Por Marcos Marinho e Juliane Barbosa
A Mocidade Independente de Padre Miguel realizou, na noite do último sábado, seu primeiro ensaio de rua de 2026, na Avenida Ministro Ary Franco, em Bangu. Embalada por um samba que exalta a liberdade e pela resposta consistente da comunidade, a escola apresentou um canto bem sustentado nos momentos centrais da obra, uma condução segura do intérprete Igor Vianna e uma evolução marcada pela alegria, espontaneidade e interação constante com o público. O conjunto revelou uma Mocidade que se diverte, brinca e se reconhece na homenagem a Rita Lee, imprimindo desde cedo o tom libertário do enredo. Primeira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval, a Verde e Branco levará para a Sapucaí o enredo “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”, assinado pelo carnavalesco Renato Lage.
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SAMBA E HARMONIA
O samba da Mocidade tem uma característica muito interessante: ele é, de fato, uma ode a Rita Lee. A obra assume o tom de homenagem e imprime com clareza o espírito libertário que atravessou a trajetória da artista, seja por meio de citações diretas de suas músicas, seja por referências ao seu comportamento e às suas falas. Rita Lee não foi apenas uma grande cantora e compositora brasileira, mas uma figura que alargou debates sobre liberdade e comportamento, e isso está presente no samba.
Musicalmente, a obra se estrutura em momentos muito bem definidos. O primeiro refrão, “Sou Independente, fácil de amar / Livre de qualquer censura / Vem, baila comigo / Só de te olhar, posso imaginar loucuras”, é cantado como um verso de afirmação. O “independente” dialoga com a postura libertária de Rita Lee, mas também afirma a própria identidade da Mocidade neste processo de reconstrução. Não é um canto explosivo como o refrão principal, mas é bem sustentado pela comunidade. A retomada desse refrão, no trecho iniciado por “Amor é pra sempre”, aparece com fôlego e entrega, evidenciando uma obra bem sustentada nos refrões e nas retomadas ao longo do samba.
Nesses momentos de retomada, a atuação do intérprete Igor Vianna é decisiva. Com leitura inteligente da dinâmica do samba, Igor entrou sempre com vigor nos pontos cruciais, chamando a comunidade para sustentar o canto coletivo. Essa condução fortalece diretamente a harmonia da escola e potencializa a resposta das alas, sobretudo nos momentos em que o samba precisa ser retomado.
No refrão principal, o samba explode. É o trecho de maior extravasamento, em que o canto cresce, a escola se solta e a comunidade responde com mais intensidade. Ainda assim, há um momento intermediário da obra em que o samba perde força e parte dos componentes deixa de cantar, como nos versos “A Tropicalista do verbo sem freio / Pra farda uma língua e o dedo do meio / Cabelo de fogo e a lente encarnada / Mutante da pele marcada”. É um ponto que merece atenção para que o samba seja sustentado com intensidade do início ao fim da passagem pela avenida.

Vale destacar, por fim, o mérito da equipe musical que defendeu o som com categoria. Mesmo diante de problemas insistentes de microfonia no início do ensaio, Igor Vianna e sua equipe conduziram a obra com segurança e souberam contornar as dificuldades técnicas sem comprometer o rendimento do canto.
EVOLUÇÃO
A Mocidade evoluiu com alegria, espontaneidade e liberdade. Essa liberdade produziu um efeito claro: uma escola que quer evoluir. Os componentes querem pular, brincar, interagir o tempo todo, entre si e com o público. Há um jogo constante com quem assiste, e isso estabelece um tom muito importante para o desfile: o da brincadeira, da festa, do carnaval enquanto espontaneidade. Esse é, sem dúvida, um trunfo da evolução da Mocidade.

Por outro lado, esse mesmo impulso precisa ser um pouco ajustado tecnicamente. Em alguns momentos, a escola avança com passos mais lentos, parecendo segurar o andamento e, logo depois, acelera de maneira acentuada. O resultado é uma progressão um pouco irregular na pista.
O desafio, portanto, será o de equilibrar essa energia espontânea, trunfo da evolução da escola, com maior precisão técnica, para que a escola consiga manter o clima de festa sem perder organização e fluidez.

