Gravado em novembro de 2025, na Fábrica do Samba, o samba-enredo do Vai-Vai para o Carnaval 2026 chegou ao público carregando emoção, identidade popular e uma leitura musical que dialoga diretamente com o enredo. A obra, que homenageia São Bernardo do Campo e passa pela história da Vera Cruz, do cinema nacional e da luta dos trabalhadores, ganhou uma versão marcada por coral forte, andamento pensado especialmente para a gravação e arranjos que transitam entre o popular e o cinematográfico. A gravação, realizada em formato ao vivo, reuniu comunidade, segmentos e lideranças musicais da escola, consolidando um clima que, segundo os próprios envolvidos, não se via no Vai-Vai há algum tempo.
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‘Aqui a gente veio mais seguro, mais direto’, diz Luiz Felipe
No sexto ano como intérprete oficial do Vai-Vai, Luiz Felipe destacou que a gravação exigiu uma preparação diferente daquela feita para a versão cantada na quadra.
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“Nós nos preparamos porque é diferente da versão da escola. Aqui nós viemos mais seguros, mais direto. Estudamos bastante as outras gravações também, os cantores que já fizeram. Nós estudamos direitinho e temos essa preparação interna. Sexto ano sendo intérprete do Vai-Vai, sendo a voz dessa escola, é um sentimento de emoção mesmo”.
Mesmo reconhecendo o peso emocional da gravação ao vivo, o cantor fez uma ponderação técnica sobre o formato.

“Eu não sou a favor da gravação ao vivo. Sou a favor da gravação em estúdio. Porém, ao vivo dá mais emoção, dá mais sentimento de Avenida, coral, povão. Pega na emoção, pega na comunidade, mas eu prefiro em estúdio”.
Questionado sobre os trechos mais impactantes da obra, ele não hesitou em apontar o momento que promete levantar o Anhembi.
“A parte que eu mais gosto é o refrão principal. Só que eu acho que é o do meio que vai sacudir o Anhembi. ‘Se desacreditar, vai parar geral’. Acho que essa parte vai ser impactante para a comunidade, pelo povo, que está gostando bastante dessa parte”.
Um samba raro na história do Vai-Vai, conta Cris Viana
Um dos compositores do samba-enredo de 2026, Cris Viana falou com emoção ao comentar a importância da obra em sua trajetória pessoal e artística. Compositor de carreira e criado dentro das alas de compositores, ele destacou o peso simbólico de vencer uma disputa em uma escola tradicionalmente fechada a parcerias externas.

“Tenho alguns sambas-enredo nas coirmãs, mas é um samba especial porque o Vai-Vai é uma escola especial. Todo o povo do carnaval entende que o Vai-Vai é diferente. Para mim, que não sou naturalmente do Vai-Vai, é muito especial porque o Vai-Vai é uma escola mais fechada, é difícil que os compositores de fora ganhem samba dentro do Vai-Vai. Quem trabalha tem alma e coração, não é ferro nem máquina da exploração. Se desacreditar vai parar geral’. É bem no popular, tem tudo a ver com o Vai-Vai. Tem muita poesia dentro do samba, mas essa frase, para mim, é bem especial”.
A ligação pessoal com o enredo também foi decisiva para a emoção do compositor, já que o tema aborda São Bernardo do Campo, sua cidade natal.

“É a nossa cidade. Unimos compositores de São Bernardo com compositores do Vai-Vai. É uma emoção especial porque fala de São Bernardo e sou apaixonado pela minha cidade. Minha vida se resume muito a São Bernardo do Campo, assim como a da minha família. Ganhar em uma escola do tamanho do Vai-Vai, que tem uma repercussão por ser algo raro, algo diferente, é realmente muito especial. Quando eu lembro da hora do resultado, eu fico arrepiado até hoje”.
Clima especial nos ensaios anima compositores
Sobre o desempenho do samba na Avenida, o compositor revelou um sentimento de confiança, baseado no que tem visto nos ensaios e na resposta da comunidade.

“Faz tempo que o Vai-Vai não tem esse clima que está rodando com esse samba. Desde o primeiro ensaio, está com um clima muito diferente. A comissão de carnaval fez uma abordagem muito interessante falando da Vera Cruz. A Vera Cruz é cultura, é cinema, tem muito da história do Brasil. Com o São Bernardo vem o trabalhador, de todas as lutas que o sindicato teve lá no passado. O samba aconteceu desde quando soltamos a gravação e apresentamos na quadra. Nos ensaios está acontecendo demais, a quadra toda está cantando. O que vemos é que está rolando um clima especial, que há muito tempo o Vai-Vai não tinha”.
Andamento pensado para a gravação, explica mestre Beto
Responsável pela bateria “Pegada de Macaco”, mestre Beto revelou que o andamento escolhido foi específico para a gravação e não será o mesmo utilizado no desfile.

“Como o Vai-Vai tem uma bateria mais acelerada, para a gravação eu resolvi esse ano, com a concepção do mestre Tadeu, fazer o andamento de 148 BPM (batidas por minuto), que não será o andamento que vamos para a Avenida. Nós fizemos um xote, que é um dos ritmos nordestinos. Fizemos dois arranjos de bateria mesmo, com caixa, repenique, surdo, e tem uma surpresinha para a Avenida que não podemos falar””.
Para o mestre, participar da gravação tem um significado único. “É um sentimento único porque é uma coisa anual. Acontece uma vez só e você procura fazer o melhor para que passe segurança para a comunidade. É como ter um filho, como fazer um aniversário, a primeira habilitação, o primeiro carro”.
Arranjos cinematográficos reforçam narrativa do enredo
Diretor musical do Vai-Vai, Danilo Alves explicou que os arranjos foram pensados a partir do tema e da tradição musical da escola.

“Nós vamos sempre de acordo com o tema, com a nossa tradição e com a pegada da nossa bateria. Trouxemos uns arranjos bem cinematográficos e ficou legal, ficou de acordo. Fazemos um forró, fazemos um baiãozinho. Usamos um triângulo e o agogô para fazer bem o forró mesmo. O Vai-Vai sempre vem com esse lance bem social, bem de acordo com o que o Brasil pede”.
Danilo também revelou referências diretas ao cinema na construção musical. “Fazemos uma alusão ao cinema com alguns arranjos de harmonia, lembrando aquelas noites de sábado do Supercine. Esses arranjinhos pegando bem as dissonâncias da harmonia são bem legais, bem Vai-Vai, bem a nossa cara”.









