A Renascer de Jacarepaguá deixou os olhares arregalados nas arquibancadas assim que chegou à Passarela Popular do Samba, no último domingo. Com o enredo “A Divina Comédia Brasileira”, desenvolvido pelo carnavalesco Rodrigo Pacheco, a quarta escola da noite mostrou identidade e ousadia ao denunciar a injustiça do abandono social do povo brasileiro, a partir da obra original de Dante Alighieri. O alto investimento na plástica e na estética, a teatralidade da comissão de frente e a sintonia do primeiro casal, Luiz Felipe e Juliana, mostraram a garra da Vermelho e Branco para brigar pelo título da Série Prata este ano. No entanto, o canto da comunidade poderia ter sido um pouco mais alto, a fim de potencializar ainda mais a orquestra do desfile.

COMISSÃO DE FRENTE
Composta por 12 componentes, a comissão de frente do esplêndido Carlos Fontinelle, em seu novo ano pela agremiação, foi um dos pontos mais altos do desfile. A coreografia fez um convite à história de uma criança que estava cercada por seres de um mundo sem esperança. O menino era perseguido por uma liderança do inferno, que depois viria a se transformar em uma figura angelical.
O verso “Meu anjo me guia pra longe do mal” simboliza a mudança na narrativa, com a vida do garoto sendo libertada após a chegada do anjo, que lhe concedeu o poder de ser transformado pela educação. O uso de elementos cenográficos e do vermelho e preto nas fantasias deixou a apresentação ainda mais imersiva e impactante. Excelente.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Luiz Felipe Russier e Juliana Lázaro realizaram uma performance de excelência do início ao fim. O entrosamento do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira era visível: transmitiram a força do enredo no bailado, no canto e com muito samba no pé. Juliana movimentou a bandeira da Renascer com maestria e sorriso no rosto, enquanto o companheiro Luiz Felipe conduziu seus passos com gingado e sintonia. Passaram pelo quarto módulo de jurados com o olhar de satisfação de que fizeram um bom trabalho. Menção honrosa ao momento em que os versos “Chegou ao paraíso / Libertado pela educação” entram em cena e os dois simulam passos de chegada ao paraíso. Em tons de vermelho e amarelo, as fantasias do casal reforçaram a imersão do primeiro setor na atmosfera da temática infernal.

ENREDO
A aposta da Renascer para desfilar na Sapucaí no próximo carnaval, “A Divina Comédia Brasileira”, foi apresentada em três contextos diferentes, mas que, juntos, fazem sentido: o inferno, o purgatório e o paraíso. Alinhado à poesia de Dante, o primeiro setor do desfile procurou mostrar os males do inferno, trazendo a presença de criaturas assombrantes e alusões ao fogo ardente com o uso de cores quentes. Já no segundo, chegou a vez de a escola apresentar o purgatório, onde as almas perdidas lutam para encontrar esperança em meio ao caos, uma clara alusão ao Brasil que procura se manter firme diante das dificuldades.
Por fim, depois do segundo carro alegórico, o paraíso finalmente entra em cena, com a mensagem de que dias melhores chegam. É nele que as pessoas são libertadas do mal e conseguem, por meio da educação, prosperar no “país da ilusão”, sendo representadas pela ala de “formandos”.
EVOLUÇÃO
A Renascer estava leve e à vontade depois do ponto de largada na Intendente Magalhães, concluindo o desfile dentro do limite de 40 minutos. Não houve registros de buracos notáveis ao longo do percurso. A ala que representava um hospital, com os dizeres “Mais hospitais, menos filas. Vidas não esperam”, veio alegre e com emoção.
HARMONIA
O samba-enredo entrou com força na voz do intérprete Leonardo Bessa, que está à frente do carro de som da escola desde 2020. A condução estava para cima, sendo essencial, por exemplo, para a avaliação da comissão de frente e do casal pelos jurados. Mas a comunidade poderia ter colocado mais energia na voz, principalmente ao se aproximar da dispersão. Perto do quarto módulo, alguns componentes cantavam; outros aparentavam estar cansados, talvez devido à temperatura no interior das fantasias somada às condições climáticas na Intendente. De todo jeito, é uma situação que precisa de mais atenção nos próximos desfiles.

SAMBA-ENREDO
A letra foi composta por Carlinhos do Cavaco, Cláudio Russo, Jefinho do Amaral e Julinho Cá. A sacada de trazer à tona a realidade que assombra o dia a dia de milhões de brasileiros, em paralelo a referências de “A Divina Comédia”, de Dante, foi um acerto e tanto. É um tema ousado, fora do comum e que, na Avenida, trouxe reflexão de fácil entendimento em forma de espetáculo.
Sem dúvida, o refrão “No país da ilusão é carnaval / Vai rolar um bafafá / O Renascer coloca a lenha na fogueira / Deixo a comédia brasileira me levar” foi o ponto mais alto do conjunto. Mas os versos “Chegou ao paraíso / Libertado pela educação / Quatro dias de festa me acabo / Ao povo o recado que há salvação” trouxeram emoção para o “gran finale” do desfile: “O Paraíso”.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias da Renascer foi um charme que impulsionou a qualidade do desfile. Estavam luxuosas, chamativas e, talvez o mais fundamental, apresentavam coesão e linearidade à história contada pelo samba. Não é muito difícil perder isso de vista no desenvolvimento do desfile; no entanto, não foi o que aconteceu aqui.
No geral, os materiais transpareciam bom acabamento e ótima qualidade. A fantasia da ala de introdução à atmosfera do paraíso, que carregava roupas em tons metálicos e nuvens na cabeça, estava muito caprichada.
ALEGORIAS
Assim como as fantasias, as alegorias foram um verdadeiro show a céu aberto, dignas de uma escola que tem garra para conquistar uma vaga na Série Ouro. A impressão é que as dimensões geográficas da Intendente se encolheram no momento em que o carro abre-alas, “O Inferno”, chegou. Não há como uma caveira que solta fumaça pela boca, carregando uma imensidão de fogo atrás de si, passar despercebida.
A segunda alegoria, “O Purgatório”, mergulhou de cabeça no enredo. Os componentes aproveitaram o cenário e juntaram criatividade à atuação, incorporando almas que lutavam para sobreviver naquele espaço confuso entre o paraíso, representado por árvores avermelhadas, e o inferno, com seres sobrenaturais.
O último carro, “O Paraíso”, trouxe a personificação de um lugar puro, sem resquícios do mal presentes no purgatório e infestados no inferno. Para isso, a agremiação apresentou a figura do divino, abrindo as portas para o céu e rodeada de detalhes em branco e dourado.
OUTROS DESTAQUES
A musa Vivianne Vianna, que estava à frente do terceiro carro alegórico, deu um show de simpatia e samba no pé ao longo do percurso. Destaque também para a bateria “Guerreira”, comandada pelo mestre Felipe D’Lélis, que desenvolveu o desfile com maestria ao lado do carro de som.










