Por Marcos Marinho, Lucas Santos, Luiz Gustavo, Matheus Morais e Júnior Azevedo

O Paraíso do Tuiuti realizou um ensaio técnico consistente na Marquês de Sapucaí, marcado pela regularidade do canto conduzido por Pixulé e pela bateria de Mestre Marcão, além da noite brilhante do primeiro casal, Vinícius Antunes e Rebeca Tito. Com leitura clara do enredo, resposta positiva do público e organização de evolução ao longo da pista, a escola apresentou sinais concretos de competitividade para o desfile oficial do Carnaval 2026.

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COMISSÃO DE FRENTE

Grande destaque da temporada do Paraíso do Tuiuti rumo ao Carnaval 2026, a comissão de frente apresentou uma encenação aberta pelos eborais, entidades do Ifá afro-cubano associadas à proteção das florestas. Com pintura corporal em tons de azul, cinza e dourado, além de galhos e adornos que reforçaram a dimensão ritual da cena, os bailarinos conduziram a maior parte da movimentação coreográfica, manipulando troncos que evocam árvores e preenchendo o espaço com desenhos corporais de forte presença plástica.

No desenvolvimento dramatúrgico, a cena se aprofundou com a entrada do babalaô, que surge no centro e estende sua esteira no momento em que o refrão principal do samba o evocava. Ao redor dele, cinco componentes com figurinos coloridos, sugerindo praticantes do culto de Ifá, sentam-se para ouvi-lo e, posteriormente, integram a dança coletiva.
A narrativa ganha novo plano quando Elégua aparece do alto do elemento cenográfico, envolto em fumaça, rindo e girando como mensageiro entre os mundos espiritual e material. Na passagem do samba que menciona a expansão do Ifá para o Brasil, um menino surge ao seu lado e estende uma bandeira que une Brasil e Cuba, síntese visual direta do enredo.

A coreografia se organiza de forma espelhada nos módulos 2 e 3, justamente nas cabines espelhadas, enquanto, nos módulos 1 e 4, a orientação de cena se volta diretamente ao júri. Essa construção de diferentes planos, já eficiente na leitura frontal, ganha potência ampliada no dispositivo espelhado, onde simultaneidade e profundidade se tornam ainda mais evidentes.

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O resultado revela a assinatura de David Lima como coreógrafo que articula com destreza a proposta coreográfica com a narrativa do enredo. Desenvolvida desde o minidesfile e amadurecida ao longo dos ensaios técnicos, a comissão vem acumulando precisão corporal e refinamento de desenho, consolidando-se como um dos pontos altos do Tuiuti na temporada.

Após trajetória premiada, incluindo nota máxima e o título da Série Ouro de 2024 com a Unidos de Padre Miguel, o artista chega à escola de São Cristóvão para afirmar um percurso consistente. Pelo que se viu na Sapucaí, a comissão reúne condições concretas de disputar a pontuação máxima no desfile oficial.

“Nota dez. Nós conseguimos cumprir nosso objetivo nas três cabines, conseguimos testar o que não fizemos no sábado anterior, mexer um pouco nas passadas para sentir o clima e ver como poderíamos ajustar, e tudo funcionou nas três cabines. Arrancamos aplausos por toda a Marquês de Sapucaí. Tentamos sempre bater o mesmo tempo que será utilizado no desfile oficial, até porque ensaiamos junto com o casal, com a cabeça da escola, para acertar isso, e é o que fazemos nos ensaios de rua. Porém, o desfile oficial tem muitas surpresas, então testamos uma coisinha aqui, outra ali, que serão utilizadas, mas, no dia do desfile, vocês verão várias surpresas bem diferente”, afirmou o coreógrafo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Vinícius Antunes e Rebeca Tito viveram uma noite brilhante na Marquês de Sapucaí. Vestidos em azul com detalhes dourados, o casal apresentou elegância imediata e confirmou o acerto da parceria firmada para o Carnaval 2026.

Primeiro ano de Rebeca como primeira porta-bandeira do Paraíso do Tuiuti, ela, cria da escola, e estreia da dupla em dança conjunta, a apresentação revelou entrosamento raro para uma parceria ainda recente.

