A X-9 Paulistana foi a quarta escola a desfilar no Sambódromo do Anhembi, no último sábado, pelo Grupo de Acesso II do Carnaval de São Paulo de 2026. A apresentação da escola da Parada Inglesa foi marcada por um bom conjunto de fantasias, e a atuação primorosa do carro de som e do casal de mestre-sala e porta-bandeira enriqueceram a travessia da Passarela do Samba, concluída após 50 minutos. O enredo da comunidade da Zona Norte foi “Yvy Marã Ei – A Busca pela Terra Sem Mal”, assinado pelo carnavalesco Amauri Santos.

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Após cair para o Acesso II no ano anterior, a X-9 entrou com a responsabilidade de mostrar seu valor como bicampeã do Carnaval e propôs um desfile com temática que já a consagrou no passado. Houve quesitos muito bem apresentados, mas os problemas que a escola teve durante sua passagem, especialmente em Evolução, podem comprometer as expectativas quanto ao resultado da agremiação.

COMISSÃO DE FRENTE

O coreógrafo Pedro Bueno foi o responsável pelo desenvolvimento da comissão de frente, intitulada “O encontro da X-9 Paulistana com o mito guarani”. O quesito representou simbolicamente o encontro da escola com essa cultura originária, por meio da figura do pajé Guirapoty, líder espiritual da mitologia guarani, que recebe de Nhanderu a mensagem sobre a destruição do mundo e a busca pela Yvy Marã Ei, a “terra sem mal”.

A X-9 Paulistana foi personificada por uma protagonista vestida de bailarina, que carregava o símbolo da escola. Durante a dança, um outro indígena, com uma fantasia levemente distinta dos demais, interagia diretamente com ela, que se via em meio à narrativa do mito do surgimento da “terra sem mal”. Foi difícil identificar com clareza a narrativa em meio a poucos elementos visuais, muitas vezes caracterizados apenas por gestos corporais, o que fez a abertura do desfile ser pouco impactante.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

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Fotos: Felipe Araújo e Woody Henrique/Liga-SP

O primeiro casal da X-9, formado por Igor Sena e Júlia Mary, desfilou com fantasias representando “Anhangá e Jurará-Açú (O Espírito e a Mulher-Tartaruga)”. Foi uma apresentação de alto nível, mesmo em meio à chuva constante que caiu durante todo o desfile. A performance estava de acordo com a temática, com o mestre-sala carregando um maracá funcional como adereço de mão, que trouxe um elemento único à dança. Houve o cumprimento de todas as exigências do quesito em todos os módulos em que foram observados, o que, somado à criatividade da dupla, ajudou a melhorar o início do desfile da escola.

ENREDO

A X-9 Paulistana desfilou no Carnaval de 2026 com um enredo inspirado no mito guarani da Yvy Marã Ei, a “terra sem mal”, lugar sagrado onde não existe sofrimento e que pode ser encontrado neste mundo ou em outra dimensão. A narrativa foi construída como um diálogo simbólico entre a escola e o povo originário, acompanhando o ensinamento transmitido espiritualmente pelo criador Nhanderu ao pajé Guirapoty e o significado desse mito como orientação para a vida em sociedade. A proposta destacou a relação entre espiritualidade, natureza e convivência humana, encerrando o desfile com uma reflexão sobre as práticas necessárias para se alcançar essa terra imaculada diante das agressões sofridas pelo mundo nos últimos séculos.

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Analisando a sinopse e com base nos elementos apresentados na Avenida, a sensação é de que a escola tentou abranger informação demais no reduzido espaço que o Grupo de Acesso II proporciona. O elemento contemporâneo foi representado apenas por algumas alas, já direcionando a narrativa para a utópica Yvy Marã Ei. Será preciso aguardar para ver como os jurados interpretarão a densidade do enredo.

ALEGORIA

A X-9 Paulistana desfilou com dois carros alegóricos. A primeira alegoria recebeu o nome de “O incêndio, o dilúvio e a nova morada: Yvy Marã Ei” e representou o incêndio que, na mitologia guarani, foi ordenado pelo Criador Nhanderu para destruir a Terra, de modo a se erguer a “terra sem mal”, seguido da ascensão do pajé Guirapoty ao Yvy Marã Ei. A segunda, nomeada “Imaginando um futuro ancestral”, retratou a utopia de fazer do mundo em que vivemos uma verdadeira Yvy Marã Ei.

