A Unidos da Ponte encerrou o Carnaval da Série Ouro sendo, de fato, a única escola do grupo a desfilar na totalidade do seu desfile com o dia já claro. Ficou claro que, se a agremiação pudesse contar com o recurso da luz cênica, poderia abrilhantar ainda mais alguns elementos do desfile. Porém, a Azul e Branca de São João de Meriti apresentou uma proposta leve para retratar a relação do funk com a ancestralidade, encontrando em sua paleta de cores e em suas fantasias e alegorias recursos para aproveitar a luz do sol.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

ponte desfile 2026 11
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

A utilização de materiais menos comuns para desfiles fez parte da proposta, ainda que nem sempre o apuro estético tenha sido o melhor, tanto para alegorias quanto para fantasias. Com apresentações sem grandes erros na comissão de frente, evolução correta e com fluidez, além de alto canto da comunidade, impulsionada pelo desempenho do carro de som comandado por Thiago Britto e Matheus Gaúcho, a Ponte encerrou a noite de forma positiva e com o alto astral do tamborzão.

Com o tempo de 54 minutos, a Unidos da Ponte encerrou a segunda noite de desfiles da Série Ouro apresentando o enredo “Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black”.

COMISSÃO DE FRENTE

Desenvolvida pela coreógrafa Juliana Frathane, a comissão apresentou o enredo a partir da conexão ancestral existente na musicalidade negra, especialmente na cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. A apresentação materializou essa ideia recorrendo a símbolos ancestrais africanos, como o totem, o ebó, as máscaras e os grafismos, e a símbolos contemporâneos, como o alto-falante e o disco de vinil. A integração desses signos marcou o desenvolvimento narrativo da comissão e também reafirmou que passado e presente coexistem.

ponte desfile 2026 04

Os bailarinos eram uma representação abstrata da energia musical negra. O figurino não fez menção a nenhuma entidade específica de alguma cultura de matriz africana, mas simbolizou a energia pulsante presente nos bailes negros. O verso do figurino, majoritariamente na cor azul, representou a ancestralidade em um tempo passado, mas já com embriões do que viria no futuro. A máscara, símbolo de proteção em religiosidades africanas, reforçou a espiritualidade que abre caminhos e afasta energias ruins para que um bom fluxo aconteça no baile.

A frente do figurino, com modelagem e cores mais contemporâneas, simbolizou que essa entidade se transforma com o tempo, se atualiza com as mudanças da cultura e se faz presente na música e nos bailes de hoje. O elemento alegórico representou um totem-paredão, partindo do fato de que, para grande parte das culturas africanas, os totens contam a história de seu povo e representam suas conquistas e feitos. Por isso, no totem, havia símbolos dos bailes negros do Rio.

Na apresentação no módulo, os componentes seguravam os vasilhames ou alguidares enquanto giravam no elemento cenográfico. Enquanto isso, na parte superior, aparecia um DJ que fingia coordenar uma mesa de som, sendo um verdadeiro mestre de cerimônias, MC. Um ponto negativo foi que os efeitos de luz e de fogo apareceram pouco devido à luz do dia, que não os deixava se destacar. Outro ponto interessante da comissão foram os “passinhos” que os componentes faziam no chão e a coreografia de deslocamento com os costeiros coloridos, criando um bonito efeito — esses, sim, aproveitando a luz do sol. Uma apresentação leve, que não se utilizou de grandes recursos, mas apresentou bem o enredo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Thiaguinho Mendonça e Jéssica Ferreira representaram as majestades do black, com figurinos de rei e rainha africanos, com elementos referentes aos bailes cariocas. O casal simbolizou essa conexão entre passado, presente e futuro por meio da música negra e foi protegido pelo conjunto de guardiões da batida real.

Logo no primeiro módulo, a porta-bandeira teve um problema com o chapéu e, em dois momentos, precisou pôr a mão para segurá-lo. Porém, após a apresentação, o problema foi consertado e, nos demais módulos, a performance transcorreu normalmente. A dupla mostrou desenvoltura ao inserir na coreografia alguns passinhos de funk e finalizações com esses movimentos.

ponte desfile 2026 06

Alguns dos pontos altos ocorreram no refrão principal, em que os dois fizeram coreografia “jogando de ladinho”, e quando Thiaguinho, sozinho, no verso “Tem charme no viaduto”, mostrou todo o seu swing, realizando uma rabiscada no chão. Um ponto que pode ser analisado pelo jurado é que, na dança, a porta-bandeira esteve um pouco menos intensa que Thiaguinho, que fez movimentos de grande destaque durante as apresentações nos módulos.

