaço com projetos de carros alegóricos que dialogam diretamente com o universo dos bailes black e do funk carioca. Cada detalhe carrega a intenção de transformar a avenida em um grande baile popular, sem abrir mão da leitura estética e simbólica exigida pelo carnaval.
O carnavalesco Nicolas Gonçalves explicou que a escolha do enredo nasceu justamente dessa escuta atenta à comunidade e à história que a escola gosta de contar.
“Eu sempre busco um enredo que dialogue com a comunidade, com o que a escola gosta de falar e contar. E a Ponte já tem tradições de trazer enredos nessa pegada. Quando encontrei um folheto que era utilizado como convite para os bailes black e vi que eles aconteciam em quadras, e que um desses encontros foi na quadra da Unidos da Ponte, falei: ‘Poxa, é isso, tem que ser esse enredo’. Apresentei para a presidência da escola, eles adoraram, e muita gente se identificou. A partir disso, foi muito legal ver o enredo ganhando corpo”, explicou o carnavalesco.

A pesquisa revelou conexões profundas entre diferentes manifestações culturais negras do Rio de Janeiro, ampliando o entendimento do baile como espaço de sociabilidade, lazer e também de organização política.
“Quando a gente percebe que o baile vem desde as ancestralidades, desde os primeiros no Rio de Janeiro, do maxixe, do lundu, e chega até os bailes funk, entendemos que o enredo tinha tudo a ver com o que a Ponte gosta de contar e com o que a gente faz no Carnaval”, afirmou.

Nos barracões, os carros alegóricos seguem essa mesma lógica. Todas as alegorias dialogam com o funk, sempre costurando passado, presente e ancestralidade. Nicolas detalhou que o desfile não segue uma narrativa histórica linear, mas uma construção simbólica que mistura tempos e linguagens,
“A gente divide o desfile em três momentos: inicia com o anoitecer, depois vem a madrugada e finaliza com o amanhecer. Ao mesmo tempo, não crio uma linha narrativa histórica, porque o desfile quer mostrar que essas narrativas sempre foram as mesmas e sempre se cruzam. Todas têm um quê de ancestralidade”.

Segundo ele, até elementos contemporâneos do funk são pensados a partir de referências africanas,
“Quando estamos debaixo de uma tenda de funk, faço até uma comparação com o egungum, que são essas almas que dançam no território africano. Por exemplo, a nossa ala do paredão periférico faz referência aos totens africanos, estruturas verticalizadas responsáveis por guardar e trazer a energia da comunidade e é exatamente o que o paredão de som faz”, explicou.

O cuidado estético também passa pela escolha das fantasias. Nicolas revelou que o desfile aposta em leveza e conforto, sem abrir mão do impacto visual:
“É sempre nosso desafio como carnavalesco criar fantasias com volume, para ter um visual interessante da escola, mas também prezar pela leveza e pelo conforto dos componentes. Acho que é um visual que pode surpreender. A Ponte vai conseguir trazer uma estética nova, misturando elementos considerados afro no Carnaval com elementos contemporâneos do funk e todos os signos que esses bailes trazem”.

O samba-enredo, segundo o carnavalesco, foi peça fundamental para dar vida à proposta:
“Eu adoro esse processo: quando criamos a sinopse, começamos a desenvolver fantasias e alegorias e, depois, vem o samba. Fiquei muito feliz porque é um samba fácil, gostoso, ‘chiclete’. Quando você percebe, já está dançando e cantando. E esse é o propósito do desfile como um todo: mostrar que, dançando e cantando, a gente cria consciência política e discursos fortes. Quando você está cantando pelos seus, também está se fortalecendo politicamente”, destacou.

Ao falar do grande trunfo do desfile, Nicolas foi direto ao ponto: “Conseguir unir a comunidade dos bailes black e do funk com a comunidade do samba. Historicamente, essas comunidades foram colocadas uma contra a outra, e ainda existe muito preconceito. Mostrar que somos comunidades fortes, que não é porque estamos fazendo festa, rebolando, que não estamos nos fortalecendo. É uma grande representatividade dessa união das comunidades negras e periféricas do Rio”.
A Unidos da Ponte levará para a avenida três alegorias e cerca de 1.800 componentes, em um desfile que nasce no barracão, mas carrega o peso simbólico de décadas de resistência cultural. Para Nicolas, o momento pessoal também reflete esse amadurecimento artístico:
“Depois do Carnaval de 2024, precisei ir para São Paulo, respirar, me acalmar. Quando recebi o convite da Ponte, senti que era a hora de voltar. Hoje tenho uma escola que me dá condições, apoio e tranquilidade para criar. Estou amadurecido como artista e amadurecendo a arte. A Ponte vem com um time forte, é uma escola que se reestruturou toda e está sendo um prazer gigante somar com esse time”, concluiu.
No barracão da Unidos da Ponte, o que se constrói vai além de carros e fantasias. É um desfile que nasce da escuta da comunidade, da memória dos bailes e da certeza de que o Carnaval também é território político. Em 2026, ao som do tamborzão, a Ponte promete transformar a Sapucaí em baile, manifesto e celebração coletiva.










