Embalada por ensaios muito elogiados e por uma comunidade que abraçou o samba, a Dragões da Real chega ao Carnaval 2026 apontada como uma das escolas que brigam pelas cabeças. A escola promete um desfile de forte impacto visual e com uma narrativa inédita para a agremiação. A Dragões desfila na sexta-feira de carnaval, primeira noite do Grupo Especial de São Paulo, como a terceira a entrar no Anhembi, à 1h10.

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Fotos: letícia Sansão/CARNAVALESCO

Durante visita do CARNAVALESCO ao barracão da escola, foi possível observar um carnaval em estágio avançado de produção. As alegorias já montadas ocupam boa parte do espaço, com estruturas de grande porte, enquanto a separação das fantasias acontece simultaneamente. A organização chama a atenção, seguindo uma marca já conhecida da Dragões da Real, que, nos últimos anos, tem apostado em elementos alegóricos imponentes e bem acabados.

O projeto é assinado por Jorge Freitas, hexacampeão do carnaval paulistano. O carnavalesco acumula títulos por diferentes agremiações, com passagens vitoriosas por Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro, Império de Casa Verde e Mancha Verde, além de atuações em escolas como Pérola Negra, Vila Isabel, Portela e Arranco.

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Com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, a Dragões da Real apresenta, pela primeira vez em sua história, um enredo de temática indígena. A narrativa aborda a lenda das Icamiabas e conecta a história das guerreiras à luta contemporânea das mulheres e dos povos originários pela preservação da Amazônia e do meio ambiente.

O Mago explicou que já tinha esse enredo pensado há algum tempo junto com o enredista e que a escolha dialoga com o momento atual e com a necessidade de o carnaval se posicionar diante de pautas urgentes.

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“A gente tem algumas sintonias de inconsciente coletivo. Os enredos mudam de década para década, tanto na construção quanto na narrativa. Eu vejo que não é mais o momento de o carnaval de São Paulo fazer um carnaval apenas com requinte; não é só isso que as pessoas querem ver. Então pegamos o enredo que a gente tinha lá atrás, que já não era o momento de colocar, e demos uma pincelada na atualidade, no que está acontecendo, tendo como base essa narrativa de empoderamento feminino. Aproveitar tudo isso porque é uma causa”, pontuou.

O carnavalesco destacou o desejo de usar o carnaval como espaço de amplificação dessas pautas.

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“A ideia é colocar o Anhembi como palco de voz no maior espetáculo que é o carnaval. A luta da nossa causa é pela preservação da floresta, da mata, da Amazônia. Vamos aproveitar um enredo que nós tínhamos de empoderamento feminino para fazer com que toda essa construção de narrativa desemboque também numa causa para a qual a gente tem que botar a mão na consciência. Temos que pensar que elas fizeram a parte delas e, através da ancestralidade, outras mulheres deram a sua vida, na atualidade, na luta por essa causa. É o momento de nos unirmos, porque não é só a sobrevivência da mata, dos povos originários e da floresta; é a nossa sobrevivência no mundo”, afirmou.

Plástica e impacto visual

Conhecido pelo acabamento refinado e por alegorias grandes, Jorge contou que o carnaval da Dragões, em 2026, aposta em um impacto visual forte, aliado a uma construção plástica diferente das anteriores.

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“Eu mantenho a minha linha, mas numa construção plástica que parece que nem fui eu quem fiz. O carnaval é completamente diferente e audacioso, é poderoso, de uma volumetria muito grande, mas, acima de tudo, de uma expressão de luta muito maciça também. Eu acho que é isso que vai fazer com que a gente faça um bom desfile”, comentou.

O carnavalesco também falou sobre as alegorias de impacto e fantasias volumosas para sustentar visualmente a narrativa ao longo do desfile.

“São quatro alegorias. Como as minhas alegorias são muito grandes e têm uma potencialidade de volumetria muito forte, com fantasias muito grandes, eu priorizei contar, por meio das alegorias e das fantasias, essa narrativa”, completou.

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Comunidade como ponto alto

Para Jorginho, o grande trunfo da Dragões da Real não está concentrado em uma alegoria específica, mas na resposta da comunidade em cena.

