O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Foto: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Alex Santiago, que divide o cargo de carnavalesco da Novo Império com Elvis Luiz e Jorge Caribé, se debruçou, em detalhes, sobre o enredo “No canto sagrado dos pajés e curandeiros, a cura que brota da floresta”, defendido neste ano pela agremiação na Série Bronze.
“Em 2026, a Novo Império trabalha a cura por meio da força ancestral da floresta. A gente vai fazer uma exaltação de todo esse saber passado de geração em geração, utilizando as folhas e demais elementos empregados para que essa cura seja corporal, mental e espiritual. Além das flores e folhas, essa cura da qual falamos vem das matas, da espiritualidade, dos banhos, das bênçãos, da fala, do sorriso e da alegria”, explicou Alex.
O profissional recordou o processo de escolha do tema, que surgiu por sugestão de Ney Lopes.
“Ney Lopes trouxe essa proposta para mim a partir de uma foto e de uma música antiga. Aí eu falei: ‘Olha, dá para pensar em um novo enredo e um novo samba em cima desse projeto inicial’. A gente foi discutindo e começou a tecer uma linha, em que se entende que esse saber ancestral tem um viés indígena e outro africano. Ele atravessa o oceano e vem se unificar aos saberes dos povos indígenas brasileiros, juntamente com os saberes dos portugueses e da própria Igreja Católica, formando um grande sincretismo em prol da cura”, contou Alex.
O carnavalesco ainda detalhou o projeto do desfile.
“A escola vem colorida, com fantasias diversificadas, grandes e volumosas. Vamos levar dois tripés, um carro alegórico e 19 alas. No primeiro setor, eu venho trabalhando essa questão da travessia africana do oceano. Os ancestrais africanos trazem saberes que vêm parar no Brasil. O segundo setor traz a questão dos pretos-velhos Catende, que, no sincretismo, vinculam-se a São Benedito, santo católico que utilizava as raízes e as folhas das matas para curar as pessoas. No último setor, a gente vem trazendo a cura que ultrapassa apenas as folhas. Nos debruçamos sobre a alegria do Carnaval e dos Doutores da Alegria. Uma cura além dos remédios, que passa pelo espírito, pelo sorriso e pelo samba”, disse ele.
O desenvolvimento conceitual e estético do cortejo encontra limitações operacionais na Intendente Magalhães, como relatou Alex Santiago, mas, apesar disso, a Novo Império aposta cada vez mais em sua equipe para levar ao público da região um espetáculo do mais alto nível.
“O grande desafio é a gente conseguir o contingente. Acabamos competindo, às vezes, com escolas da Sapucaí. Seiscentos componentes é um quantitativo gigantesco. Também tem a questão da logística de chegar à Intendente. As ruas laterais são estreitas, então não se pode pensar em carro alto, carro grande. Isso limita a questão da escultura. A escola, no entanto, passa por um crescimento. A gente era do Grupo de Avaliação no ano passado; este ano, a gente está na Série Bronze e vem se fortalecendo cada vez mais. Foi feita uma reestruturação da equipe, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira. Os nossos três carnavalescos têm, cada um, o seu potencial. Construímos um carnaval competitivo, grande e esperançoso”, finalizou Alex.
O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Fotos: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Pablo Azevedo e Renato Vieitas, carnavalescos do Acadêmicos do Dendê, da Série Prata, falaram sobre o enredo da escola e também sobre a alegria e os desafios de trabalhar na Intendente Magalhães.
“O nosso enredo para 2026 é ‘No Carnaval de Sete Mares, Vai Dar Zebra’, uma homenagem ao Clube da Portuguesa, que tem uma mascote bem faceira, a zebra. Dado o histórico do clube de promover grandes carnavais, acompanhamos, no desfile, a jornada de sua mascote, uma apaixonada pelo carnaval, partindo dos mascarados de Veneza até chegar à Ilha do Governador, sede da Portuguesa e do Acadêmicos do Dendê. No caminho, a zebra pega uma gôndola e passa por diversas ilhas do Oceano Atlântico, conhecendo o carnaval de cada uma delas. Uma vez na Ilha do Governador, narra a gloriosa história do clube e termina com uma grande festa carnavalesca para brindar, nessa galhardia, como outrora, o gran finale”, explicou Pablo.
