A ala de passistas da Acadêmicos do Grande Rio vive um dos momentos mais simbólicos de sua história. Mais do que brilho, técnica e presença cênica, o segmento tem apresentado renovação, consciência cultural e um forte sentimento de pertencimento. Entre projetos de formação, integração com a escola mirim Pimpolhos da Grande Rio e valorização do passista como protagonista do espetáculo, o grupo se consolida como referência dentro e fora da agremiação de Duque de Caxias.

Diretor da ala, Avelino Ribeiro explicou que a base desse crescimento está na formação e na continuidade. Segundo ele, o movimento começou ao observar o que acontecia com os jovens que saíam da escola mirim ao atingirem a idade limite.

“A gente está trazendo as crianças da Pimpolhos da Grande Rio para dentro da ala. Antes, eles completavam 14, 15 anos e não podiam mais desfilar na escola mirim, ficavam vagando. Muitos meninos iam para a bateria, outros iam para outras alas. Então eu trouxe para dentro da ala de passistas masculina e feminina. Hoje nós temos meninas com o corpo mais desenvolvido, mas também temos as mais novas, porque elas são o futuro da nossa escola — e sambam muito. O que a gente procura é que sambe, que tenha alegria e que seja, além de tudo, Grande Rio de coração”, afirmou.
Ele também ressaltou o papel do projeto Samba de Ouro, realizado às quartas e sábados na quadra da escola.
“Ali nós selecionamos os melhores alunos e alunas e colocamos na ala. Nós revitalizamos e renovamos o segmento. Não deixamos de fora os passistas mais antigos, mas mesclamos. E isso está dando muito certo para a gente”, concluiu.
Com quase duas décadas dedicadas à escola, o passista Thiago Soares, que está completando 20 anos de agremiação, amplia a discussão para além da própria escola e fala sobre a importância do passista no contexto do Carnaval.

“Eu acho que não só a ala de passistas da Grande Rio, mas o passista no geral. Todo mundo quer ver o passista passar na Avenida. Dar valor a esse passista que samba no pé, que representa a escola, que leva a bandeira com garra e força é muito importante. A nossa valorização, ter cada vez mais visibilidade, Dia do Passista, Lei Valci Pelé, tudo isso é fundamental. Para o Carnaval 2026, a gente está aí: ‘Mungunzá’ está na rua. Temos surpresas, fantasia bacana, samba no pé e estamos buscando prêmios”, disse, com confiança.
Se Thiago fala da valorização coletiva, Jorge Barbosa traduz o sentimento de pertencimento em palavras profundas. Passista da Grande Rio há 26 anos, professor e doutorando com pesquisa sobre Carnaval, Jorge carrega o samba como herança e objeto de estudo.

“O samba sempre foi muito presente para mim por causa da minha família. Meu avô foi da Velha Guarda da Portela, e eu trago isso comigo. A importância que o samba tem culturalmente na minha vida e na escola é algo de muita paixão”, contou.
Ele pesquisa quatro mulheres sambistas e passistas negras em seu doutorado e já dedicou o mestrado às baianas da Grande Rio. Para Jorge, o sentimento é difícil de explicar, mas impossível de ignorar.
“Tem uma coisa muito difícil de colocar em palavras: o sentimento do sambista quando escuta o tambor. Quando a gente escuta a bateria, o corpo responde. E isso é a glória para a gente. A gente é protagonista da nossa arte, que é o riscado, que é estar na Avenida”, afirmou.
Reconhecido recentemente com o prêmio Passista Samba no Pé 40+, Jorge também levanta a bandeira contra o etarismo.
“Eu acho isso muito importante num momento em que se fala sobre etarismo no samba, principalmente na ala de passistas. Eu ganhei esse prêmio entre as 12 escolas e estou muito feliz. Quem me deu isso foi a Grande Rio e o Avelino Ribeiro. Não posso deixar de falar do meu presidente”, destacou.
A emoção também marcou o depoimento de Carla Beatriz, que tem 37 anos e há 17 desfila pela escola. Trabalhando no barracão da Grande Rio com projetos de turismo ligados ao samba, ela transformou a arte em sustento.

“Hoje eu trabalho especificamente com samba, com Carnaval. Eu sobrevivo disso. É resistência. Samba é resistência. Eu fico emocionada até de falar de conseguir sobreviver de arte, de música, de dança. E eu fico muito feliz em poder representar a Grande Rio, que é de onde eu nasci e fui criada”, disse.
Carla reforça o impacto social da escola, especialmente por meio da Pimpolhos. “A ala está crescendo muito. A Pimpolhos abraça as crianças, oferece projeto social, bolsas de estudo, faculdade. Meu filho hoje faz parte da Pimpolhos. É muito importante todo esse movimento do samba e não deixar o samba morrer”, afirmou.
Representando a força feminina da ala, Juliana Santos, de 29 anos e 15 como passista da Grande Rio, define o segmento como família.

“A minha ala é minha família. A gente briga, se estressa, mas é família. A gente se acolhe, se ama, se ajuda. No mundo em que a gente vive, ter pessoas para contar é muito importante. Infelizmente, a ala de passistas ainda é vista como vulgar, porque a gente vem com o corpo de fora. Mas dentro da ala temos mães, esposas, professoras, advogadas. O samba é o nosso complemento. A gente tem uma vida”, ressaltou.
Técnica de enfermagem e futura enfermeira, ela relembra que entrou na ala aos 15 anos e cresceu dentro do segmento.
“Eu amadureci e aprendi muita coisa com mulheres como Patinha, Marisa Furacão e Tati Feiticeiro, que são exemplos para mim até hoje. Ser mulher, sambista e profissional é muito importante. Eu sou muito grata por fazer parte dessa ala”, concluiu.










