A Em Cima da Hora teve um começo muito impressionante. Esteticamente, com comissão, casal, primeira ala e abre-alas bem alinhados na parte plástica, a escola prometia bastante. A ótima apresentação de Márcio Moura ajudou também e o samba colocou fogo na Sapucaí. Parecia que viria um desfile histórico para a escola, que já passou inclusive pelo Grupo Especial há muitos anos. Porém, problemas na pista e no que vinha depois acabaram atrapalhando o desfile. Após dificuldades com a entrada da segunda alegoria, a escola abriu buraco no primeiro módulo, ficou muito tempo parada e teve que correr do meio para o final. Na entrada da bateria no segundo recuo, também houve problemas de buraco na pista. O samba foi a grande estrela da noite; este se manteve forte o tempo todo, com ótima resposta do público.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o tempo de 55 minutos, a Em Cima da Hora, segunda escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de desfiles da Série Ouro, levou para a Sapucaí o enredo “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras”.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Márcio Moura, a comissão representou uma espécie de embate entre homens e mulheres, a partir das relações humanas e das forças que atravessam o indivíduo. Em seus movimentos era sugestiva a instabilidade, tensão e deslocamento, num ambiente em transformação. Os figurinos representavam, em parte do ato, homens e mulheres comuns, com essa tensão em que os homens parecem querer dominar as mulheres e fazê-las submissas.

Na apresentação nos módulos, com ajuda do tripé, o cenário se transporta para um cemitério, onde aparecem as figuras de pombagiras, cada uma com sua indumentária própria, seus signos em cores, formas e objetos. Entre elas, a Rainha das Sete Catacumbas aparece na parte maior do elemento cenográfico, toda de preto, com efeitos de fogo, representando sua proteção e poder, que conseguem estabilizar a situação quando os homens são jogados para dentro da tumba, no momento em que um pedaço da lápide se abre. Exu se faz presente, garantindo que todos os caminhos se abram, conduzindo a todos ali. As mulheres voltam e dançam com as pombagiras em coreografias bem marcadas e bem à vontade com o samba.

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Elemento Alegórico da Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Trabalho muito bom de Márcio Moura, um dos seus melhores, comissão com dança, história, dentro do enredo e com um clímax leve e de fácil entendimento. A indumentária do início, se não chamava tanta atenção, estava bem relacionada com a proposta, e o cuidado de reproduzir a roupa original das entidades foi outro ponto positivo. O trabalho de expressão dos bailarinos também foi perfeito; pareciam incorporados.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Marlon Flores e Winnie Lopes, veio com a fantasia “Os Reis da Encruza”, toda em tom de vermelho muito forte. Ele fazendo alusão ao Rei das Sete Encruzilhadas, entidade de respeito máximo entre as falanges de Exu. Ela representando a Rainha das Sete Encruzilhadas, senhora das ruas, de sensata justiça, ornada em pedras, penas e brocados. Fantasia belíssima e bem trabalhada, que ornava inclusive com a paleta de cores da cabeça da escola.

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Na coreografia, a dupla buscou mesclar o bailado mais clássico de casal de mestre-sala e porta-bandeira com alguns passos de dança de matriz africana, como no trecho do samba que falava “Em cada esquina meu povo vai incorporar”. Apesar de uma performance que não apresentou problemas aparentes com o pavilhão, faltou ao casal mais de intensidade na dança, até para estar em consonância com o samba que pulsava. A dupla fez bem seus giros e rodopios com correção, mas poderia ter apresentado maior energia. Um samba tão rico sugeria mais algumas inserções das danças de religião de matriz africana, mas, nesse sentido, vai da característica do casal.

ENREDO

O carnavalesco Rodrigo Almeida trouxe para a Sapucaí uma homenagem às Pombagiras, com foco na emancipação feminina, na resistência e no poder das mulheres. O primeiro setor narrou a chegada das Pombagiras, principalmente Maria Padilha, ao seu castelo em Sevilha, na Espanha. Nesse setor, a Pombagira foi tratada como rainha em terra, viva. Em seguida, a escola apresentou o imaginário coletivo dessas mulheres: a Bruxa de Évora, Joana d’Arc, entre outras figuras femininas poderosas da história.

