Por Gustavo Mattos e Will Ferreira
A Rosas de Ouro voltou a ocupar a pista com autoridade e clima de decisão. Atual campeã do Carnaval de São Paulo, a escola realizou mais um ensaio consistente, reforçando que entra em 2026 com estrutura, organização e ambição claras de buscar o bicampeonato. Com canto intenso, evolução fluida e identidade bem definida, a agremiação deixou evidente que o título não foi um ponto fora da curva, mas resultado de um projeto sólido.
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Levando para a rua o enredo “Escrito nas Estrelas”, desenvolvido pelo carnavalesco Fábio Ricardo, a escola apresentou um ensaio envolvente do início ao fim, encerrando o treino em 54 minutos e 38 segundos, contados a partir do primeiro verso do samba de 2026. A Rosas de Ouro será a 5ª escola a desfilar na sexta-feira pelo Grupo Especial, e o próximo encontro com a comunidade acontece no sábado, dia 31 de janeiro, às 21h40. Em 2026, a escola levará para o Anhembi o enredo “Escrito nas Estrelas”, que será desenvolvido pelo carnavalesco Fábio Ricardo. A Roseira será a quinta a desfilar na sexta-feira.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, comandada pelo coreógrafo Arthur Rozas, apresentou uma proposta visual e coreográfica diretamente conectada ao conceito central do enredo. Utilizando um tripé cenográfico, estruturado como um carrossel, o grupo construiu uma narrativa simbólica potente. No topo da estrutura, um globo cenográfico tornava-se elemento-chave da apresentação, abrindo-se em momentos estratégicos da coreografia para revelar um casal que surgia de dentro da alegoria, criando impacto visual e surpresa ao público.
A concepção remete aos ciganos ligados à astrologia e à leitura do destino, traduzindo o tema “Escrito nas Estrelas” por meio de uma estética mística e ritualística. As vestimentas, compostas por túnicas de tecidos brilhantes, cores intensas e cortes fluidos, reforçaram o imaginário cigano, tradicionalmente associado à espiritualidade, à interpretação dos astros e à conexão entre céu e terra.

Coreograficamente, os movimentos eram amplos e circulares, dialogando com o formato do carrossel e simbolizando o movimento dos planetas e constelações. Em determinados momentos, os integrantes se posicionavam ao redor do tripé, marcando o espaço cênico e valorizando a centralidade do elemento, enquanto o casal revelado pelo globo executava passos de ligação entre o destino humano e o cosmos. A leitura visual se manteve clara, com boa ocupação da pista e compreensão imediata da proposta apresentada.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Uilian Cesário e Isabel Casagrande apresentou um ensaio marcado por entrosamento, sincronia e domínio técnico. Desde os primeiros movimentos, ficou evidente a conexão entre mestre-sala e porta-bandeira, com olhares constantes, conduções bem definidas e leitura precisa do ritmo do samba.

Isabel trabalhou a bandeira com leveza e controle, realizando giros amplos e bem distribuídos, sempre respeitando o tempo musical e mantendo o pavilhão protegido. Uilian acompanhou com conduções seguras, variações coreográficas bem encaixadas e posicionamento correto em relação à porta-bandeira, evitando ângulos desfavoráveis e mantendo o foco constante nela.
O casal dialogou com o samba-enredo em movimentos específicos, alternando deslocamentos suaves com momentos de maior intensidade coreográfica, sempre em sintonia com as marcações musicais. Não foram observados episódios de bandeira enrolada, perda de contato visual ou falhas de comunicação corporal, o que reforça a consistência do trabalho apresentado no ensaio.

“Acho que chuva e carnaval não combinam, para começar. O chão também não ajudou. Na chuva, a gente acaba forçando mais o corpo, parece que tem dez pessoas nas nossas costas. Isso acaba sendo uma adaptação para quando colocarmos a fantasia, que também é pesada. Mesmo assim, fluiu. Alcançamos a nossa expectativa por ser o primeiro ensaio. É claro que vamos ensaiar muito mais e que o próximo será melhor, mas fluiu. A nossa análise mais detalhada vem depois, quando assistimos a tudo. Somos muito perfeccionistas e sempre vamos achar que dá para melhorar, porque queremos que fique perfeito. Por enquanto, ainda não é nota dez, mas o objetivo é chegar muito perto disso. A gente coloca muito amor no que faz, sempre com muita responsabilidade. A entrega vai ser total. Acho que vai ser lindo. Estamos rumo ao bicampeonato, se Deus quiser”, disse a porta-bandeira.
“Foi um ótimo ensaio. A gente já estava se preparando para a chuva e, mesmo escorregando um pouco, o sapato estava com antiderrapante. Viemos de coração aberto, tentando encaixar a coreografia com o andamento da escola e também com as novas cabines de jurados. O resultado foi, com certeza, muito positivo. Naturalmente, assistindo aos vídeos e aos conteúdos, vamos identificar alguns pontos de melhoria. Ainda bem que temos tempo para fazer esses ajustes de detalhe, mas o coração está tranquilo. O trabalho está sendo feito ao longo do ano inteiro, e estamos totalmente entregues. A fantasia está linda e existe muita dedicação envolvida. Ela já está pronta; não dá para dar spoiler, mas posso dizer que está como uma joia. Combina com esse momento que estamos vivendo, com essa entrega e essa felicidade”, completou o mestre-sala.
HARMONIA

A harmonia foi um dos pontos mais consistentes do ensaio, mesmo sob condições adversas. Carlos Jr., à frente do carro de som, conduziu o samba com potência vocal, clareza na emissão e excelente interação com a comunidade. A leitura do samba foi precisa, com variações de intensidade que ajudaram a sustentar o canto ao longo de toda a escola.
Mesmo debaixo de chuva, as alas responderam de forma exemplar. O canto se manteve alto, contínuo e distribuído de maneira uniforme pelos setores. Não houve alas apagadas ou dispersas. Pelo contrário, chamou atenção o envolvimento coletivo, com componentes pulando, cantando e demonstrando alegria genuína em desfilar.

