No segundo ano à frente da Beija-Flor de Nilópolis, o carnavalesco João Vitor Araújo recebeu do presidente Almir Reis uma missão sagrada: narrar na avenida a história de Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, um dos maiores ícones do carnaval brasileiro. Aceitando o desafio, o artista mergulhou na trajetória do homenageado através da oralidade, tecendo um enredo que celebra a negritude, a espiritualidade e o legado musical do sambista. Dez anos após sua estreia no Grupo Especial, João Vitor retorna ao tema com “Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, uma ode à vida pessoal, espiritual e profissional do mito.
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João Vitor revela como a proposta inicial o surpreendeu: “Fiquei assustado com a responsabilidade. Como resumir a grandiosidade do Laíla em cinco setores? Ele é uma lenda, e eu não o conheci pessoalmente”. O caminho veio em um sonho: “Ele apareceu na Praça da Apoteose, sorrindo, com a camisa do título de 2018 da Beija-Flor. Foi como um sinal: ‘tem que ser feito por você’”.
Sem biografias escritas, o enredo nasceu de entrevistas com mais de 40 pessoas próximas ao homenageado. “Foi uma construção coletiva. Todo mundo queria contar algo, até histórias simples, como beber água com ele. Isso mostra seu impacto”, explica. A equipe, incluindo Bianca, Vivi e Guilherme, filtrou 150 tópicos para seis setores, em uma reunião emocionante com a família de Laíla.
A definição do nome do enredo foi um momento mágico: “Laíla adorava títulos longos, mas a logo pedia síntese. Ouvindo ‘Bahia de Todos os Deuses’, do Salgueiro, veio a ideia: ‘Laíla de Todos os Santos’ (referência à Bahia de Todos os Santos) e ‘Laíla de Todos os Sambas’. Três setores sobre fé, três sobre música”. A confirmação veio em uma reunião na escola: “Alguém olhou a proposta e disse: ‘Isso está foda’”.
Música clássica e o pé no chão
Uma descoberta surpreendeu o carnavalesco: o amor de Laíla por música erudita.
“Como um homem tão ‘bronco’ ouvia Bach no carro? Isso define o carnaval: o erudito e o popular se misturam”. O setor musical ganhou alegorias que contrastam notas clássicas com elementos da cultura popular, como o “pé sujo” onde Laíla almoçava. “É a essência dele: genialidade sem perder a simplicidade”.
João acredita que o enredo tocará o coração nilopolitano: “Além da homenagem ao Laíla, é a última apresentação do Neguinho como intérprete. O samba já é um hit, até os críticos cantam!”. Sobre o retorno do Cristo Redentor, símbolo do título de 1989, ele adianta: “Mantivemos a essência, mas atualizamos a mensagem para os dias de hoje”.
Após gabaritar o quesito Fantasias em 2024, o desafio é repetir o feito: “Queremos leveza, mas sem perder a grandiosidade. Ano passado, componentes ficaram horas sob o sol. Não dá para usar só biquíni, mas buscamos tecidos respiráveis e detalhes que funcionem de longe e de perto”. Sobre as alegorias, revela: “Desenhei cada uma invocando Laíla. Se algo estivesse errado, pedia para ele derrubar meu café nos rascunhos. Nada caiu!”.
O trunfo da escola, segundo João, está no início do desfile: “A frente terá uma cor incomum para a Beija-Flor. Visualizo a comunidade vibrando, o Neguinho emocionado… Quando o começo é apoteótico, o resto flui”. E finaliza, visionário: “Enquanto todos veem uma fantasia, eu enxergo 80. É assim que construo a magia”.
Conheça o desfile da Beija-Flor
A Beija-Flor de Nilópolis vai trazer para a Marquês de Sapucaí seis alegorias e dois tripés, com cerca de 3 mil e 200 componentes em procissão. Segundo o carnavalesco João Vitor Araújo, os setores são norteados pelo título do enredo, agrupados em duas divisões de três setores cada, focando no início da parte pessoal e espiritual de Laíla e os três últimos na sua relação com o carnaval.
“‘Laila de todos os santos, Laila de todos os sambas’. Três setores ligados à espiritualidade, ancestralidade, religiosidade, África como terra-mãe disso tudo. E os três últimos setores ligados ao Laila do carnaval, o sambista, o profissional, aquele cara que trouxe o status de rolo-compressor pra Beija-Flor de Nilópolis”.