Vinícius, vindo da Unidos de Padre Miguel, atua como articulador da cena: ágil, domina o espaço com firulas precisas e abre caminho para que a porta-bandeira gire e exponha o pavilhão. Rebeca responde com vigor crescente, giros firmes e presença corporal mais solta ao longo da temporada, evidenciando maturidade construída no próprio processo de encontro entre os dois.

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Fotos: Divulgação/Rio Carnaval

A coreografia se inicia com apresentação solene do pavilhão, marcada por elegância e afirmação simbólica da escola. Em seguida, a dança ganha explosão rítmica, com sucessões de giros, brincadeiras corporais do mestre-sala e passagens inspiradas em ritmos latinos no refrão principal. Há momentos de troca de posição e cruzamentos que reforçam a cumplicidade cênica, sempre com Vinícius conduzindo a dinâmica e Rebeca respondendo com graça, sorriso e malemolência afinada ao enredo.

O casal executou com segurança as três apresentações para o júri, mantendo vigor constante. Destacou-se ainda a bandeirada no verso do samba que evoca o verde e amarelo do Brasil, gesto firme que sintetizou a força demonstrada ao longo do ensaio. A aposta do Tuiuti se confirmou: a dupla consolida identidade própria no Grupo Especial e pavimenta caminhos para uma excelente exibição no desfile oficial.

“O saldo foi muito positivo. Graças a Deus, Rebeca e eu temos esse discernimento de entrarmos concentrados no nosso desfile, porque sabemos que aqui a adrenalina toma conta, e isso é natural. Eu costumo dizer que, se a técnica sobrepuser a dança, não estamos fazendo direito. Entramos na avenida muito emocionados, mas pelo lado positivo. Acho que conseguimos dar vida à nossa coreografia, que já era ótima. Então, o saldo, com certeza, é muito positivo”, disse o mestre-sala.

“Estou até um pouco emocionada, porque conseguimos colocar em prática tudo o que vínhamos trabalhando durante esse tempo todo. É gratificante saber que estamos preparados para mostrar o quanto amamos a escola, o quanto nos dedicamos e apresentar uma belíssima apresentação à altura do que o Paraíso do Tuiuti merece”, completou a porta-bandeira.

SAMBA E HARMONIA

O canto do Paraíso do Tuiuti teve no intérprete Pixulé um de seus pontos de maior força no ensaio técnico. A primeira passada do samba, conduzida apenas por sua voz e pelas cordas da escola, recurso já experimentado nos ensaios de rua e no primeiro ensaio técnico, emocionou a Sapucaí ao apresentar, com clareza melódica e palavra bem articulada, o samba de 2026. O próprio cantor define a obra como a que mais gostou de interpretar, percepção que se traduz em condução segura e envolvente do canto coletivo.

A resposta da comunidade confirma a assimilação de um samba que chegou a ser alvo de críticas pelo uso de termos em iorubá. Refrões como “Iboru, Iboya, Ibosheshe / Canta, Tuiuti” e “Babá moforibalé / Babá moforibalé / Orunmilá taladê / Babá moforibalé”, ou passagens como “Ibarabô / Agô lonã, olukumi”, surgem bem pronunciados e amplamente cantados, tanto pelos componentes quanto pelo público. O resultado evidencia não apenas domínio musical, mas compromisso da harmonia da escola com a matriz cultural que sustenta o enredo.

Sustentada pela voz de Pixulé e pela pulsação da bateria de Mestre Marcão, a escola mantém a intensidade ao longo da pista. Ainda que haja leve perda de volume na metade final do percurso, o canto permanece consistente, sinal de um trabalho de harmonia construído desde os ensaios de rua iniciados em outubro. O efeito é perceptível: a Sapucaí já canta o samba com familiaridade, indicando forte comunicação entre escola, comunidade e público.

