A Unidos do Jacarezinho leva para a Avenida um enredo que nasce do chão da comunidade e se constrói a partir da trajetória de um artista profundamente identificado com o universo do samba. O homenageado é Xande de Pilares, figura que, segundo o carnavalesco Bruno Oliveira, carrega uma história extensa e rica, marcada por vivências em diferentes territórios e por uma relação direta com o povo.

jacarezinho final26 8

Durante a pesquisa do enredo, o que mais chamou atenção da equipe foi a quantidade de lugares por onde Xande passou. “A gente se acostumou a dizer que o Xande é um jovem muito velho, pois já passou por muita coisa na sua trajetória em tão pouco tempo”, explica o carnavalesco. As passagens pelo Turano, Andaraí, São Gonçalo, Pilares, Jacarezinho, entre outros locais, ajudam a dimensionar uma caminhada intensa, marcada por experiências diversas e transformadoras.

Identificação como trunfo

Para o carnavalesco, o grande trunfo do desfile está na identificação imediata do homenageado com o público. “É impossível encontrar, em meio aos sambistas, alguém que nunca tenha ouvido uma música do Xande. É dificílimo encontrar quem não goste das músicas dele. Temos praticamente uma unanimidade naquele que é o nosso público-alvo”, afirma. A aposta é que essa conexão direta com a comunidade e com o universo do samba seja determinante na recepção do desfile. A escola desfilará com três alegorias e cerca de 1.200 componentes.

Enredo nasce do chão da escola

A ideia de homenagear Xande surgiu a partir de um pedido da própria escola. A proposta era desenvolver um enredo ligado ao chão da comunidade, que dialogasse diretamente com os moradores do Jacarezinho e com a identidade local.

“A vontade surge por intermédio de um pedido por parte da escola para que pudéssemos fazer um enredo relacionado ao chão da escola, da comunidade. Um enredo com o qual as pessoas da comunidade, não só da escola, mas do próprio Jacarezinho, pudessem se identificar”, destaca.

Além da relevância artística de Xande, pesou o fato de ele ter passado pela comunidade e manter laços pessoais com muitos moradores. “São inúmeras as pessoas que o conhecem pessoalmente. Acreditamos que essa ligação do Xande com a comunidade era muito forte e propiciava essa identificação que era desejada”, completa.

Papel fundamental do samba

Na construção narrativa, o samba-enredo exerce função central. Para o carnavalesco, a música é capaz de traduzir aspectos que o visual, sozinho, não alcança.

“O samba é capaz de musicar o enredo de uma maneira muito própria. Existem dinâmicas importantíssimas na vida do Xande que são difíceis de transpor para o visual, mas que podem ser contadas por intermédio da música, como a arte de versar”, explica. Segundo ele, o samba preenche lacunas que o visual não dá conta, enquanto a parte plástica também esclarece aspectos que o musical, por si só, não alcança. A complementaridade entre som e imagem é, portanto, essencial para contar a história.

Desafios no barracão

A construção do projeto, no entanto, não foi simples. O carnavalesco define a jornada como “muito difícil”, destacando as condições estruturais que já se tornaram praticamente inerentes à Série Ouro, além das consequências dos incêndios que atingiram barracões.

“Acaba se tornando uma tarefa meio ingrata construir o projeto que foi idealizado em meio a isso tudo”, afirma. Ainda assim, ele acredita que o próprio processo de superação se transforma em ponto focal e fortalece a concepção do desfile.

Conversas que moldaram a setorização

O desenvolvimento do enredo contou com participação ativa do homenageado. Foram horas de conversas com Xande, ouvindo relatos, memórias e episódios marcantes de sua trajetória.

“Ouvimos sua história de cabo a rabo, tudo o que ele se lembrava, e também colhemos informações com pessoas próximas. Foi a partir de tudo isso que construímos o enredo. A setorização saiu praticamente pronta quando saímos da primeira conversa com o Xande”, revela.

A escuta atenta foi determinante para estruturar a narrativa histórica que será apresentada na Avenida.

Conheça o desfile da escola

1º SETOR – O Ar que se respira agora inspira novos tempos

O desfile se inicia apresentando os caminhos percorridos por Xande ao longo de sua trajetória. Mais do que enumerar lugares, o setor revela os ambientes e influências que moldaram sua formação cultural. São os territórios, as vivências e os encontros que despertaram o encantamento pela cultura popular e, principalmente, pelo samba. Aqui estão os elementos que ajustaram sua trajetória e o conduziram ao caminho escolhido.

2º SETOR – Pintou de Rosa e Branco a Inspiração

Neste momento, o foco recai sobre a construção de Xande como compositor dentro das escolas de samba. A escola de samba é interpretada como uma grande universidade da vida, onde os concursos de samba-enredo funcionam como espaço de aprendizado e amadurecimento. O setor propõe uma viagem pelos sambas vencidos por Xande ao longo da carreira, revisitando as vitórias e os lugares onde elas aconteceram, simbolizando sua consolidação no universo do samba.

3º SETOR – Coroado na Favela

O desfecho do desfile exalta não apenas Xande, mas a própria cultura do samba. Em um universo onde a criação é, majoritariamente, coletiva, o setor valoriza as parcerias, as amizades e as composições compartilhadas. O homenageado é elevado ao ápice da cultura popular: a consagração por meio de uma homenagem realizada por uma escola de samba, coroando sua trajetória na comunhão da favela e do samba.