Por Luiz Gustavo e Mariana Santos
A Estação Primeira de Mangueira realizou nesta quinta-feira mais um ensaio de rua em sua preparação para o desfile oficial, que será realizado daqui a pouco mais de um mês. Em um dia menos usual para a escola, já que os treinos de rua costumam ocorrer aos domingos, o que não fugiu ao padrão foi o excelente canto dos componentes, que ecoou forte durante todo o treino da escola, elevando o desempenho de um samba que teve sua funcionalidade colocada em xeque quando foi escolhido, mas que vem ganhando corpo a cada semana.
Matheus e Cintya realizaram uma grande apresentação e foram outro ponto alto do ensaio da verde e rosa, que desfilará no domingo de Carnaval trazendo o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França.

COMISSÃO DE FRENTE
Karina Dias e Lucas Maciel prepararam uma comissão de frente de coreografia mais convencional para o ensaio, com uma apresentação de passagem, sem maiores arroubos. Os oito integrantes presentes mostraram boa sincronia e agilidade, em uma execução qualificada que parece revelar pouco do que a dupla pretende apresentar no desfile oficial. O ato final da coreografia, com os integrantes simulando o toque de um tambor durante o refrão principal, arrancou aplausos do público presente.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Matheus e Cintya realizaram uma apresentação típica do casal, muito arrojada, técnica e vibrante. O ritmo da dança de ambos impressiona. Na primeira parte do samba, excelentes giros torneados de Matheus em ótima sincronia com o rodar de Cintya, que executou sua série característica curvando levemente o corpo e retomando a postura ereta em seguida.

No refrão central, gestos e dança foram mais sutis, mas na segunda parte veio o ápice da apresentação, com uma condução perfeita de Matheus em seus meneios, antecedendo uma impressionante série do casal, sobretudo os giros impecáveis e precisos de Cintya, sem perder o tempo rítmico. Matheus exibiu um bailado de passos muito ágeis e sempre com o corpo ereto, elegante. Uma apresentação de alto grau de dificuldade, executada com excelência.
EVOLUÇÃO

A Mangueira foi uma das escolas que apresentou uma evolução mais solta no minidesfile realizado na Cidade do Samba e, em seu ensaio de rua, a agremiação mostrou que pretende seguir esse padrão no desfile oficial. A maioria das alas ensaiou com muita empolgação, entregando-se ao samba da verde e rosa, brincando e avançando na pista com espontaneidade, sem engessamento ou militarismo. Poucos componentes destoaram nesse quesito, que foi outro ponto de destaque do ensaio mangueirense, com bom uso do espaço lateral da pista.
Dudu Azevedo, diretor de carnaval da Verde e Rosa, falou sobre o ensaio e o funcionamento do samba.

“Funcionalidade agora é um subquesito do julgamento, mais do que nunca, estamos focando nisso nos ensaios. Tivemos a peculiaridade de o som não estar tão aguerrido, à altura do tamanho da escola, neste ensaio, mas tivemos um canto muito bom. Com essa questão do som, conseguimos perceber melhor as nuances de cada ala, e hoje eu digo que estamos tranquilos com o quesito funcionalidade. O samba funciona para a comunidade, o mangueirense abraçou, bate no peito e canta entusiasmado. A comunidade está cantando e encantando quem vem assistir ao ensaio da Mangueira. Cada ensaio tem sua peculiaridade; hoje foi o problema do som, que nos trouxe uma observação maior sobre o canto de cada ala. Toda quinta-feira ensaiamos setores em separado, ali batemos a parte técnica dos quesitos. Toda a escola está em uma ladeira crescente. Acho que o ensaio técnico será o ponto para apreciar onde chegamos, mas o ápice é o desfile”, ressaltou.
SAMBA E HARMONIA
O samba da Mangueira tem uma característica melódica mais poética do que explosiva, e essa nuance é percebida em seu desempenho. Ainda assim, isso não impede o bom rendimento, realçado pela boa combinação musical entre Dowglas Diniz e a bateria comandada pelos mestres Taranta Neto, que exploram as qualidades melódicas da obra.
O desempenho na noite foi bastante satisfatório, mesmo com os problemas no som ocorridos durante o ensaio, principalmente no microfone de Dowglas, que em alguns momentos quase não foi ouvido por quem estava distante do carro de som. O samba vem se mostrando funcional para a escola, além de sua beleza poética, sobretudo na primeira parte.

O canto do mangueirense foi muito forte em praticamente todas as alas, sem desnível entre as diferentes partes da obra. A primeira parte, extremamente lírica, foi cantada com força, assim como a segunda, mais aguerrida e convocatória. A escola passou solta e alegre, cantando seu samba com entusiasmo, e, com a questão do som, o canto ecoou ainda mais poderoso, impressionando de forma muito positiva.
“Desde o início do ano, quando fiquei solo, tenho trabalhado bastante com meus diretores musicais, meu fonoaldiólogo, professor de canto, um staff grande para botar em prática tudo o que fazemos aqui na Visconde de Niterói e na quadra, para chegar na avenida e fazer um grande trabalho. Estou seguro. Eu acho que não temos nada para lapidar. Agora é só manter o trabalho. Lapidação acontece quando a gente escolhe o samba, quando faz alguns ajustes, mas agora não tem esse processo de lapidação. É só praticar mesmo, pra chegar seguro na Sapucaí. A rapaziada do carro de som quer trabalhar mais, quer mostrar um trabalho melhor para o público que está assistindo”, disse o intérprete Dowglas Diniz.

OUTROS DESTAQUES
A rainha Evelyn Bastos é sempre uma atração nos ensaios da Mangueira, adorada pela comunidade e com uma admiração especial por parte das crianças, que, como de praxe, entraram na pista para abraçá-la. Um momento sempre singelo e de enorme significado.

A bateria “Tem que respeitar meu tamborim”, de Rodrigo Explosão e Taranta Neto, esquentou o ensaio com diversas bossas, sobretudo a do refrão central. Uma bateria em grande fase nos últimos carnavais.










