A Unidos de Padre Miguel é uma escola que se destaca por colocar mulheres em posições de liderança e protagonismo. Foi pensando na importância de tê-las nesses espaços que surgiu o enredo de 2026: “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”, criado pelo carnavalesco Lucas Milato. O desfile contará a história de Clara Camarão, indígena potiguara que teve papel fundamental no embate contra as invasões holandesas no Recife e se tornou símbolo da resistência feminina e da força das mulheres indígenas.

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Milato vai para o seu terceiro ano na Unidos de Padre Miguel e pretende apresentar um desfile grandioso na Avenida, no dia 13 de fevereiro. Durante a visita do Site Carnavalesco ao barracão, o carnavalesco comentou sobre as expectativas:

“A gente sempre visa entregar o melhor e analisar o que fizemos no ano anterior, até para entender quais foram os erros e o que podemos melhorar. Estamos trabalhando para entregar algo melhor do que no ano passado, porque esse é o objetivo e é o que a nossa comunidade merece. Isso faz parte do nosso timing de entender o Carnaval, de entender os nossos desfiles, para evoluir de forma sequencial. Se tudo der certo, pretendemos apresentar novamente algo grandioso, bem feito e correto, para levar o melhor à nossa comunidade.”

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Foto: CARNAVALESCO

Lucas afirmou que, desde o início das pesquisas, a escola desejava abordar o protagonismo feminino como tema para 2026. A partir disso, surgiu a ideia de celebrar a vida de Clara Camarão, que se conecta diretamente com essa proposta.

“A Unidos de Padre Miguel é uma escola que tem pilares femininos. Temos a Lara como presidente, outros pilares femininos que sustentam a escola e segmentos importantíssimos liderados por mulheres. […] Falar dessa importância, dessa necessidade de colocar as mulheres em locais de protagonismo e dar a elas o devido destaque — algo que infelizmente ainda não acontece como deveria — é fundamental. Falar da Clara Camarão é, consequentemente, falar um pouco da Unidos de Padre Miguel e dessa nossa luta diária por valorizar as mulheres e a presença delas em posições de destaque. Esse foi o fator determinante para optarmos por esse enredo, porque é um tema urgente. Precisamos falar cada vez mais sobre isso e levar essa reflexão para o maior espetáculo da Terra, que também é espaço de manifesto, crítica e reflexão.”

Durante a pesquisa, Milato se deparou com um impasse que gerou questionamentos importantes: a escassez de registros históricos sobre Clara Camarão após a morte de seu marido. Esse apagamento levou à reflexão de que sua relevância parece ter sido reconhecida apenas enquanto havia uma figura masculina ao seu lado — uma realidade atemporal, considerando que a luta das mulheres por direitos ainda é constante.

“O que mais revoltou foi perceber que os registros sobre Clara Camarão são curtíssimos. Existem poucos documentos oficiais e, após a morte de Filipe Camarão, é como se a Clara também tivesse morrido, porque os registros simplesmente desaparecem. Isso nos fez refletir: será que ela só tinha importância enquanto estava atrelada a uma figura masculina? Uma mulher tão crucial para a história do país, que liderou um exército feminino em pleno século XVII. Isso foi extremamente revolucionário. Uma mulher comandar um exército naquela época era algo inimaginável. Essa reflexão nos moveu a trazê-la para o desfile.”

A Unidos de Padre Miguel tem uma relação muito forte com sua comunidade, formada por torcedores fiéis que acompanham a escola nos momentos de alegria e dificuldade. Para Lucas, esse é o maior trunfo da agremiação.

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Foto: CARNAVALESCO

“Quando falamos da Unidos de Padre Miguel, a comunidade é sempre um dos nossos principais trunfos. Ela nunca nos abandona. Está presente nas vitórias e nas tristezas. A plástica do desfile também será muito interessante, dentro do padrão da escola, com um caráter imponente e um discurso forte de crítica e manifesto, muito alinhado ao tema que está sendo contado.”

Sobre a participação da comunidade na produção do desfile, Lucas destacou a importância de ouvir os componentes:

“É fundamental escutar a nossa comunidade, refletir sobre o Carnaval que passou, entender os erros, minimizar esses erros e buscar sempre fazer um desfile o mais correto possível, dentro das nossas limitações e dos desejos dos componentes.”

A escolha do samba-enredo passa por um processo criterioso. Milato ressaltou a importância dessa etapa:

“O samba é crucial, porque é ele que conduz o desfile. É uma missão desafiadora para os compositores, que precisam entender exatamente o que queremos passar. Além da sinopse, realizamos diversos encontros para alinhar a mensagem. O samba, por meio da música e do ritmo, ajuda a contar o desfile. É uma fase fundamental do Carnaval.”

Segundo o carnavalesco, os sambas apresentados conseguiram traduzir bem a proposta do enredo.

“É por isso que existe a disputa. Recebemos os sambas e analisamos qual deles vai conduzir melhor o desfile, dentro dos nossos objetivos e da história que vamos contar na Sapucaí.”

Entenda o desfile

Para celebrar a vida de Clara Camarão na Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel contará com uma comissão de frente, três alegorias e vinte e duas alas. Devido à escassez de registros históricos sobre a homenageada, a escola optou por unir os fatos conhecidos de sua trajetória à história da Jurema Sagrada, árvore de grande importância espiritual para os indígenas potiguaras.

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Foto: CARNAVALESCO

Setor 1

“Iniciamos o desfile falando da relação da Cunhã-eté com os indígenas potiguaras. Passamos pelo momento crucial da consagração da Cunhã-eté, quando a mãe-d’água, por meio das águas sagradas, a consagra como guerreira. Esse setor aborda essa conexão e marca esse momento de consagração.”

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Setor 2

“No segundo setor, ela conhece Filipe Camarão, se casa e é catequizada durante o processo de inserção dos espanhóis nas aldeias indígenas. É nesse momento que ela recebe o nome de Clara Camarão. Apesar disso, ela não abandona suas origens. É também quando passa a atuar nas batalhas, ao lado de outras mulheres, contribuindo de forma decisiva para a vitória do exército luso-brasileiro contra os holandeses. Encerramos o setor com a morte de Filipe e iniciamos a reflexão sobre o apagamento histórico da Clara.”

Setor 3

“No terceiro setor, mais lúdico, mostramos Clara se tornando uma encantada, adentrando a floresta encantada para perpetuar sua mensagem e inspirar outras mulheres. Passeamos pelo universo místico dos encantados nordestinos, com muitas figuras folclóricas, cores e uma mensagem muito forte contra o apagamento histórico, especialmente das mulheres e dos povos originários”, concluiu Lucas.