A escola do Engenho de Dentro mantém uma narrativa feminina consistente para 2026. O enredo que colocará o Arranco na Avenida é “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, sobre Maria Elisa, uma mulher negra que se transformava no palhaço Xamego, idealizado pela carnavalesca Annik Salmon. A artista conta que a ideia do enredo surgiu ao trabalhar como auxiliar de figurino no Circo Crescer e Viver, mas tomou forma ao assistir ao documentário produzido por Mariana, neta de Maria Elisa.

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“Em 2007, eu era assistente do carnavalesco Alexandre Lousada e fui chamada para ajudar o figurinista Rui Cortez no Circo Crescer e Viver. Eu me apaixonei por esse universo, me encantei pela arte circense, por cada número que tinha dentro do espetáculo. Eu nem sonhava em ser carnavalesca, mas, quando conheci aquilo, falei: ‘Um dia, quando eu for carnavalesca, quero fazer um enredo sobre circo’. Há mais ou menos quatro, cinco anos, descobri a história do Palhaço Xamego através do filme que a Mariana, a neta, fez, ‘Minha Avó era Palhaça’. Quando assisti ao documentário, fiquei apaixonada pela história em si, que é a história de uma mulher guerreira, que teve que se vestir e enganar todo mundo, dizendo que era um palhaço homem para poder exercer sua arte. Ali eu falei: ‘Está aí o enredo que eu queria sobre circo, aquele pelo qual me apaixonei lá atrás’”.

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Foto: Artur Amaro/Divulgação Arranco

Segundo a carnavalesca, a história não só fazia sentido com sua paixão pelo circo, como também dialogava com as narrativas femininas que o Arranco vem apresentando, alinhadas à personalidade da escola, onde a presença feminina impera.

“É um enredo que traz essa história que eu venho contando há algum tempo na Marquês de Sapucaí, sempre exaltando o feminino, exaltando mulheres e resgatando histórias que a gente não encontra nos livros. São histórias que fazem parte da formação do nosso Brasil. Foi assim que comecei a construir e pesquisar esse enredo, entrei em contato com a família e propus esse tema ao Arranco”, afirmou.

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Annik também enxerga o enredo, que traz a gargalhada e a alegria como força, como uma celebração pelas últimas conquistas da escola. No último carnaval, o Arranco alcançou a melhor colocação na Sapucaí desde que retornou em 2023, chegando ao sétimo lugar.

“Depois do último carnaval, quando a escola conquistou sua melhor colocação na Marquês de Sapucaí, desde que retornou em 2023, recebemos prêmios e muitos elogios. A escola ficou muito feliz e satisfeita com o resultado. Este ano, o enredo tem ainda mais a ver com a gente, porque traz alegria, é uma forma de celebração, de rir e gargalhar. Quando apresentei para a presidente, ela amou. Disse: ‘É isso, isso é o Arranco’. Essa energia, essa força que carregamos na nossa gargalhada, na nossa festa. O enredo foi muito bem aceito pela comunidade e por todos do Arranco”, compartilhou.

Além da comemoração, o enredo carrega coincidências com a própria história da escola. A azul e branca do Engenho de Dentro é conduzida por mãos femininas: presidenta, carnavalesca, intérprete e mestra de bateria. Neste ano, a escola protagoniza marcos históricos: Annik é a única carnavalesca na Sapucaí, e Laísa Lima estreia como a primeira mestra a reger uma bateria na Avenida.

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“Há histórias que percebemos que não são apenas coincidências, mas conexões com os próprios personagens da escola. Da mesma forma que Maria Elisa se vestia de homem para exercer sua arte, temos no nosso elenco a nossa segunda porta-bandeira, que é um homem, o Anderson, que se veste de mulher, da personagem Morango, para exercer sua arte. O Arranco e Maria Elisa nasceram na mesma data, 21 de março, com 64 anos de diferença. Maria Elisa costurava as roupas de todos os personagens do circo, fazia feijoadas, preparava balas e vendia nos intervalos. E o mesmo acontece no nosso Arranco com dona Diná, nossa presidente, que faz a feijoada nos eventos e costura as fantasias da escola. Eu falo coincidência, mas sei que nada na vida é coincidência. É mais uma prova de que era para ser”, pontuou.

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Entre curiosidades da vida de Maria Elisa, a carnavalesca destaca episódios que estarão no desfile. A família da homenageada, que colaborou na construção do enredo, relata a descoberta inusitada de quem estava por trás do palhaço Xamego e o fato de uma das filhas da artista ter sido ninada por um animal do circo.

“Ninguém sabia que o Palhaço Xamego era uma mulher, até que uma criança curiosa levantou a lona do circo e viu o palhaço amamentando. Ali começa a descoberta de quem estava por trás da personagem. Outro momento interessante é que ela tinha dois filhos, e, enquanto atuava como palhaça, quem cuidava da Deise era uma elefanta, que ninava a criança com a tromba. E, enquanto muitos palhaços tocavam violão, um dos instrumentos da Maria Elisa era o tamborim. Olha a relação com a nossa escola de samba”, contou.