Renato contou que a ideia do enredo partiu da diretoria da escola e foi, então, abraçada pela dupla criativa, que adicionou seu tempero pessoal à construção do desfile.
Renato Vieitas
“A ideia do enredo surgiu logo quando recebemos a confirmação de que seríamos os carnavalescos do Acadêmicos do Dendê. A homenagem foi uma proposta do presidente. Tivemos, então, a grande sacada de mobilizar a mascote da Portuguesa como fio condutor. Acredito que conseguimos explorar a história carnavalesca e futebolística do clube de uma forma bem lúdica, colorida e alegre”, disse.
Sob esse viés, Pablo pontuou que a união do carnaval e do futebol, as duas grandes paixões do carioca e do insulano, levará identificação e muita emoção à Intendente.
“Estamos com uma abertura de grande impacto, um final também de grande impacto e algumas surpresinhas no meio do desfile. Acredito muito que essa zebra ficará bastante feliz ao final do desfile”, declarou.
Para Renato, por sua vez, o grande diferencial do cortejo serão as cores, sobretudo no início do desfile.
Renato e Pablo comentaram ainda sobre a experiência profissional na Intendente Magalhães, via que serve de palco para os desfiles do Grupo de Avaliação, da Série Bronze e da Série Prata (quinta, quarta e terceira divisões do carnaval carioca, respectivamente).
“Fazer carnaval na Intendente é bem difícil, não somente pelo orçamento, mas também pela estrutura. Não há um barracão igual para todas as escolas, em nível de Cidade do Samba. Não se podem construir alegorias grandiosas; os carros são apertados, arrochados”, analisou Renato.
Pablo também descreveu as limitações impostas às últimas divisões do maior espetáculo da Terra.
“Fazer carnaval ali é reciclar, é reaproveitar. A gente não pode abusar muito das dimensões, nem para o lado, nem para cima — embora gostaríamos muito. É um misto de desafio e prazer ao mesmo tempo. É um Carnaval de raiz, do povão mesmo. A Intendente não tem a visibilidade da Sapucaí, mas é um carnaval que traz um pouco daquela nostalgia do passado, assim como o nosso enredo”, destacou.
Ambos reconheceram, no entanto, a potência de atuar nesses segmentos.
Pablo Azevedo
“Não há camarotes grandiosos que abafam o som das escolas e afastam o público da avenida. É também uma grande escada para chegar ao topo. É uma escola de fazer escola de samba”, pontuou Pablo.
“Ver aquelas pessoas na arquibancada, quase tocando nos componentes, saindo de suas casas para ver e prestigiar a gente, é muito gratificante. Passar pelo trecho final, depois daquela curva, é a melhor coisa que tem”, compartilhou Renato.
Por fim, Pablo propôs ao poder público uma reflexão acerca das condições de atuação das escolas e dos profissionais da Intendente Magalhães.
“O poder público pode olhar com mais carinho e atenção para as escolas de lá, principalmente no que diz respeito às estruturas para a construção do carnaval. Quem sabe a Intendente não ganhe, no futuro, uma Cidade do Samba própria?”, questionou o condutor criativo da agremiação do Morro do Dendê.
O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Foto: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Thiago Braga, carnavalesco da Alegria de Copacabana, da Série Bronze, revelou detalhes do enredo de 2026, “Tranca Rua”, e descreveu a experiência de estrear à frente de uma escola no Carnaval carioca.
“Esse enredo, embora tenha um nome bem curtinho, tem uma miríade de significados. Ele traz para o Carnaval a temática da religiosidade. Claro, com muito respeito, cuidado e pesquisa para não ficar caricato nem ofensivo, mas, ainda assim, de maneira carnavalizada, porque Carnaval é festa”, defendeu.