“Teve uma pequena diferença em relação ao ensaio da semana passada, quando eu declamei o samba todo e, depois, iniciamos a passada de fato. Hoje, não: declamei o samba e já entramos logo no desfile por causa do tempo, e, no desfile oficial, não será diferente. Pixulé vai declamar e já vamos entrar direto lá. A única diferença que haverá é a minha indumentária e outras surpresas que não posso revelar; só no dia do desfile mesmo que vocês vão ver. Eu acho que tudo isso que estou vivendo, o nome que estou tendo no mundo do samba, nunca pensei que iria viver. Não idealizei isso, não passava pela minha cabeça. Até porque eu sou um cara do povo, sou isso que a galera sempre vê: sou o mesmo cara na rua, no show, com a minha esposa, com meus filhos, com amigos. Eu não esperava ser ovacionado pelo público do mundo do samba. Fiquei até um pouco surpreso com isso, com a força com que o público está me abraçando. Estou muito feliz”, garantiu o intérprete Pixulé.

EVOLUÇÃO

A evolução do Paraíso do Tuiuti apresentou dois movimentos distintos ao longo do ensaio técnico. Até a passagem da comissão de frente e do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira pela cabine espelhada, a escola avançou com fluidez evidente, ocupando rapidamente a pista com organização, canto forte e preenchimento lateral consistente. As primeiras alas evoluíram com energia, braços erguidos e interação constante entre componentes e público, reforçando a sensação de leveza e domínio espacial.

Após a travessia pelos módulos centrais, porém, o ritmo tornou-se mais vagaroso. A intensidade corporal e o volume de canto diminuíram, sobretudo nas alas que antecedem o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, configurando um ponto de atenção para o desfile oficial. Ainda assim, a escola preserva momentos de respiro cênico, como o jogo de luzes articulado às bossas de congas da bateria.

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Outro aspecto positivo foi a condução segura da entrada e saída do segundo recuo de bateria, realizadas com tranquilidade e sem rupturas na progressão do conjunto. A oscilação de velocidade observada pode estar relacionada ao formato mais compacto do ensaio técnico da escola, tendência que tende a ganhar maior densidade e preenchimento humano na apresentação oficial. O quadro geral indica uma evolução que cresceu ao longo da última temporada.

“É uma análise muito boa. No primeiro ensaio, o Paraíso do Tuiuti já fez um bom desfile, de bom para ótimo. Tivemos um pequeno problema de evolução na hora de parar a bateria, ainda no primeiro ensaio técnico, e hoje viemos com a meta de corrigir isso. Graças a Deus, conseguimos ajustar o que foi planejado ao longo da semana, do primeiro para o segundo ensaio. Ficamos um pouco tristes por causa da chuva à tarde, que atrapalhou bastante a vinda de alguns componentes, mas, tecnicamente, a escola, no meu modo de ver, foi nota 10. Sobre a questão da evolução, a escola evolui de maneira muito fluida até a cabine espelhada e, depois, vem um pouco mais vagarosa, sem comprometer. É uma estratégia nossa. Compactamos um pouco mais a escola e, como eu disse, o primeiro ensaio foi muito bom, de bom para ótimo, e hoje conseguimos corrigir tecnicamente o que não foi tão bom na primeira apresentação. A expectativa para o desfile oficial é a melhor possível. Graças a Deus, o planejamento de barracão está caminhando conforme o previsto. Estamos entregando as fantasias e finalizando os carros, naquela “cereja do bolo”. Mas, graças a Deus, o Paraíso do Tuiuti está pronto para o desfile da semana que vem”, comentou Leandro Azevedo, diretor de carnaval.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Super Som”, comandada por Mestre Marcão, confirmou-se como um dos pilares do desempenho do Paraíso do Tuiuti no ensaio técnico. Sustentando o samba com cadência firme e pulsação envolvente, o conjunto manteve o componente em canto constante e contribuiu para ampliar a resposta da Sapucaí ao longo do percurso.

Os momentos de maior preciosidade musical surgem nas bossas, especialmente quando as congas avançam à frente da bateria e formam uma meia-lua cênica. Nesse desenho, ao lado de Marcão e do intérprete Pixulé, a rainha Mayara Lima executa coreografia já reconhecida pelo público, criando um quadro de forte impacto visual e sonoro, marcado pela incorporação de referências rítmicas da latinidade cubana presente no enredo. A reação imediata das arquibancadas,  aplausos, registros em celulares e manifestações de entusiasmo, confirma a potência do segmento.

Com samba no pé seguro e presença cênica comunicativa, Mayara mantém conexão direta com o público e reforça o protagonismo performático da bateria, consolidando o setor como um dos pontos altos da apresentação.