Os Gaviões da Fiel têm uma chance de ouro de alcançar a tão sonhada quinta estrela no pavilhão alvinegro. É o segundo ano consecutivo em que a escola aposta em um tema de forte cunho cultural e, desta vez, conta com apoio externo e com uma comunidade ainda mais engajada. O samba vem sendo aclamado pelos sambistas paulistanos, e o clima interno é bastante positivo. Em 2025, a agremiação conquistou o terceiro lugar, sua melhor colocação no Carnaval desde 2003, quando foi campeã. Agora, após encontrar a receita do sucesso, a Fiel Torcida se anima e tem como objetivo a conquista desse título tão sonhado. O investimento em alegorias e fantasias é significativo. O CARNAVALESCO pôde conferir isso de perto, já que os responsáveis pelo enredo, Júlio Poloni e Rayner Pereira, receberam a equipe no barracão e apresentaram todo o projeto que a escola levará para a avenida.
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A “Torcida que Samba” será a quarta escola a desfilar no sábado de Carnaval, com o enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”.
Surgimento do tema e estudos intensos
Rayner Pereira contou que o tema surgiu a partir do diretor André Mogi e, depois disso, foi sendo adaptado para a escrita da sinopse e da ideia visual. “A ideia do enredo surgiu a partir do nosso diretor André Mogi. Ele queria que a gente fizesse um modelo de comissão, como vocês vão ver na avenida, algo que ainda não dá para detalhar. A partir dessa proposta inicial, ele liberou o restante da criação para a gente. Então começamos a pesquisar, sempre com a vontade de trazer algo com significado para o enredo. Já existia no plano a temática indígena, que acabou se juntando à ideia inicial. A partir disso, fomos montando o conceito principal e definindo um fio condutor, assim como no ano passado. Queríamos algo mais funcional para a apresentação. O trabalho foi nascendo aos poucos. Temos um método que considero interessante: imaginamos a montagem da escola mesmo antes de atribuir significados e já deixamos tudo organizado para depois buscar o que melhor se encaixa em cada setor. Em seguida, vem a pesquisa bibliográfica, com livros e histórias que encontramos, e assim, pedaço por pedaço, o enredo foi se formando para o dia do desfile”, explicou.

Júlio disse que a dupla estudou muito. Citou livros de suma importância para a vida indígena, além de ter ido ao Festival de Parintins e conversado com pesquisadores. Tudo isso culminou na pesquisa do enredo. “No primeiro momento, a gente leu muito e procurou livros. Um deles foi fundamental: o de Davi Kopenawa, A Queda do Céu. A obra traz a visão indígena sobre a questão Yanomami, algo que quem vive na cidade dificilmente conseguiria compreender com profundidade. O livro oferece um entendimento muito forte da história desses povos e das mazelas causadas diretamente pela influência dos poderes brancos das capitais. Esse foi o primeiro passo. No segundo momento, conversamos com pessoas que nos ajudaram bastante. Falamos com pesquisadores, com a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e também com integrantes do ministério. Tivemos contato com pesquisadores ligados ao Festival de Parintins, que colaboram na construção das lendas e dos espetáculos. Em outro momento, fomos ao próprio Festival de Parintins para vivenciar tudo de perto. Depois disso, para construir as referências visuais, fizemos muita pesquisa. Encontramos uma mostra fotográfica de Claudia Andujar sobre os povos Yanomami, feita com flashes e lamparinas, criando uma atmosfera onírica. Essa estética inspirou diretamente a abertura do nosso desfile. Outra referência importante foi o livro de Ailton Krenak, Ideias para Adiar o Fim do Mundo, que influenciou o último setor, onde representamos lideranças como animais e pensamentos. A visão indígena de que o ecossistema é uma extensão do próprio corpo está muito presente ali. Já no setor das lendas, todas elas foram tratadas em algum momento por um dos bois no Festival de Parintins”, contou.
Fascinação pelo enredo
O carnavalesco Rayner Pereira é oriundo de Parintins. Por isso, cresceu em meio a lendas indígenas e às lutas dos povos originários. Fazer um enredo dessa magnitude fascina o profissional. “A oportunidade de falar sobre um assunto que eu cresci ouvindo foi muito especial. Sempre digo que nunca foi prioridade fazer um enredo indígena antes de ter uma postura mais madura como carnavalesco. Acredito que a oportunidade veio na hora certa e tudo se encaixou para virar um grande projeto, um dos melhores em que já trabalhei desde quando fui assistente de carnavalesco. As cores, os formatos e as referências são coisas que fazem parte da minha formação, algo que cresci vendo e ouvindo. Poder mostrar isso é muito satisfatório”, disse.
Confiança da diretoria
Júlio relatou que a troca com a direção e o time de harmonia é constante, principalmente para realizar a montagem da escola na avenida. “A gente tem muita liberdade de trabalho. Tudo é construído em troca e diálogo com a diretoria e com a direção de harmonia. A montagem da escola impacta diretamente o enredo, então tudo é pensado de forma estratégica. Não existe uma ala ou um detalhe que não tenha sido planejado. A abertura da escola cresceu muito, e isso foi uma escolha estratégica. Mantivemos um grande volume de fantasias, e o posicionamento da bateria também muda neste ano por estratégia. A parte artística e a parte técnica caminham juntas o tempo todo”, afirmou.