“Eu sou de axé, então tive que me consultar com os orixás antes de aceitar, para ter autorização deles para falar sobre eles. A recomendação foi que, desde que não seja caricato e desrespeitoso, está valendo”, complementou.
Para isso, o artista apostou na criação de uma entidade própria da escola, o Tranca Rua da Alegria, a ser homenageada e invocada pela avenida até sua coroação final.
Cultuados na Umbanda e na Quimbanda, os Tranca Ruas são uma linhagem de Exus que atuam como guardiões dos caminhos, abrindo e fechando estradas espirituais.
“O Tranca Rua é uma entidade muito cara à Alegria de Copacabana, é o Exu da escola”, pontuou Thiago Braga.
Em seu primeiro desfile com assinatura própria, Thiago contou que a ideia do enredo partiu da diretoria da escola.
“Eles queriam trazer essa força para ter um reencontro com a comunidade e com a história da Alegria. Eu topei o desafio e comecei a pesquisa em abril, ainda sem saber se seria mesmo o carnavalesco. Conforme a pesquisa foi avançando e a gente foi conversando, a gente fechou, e foi quando ficou decidido que seria Tranca Rua”, recordou.
Tradicional bloco de enredo do Carnaval carioca, fundado em 1964, a Alegria de Copacabana ingressou como escola de samba na Intendente Magalhães no ano passado, na Série Prata, após 37 anos longe das passarelas. A sorte de estreante, no entanto, não veio, e a agremiação acabou deixando a terceira divisão da disputa.
Neste ano, na Série Bronze, a escola aposta em novas estratégias para conquistar o público e os jurados, a começar pelo condutor do desfile.
Graduando em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thiago Braga tem experiência anterior na pesquisa de enredos.
“Antes de ser carnavalesco, eu já era sambista. Sou da harmonia, torço pela Imperatriz Leopoldinense. Nesse sentido, a gente pensa em algumas questões que talvez outros profissionais que não vivem o samba não priorizem. A estética é importante, mas a liberdade de movimento do componente também, assim como o fôlego. Às vezes, há um equilíbrio maior quando já se esteve do outro lado”, argumentou.
Sua primeira experiência, no entanto, já foi suficiente para comparar o tratamento dado aos criadores da Intendente em relação aos da Sapucaí.
“A gente sente que a valorização do Carnaval começa do Acesso para cima; do Acesso para baixo, a conversa ainda é outra. Existe uma subvenção muito mais fraca, que passa por uma questão política. Quando há interesse e vontade de fazer o negócio acontecer desde a base, você tem iniciativas maiores do que as que existem hoje. Da mesma maneira que a arte sempre fez ao longo da história da humanidade, a gente continua fazendo e vai sendo visto aos poucos. A tendência é melhorar, acredito”, expressou.
Esperançoso quanto ao futuro da festa popular, Thiago se mostrou animado para o desfile da Alegria de Copacabana em 2026 e deu detalhes:
“Haverá muitas cores quentes. O primeiro setor vai tratar de uma canção de Lia de Itamaracá, ‘Mar de Fogo’. A gente começa com o Mar de Fogo se abrindo para a chegada desses Exus. Eles vêm no dendê, no fogo, na chama, na gargalhada. A gente finaliza com entidades da Umbanda Sagrada, como pretos-velhos, crianças e caboclos.”
O artista exaltou ainda a proposta conceitual e sociopolítica do desfile.
“Exu representa o favelado, o preto, o sambista, o macumbeiro, assim como o rico e o branco. Ele é a humanidade. O diferencial do desfile, sem dúvidas, é a emoção, porque o povo do samba, na sua origem, é um povo preto cuja religiosidade foi apagada durante muitos anos”, finalizou.
O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Foto: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Andy Rocha, enredista da Unidos do Villa Rica, da Série Bronze, defendeu o tema do desfile da escola — “O Poeta do Sertão: João do Vale” — além de relatar a emoção de estrear na Intendente Magalhães como parte do time de criação de uma agremiação.
