O último sábado de ensaios técnicos da Série Especial do Carnaval 2026 movimentou as arquibancadas com enredos poderosos, comissões de frente de tirar o fôlego e baterias mostrando sua potência para fechar a noite com chave de ouro. A favorita da noite, a Vila Isabel, abriu os desfiles com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”. Em seguida, o Salgueiro levou para a avenida o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, emocionando a todos com o canto potente de sua comunidade.
O Paraíso do Tuiuti foi a terceira escola a ensaiar, com o enredo “Lonã Ifá Lukumi”. Fechando a noite com agitação e alegria, a Portela apresentou o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”.
Como a opinião mais importante é a da comunidade, o CARNAVALESCO foi até o público para descobrir o que acharam. Torcedores de diferentes escolas que se apresentaram no sábado foram entrevistados para analisar os ensaios — principalmente o desempenho de suas agremiações do coração, seus sambas e os pontos positivos e negativos.
O ator Yan Rodrigo, de 22 anos, avaliou a noite de forma crítica e destacou seus momentos de ouro.

“Eu achei que hoje foi um dia muito bom, comparado à semana passada. Acho que, por essa ser a última semana, as escolas trouxeram uma força maior para o ensaio, buscando mesmo a vitória.”
Para ele, Vila Isabel e Paraíso do Tuiuti foram os destaques.
“Para mim, Vila e Tuiuti têm essa força principalmente por conta do samba. São dois sambas muito bem escritos, que foram muito bem aceitos pela população do samba. Ainda mais que teve comentários no ano passado sobre sempre se repetirem enredos afro e que a letra do samba da Tuiuti era difícil, porque tem palavras desconhecidas. E eu acho que é por ignorância das pessoas — tanto que o samba tá aí na boca do povo.”
O ator destacou ainda o intérprete Pixulé, o mestre de bateria Marcão e a rainha de bateria Mayara Lima, trio que vem sendo ovacionado.
“Pixulé arrasando na interpretação, Mayara Lima arrasando junto com a bateria do mestre Marcão. Tá fechado um trio ali na Tuiuti que faz a escola explodir na avenida. Acho que a Tuiuti vem há anos tentando emplacar algo assim, e esse samba deu a força que ela precisava.”
O folião também exaltou a troca de carnavalescos da Vila Isabel e o acerto em homenagear Heitor dos Prazeres.
“A Vila deixa um carnavalesco que pensava, enfim, historinhas da branquitude, podemos dizer assim, e chegam dois novos carnavalescos que já colocam na mesa, logo na entrada, Heitor dos Prazeres — um homem negro, pintor, compositor, costureiro. Ele bordava, fazia instrumentos e as listras das bandeiras das escolas de samba que existem hoje em dia foram criadas por ele. Sempre esteve presente junto com a Tia Ciata. Então acho que, além do enredo que essas duas escolas vêm trazendo, o samba faz a plateia desabar.”
Para finalizar, Yan apontou um dos poucos pontos negativos da noite: problemas no novo sistema de som.
“A gente teve um problema muito grande com o Acadêmicos do Salgueiro. O som ficou parado mais ou menos uns 10 minutos. Acho isso um desrespeito com a escola que trabalha há um ano. Só tem dois ensaios técnicos na Sapucaí com o som oficial e aí a escola não consegue trabalhar porque o som não funciona, sendo que foi uma reforma recente para melhorias — e não parece ser o que está acontecendo.”
A emoção de ver sua escola na avenida é um sentimento inexplicável. Para o folião Jorge Luiz, de 51 anos, segurança, essa foi a palavra que definiu o que sentiu ao ver sua amada Vila Isabel.

“A Vila Isabel para mim é coisa de criança, é ancestral, vem de família. Eu amo tudo da Vila: o enredo, a comunidade que faz acontecer, a bateria do Macaco Branco. Difícil falar sobre esse cara que hoje, no patamar do samba, é um dos melhores.”
Emocionado ao ver a escola passar, ele falou sobre a retomada da identidade da agremiação.
“Essa é a Vila Isabel que nós esperávamos. Há anos a gente não conseguia ver essa Vila acontecer, e esse ano tá acontecendo. Pra mim é difícil até falar… é como ver um filho conquistando tudo que queria na vida. É uma realização toda vez que a Vila passa.”
A Paraíso do Tuiuti também encantou o estudante Bruno de Oliveira, de 24 anos, que, mesmo sendo torcedor da Mocidade, declarou sua admiração pela escola de São Cristóvão.

“Foi incrível. Tô até com a voz rouca de tanto que cantei. Acho que o Tuiuti consegue levantar a arquibancada e tá vindo esse ano com uma força muito grande. Tem comunidade, tem quesito, tem rainha e vem pra encantar.”
Bruno também comentou sobre a Portela e a dificuldade de ser a última a ensaiar.
“Eu cheguei cedo, já estava bem cansado, mas fiquei porque tinha que ver a Portela. E não me arrependi. A comunidade tem uma animação diferente, que empolga todo mundo, da frisa à arquibancada. Vale muito a pena ver.”
Encerrando os depoimentos, a professora Daffini de Oliveira, de 31 anos, destacou seu amor pelo Salgueiro desde os 7 anos e se mostrou satisfeita com o enredo proposto pelo carnavalesco Jorge Silveira.

“Eu gostei muito da energia. O Salgueiro costumava trazer sempre sambas afros e esse ano saiu um pouco da bolha. Tá prometendo demais e eu fiquei muito feliz, como salgueirense, de ver minha escola com essa energia lá no alto.”
Questionada sobre possíveis melhorias, a torcedora comentou a divisão entre musas famosas e da comunidade.
“Eu acho sempre incrível, mas talvez o que possa melhorar seja a divisão das musas. Dependendo de como seja no dia, misturar mais comunidade com as famosas seria uma ideia legal, porque hoje ficou muito evidente quem era famosa e quem era da comunidade — e não deveria.”