Dentro da parte financeira, Rayner celebrou a sinergia da diretoria com os carnavalescos. De acordo com o artista, eles sonham juntos. “Eles compartilham a visão de enredo, mas sempre nos deixam muito à vontade para criar e justificar nossas ideias. Claro que, às vezes, surgem ajustes, principalmente relacionados a materiais e efeitos, mas existe muita vontade da diretoria de sonhar junto com a gente. É bonito ver esse envolvimento, especialmente vindo de pessoas que tinham uma visão de Carnaval diferente até alguns anos atrás. Esse apoio tem sido fundamental, e todo mundo aprende junto para entregar um grande trabalho no desfile”, declarou.
Aceitação da comunidade
Perguntado sobre como a comunidade recebeu o tema, Júlio avaliou como positiva. A Fiel incorporou o enredo. “Quando fizemos o enredo afro no ano passado, já sabíamos que ele seria fortemente abraçado pela comunidade, e isso se confirmou. Com o enredo indígena, a certeza foi a mesma. A escola está cantando mais, participando mais dos ensaios e abraçando o projeto como nunca. Essa temática dialoga diretamente com o DNA do Gaviões, que sempre levantou bandeiras de justiça social. A causa indígena faz parte dessa trajetória”, comentou.

Rayner completou falando sobre a quantidade de sambas concorrentes inscritos e também sobre a força da comunidade nos ensaios. “Foi surpreendente. Desde o lançamento do enredo, existia um receio por ser um tema já abordado recentemente, mas a proposta era falar de forma completamente diferente. O público entendeu, assim como os compositores, o que resultou em um número enorme de sambas inscritos, algo inédito aqui. A escolha foi difícil, porque qualquer um poderia atender bem ao que queríamos. Nos ensaios, dá para ver todo mundo cantando, participando e feliz, não como algo imposto, mas como um projeto que todos compraram”, disse.
Ponto alto do desfile
De acordo com Júlio, o público deve se atentar à abertura e ao segundo setor do desfile. “É difícil destacar apenas um momento. A abertura da escola é muito diferente do que o Carnaval de São Paulo e o próprio Gaviões estão acostumados a ver. O carro 2 também tem uma simbologia muito forte. A narrativa da história dos povos indígenas, as lendas, as homenagens e o Brasil Guajupiá formam um conjunto poderoso. É um enredo de mensagens claras e fortes, que será facilmente compreendido. Apostamos muito nisso, junto com o nosso samba e o refrão que o povo canta com força”, afirmou.
Recado para a comunidade
“Agora que começamos a mostrar alguns elementos, a empolgação aumentou ainda mais. Quando os carros forem para a rua e as fantasias começarem a ser entregues, isso vai crescer. Estamos trabalhando dentro do que foi proposto desde a festa do piloto. Agora é contar com a união de todos no dia do desfile. Cada um na sua posição, cantando muito e exaltando o Gaviões, o enredo e a história que vamos contar. É acreditar, ir para cima e buscar esse sonho. Nosso Carnaval será grandioso mais uma vez”, declarou Rayner Pereira.
Entenda o enredo
Diferentemente do habitual, os carnavalescos optaram por desenvolver o desfile em capítulos, e não por setores. Júlio Poloni explica.
Capítulo 1
“O enredo é dividido em três capítulos. O primeiro se chama Nossa História e é dedicado a contar a trajetória dos povos indígenas brasileiros. Ele se divide em dois momentos: o tempo do sonho, que mostra como viviam os povos indígenas antes da invasão do homem branco, em harmonia com a natureza; e o tempo da estrada, quando as estradas cortam as matas e trazem epidemias, doenças, morte e devastação. No tempo do sonho, um xamã ingere o pó de yakoana e passa a ter visões do tempo da criação. O capítulo mostra, como eixo central, a invasão do homem branco”.
Capítulo 2
“O segundo capítulo se chama Nossas Vozes. Primeiro, as vozes de encanto, representadas pelos mitos e lendas que revelam a visão de mundo dos povos indígenas. Em seguida, as vozes de luta, com homenagens a lideranças indígenas que se destacaram na defesa de seus direitos”.
Capítulo 3
“O último capítulo é o Novo Amanhã. Ele propõe que, ao ouvir essas vozes, seja possível construir um futuro diferente, com respeito à biodiversidade, valorização da identidade dos povos originários e do conhecimento indígena para a construção de um novo Brasil”.










