Viver um caso de amor com o samba de sua escola do coração é uma experiência que todo sambista gostaria de ter na pré-temporada do Carnaval. E é esse o clima entre o “Povo do Samba” e a obra da Vila Isabel para 2026, que homenageia o compositor, cantor, artista visual e sambista Heitor dos Prazeres. Apaixonados pela obra, os componentes já consideram a parceria de André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho como uma das mais fortes das últimas décadas da agremiação.

“É o samba da década. Não é pouca coisa. É um samba que fala não só sobre a própria Vila, mas sobre a história do samba. É uma aclamação ao próprio sambista que, às vezes, o Carnaval esquece de valorizar. Esse samba reconhece essas pessoas”, declarou Diogo Freire, 30 anos, arquiteto e componente da escola há três anos.
O reconhecimento não é só do legado de Heitor dos Prazeres — pioneiro na composição de sambas e um dos fundadores das primeiras escolas de samba do Brasil —, mas também da herança da própria Vila Isabel. A referência a Seu China e Ferreira, fundadores da Azul e Branco, reforça nos versos a memória de um território que se orgulha de suas raízes. É esse “molho” que deixa o “Povo do Samba” feliz e animado para 2026.

“É o samba que a gente gosta. Estamos vindo de anos em que os sambas não eram aqueles que a Vila está acostumada a curtir. O de 26 é diferente. O samba é excelente. A Vila está feliz e, quando as coisas vão assim, o final sempre é positivo”, afirmou o inspetor de pintura Felipe Lacerda, 37 anos, integrante da escola há quatro anos.
Para a baiana Gabriella Moreira, 37 anos, o caso de amor é tão forte que não dá vontade de parar de cantar o samba.

“Na disputa de samba, todo mundo já tinha certeza de que era o samba campeão. Na rua, para mim, que desfilo como baiana desde 2010, é um samba que não cansa. Esse samba dá vontade de cantar o tempo todo. Com certeza é um dos melhores sambas da Vila Isabel”, disse.
Entre Angola e Arraiá: o novo samba entra no panteão da Vila Isabel
Amor é assim: faz uma obra que ainda nem atravessou a Sapucaí aparecer, para parte da comunidade, entre os grandes sambas da história da Vila. Considerada uma das melhores da safra de 2026, a composição é comparada a “Angola”, de 2012, e “Festa no Arraiá”, de 2013, último título da Vila Isabel.
“Esses três sambas estão na mesma prateleira, bem perto. Vamos ver depois do Carnaval, mas com certeza já colocamos ele num cantinho bem especial do coração”, disse Felipe Lacerda.
Gabriella Moreira acrescenta que o samba de 2026 acessa a mesma dimensão afetiva e ancestral presente em “Angola”. “São três sambas muito bons. Eu adoro o de 2013, que foi o do título, mas o que mexe mais comigo é o de ‘Angola’. Esse samba de 2012 tem uma força ancestral muito grande e é o que eu sinto no samba deste ano também. Quando estava começando o minidesfile, meu corpo começou a arrepiar dos pés à cabeça, comecei a suar de tanta emoção”, revelou.
Se mexe com a emoção do componente, é mérito dos compositores André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho, que souberam, em letra e melodia, despertar o amor da escola. A tríade reforça uma linhagem autoral marcante na Vila: Diniz assina 2012, 2013 e 2026; Bocão retorna após o êxito de 2012; e Arlindinho ocupa agora o lugar que foi de seu pai, Arlindo Cruz, nos sambas de “Angola” e “Festa no Arraiá”.
“O ‘Povo do Samba’ comprou essa ideia e você sente isso nos ensaios de rua, lá na 28. Estamos mostrando a força desse samba durante toda a temporada”, afirmou Diogo Freire.
Raiz, território e pertencimento: o resgate que atravessa a comunidade
Se a força de um samba revela mais do que musicalidade, o de 2026 expõe um movimento mais profundo na Vila Isabel: o reencontro da escola com suas próprias raízes. Entre os componentes, a sensação é de que o enredo sobre Heitor dos Prazeres abriu uma porta que há tempos a comunidade desejava atravessar.
“É um enredo bem raiz. Sentimos, sim, que esse enredo volta um pouco para a nossa raiz. A Vila é uma terra de preto, da miscigenação, mas sobretudo de preto. A Favela dos Macacos pulsa muito isso e esse samba traz essa sensação para a gente”, afirmou Felipe Lacerda.
A percepção também se expressa nos ensaios, onde o clima é de pertencimento renovado. Para Gabriella Moreira, a combinação entre enredo e samba elevou o moral da comunidade. “Sabemos que nem sempre um bom enredo gera um bom samba. Nesse caso, sim. Escolhemos um ótimo enredo que gerou um excelente samba. Eu vejo a comunidade mais feliz. Quando acaba o ensaio, a gente se abraça e continua cantando o samba. Isso é o maior indicativo dessa virada.”
A cantora argentina Ali Maria, 40 anos, que vive no bairro de Vila Isabel há nove anos, reforça que há algo novo no ar: a sensação de uma virada perceptível semana após semana.

“Estamos vivendo uma virada. E isso pode ser sentido na força que a comunidade encontrou nesse samba. A cada ensaio a gente está crescendo e sinto que estamos transmitindo com cada vez mais força o significado do nosso enredo.”
Para Diogo Freire, a Vila atravessa um processo comparável a momentos históricos da escola: “A Vila Isabel está reencontrando as próprias raízes, assim como aconteceu em ‘Kizomba’. São sambas históricos, não só para a própria escola, mas para a história do samba. Esse momento aproxima cada vez mais o Morro dos Macacos da escola. A Vila olha para o espelho e diz: ‘Eu sou isso aqui’”.