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No segundo setor, propriamente dito, a Em Cima da Hora mostrou onde esses espíritos foram cultuados: o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, o Catimbó, a Jurema, até chegar à Quitanda, onde ela se consagra rainha espiritual. No último setor, a agremiação ofereceu presentes às Pombagiras, encerrando também com um grito contra a intolerância religiosa, desmistificando histórias e ressignificando imagens. Um enredo bem popular e necessário, principalmente se tratando de uma festa como o carnaval, assentada na religiosidade afro-brasileira. Início e final com uma mensagem muito clara de empoderamento feminino e, durante o percurso da escola, a apresentação da entidade e suas características. Enredo bem apresentado.

EVOLUÇÃO

A escola começava o seu desfile com um ritmo muito bom, na levada do samba, com garra, dançando e curtindo. Mas, devido a problemas com a segunda alegoria, que demorou a entrar na Sapucaí e, na pista, teve problemas de movimentação, com deslocamento muito lento, isso afetou o ritmo da escola, que ficou muito tempo parada entre a apresentação da comissão e do casal no segundo módulo.

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Além disso, no primeiro módulo de julgamento, abriu um buraco entre a segunda alegoria, a musa e a ala da frente, que evoluíram enquanto o carro passava por problemas de movimentação. Depois, quando a escola conseguiu resolver a situação da alegoria, começou a evoluir muito mais rápido a fim de compensar o tempo perdido. Além de uma evolução menos espontânea do meio para o final, com os componentes das últimas alas tendo pouca chance de aproveitar o carnaval, a escola ainda teve outro problema quando a bateria entrou no segundo recuo. Após os ritmistas entrarem, a ala da frente já havia avançado e a ala logo atrás da “Sintonia de Cavalcanti” demorou a evoluir, apresentando mais um buraco em um lugar bem visado pelo jurado do terceiro módulo, onde está a cabine dupla. O quesito deve fazer a escola perder alguns décimos.

HARMONIA

Igor Pitta e Carlos Junior aproveitaram bem o excelente samba da Em Cima da Hora, desde o início com os pontos que abriram o desfile e fizeram o alusivo para o samba. É muito positivo ver o domínio que Pitta já tem da Sapucaí; não é à toa que foi elogiado por Neguinho há um tempo, sendo colocado pela lenda do samba como seu possível sucessor.

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A presença das vozes femininas no carro de som também abrilhantou a apresentação, fazendo as entradas nos momentos em que a obra mais pedia e deixando também os momentos em que os intérpretes tinham que conduzir. Já o canto da comunidade foi mais irregular, devido aos problemas que a escola teve na pista. No início e até o meio do desfile o canto estava muito forte, porém, na parte final, já com a escola evoluindo de forma mais rápida para compensar os problemas e não estourar o tempo, a intensidade do canto diminuiu consideravelmente.

SAMBA-ENREDO

A obra foi composta por Marcota de Cavalcante, Serginho Aguiar, Gabriel Simões, Alexandre Reis, Marcio de Deus, Silvio Romai, Raphael Gravino, Camila Lucio, Gigi da Estiva, Jorginho da Flor, Mateus Pranto, Caio Rodrigo, Gabrielzinho e Orlando Ambrózio. Uma das melhores obras da Série Ouro, samba popular, carregado de referências das religiões de matriz africana, com refrões fortes e de muita vibração, que convidam não só a cantar, como também a dançar e mexer o corpo.

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O refrão “Abre a roda” era, sem dúvida, o ponto mais alto. Quando os intérpretes perceberam que ele já havia ganhado a Sapucaí, inclusive, deixavam só para o povo o verso final “Porque a Dona da Casa Chegou”. Refrão do meio também com ótimo rendimento e, na verdade, uma apresentação de muita interação com a Sapucaí. Um dos melhores do grupo e que passou na Avenida com mais força.