“O enredo traz a trajetória de João do Vale desde Pedreiras, onde ele nasceu, no sertão nordestino, até sua chegada ao Rio de Janeiro, onde suas composições foram eternizadas nas vozes de ícones da música popular brasileira, como Maria Bethânia, que gravou ‘Carcará’”, disse.
Também músico, Andy contou que, ao escutar ‘Carcará’, ficou curioso para saber quem era o compositor da canção. Foi então que descobriu João do Vale e passou a se debruçar sobre sua vida pessoal e discografia.
“Me senti pertencente à história dele, que reflete a realidade da comunidade do Tabajara e toda a desigualdade que se vive no Brasil. É um enredo popular e muito próximo do público. Toda pessoa que estiver na Intendente Magalhães vai se identificar com figuras e momentos de vida retratados”, relatou.
Ao tomar conhecimento da homenagem, a família do poeta, falecido em 1996, ficou tão feliz que o neto, Gabriel do Vale, entrou em contato com a escola e se ofereceu para contribuir com o processo criativo.
“Estamos muito felizes de, além de agradar o pessoal do Nordeste e o povo do carnaval, proporcionar esse momento à família, que é o berço onde ele deixou seus descendentes”, celebrou o enredista.
Nascido na comunidade do Tabajara, da qual a Villa Rica faz parte e onde permaneceu até os 20 anos, Andy trilhou seus primeiros passos no mundo do samba por meio do Carnaval virtual, traduzindo em linguagem gráfica e digital a riqueza plástica da maior festa da Terra.
“Fui convidado pelo carnavalesco Marco para fazer parte da comissão de carnaval, por acaso, em uma escola de samba de onde sou cria. Para mim, está sendo muita felicidade. Estou em casa. Vou lembrar disso nos próximos anos. Vai ser uma grande experiência. Já está sendo, na verdade. Estou gostando bastante”, descreveu o jovem.
Para o desfile, Andy Rocha promete conquistar a Intendente Magalhães com muita potência e cultura.
“A comunidade e o público podem esperar um desfile muito colorido, alegre, de muita festa, de muita cultura, religiosidade e, principalmente, de muita emoção. Vai ter bumba-meu-boi, tambor de crioula, entre outras manifestações culturais com as quais ele teve contato durante sua vida. Se o Brasil não deu a devida valorização a João do Vale durante sua vida, a Villa Rica tem hoje a possibilidade de fazer isso”, finalizou o artista.
O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Foto: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Plínio Santos, carnavalesco da Acadêmicos da Rocinha, da Série Prata, detalhou a criação do enredo da escola, que mistura elementos factuais e místicos.
“A Rocinha traz para o Carnaval 2026 um resgate da nossa ancestralidade no que diz respeito aos saberes de terreiro, às nossas raízes de matriz africana. Para isso, criamos um itan. Dentro da Rocinha, existia uma figueira e uma casinha de Exu que foram destruídas por presidentes passados sem pedir permissão, sem fazer oferendas, sem nada. Depois disso, a Rocinha começou a escurecer os seus caminhos, seus carnavais, e chegou a estar na Intendente Magalhães, como está hoje. A gente propõe, portanto, esse resgate, cultuando os orixás, agradando o nosso padroeiro e fazendo as oferendas necessárias para que os caminhos sejam abertos para a Rocinha”, explicou Plínio Santos.
Ele contou que a ideia inicial do enredo partiu do diretor de carnaval e cria da comunidade, Rafael Gonçalves, sendo depois desenvolvida pelo enredista Giovanni Ferreira e por toda a equipe de criação.
“Cada detalhezinho, cada coisa que nós estamos criando, nós pensamos na nossa comunidade. A gente, por exemplo, faz uma homenagem aos três blocos fundadores da escola. Quem descer o morro para vestir uma fantasia vai se identificar com todos os resgates que a gente está fazendo, tanto do morro quanto da própria escola”, revelou o carnavalesco.
Nesse sentido, Santos destacou que o apoio da comunidade é essencial para viabilizar um carnaval na Intendente Magalhães, onde as dificuldades financeiras são notórias.