ENREDO

“Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black” trouxe para a Sapucaí um território de memória, identidade e afirmação cultural, onde o funk é tratado como herança, linguagem política e elo comunitário, transformando a Avenida em um grande baile popular.

O desfile foi dividido em três momentos: iniciou com o anoitecer, seguiu pela madrugada e finalizou com o amanhecer. No primeiro setor, nomeado “O Anoitecer”, a escola mostrou o momento em que a noite chega e a cidade se torna palco para o baile. Nesse setor, foi retratado o subúrbio carregado de axé, de energia sagrada produzida pelos ancestrais.

ponte desfile 2026 10

No segundo setor, a Ponte aprofundou formas e estilos predominantes e marcantes nos bailes negros para a cultura e a sociabilidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, ressaltando a coexistência dos tempos e mostrando que, mesmo nos primeiros bailes, já havia algo de hoje.

O terceiro e último setor simbolizou que, por mais que chegue o fim da noite, não é o final do baile. A festa segue enquanto houver gente dançando e agitando a pista. Nesse setor, a agremiação mostrou a reverberação da Black Rio a partir dos anos 1980, apontando como, de suas mesas de som e paredões, surgiu o funk carioca que tomou conta das ruas e levou o baile para o restante do Brasil e do mundo.

ponte desfile 2026 15

Nícolas Gonçalves, carnavalesco da nova geração, mostrou criatividade, trouxe uma narrativa popular, fez misturas pertinentes ao relacionar a cultura atual com a ancestralidade e levou muita leveza para a Sapucaí, finalizando os desfiles da Série Ouro com uma mensagem alto-astral que permaneceu na Avenida, com bastante interação com o público.

EVOLUÇÃO

A evolução da Ponte foi correta. Com um contingente não muito grande, a escola passou longe de correr riscos e não colocou a bateria “Ritmo Meritiense” no segundo recuo. Com evolução fluida, sem apresentar buracos ou grandes espaçamentos, a escola brincou o Carnaval, e a leveza do tema fez com que os desfilantes passassem alegres, interagindo bastante com o público, que respondeu à altura.

Muita gente nas frisas, ainda quando a escola passou, caiu no samba e, por que não, também no funk. Quesito sem grandes intercorrências.

HARMONIA

Thiago Britto e Matheus Gaúcho formaram dupla neste ano pela Ponte e tiveram a missão de transformar um samba fora do lugar comum, com qualidade abaixo das melhores obras do grupo, em uma obra que interagisse com o público e ajudasse a tornar o desfile mais leve e alegre. Pode-se dizer que a missão foi cumprida.

ponte desfile 2026 19

A dupla esteve muito à vontade. Não houve vaidade, com cada um deixando o outro se sobressair no momento certo, além do apoio das vozes muito bem ensaiadas, com destaque para as vozes femininas.

No canto, a Ponte foi muito bem. Já pela manhã, depois das seis horas, a comunidade de São João de Meriti deu seu recado e correspondeu cantando o samba durante todo o desfile. Escola de parabéns em harmonia.

ponte desfile 2026 20

SAMBA-ENREDO

A obra foi composta por Chacal do Sax, Gustavinho Oliveira, Marquinhos Beija-Flor, Gabriel Simões, Raphael Gravino, Brayan Sá, Valtinho Botafogo, Mateus Pranto, Serginho Aguiar, Naval, Alexandre Reis, Renne Barbosa, Leozinho Nunes, Léo Freire, Gigi da Estiva e Jhonatan Tenório.