FANTASIAS

A primeira ala, “Estende um tapete de rosas para ela passar”, que trazia uma evocação às pombagiras, ornando o vermelho e preto com o dourado, já dava o tom de um bonito conjunto estético para os figurinos. No segundo setor, a Em Cima da Hora começou a trazer um pouco mais de colorido, como a ala das baianas, “Rainha de Todas as Bandas”, representando as baianas como princípio do samba, mães e geradoras que detêm o conhecimento. A saia, bem colorida, ia dos tons mais quentes para os mais frios.

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Outra ala, “Na boca de quem não presta ela é vagabunda”, que cruzava a ideia de uma pombagira cortesã em contraste com a sensibilidade, relacionou o branco com tons mais sutis de rosa. Muito caprichada, a fantasia ainda tinha maquiagem. E, na parte final, destaque ainda para a fantasia “Ouro que te enfeita”, toda em dourado, com a saia vazada. Muito bem feita. No geral, um trabalho primoroso do carnavalesco Rodrigo Almeida. Fantasias bem acabadas, com uso de materiais de ótima qualidade e paleta de cores ornando muito bem com cada momento do desfile.

ALEGORIAS

Rodrigo Almeida levou para o desfile da Em Cima da Hora três alegorias. O abre-alas, de alta qualidade plástica, representou o poder e a realeza de uma Pombagira, seu lugar como Dona, Senhora e Rainha. O carro trouxe uma grande carruagem guiada por cavalos imponentes, símbolo notável de poder, valentia e coragem. Em sua parte central, a alegoria tinha uma grande escultura de Maria Padilha, imprimindo ainda um cenário de autoridade, realeza e feminilidade.

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A segunda alegoria, “O Reino da Quimbanda”, fez referência ao universo da Quimbanda ou Kimbanda, cujas raízes ancestrais estão ligadas ao culto Bantu (Angola), focado nos cultos de Exus e Pombagiras. Os signos mais populares da Quimbanda estavam presentes nesta alegoria, que vinha introduzida por dois semidestaques representando Belzebu. Um cenário repleto de velas pretas e vermelhas e chamas de fogo personificadas por composições; por todo o carro alegórico se viam oferendas, fazendo dele um altar. Ornando o carro, ainda estavam destaques e outras composições que acrescentavam a sensação mística do lugar e do universo da Quimbanda.

O último carro, “Ela é Resistência Contra a Intolerância”, encerrou o desfile como um templo contra a intolerância. Nesta alegoria vieram diversas autoridades espirituais. No centro do carro, no alto, foi encenado um ataque de intolerantes a um terreiro. Sua principal escultura fez direta referência ao tema do enredo e seu entrelaçamento com as Marias de todas as denominações, através da releitura da figura da Pietà, que em seu colo protege e acolhe essa mãe de santo que vê destruído seu local sagrado. Apesar de um início arrebatador pelo ótimo trabalho no primeiro carro, houve uma queda de apuro estético do abre-alas para as demais alegorias. Inclusive porque, nos dois carros seguintes, havia várias composições no alto sem fantasia, o que comprometeu também a qualidade plástica das alegorias. No geral, um conjunto irregular.

OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria, Marianne Hipólito, representou a Pombagira menina com sua fantasia. A bateria “Sintonia de Cavalcanti”, comandada por mestre Leo Capoeira, veio vestida em homenagem ao Tranca-Rua das Almas, com calça, camisa e cartola, acompanhados de uma capa em tons de branco e preto. Os passistas vieram com a fantasia “No feitiço do catimbó”, retratando o cruzamento das linhas espirituais onde a Pombagira atua, possuindo um imponente costeiro, como asas.

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No esquenta, a escola cantou o clássico “Os Sertões”, samba de 1976, recebendo uma boa resposta do público. No alusivo, a escola cantou os pontos “Sino da Igrejinha”, “É uma casa de pombo” e “Arreda homem”, entre outros cantos para saudação de pombagiras.