Nesta sexta-feira, a Unidos de Padre Miguel levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado por Lucas Milato. A obra faz celebração à história de Clara Camarão, indígena potiguara que se tornou símbolo da resistência feminina após vencer batalhas contra as tropas holandesas.

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A escola se deparou com um empecilho: após a morte de Felipe Camarão, seu marido, não havia mais registros históricos sobre sua vida, indicando que, para a história, ela só foi relevante enquanto tinha um homem ao seu lado — uma perspectiva antiquada. No entanto, motivados a abordar esse assunto, a escola decidiu criar a ficção de que Clara não morreu, mas se tornou uma figura encantada e adentra às florestas. Para chegar na alegoria, a agremiação faz uma travessia por meio das fantasias.

O estudante de direito Danilo Salvatore de 25 anos
O estudante de direito, Danilo Salvatore, de 25 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O estudante de direito, Danilo Salvatore, de 25 anos, desfila na agremiação há 6 anos. Danilo usava a fantasia Jurema Sagrada, que indica o início da transição de Clara para se tornar um ser encantado.

“A nossa fantasia fala sobre a árvore sagrada. Tem tudo a ver com a Clara Camarão, sobre a travessia. Essa árvore representa muito a Unidos de Padre Miguel, o sagrado. A Unidos de Padre Miguel, dentro da Vila Vintém, é o que tem de mais sagrado lá. Tanto para os componentes da Unidos, quanto para a nossa comunidade, a Unidos é o que tem de mais sagrado. E ela vem falando sobre isso, ela vem representando esse algo sagrado que a gente tanto zela”, diz Danilo.

“A gente sabe que diversos que passaram, que tiveram um marco histórico na nossa humanidade, no nosso Brasil, muitas histórias foram se apagando com o tempo. E a Unido de Padre Miguel faz esse trabalho. Ao invés de deixar a história morta, ela vem ressuscitando a história e mostrando que não. É um povo de resistência. Eles merecem sim ser ouvidos, merecem ser contados nessa história, e é o que a Unido de Padre Miguel vem representando. A Clara Camarão não morreu, a história dela não foi apagada”, completa o estudante.

A assistente social Beatriz Custodia de 26 anos
A assistente social, Beatriz Custódia, de 26 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Outra fantasia que representa essa transição encantada é a “Pai do Mangue”, que aparece como um guia para a homenageada. A assistente social, Beatriz Custódia, de 26 anos, desfila na agremiação há 2 anos e contou como foi levar esse enredo e essa fantasia à Sapucaí.

“A UPM é união, é família, é tudo. É alegria, é diversão. E esse enredo tem uma conexão com a comunidade, com a direção da escola, que é uma direção de mulheres. Acredito que Clara Camarão resiste dentro da UPM, resiste através dessa direção, através da comunidade que é muito forte e que está resistindo depois desse grande baque que a gente levou. Me sinto muito especial dentro dessa ala”, revela Beatriz.

“É uma forma da gente trazer uma justiça para essa personagem, para essa mulher tão importante na história do Brasil. E aí eu volto a repetir: é uma conexão que no século XV das mulheres, dessa forma de resistir a todo o contexto social, a toda a forma de injustiça que as mulheres sofrem, que o povo preto sofre, que o povo indígena sofre. É uma forma bem carnavalizada, bem alegre, bem divertida, mas é sim uma forma de trazer justiça a essa grande mulher do Brasil”, completa Beatriz.

O motorista Julio Ribeiro de 33 anos
O motorista Julio Ribeiro, de 33 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A fantasia que precede o carro da floresta sagrada é “O Gritador”, uma entidade temida da mitologia nordestina. Com seu brado, ele anuncia a morte ou para assustar quem está adentrando ilegalmente no território sagrado da Jurema. O motorista Julio Ribeiro, de 33 anos, desfila na escola a dois anos e contou o que sentiu ao vestir essa o adereço.

“A história em si de você mostrar tudo. Não mostrar só a parte dos indígenas, mas você mostrar uma morte, você mostrar um renascer, mostrar tudo, acho isso muito legal. É justamente isso que essa imagem traz:o medo, de você, de quem é de fora e está entrando em uma área sagrada. Acredito que o medo constrói a pessoa, porque se você não tiver medo, você pode acabar qualquer hora. O medo também mostra que você pode ser muito mais capaz, ao invés de viver na mesmice. Não tem que mostrar só a parte boa, tem que mostrar também que tem a morte. Que você pode renascer, que você pode nascer, crescer e morrer”, avalia.

O cabeleireiro e maquiador Junior Oliveira de 31 anos
O cabeleireiro e maquiador Júnior Oliveira, de 31 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Enfim, na terceira alegoria, que representa o encontro de Clara Camarão com a natureza. O cabeleireiro e maquiador Júnior Oliveira, de 31 anos, é destaque há três anos e acompanha a agremiação desde sua infância. Ele contou a sensação de estar no carro alegórico.

“Nossa, é uma sensação incrível, porque nos faz perceber o quanto a nossa Floresta Amazônica e os povos indígenas foram e são importantes para as nossas vidas. E hoje eu venho representando a encantaria de toda pajelança, trazendo a riqueza dos nossos povos, das nossas terras. É uma energia tão grande e eu sou do Candomblé também, e isso é inexplicável. Só quem está vivendo esse momento pra sentir e pra saber”, diz.

“Faz parte do nosso cotidiano. É tanta luta, tanto preconceito, tanta injustiça, sendo que nossa terra, de onde nós viemos, é essa riqueza. E é isso que nós queremos passar, essa mensagem: que, apesar de tudo, apesar de todo o sangue, todo o sofrimento, há um lugar maravilhoso e iluminado para todos”, conclui Júnior.