OUTROS DESTAQUES
A bateria “Não Existe Mais Quente”, comandada pelo mestre Dudu, segue como um dos pilares do ensaio. Precisa, pulsante e comunicativa, a bateria levantou o público presente na Avenida Ministro Ary Franco. No momento final, protagonizou uma cena muito bonita de comunhão: direção de harmonia, harmonias da escola e passistas vibraram juntos com a bateria, criando um clima de celebração que sintetiza bem o espírito do ensaio.

Tanto a comissão de frente quanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira não participaram deste ensaio, pois estavam realizando testes de luz na Sapucaí. Ambos os quesitos retornarão à Avenida Ministro Ary Franco no próximo sábado, dia 17.
“Agora está na reta final e não tem mais o que ser colocado. Eu tentei até colocar na bateria mais uma paradinha, mas não deu e eu não vou correr esse risco de botar neste momento, o ideal é deixar como está. Tudo bem encaixado, dentro do tempo e da melodia. Eu sou um tipo de mestre que tento trabalhar sempre assim para ter um atendimento melhor. Quando você trabalha em cima de melodia fica fácil o entendimento. Tenho a oportunidade de fazer belos arranjos, tentei botar bem ‘ritilizado’ e quem curtiu e curte Rita Lee vai entender um pouco das nossas bossas. Coloquei bem a cara dela mesmo e eu também sou meio louco como Rita Lee. Para finalizar, os últimos ajustes agora é com o meu diretor Pimentão, as bossas, os desenhos e os arranjos. Todo mundo sem dormir o tempo todo construindo o trabalho e agora está aí a resposta: entregue! O samba da Mocidade eu tenho certeza que vai fazer um belo carnaval, se depender da minha bateria e de mim, vai fazer um belo carnaval se Deus quiser”, explicou mestre Dudu ao CARNAVALESCO.

OPINIÃO DO DIRETOR
Para o diretor de carnaval da Mocidade, Wallace Capoeira, o rendimento apresentado no primeiro ensaio de rua de 2026 confirma que a escola reencontrou um caminho de identidade e pertencimento. Segundo ele, a resposta da comunidade ao samba e à condução musical tem sido um dos sinais mais claros desse processo.
“A minha avaliação é sempre a mais positiva. A gente encontrou o caminho, encontrou a receita. A comunidade abraçou o samba, e o Igor está cantando de uma forma muito empolgante, com muita vibração, querendo cantar, vibrar e emocionar”, afirmou.

Na leitura do dirigente, o samba tem papel central nesse momento de reconexão da escola consigo mesma. “Eu acho que a Mocidade se reconecta com ela mesma, com a sua essência, com as suas raízes. O samba traz essa sensação de pertencimento, de liberdade. Viva o samba”, declarou Capoeira, destacando o alinhamento entre obra, intérprete e comunidade.
Apesar do tom positivo, o diretor de carnaval reforçou que o trabalho segue em construção e que o processo de avaliação é permanente. “A gente sempre precisa melhorar. Eu nunca estou satisfeito. A gente brinca, se diverte, mas amanhã já tem reunião para avaliar o que foi hoje. Filmamos tudo para entender o que a gente produziu de melhor e o que ainda precisa avançar”, explicou.

Capoeira destacou ainda os quesitos de chão como prioridade estratégica da Mocidade neste início de temporada. “A gente entende que ainda precisa subir alguns degraus, mas, quesito a quesito, temos uma comissão de frente muito forte, um casal de mestre-sala e porta-bandeira que dispensa comentários, uma bateria que não existe mais quente e um trabalho muito forte em evolução e harmonia. Esses quesitos precisam pontuar, independentemente de qualquer outra coisa”, avaliou.

Confiante no conjunto apresentado, o dirigente também citou o trabalho visual como um trunfo para o desfile oficial. “Com alegoria, fantasia e enredo, a gente tem muita fé e chances reais, pelo que já vem sendo apresentado. Eu cobro muito a minha galera, sou chato, mas hoje é dia de dar parabéns. A comunidade comprou a nossa causa, comprou a nossa ideia, e a gente vai fazer um grande espetáculo”, concluiu.










