A primeira mulher a liderar uma banda de rock no Brasil abriu caminhos no cenário musical. Foi pioneira na música, no estilo e na atitude, inspirando artistas, fãs e o enredo deste ano na Mocidade. A escola canta a vida de Rita Lee, como “padroeira da liberdade” e abre o desfile evocando a alma transgressora e criadora de tendencias da artista.

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Detalhes do abre alas da Tijuca
Detalhes do abre-alas da Mocidade
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Rainha do Rock revolucionou o gênero no Brasil ao incorporar guitarra elétrica nas composições, sob influência do rock britânico – fato que gerou revolta de outros artistas e passeatas contra o uso da guitarra. Rita trouxe a atmosfera psicodélica que estourava nos Estados Unidos nos anos 1960 influenciados pelo sucesso de Jimi Hendrix e outros artistas, que pode ser ouvido em seus primeiros trabalhos na banda Os Mutantes – ‘Os Mutantes’ (1967), seu primeiro disco solo, Build Up (1969) e permeia por toda sua obra.

Dege Martins
Degê Martins
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Sua influência se estende à atitude e ao poder feminino em uma época de censura e poucas conquistas nos direitos da mulher. Degê Martins, componente do carro que abriu o caminho para celebrar o legado de Rita, vê a artista como revolucionária para a sociedade.

“Rita Lee é uma mulher frente do seu tempo, foi uma mulher que revolucionou a indústria, o mercado musical daquela época, não só o mercado musical como a sociedade em si, numa época em que não se podia ser quem a gente era muitos tabus, machismo, homofobia, e ela botou o dedo na cara do preconceito e falou “eu vou fazer sim, vou mostrar sim”, afirmou.

O caminho visionário que Rita pavimentou desde o início da sua carreira nos anos 1960 e seguido por artistas femininas ate hoje. A própria Rita saúda em sua última Autobiografia Liniker e Luisa Sonza. A componente Degê sugere mais um nome para a lista de Rita: a cantora Ludmilla.

“Ela veio numa época de ditadura, em que as coisas eram muito difíceis, principalmente para as mulheres. E mulheres tinham que obedecer aos homens, tinham que servir. A Rita Lee vir com os seus discos falando sobre amor e sexo, quebrando os tabus. Acaba dando muita influência para as novas cantoras, artistas que vêm depois dela. Ludmilla é uma delas, uma cantora preta, lésbica, mãe, que também está fazendo uma grande revolução e eu acho que eu também é um pouco do legado de Rita”, opinou Dege.

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Maísa Guedes
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A atitude ‘rebelde’ da cantora precede seu nome, e o desfile em sua homenagem não poderia começar de outra forma. Para a componente Maísa Guedes, o carro que traz as estampas fluidas, hipnóticas e tie-dies, e a infame guitarra elétrica que evocam a estética psicodélica, personificam o legado da cantora.

“O carro vem representando a tropicalista do verbo sem freio, que tem tudo a ver com a Rita Lee. Fala sobre liberdade, uma mulher que venceu muitas barreiras, desde muitos anos atrás e deixou esse legado pra gente. Ela inspira todas as mulheres, deixou músicas maravilhosas e muitas dessas músicas estão representadas hoje no enredo da Mocidade. Hoje a gente está aqui praa “ritaleezar”, fazer um “aue” e “bailar comigo”, disse.

O legado de Rita ressoa com a festa que celebra a liberdade, o Carnaval. A ‘Independente’ Degê reafirma a influência da artista ao inspirar a sociedade a ser livre: “A importância dela para o carnaval brasileiro e para todos nós é esse legado de a gente ser livre, ser quem a gente quiser ser, sem se preocupar o que vão achar. Viver com liberdade, é esse o maior legado que ela deixou para a gente”, declarou.

Cintia de Souza
Cíntia de Souza
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Cíntia de Souza marca presença ao desfilar no mesmo carro desde 2017, ano campeão para a escola. A componente conta que ao crescer na década de 1990, viu as canções e opiniões de Rita serem motor de quebra de tabus e conservadorismo clássico da época. Como mulher, a atitude transgressora da artista lhe afeta profundamente.

“Ela abriu muitas portas. Eu cresci nos anos 1990, então era muito ainda reprimido. Hoje em dia você vê que as pessoas se mostram mais, a gente tem mais liberdade, e é graças a pessoas como a Rita Lee que abriram as portas. Essa homenagem é mais do que merecida”, pontuou.

Degê, que é uma pessoa trans não-binária, acredita que o ‘verbo revolucionário’ de Rita Lee foi essencial para abrir o caminho, para que hoje ela possa viver sua verdade com orgulho e liberdade.

“Dizer que eu sou uma pessoa trans não-binária com tanto orgulho, pessoas como Rita Lee, lá atrás, tiveram que sofrer e comer o pão que o diabo amassou. Tiveram que realmente enfrentar esse estigma, essa sociedade, a questão da religião, que vem muito forte na nossa sociedade. Hoje, para eu dizer, com tanto orgulho, quem eu sou, eu devo também um pouco à Rita Lee”, declarou.