Por Gustavo Lima, Ana Carla Dias, Letícia Sansão e Will Ferreira

Aparentemente, qualquer risco de chuva resolveu dar uma trégua para os Gaviões da Fiel. Em uma tarde marcada por chuva e com seis escolas ensaiando neste sábado, a agremiação do Bom Retiro foi contemplada com um treino totalmente ao ar livre. Este foi o primeiro ensaio técnico dos alvinegros, que já deram mostras claras de que vão brigar pelo título. A tão sonhada quinta estrela pode, sim, virar realidade.

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O que se viu na pista foi arrebatador. Sem exageros, o melhor ensaio dos Gaviões da Fiel dos últimos tempos. O grande destaque ficou por conta do canto da comunidade: todas as alas animadas, cantando a plenos pulmões, demonstrando garra, força e conseguindo trazer a arquibancada para dentro da pista.

Os demais quesitos também apresentaram alto nível: comissão de frente criativa, evolução solta e bem trabalhada, casal de mestre-sala e porta-bandeira esbanjando elegância e um samba-enredo que rendeu à altura de sua letra, considerada uma das melhores da temporada. Um ensaio para a comunidade do Bom Retiro se orgulhar. Agora, resta observar se a escola manterá o mesmo nível no próximo técnico, marcado para o dia 24/01, exatamente daqui a uma semana.

Os Gaviões da Fiel levarão para o Anhembi o enredo Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã, sendo a quarta escola a desfilar no sábado de Carnaval, com assinatura dos carnavalescos Júlio Poloni e Rayner Pereira.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Helena Figueira, a comissão de frente dos Gaviões da Fiel apresentou uma encenação complexa e totalmente alinhada ao enredo. Os bailarinos, vestidos em tons de marrom e com estética indígena, executaram uma performance em torno de um objeto semelhante a um caldeirão, de onde saía fumaça, referência à yakoana, substância utilizada pelos xamãs Yanomami para se comunicarem com os espíritos xapiris. Esses espíritos conduzem a narrativa do enredo e do samba da escola.

A leitura foi clara, sustentada por uma dança envolvente. Os bailarinos cumpriram bem a missão de apresentar a escola, saudando o público com formações bem desenhadas, ocupando a pista de forma organizada, ora juntos, ora separados.

Ainda dentro da comissão de frente, três pilares foram carregados, cujo significado não pôde ser identificado por estarem cobertos com plástico, mas tudo indica que fazem parte de algum elemento cenográfico que trará contraste visual ao desfile.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Em meio à forte chuva que caiu na cidade de São Paulo durante a tarde e a noite, o casal Wagner Lima e Carolline Barbosa teve sorte: foram os únicos a encontrar a pista completamente seca. Com isso, puderam desempenhar seu trabalho com excelência, esbanjando elegância e cumprindo todos os requisitos do quesito: sorriso constante, sincronia nos giros, olhares bem marcados e perfeita adequação à coreografia do samba.

Carolline Barbosa, cria da escola, demonstra evolução a cada ano, ao lado do experiente Wagner Lima, que há muitos anos defende o pavilhão alvinegro. Destaque também para o figurino: ambos vestindo trajes claros e com o rosto pintado, compondo uma indumentária criativa, na busca pela tão desejada nota máxima, os 40 pontos.

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“Quando a gente fala de dança, a gente fala também de perfeição. Sempre existem detalhes para ajustar: um movimento mais calmo, outro mais rápido, a abertura do pavilhão, pequenos tempos que a gente ainda quer lapidar. Mas o projeto que a gente pensou conseguiu ser colocado na pista hoje. Por ser o primeiro ensaio técnico, foi muito positivo. Acho que é trabalhar ainda mais algumas aberturas para os jurados, aquele tempinho de respirar, acalmar e apresentar melhor. São detalhes quase imperceptíveis para quem assiste, mas para a gente fazem diferença. Pelo que a gente está vendo no barracão e na quadra, o público pode esperar uma Gaviões grandiosa. Sempre empolgante, sempre impactante. Este ano vem com mais cores, mais fantasias, carros alegóricos maiores. A escola está com muita vontade de buscar essa estrela”, comentou o mestre-sala.

“Foi o nosso primeiro contato com a pista e com as marcações das cabines de jurados, que esse ano mudaram um pouco. A gente veio calmo, tranquilo, e conseguiu executar a coreografia do jeito que ela foi pensada no papel. A coreografia já nasceu adaptada para a pista, porque cada jurado está em um ponto diferente. Então existem pequenas adaptações, mas o saldo desse primeiro ensaio é muito positivo. É o primeiro ensaio, é natural esse ajuste fino. A gente vai se corrigindo, lapidando, encontrando pequenas coisas para mostrar ainda mais. Mesmo assim, saímos muito felizes com esse primeiro ensaio. Uma escola forte, cantando unida, com garra, com cor, com brilho e com dança. Da nossa parte, na dança, é levar alegria para quem estiver assistindo, apresentar uma dança bonita e enaltecer ainda mais a tradição da dança de mestre-sala e porta-bandeira”, completou a porta-bandeira.

