A quarta alegoria do Acadêmicos do Salgueiro surgiu imponente na Avenida com o enredo “Devorei a nação” e colocou o público diante de um Brasil pensado a partir da devoração. Nas prateleiras abaixo do Equador, como propôs o conceito do carro, não havia pecado, tinha comilança simbólica, mistura, reinvenção. A escola apresentou uma brasilidade construída no gesto de engolir referências e transformá-las em linguagem própria, retomando o pensamento crítico e inventivo de Rosa Magalhães.

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Longe de qualquer ideia ingênua de natureza tropical, a alegoria apostou no imperativo antropofágico como chave de leitura do país. Formas selvagens, frutos exuberantes e imagens de terra abundante se espalharam pela composição. A presença indígena apareceu como eixo estruturante: não como figura romantizada, mas como agente central dessa lógica de criação, portadora de saberes que tensionam as interpretações do Brasil.

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Do banquete artístico que marcou a trajetória de Rosa, nasceu a imagem do grande bicho-papão que dominou o carro. A criatura, já evocada em outros momentos da obra da carnavalesca, condensou referências da cultura popular e dos signos da natureza brasileira. O resultado foi um monstro simbólico que convidou o público a repensar as imagens do país, um ser-devorador reconstruído a partir de personagens que marcaram carnavais anteriores.

A estética adotada foi assumidamente moderna, com retalhos, restos e estruturas aparentes, dialogando com soluções visuais já exploradas pela artista em diferentes momentos de sua trajetória. O movimento cênico também teve papel central: luzes, encenações e surpresas internas reforçaram a ideia de transformação constante, como se o próprio carro estivesse em processo de metamorfose diante da plateia.

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Na linha de frente da alegoria, a artista plástica Rafa Bqueer, de 33 anos, ocupou o posto de primeiro destaque e falou sobre a emoção de viver aquele momento. Ela contou que se apaixonou pelo Carnaval ainda na infância, especialmente pelo trabalho de Rosa Magalhães, e afirmou que estar ali representava uma homenagem dupla, à escola e à carnavalesca.

“O Carnaval é uma referência artística para o Brasil e para o mundo, é também uma intelectualidade preta. Eu, como pessoa trans, acredito que precisamos ocupar esses espaços de destaque. Somos capacitadas, temos qualidade artística e intelectual para estar aqui”, afirmou.

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Rafa ainda citou que seu trabalho nas artes visuais e na drag dialoga com essa ideia de transformar referências para criar algo próprio, e avaliou que o Salgueiro honrou a memória de Rosa ao exaltar o Brasil de forma crítica e potente.

Integrando a composição do carro, o enfermeiro Arthur Filipo, de 25 anos, que desfilou pela escola há três anos, destacou o impacto visual da alegoria e contou que a proposta trouxe uma linguagem mais tecnológica e vibrante dentro do enredo, o que tornou a experiência ainda mais especial.

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“É maravilhoso fazer parte dessa composição. A gente trouxe um lado diferente, mais carnavalesco e real, algo que a Rosa sempre apresentou. Minha fantasia dialogou com essa ideia de devorar para criar, e eu acredito que foi um desfile grandioso”, comentou.

Também na alegoria, a analista de sistemas Juliana Kiciak, de 41 anos, que desfilou há seis anos pela escola, ressaltou o peso histórico do carro. Ela afirmou que participar daquela apresentação significou ajudar a contar a história dos carnavais de Rosa Magalhães.

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“Esse carro representou muito do conceito de antropofagia que Rosa Magalhães desenvolveu ao longo da carreira. O público viu na Avenida o trabalho de encenação e as transformações acontecendo dentro do carro. Foi isso que mais me marcou”, completou.

Ao devorar símbolos, estilos e narrativas, o Salgueiro não apenas revisitou a obra de Rosa Magalhães, mas reafirmou sua capacidade de transformar memória em espetáculo. No fim das contas, a grande comilança proposta na Avenida mostrou que o Carnaval segue sendo o espaço onde o Brasil se reinventa e mostra ao mundo para falar de si.