Destaque especial para a Ala Inclusão Social, que desfilou cantando com intensidade e entusiasmo, traduzindo o espírito do Carnaval como espaço de celebração, pertencimento e felicidade. O alinhamento entre intérprete, carro de som e comunidade garantiu regularidade no canto do início ao fim do ensaio, sem quedas perceptíveis de rendimento.
EVOLUÇÃO

A evolução apresentou um desenho fluido e bem administrado. A escola avançou de forma organizada, com alas conscientes do espaço e boa leitura da pista. O deslocamento ocorreu sem atropelos, com componentes atentos às correções quando necessário.
Foram observadas alas que ajustaram o andamento para evitar espaçamentos excessivos, com movimentos naturais de recomposição, demonstrando maturidade do conjunto. Não houve comprometimento da leitura visual da escola, e os deslocamentos mantiveram coerência com o ritmo imposto pela bateria e pelo carro de som.

As alas desfilaram com leveza, muitas delas sem rigidez excessiva de fileiras, valorizando o samba no pé e a espontaneidade — característica cada vez mais rara e que merece destaque. Também houve alas coreografadas, que executaram movimentos sincronizados sem prejudicar o andamento da escola.
SAMBA

A campeã do Carnaval 2025, Rosas de Ouro, levará para o Anhembi em 2026 o enredo “Escrito nas Estrelas”, que conduz o público por uma jornada pelo universo, utilizando a astrologia como instrumento de conhecimento, espiritualidade e reflexão sobre a existência humana.
O samba-enredo apresentou rendimento crescente ao longo do ensaio, com excelente sustentação melódica e resposta clara da comunidade. O refrão principal encontrou forte adesão popular, sendo cantado em volume elevado e com boa projeção coletiva.

Carlos Jr. teve papel fundamental nesse desempenho, conduzindo a obra com interpretação segura, chamando o canto em momentos estratégicos e mantendo a energia do carro de som alinhada ao andamento da bateria. A interação entre intérprete e alas favoreceu a leitura correta da letra, sem registros significativos de inversões ou trechos cantados fora do padrão.

A obra, assinada pelos compositores Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinícius, Lucas Donato, Salgado Luz, Fabian Juarez, Fábio Gonçalves, Cabide, Biel e Wagner Forte, demonstrou força narrativa e fácil assimilação, elementos essenciais para sustentar o desfile competitivo que a Rosas projeta para o carnaval.

OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada por mestre Rafa, apresentou identidade própria e controle absoluto do andamento do início ao fim do ensaio. Mesmo sob chuva intensa, os ritmistas seguiram tocando com entrega, demonstrando prazer em desfilar e forte conexão com a obra musical. As bossas foram bem distribuídas, com destaque para a conversa de surdos, mantendo a assinatura característica do trabalho de Rafael Oliveira.

“Avaliei agora há pouco que o ensaio da bateria foi morno. Você comentou que a bateria passou cantando, o que é muito bacana, e o carro de som da Roseira foi nota dez. Mas a bateria ainda estava morna. Instrumentos pesados, a tensão da chuva e outros fatores acabam influenciando. Não foi uma avaliação de erro, não teve nada grave, mas achei um ensaio morno. Isso também é muito típico do nosso primeiro ensaio. Depois do ensaio técnico, a gente entra no pós-ensaio, analisa detalhes, faz cobranças. Eu mesmo começo a ver as coisas com um olhar mais crítico, e isso faz parte; é o padrão do nosso primeiro ensaio de bateria. No ano passado foi assim também — na verdade, já faz cerca de 12 anos que acontece desse jeito. Sempre o primeiro ensaio é assim. Este ano, inclusive, cheguei muito em cima da hora, não peguei o clima nem acompanhei toda a preparação, mas a bateria é ousada e firme no que faz. O que faltou foi um pouco mais de emoção”, explicou mestre Rafa.

Ana Beatriz Godói esteve à frente da bateria com presença marcante. Interagiu com os ritmistas, cantou o samba, dialogou com o público e realizou coreografias em momentos específicos, valorizando o conjunto. A vestimenta utilizada no ensaio contribuiu para o destaque visual, reforçando o protagonismo da rainha na apresentação.

A Rosas de Ouro deixou claro que o Carnaval de 2026 será disputado em alto nível. Com um ensaio consistente, técnico e envolvente, a atual campeã reafirma seu favoritismo e mostra que está preparada para escrever mais um capítulo vitorioso em sua história, desta vez buscando o bicampeonato, como quem já conhece o caminho das estrelas.