De fato, como dito anteriormente, o samba não está entre os melhores do grupo: há palavras que talvez não se encaixem metricamente ou que não embelezem a letra, além de trechos forçados no encaixe. Porém, o trabalho realizado pelo carro de som e pela direção musical fez dele uma obra leve, para cima, que, depois de algum tempo, deixou o público acostumado e com vontade de participar.ponte desfile 2026 25

Se deve ser despontuado em alguns pontos, como os citados acima em sua própria avaliação, o samba também ajudou a escola a ter bom rendimento em quesitos como evolução e harmonia. De tom mais profundo na cabeça, ao falar de ancestralidade, a partir do refrão do meio — “Pega a visão, meu irmão…” — o samba se torna mais leve e alegre, com notas em tom maior, tendo ótimo clímax em “O paredão já tá formado”.

ALEGORIAS

Nícolas Gonçalves trouxe o número máximo de alegorias para o desfile da Ponte. De fato, os carros talvez não estivessem no mesmo nível de outras alegorias que passaram, em termos de volumetria e utilização de materiais de maior qualidade. Porém, o carnavalesco soube usar a criatividade e deu às alegorias contexto próprio do enredo.

Sem grande destaque no apuro plástico, cumpriram o papel de contar a narrativa. O abre-alas representou, por meio de estética que une elementos africanos, futuristas e psicodélicos, a musicalidade negra que atravessa os séculos como expressão cultural no Rio de Janeiro. A estética onírica remetia aos sonhos e ao plano espiritual.

ponte desfile 2026 24

A segunda alegoria, “O Baile em São João de Meriti e a Coroação do Black”, teve como base registros históricos que indicam a realização de bailes black na quadra da Unidos da Ponte. Nícolas recriou um desses bailes em linguagem carnavalesca. A alegoria foi majoritariamente em tons de marrom e dourado, fazendo referência à pele negra e ao empoderamento como realeza nos bailes black.

Houve também o predomínio de estampas quadriculadas em preto e branco, em referência à equipe de som Soul Grand Prix, que utilizava estética inspirada nas corridas de Fórmula 1 e representava o clima de competitividade dos bailes. A alegoria foi decorada com discos de vinil reais doados e com formas que remetiam a eles, por serem dispositivos de armazenamento sonoro da Black Rio.

ponte desfile 2026 22

A última alegoria, “Vem pro Baile Funk”, representou um baile funk misturando a estética do subúrbio atual com símbolos modernos e ancestrais. A referência foram os paredões da equipe de som Furacão 2000, carnavalizados com elementos cenográficos que traziam signos do cotidiano das periferias onde aconteciam os bailes.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias seguiu o mesmo caminho das alegorias. Mesmo sem utilizar materiais de alta qualidade, Nícolas foi criativo e conseguiu carnavalizar o universo do funk. Houve ótima utilização de cores vibrantes e tons cítricos, principalmente nos costeiros, aproveitando o brilho do sol.

As baianas, por exemplo, vieram com a fantasia “Nas Vibrações dos Lundus”, abordando a dança e o canto de origem africana em figurino com elementos que remetiam à ancestralidade, como tambores, grafismos e palha. As máscaras com turbantes faziam a conexão do lundu com o presente, por meio da cultura do samba.

ponte desfile 2026 13

Apesar da criatividade, houve pequenos problemas com alas que deixaram elementos no chão e, na ala “Reflexos do Céu”, composta por grupo performático, alguns componentes estavam sem chapéu. Nada grave, mas, em eventual comparação, ainda que o manual de julgamento não recomende, a escola apresentou qualidade estética inferior a outras concorrentes.

OUTROS DESTAQUES

Os passistas vieram com a fantasia “Realeza das Pistas”, em tons de dourado e vermelho, representando como pessoas negras tinham status de realeza nos bailes black. Destaque para o costeiro com penas de pavão carnavalizadas, simbolizando vaidade, e para a cabeça remetendo a um cabelo black power com discos, como símbolo de representatividade negra.ponte desfile 2026 18

A bateria “Ritmo Meritiense”, dos mestres Alex Vieira e Juninho, trouxe a figura do MC com a proposta de que a bateria é a comandante do baile, estabelecendo conexão ancestral entre os MCs modernos e os tradicionais griôs africanos.

No esquenta, Thiago Britto e Matheus Gaúcho cantaram, em ritmo de samba, sucessos do funk carioca. Em seu discurso, o presidente Tião Pinheiro ressaltou o enredo e afirmou que a escola valoriza a cultura popular.