Atual campeã do Carnaval carioca, a Beija-Flor de Nilópolis vai trazer o Recôncavo Baiano para a Sapucaí em 2026. Ao levar o Bembé do Mercado como enredo, a Soberana mostra o caminho que a celebração percorre ao cruzar a cidade de Santo Amaro em todo 13 de maio, com a participação de todos os terreiros naquele que é declarado o maior candomblé de rua do mundo — e que vai muito além de uma celebração religiosa, envolvendo também a cultura da região em seus festejos.

Com 3.200 componentes e seis alegorias, é com a assinatura de João Vitor Araújo que a Azul e Branca de Nilópolis levará o “Bembé” para a Avenida, com muito orgulho de jogar luz sobre toda essa festa. Ao CARNAVALESCO, João, em seu terceiro carnaval na escola, percorreu a origem da ideia do enredo, explicando como toda a manifestação do Bembé foi chegando a ele, ao presidente Almir Reis, ao enredista Bruno Laurato, entre outras pessoas, até se consolidar como o momento de levar a proposta para a Avenida.
“A princípio, eu entendia que o Bembé era um enredo muito sério para sair por aí apresentando. Acreditava que era uma história que certamente tinha uma liderança por trás. Tivemos exemplos de enredos anteriores com problemas em relação à autorização, porque eu acreditava que se tratava de uma festa, de uma celebração cheia de fundamentos. Então, até que ponto eu poderia falar desses fundamentos? Por isso, para não ficar um enredo muito raso, eu não coloquei o Bembé no topo da prateleira, mais por cautela. Ele ficou guardadinho, meio que como coadjuvante diante dos outros e, de uma hora para outra, começou a ganhar um protagonismo muito forte — e hoje é a realidade da Beija-Flor de Nilópolis, com um grande samba, um grande enredo, uma comunidade que se identifica com o tema. A intenção era essa: trazer um enredo de identidade, que o nilopolitano pudesse ler e se sentir parte daquela história.”
O artista prosseguiu falando sobre a pesquisa para o enredo, realizada em parceria com os enredistas, destacando a oportunidade de vivenciar o Bembé no 13 de maio e de percorrer todos os terreiros que fazem parte dos festejos. Segundo ele, foi necessário selecionar cuidadosamente o que entraria no que a Beija-Flor apresentará na Avenida, diante da grande quantidade de histórias e depoimentos ouvidos durante a estadia em Santo Amaro.
“Visitamos todos os terreiros. Imagina você andar, conversar, ouvir diversas histórias e experiências, tudo com muita atenção, e já sabendo que, infelizmente, mais da metade daquelas histórias seriam inviáveis de ser contadas, porque temos uma setorização que, às vezes, não nos permite mostrar tudo ou falar de todos que gostaríamos. O mais difícil foi peneirar essa história, porque era muita coisa bacana: depoimentos incríveis, muitos fundamentos, muitas coisas que acontecem ali ao mesmo tempo — e ter que deixar de lado foi a parte mais difícil de tudo. Foi uma pesquisa muito longa. Era muito calor… imagina você andar debaixo de sol, de calça, porque, em respeito, não entramos em nenhum terreiro, em nenhuma casa de santo, de bermuda, saindo às nove da manhã e só voltando às nove da noite, todo santo dia, com muitas histórias na cabeça — ou salvas no celular — e não poder falar de tudo.”
Ao abordar os materiais e a forma de carnavalizar a história do Bembé, Araújo destacou a importância do respeito com cada ritual que aparecerá na Marquês, transformado em alegoria ou fantasia, e o auxílio das lideranças da festa, que estiveram presentes, apoiando e sendo consultadas na concepção plástica da escola. João também falou sobre o que o torcedor pode esperar, ressaltando que tudo é pensado neles e que acredita que os apaixonados pela Beija-Flor ficarão felizes com o que será apresentado na Avenida.
“Não foi fácil. Eu fiz um carnaval, há muitos anos, sobre comida — parecia ser muito fácil — e foi um dos enredos que eu mais li e pesquisei para transformar em alegorias e fantasias. Foi mais difícil do que contar, por exemplo, a epopeia de Dom Sebastião no Paraíso do Tuiuti, que também teve uma pesquisa muito densa. O do Bembé foi carnavalizar aquela história e aqueles rituais sem vilipendiá-los, com muito respeito, muita certeza e muita clareza, pedindo autorização, fazendo chamadas de vídeo com lideranças culturais e espirituais do Bembé para saber se aquilo era viável ou não, se podia mostrar ou não. Porque uma coisa é você ter a liberdade de criar, a tal licença poética… Agora, lá no Bembé não: é tudo muito sério. Eles são muito criteriosos com os elementos, com a indumentária, com as cores utilizadas. Foi um trabalho de criação bem cuidadoso, não tão fácil quanto em outros anos.”
João também comentou a diferença entre realizar o Carnaval de 2025 — que garantiu o décimo quinto título da Beija-Flor — e preparar o de 2026, destacando que é um enredo afro com estética diferente do que geralmente se imagina nesse tipo de narrativa na Avenida.
“Não é o carnaval da palha, do búzio, aquele carnaval que as pessoas estão acostumadas a ver — e isso foi uma grande surpresa do Bembé. Durante a pesquisa fomos descobrindo que não era só candomblé, que outras coisas acontecem nessa celebração. Você vai olhar e ver pelo menos três alegorias e vai pensar: ‘Mas o enredo não é macumba?’ — e vai perceber que não têm relação direta com isso. Esse é o barato.”
Por fim, João Vitor Araújo acredita que o grande trunfo da atual campeã ao pisar no Sambódromo será o samba-enredo, que vem sendo cantado com muita força pela comunidade nilopolitana e que, através dele, o desfile será plenamente compreendido.
“É ele que vai levar. Como dizia minha amiga Rosa Magalhães: quando a música é boa, não tem para ninguém. O samba-enredo está muito coeso e, nele, você vai entender perfeitamente o que é o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto setor da escola.”