“Nas fantasias eu misturei muito luxo com originalidade e com produto natural mesmo. Isso me deu um resultado final muito grande. Mas não adianta você ter tudo isso e não ter uma comunidade pronta para vestir isso e interpretar tudo na avenida. Então, o ponto alto hoje é a nossa comunidade cantar, do início ao fim, esse samba”, disse.

Ele também destacou o trabalho feito nos ensaios para garantir que os componentes compreendessem o que estão cantando e representando.

“Não são palavras tão fáceis e de dentro do nosso cotidiano, mas nós tivemos o cuidado e o carinho de fazer ensaio por ala, ensaio por setor, em que eu ia mostrando frase por frase e fazendo com que houvesse uma interpretação dentro de um contexto lendário e do contexto atual. Se a gente não explicar e mostrar o porquê de aquilo estar ali, a pessoa pode cantar até outra palavra. Houve uma atenção muito grande desde que o samba saiu”, completou.

ENTENDA O DESFILE

O desfile da Dragões da Real será dividido em abertura e três setores, organizando a narrativa da lenda das Icamiabas até a leitura contemporânea sobre a destruição ambiental.

A escola levará para a avenida cerca de 2.500 componentes e quatro alegorias, apostando em grandes estruturas e fantasias volumosas para sustentar visualmente a história apresentada.

O carnavalesco Jorge Freitas adiantou como a paleta de cores ajuda a contar a história ao longo do desfile.

“Visualmente eu só tenho uma ala dourada, mas eu tenho um visual muito impactante. A terra cobre a abertura; depois eu tenho o verde da floresta, que aparece muito; o marrom do habitat da aldeia originária; e o preto da escuridão da morte que nós estamos causando”, explicou.

ABERTURA

A abertura vai da comissão de frente ao abre-alas e apresenta o primeiro contato com o universo simbólico das Icamiabas, introduzindo o tom mítico e ritualístico que guia o início do desfile.

“Eu tenho uma abertura. Ela vai desde a comissão de frente até o abre-alas”, explicou.

SETOR 1

O primeiro setor desenvolve o mito de origem das Icamiabas, com a apresentação da aldeia formada apenas por mulheres e do ritual que marca a relação com os povos tupis.

“O primeiro setor vai do abre-alas até o segundo carro. Ali a gente mostra a origem do surgimento das Icamiabas. O ponto fundamental é a nossa segunda alegoria, que apresenta a aldeia só de mulheres e o grande ritual do acasalamento, na noite de primavera, sob os olhos de Jaci, a Lua. É a festa, o grande ritual, convidando os índios tupis a participarem. Ao fim desse ritual, é entregue a eles um amuleto retirado do fundo do rio Nhamundá, de onde também nascem as Icamiabas”, explicou.

SETOR 2

O segundo setor introduz o conflito central do enredo, com a chegada do invasor europeu e o embate das guerreiras na defesa da floresta.

“No outro setor, a gente entra no confronto, que é a invasão do homem branco vindo da Europa para explorar as riquezas das nossas matas e das nossas florestas. Como guardiãs da natureza, elas conseguem, através da metamorfose, se transformar em arara, onça e jacaré, que são animais da floresta. Quando o invasor chega, é surpreendido por elas. Os que sobreviveram levaram essa história para a Europa, dizendo que foram derrotados pelas mulheres guerreiras amazonas, misturando com a ideia das amazonas guerreiras da Grécia”, contou.

SETOR 3

No último setor, o desfile faz a transição do mito para a leitura contemporânea, colocando o homem como o novo agente de destruição da floresta e deixando uma provocação direta ao público.

“No último setor, as guerreiras Icamiabas passam a ser chamadas de Guerreiras Amazonas, o rio Nhamundá vira base do Rio Amazonas. E hoje o invasor não é mais alguém que vem de além-mar: somos nós destruindo as matas e as florestas. Eu chego ao último carro com o dedo na ferida. O que nós estamos fazendo para essa mudança? Eu deixo em aberto. É um momento de reflexão”, concluiu.