HARMONIA

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Uma verdadeira virada de chave aconteceu nos Gaviões da Fiel. O canto da escola está extremamente forte e contagiante, a ponto de influenciar diretamente a arquibancada. Se no Carnaval 2025 a comunidade teve dificuldades com o samba “Irin Ajó Emi Ojisé”, desta vez a Fiel assimilou rapidamente a letra da trilha sonora de 2026 e cantou como um verdadeiro rolo compressor.

É natural que, nos momentos finais do ensaio, a intensidade diminua em função do desgaste físico, mas o fato é que o quesito Harmonia foi o destaque do treino. O refrão de cabeça merece menção especial: curto, explosivo e com uma construção melódica ascendente, utilizando palavras oxítonas e proparoxítonas que favorecem a entonação e o aumento da energia. Exemplos: Yandê, aponta, direções, gaviões.

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“Senti um clima muito bom. A gente está fazendo o combinado, passando com a escola grande e o povo cantando o samba. Agora é só complementar no dia oficial, com as fantasias e as alegorias A expectativa é a melhor possível. No ano passado, a gente bateu na trave. Se não fosse a nota do samba-enredo, com a qual eu não concordo, a gente já teria sido campeão. Este ano, a gente veio para confirmar: vamos brigar pelo título. Está todo mundo fechado com o samba, a escola inteira e a torcida também”, afirmou o intérprete Ernesto Teixeira.

EVOLUÇÃO

Os componentes desfilaram de forma leve e solta, sem o tradicional militarismo de fileiras retas. Orientados pelo trabalho da harmonia, os desfilantes dançaram, se movimentaram de um lado para o outro e fizeram coreografias em diversos trechos do samba.

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No verso “Flecha que aponta”, todos simulavam o movimento de arco e flecha com o braço estendido para o lado esquerdo. No refrão do meio, os braços eram abertos e movimentados para a direita e a esquerda. Já no trecho “Xawara levanta o sonho e mata, padece / Mas eu sou a voz que conhece o segredo das nossas raízes”, a comunidade balançava o corpo de um lado para o outro, criando um belo efeito visual com os adereços de mão. Por fim, em “É hora de reflorestar o pensamento”, os braços eram erguidos para, logo em seguida, explodir no refrão de cabeça.

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Uma verdadeira aula de evolução. Criativa, dinâmica e bem alinhada com o samba.

SAMBA-ENREDO

Interpretado por Ernesto Teixeira, o samba dos Gaviões da Fiel, mantendo a pegada apresentada no ensaio, tem tudo para se tornar o melhor da escola em muitos anos, algo que não se via há uma década ou mais. A força do canto da comunidade e a resposta da arquibancada reforçam essa impressão.

Destaque para os efeitos sonoros novamente utilizados no carro de som, sob comando do diretor musical Rafa do Cavaco, responsável pelas introduções, arranjos de cordas e orientações ao intérprete. Um verdadeiro craque desde que assumiu a ala musical da escola, mantendo também a excelência de entrosamento com a bateria “Ritmão”.

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Ernesto Teixeira se mostrou confiante, só aguardando o dia oficial para sacramentar o bom desfile. “Senti um clima muito bom. A gente está fazendo o combinado, passando com a escola grande e o povo cantando o samba. Agora é só complementar no dia oficial, com as fantasias e as alegorias”, diz o intérprete.

Seguindo a linha na busca pelo título, o cantor bateu na tecla sobre a nota errada do quesito samba-enredo, mas diz que a briga pela taça está de pé. “A expectativa é a melhor possível. No ano passado, a gente bateu na trave. Se não fosse a nota do samba-enredo, com a qual eu não concordo, a gente já teria sido campeão. Este ano, a gente veio para confirmar: vamos brigar pelo título. Está todo mundo fechado com o samba, a escola inteira e a torcida também”, afirma.

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OUTROS DESTAQUES

A bateria “Ritimão” segue priorizando técnica e sustentação do samba. O mestre Ciro opta por um desfile mais linear, com menos bossas, executadas apenas quando o regulamento exige. Merece destaque a paradinha realizada em frente à arquibancada monumental durante o refrão do meio: surdos marcando, comunidade, arquibancada e ritmistas cantando em uma só voz.

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

“A gente curtiu muito o ensaio. A bateria aproveitou, o clima estava bom. Foi um ensaio gostoso de fazer, a galera estava à vontade, com energia boa. No geral, a sensação foi muito positiva. “Claro que sempre existem detalhes para acertar. É aquele discurso que se repete todo ano, porque sempre dá para melhorar. Às vezes é uma resposta de bossa, uma atenção maior em algum detalhe, principalmente na sincronia com o carro de som. Esses ajustes precisam ser feitos e vão ser trabalhados. Tenho certeza de que, até o próximo ensaio, isso já vai estar resolvido. “A ousadia fica por conta das bossas. Tem umas bossas bem legais que a gente está preparando. É ir para cima e fazer acontecer. “O ano passado foi uma demonstração de que a Gaviões voltou a brigar pelo título. Este ano a escola vem muito forte. A energia está boa, o barracão está maravilhoso, o povo está esperançoso. É isso que a gente precisa”, explicou mestre Ciro ao CARNAVALESCO.

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A presença de Sabrina Sato como rainha de bateria é um espetáculo à parte. Por onde passa, atrai multidões. Sempre sorridente, interagindo com o público, mandando beijos e exibindo muito samba no pé, mais uma vez levou o Anhembi ao delírio.