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O conjunto alegórico cumpriu sua função narrativa dentro do enredo. O principal problema, porém, foi a qualidade do acabamento dos elementos. Grampos de fixação do plotter que fazia referência às águas no abre-alas estavam facilmente visíveis, além de a separação do corte do tecido estar excessivamente aparente. O segundo carro também apresentou falhas no acabamento de elementos visuais em forma de folhas de plantas, empobrecendo o conjunto visual geral da alegoria.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias apresentado pelas alas da X-9 se propôs a compor a linha narrativa da proposta do enredo dentro do que é descrito pela letra do samba. A representação visual até a Ala 7 retrata elementos da primeira parte da letra e do refrão do meio, com o restante da letra sendo representado no decorrer do desfile.

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Em contraste com o conjunto alegórico apresentado, as fantasias de todas as alas e destaques contaram com bom acabamento e fácil leitura dentro de suas propostas individuais. A leveza e a qualidade dos materiais foram destaque, permitindo aos componentes brincar o Carnaval sem maiores preocupações, fazendo das vestimentas da X-9 Paulistana um dos principais destaques do desfile.

HARMONIA

A comunidade da X-9 Paulistana cantou corretamente o samba ao longo da Avenida. No início do desfile, a bateria da escola apostou em um apagão no refrão do meio, mas foi o único momento em que isso ocorreu, mesmo tendo havido uma resposta satisfatória dos componentes na altura da pista em que foram observados. No geral, os desfilantes fizeram sua parte para enriquecer a apresentação da escola.

EVOLUÇÃO

A escola teve problemas ao longo da Avenida, mesmo com os portões abrindo já com o carro de som cantando o samba. O início do desfile foi lento, e a X-9 precisou acelerar o passo a partir da metade final da passagem pelo Sambódromo. Uma baiana caiu em frente ao penúltimo módulo de jurados do quesito, e a escola continuou andando, o que causou um problema de interação com a destaque de chão que vinha logo atrás e também a abertura de um buraco em relação à ala seguinte. Também foram observados excessos de abertura de espaços entre elementos, em especial durante as apresentações do primeiro casal pelos módulos. Os portões foram fechados com exatos 50 minutos e 33 segundos, evidenciando as dificuldades do quesito no desfile.

SAMBA-ENREDO

Assinado pelos compositores Gui Cruz, Clayton Reis, Portuga, Reinaldo Marques, Imperial, Rogério, Digo Sá, Luciano Rosa, Luizão, Willian Tadeu e Vitor Gabriel, o samba-enredo da X-9 Paulistana foi defendido na Avenida pelos intérpretes Daniel Collête e Royce do Cavaco. Da primeira parte da letra ao refrão do meio, o mito guarani do surgimento da Yvy Marã Ei é retratado com considerável detalhamento. A segunda parte retrata a destruição da natureza nos tempos atuais e o anseio para que o mundo consiga alcançar um estado equivalente ao da “terra sem mal”.

É uma letra carregada de poesia e que conta com uma melodia serena, mas, ao mesmo tempo, poderosa. Consegue narrar o enredo com fidelidade, sem pecar na proposição de ser cantado pela comunidade em um desfile carnavalesco. Na Avenida, o samba foi interpretado com maestria pelos veteranos intérpretes, enriquecendo, assim, o desfile da X-9 Paulistana.

OUTROS DESTAQUES

Se houve um destaque especial e imponente além dos apontados, esse foi a Rainha da bateria “Pulsação Nota 1000”, Valéria de Paula. Além da beleza exuberante e de muito samba no pé, a majestade mostrou que não esteve na Avenida apenas para levantar o público, ajudando a fechar o espaço do recuo dos ritmistas em grande estilo. Os comandados do mestre Keel também tiveram um bom desempenho, apostando em um apagão bem executado e em bossas criativas que contribuíram positivamente para o desfile da X-9 Paulistana.