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Annik ressalta que o protagonismo e a força feminina retratados no enredo dialogam diretamente com a identidade da escola e reforçam o sentimento de pertencimento dos componentes.

“Hoje, o mais importante na construção de um enredo é pensar na identidade com a escola. Os componentes e os segmentos precisam se sentir pertencentes à temática que apresentamos. Em mais um ano, estamos conseguindo isso”, declarou.

Fantasias

Segundo Annik, as fantasias para 2026 seguem o mote do enredo: leves, alegres e confortáveis, permitindo que o componente brinque o Carnaval sem desconforto, além de garantirem fácil leitura para o público.

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“Nenhuma fantasia está pesada. Por mais volumosa que esteja, está leve. Fiz questão de vestir todas as que divulgamos. Quero leveza. É um carnaval para celebrar, para rir, gargalhar. Ninguém se diverte carregando peso nas costas. Penso muito nos componentes, eles precisam estar ali cantando”, afirmou.

Samba-enredo

Sobre a escolha do samba, Annik revela que contou com a opinião decisiva da filha, de sete anos. Para ela, o samba é uma das partes mais importantes do desfile, pois é o que permanece na memória do público.

“Quando ouvi o samba pela primeira vez, estava ao lado da minha filha. Coloquei os três concorrentes para ela ouvir e, quando tocou esse, me arrepiei inteira. Quando o corpo arrepia, não tem jeito. Ela disse: ‘É esse, mamãe!’. Esse processo é muito especial. Dou muita importância ao samba, porque é o que fica gravado. As pessoas podem esquecer detalhes do desfile, mas o samba fica martelando na cabeça”, declarou.

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A carnavalesca reforça que a clareza da narrativa por meio da música é essencial. “Os componentes não têm um texto para ler, nem o público só os jurados. As pessoas precisam ouvir o samba e entender o que está sendo contado. O samba vencedor narra exatamente o enredo e traz o ponto político que eu quero. Quando diz ‘não tem corda bamba que faça meu riso tombar’, fala da nossa vida, da história do Arranco, das dificuldades que enfrentamos. Chove, alaga, molha figurino, molha escultura, mas não tem corda bamba que nos faça tombar. Somos fortes e resistentes. E o refrão ‘dou gargalhada, feliz da vida’ traduz nosso espírito”, contou.

Para Annik, o trunfo do desfile será a alegria levada à Sapucaí. Assim como o circo, o Carnaval tem o poder de fazer o público esquecer os problemas e sorrir. E, com toda a força feminina presente na história e na própria escola, rir também é um ato revolucionário.

“Maria Elisa levou essa alegria durante toda a vida, mesmo depois que o circo acabou. A gargalhada era sua forma de viver. Durante muito tempo, o riso foi proibido às mulheres. A mulher que ria era vista como vulgar. Hoje, podemos rir, gargalhar e fazer o que quisermos. Maria Elisa, lá no século XX, já fazia isso, mesmo escondida atrás de uma figura masculina. Ela abriu portas para tantas outras. É isso que queremos dizer: estamos aqui, podemos rir, gargalhar e ser felizes”, concluiu.

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Entenda o desfile

A história de Maria Elisa, a artista negra que se transformava no palhaço Xamego, será contada por meio de três alegorias, 18 alas e 1.800 componentes.

Setor 1

A abertura apresenta o “Circo de Preto”, o Teatro Guarany, fundado por João Alves, pai de Maria Elisa, um homem negro que, 14 anos após a abolição da escravidão, já era empresário de circo e vendeu milhares de ingressos pelo Brasil. O setor mostra a infância de Maria Elisa nesse universo mágico, ainda sem compreender as dificuldades enfrentadas pelo pai.

Setor 2

Mostra o crescimento e a formação artística de Maria Elisa, suas inspirações, como Tio Benjamin e Charlie Chaplin —, a adoção da camélia como símbolo e o surgimento do Palhaço Xamego, após a doença do tio. O nome é inspirado na música “Xote do Xamego”, de Luiz Gonzaga. O setor também retrata seu encontro com Reis, seu parceiro artístico e amor da vida, e culmina com o momento em que o segredo é revelado.

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Setor 3

Abre com o circo enfraquecido, mas ainda presente na vida da artista. Mostra como sua coragem inspirou outras mulheres, como o grupo Maria das Graças, formado pelas primeiras palhaças do Brasil. O encerramento traz a metáfora da “corda bamba da vida” e celebra a união entre circo e Carnaval, transformando o terreiro do Arranco em uma grande lona festiva. O desfile termina com um brinde à gargalhada e à alegria — no circo e na avenida.