“Quando você abraça seus segmentos, quando você deixa eles confortáveis, eles vêm, fazem vaquinha, oferecem mão de obra sem cobrar nada. Na Intendente Magalhães, se você não cativar a sua comunidade para que ela venha para a quadra, não há Carnaval. Para que comprem uma água e, através desses dois reais, você possa comprar um paetê. Para que a presença do público sensibilize os patrocinadores, os pequenos mercadinhos de bairro, sobre o quão importante é investir naquela comunidade. Só a subvenção não dá”, argumentou.
Apesar dos desafios, Plínio Santos prometeu uma Rocinha diferenciada e pronta para buscar o título.
“A escola não está negando nada em termos de material. A Rocinha vem como ninguém vem. Vai ser uma nova Rocinha na Intendente Magalhães”, finalizou.
A Unidos de Bangu prepara para este carnaval um desfile que promete ser repleto de emoção. A escola da Zona Oeste do Rio de Janeiro escolheu como enredo a trajetória de Leci Brandão, uma das maiores vozes do samba e da resistência cultural brasileira. A homenagem mobiliza não apenas os integrantes da agremiação, mas também familiares e admiradores da artista, que veem na avenida um espaço de consagração e reconhecimento.
Nuala e Letícia. Fotos: João Gabriel Rothier/Carnavalesco
Entre os mais entusiasmados estão as sobrinhas da sambista, Nuala Brandão, de 33 anos, e Letícia Cristal Brandão, de 29 anos. Ambas cresceram cercadas pela música da tia e destacam a importância de vê-la transformada em tema de carnaval.
Letícia, bióloga, revela que sua relação com as canções da tia também reflete experiências pessoais.
“Eu gosto muito de Natureza, Lá e Cá, Zé do Caroço. Desde que eu nasci, eu ouço ela. Natureza, para mim, é tudo, porque tudo que remete à natureza nas músicas dela me representa muito, como se ela estivesse falando por mim”.
Já Nuala, que também cresceu ouvindo e consumindo as obras da tia, destaca o caráter atemporal das composições: “Eu gosto muito de Assumindo. É uma música que fala muito sobre ela, muito importante na vida dela e muito atemporal, como todas as composições dela”.
Sobre a escolha de Leci como enredo, as sobrinhas não hesitaram ao falar da grandeza da homenagem. Nuala destacou a importância dessa atitude para uma pessoa que vem do samba.
“É uma consagração, sim. É um presente muito grande ser enredo de uma escola de samba. Isso quer dizer que uma comunidade olha para aquela pessoa e fala: vamos levar para a avenida e mostrar o quão grande essa pessoa é”.
Letícia ainda complementou, ressaltando a trajetória de Leci como compositora de sambas-enredo.
“No caso dela, acho realmente muito importante, porque ela cresceu nesse meio, construiu sua carreira no samba de avenida. É como se fosse uma condecoração do governo, quase um Nobel da Paz para o sambista”.
Quando perguntadas sobre o que não pode faltar no desfile, as sobrinhas foram unânimes: coração e alegria são fundamentais.
Nuala afirmou: “Não pode faltar o coração. A Bangu coloca o afeto em tudo, e é isso que representa minha tia”.
Letícia acrescentou: “A alegria e a energia. Mostrar esse lado dela que é alegre, além da luta. Um samba animado que brinda a vida”.
Fotos: João Gabriel Rothier/ Carnavalesco
A emoção também é a palavra-chave para Regina Passaes, torcedora da Unidos de Bangu desde a década de 1960, quando a escola ainda desfilava de azul e branco. Para ela, a homenagem a Leci é um marco: “O Morro do Pau da Bandeira é um hino. Ser enredo é uma consagração, principalmente quando é em vida, quando não é um enredo póstumo. Não tem como não ficar extasiada”.
Regina acredita que o desfile precisa traduzir a força da artista: “A emoção é o que a Leci representa. Todo mundo tem que vir com a garra que ela sempre teve em defender o samba, principalmente o samba de morro”.
Vivendo a expectativa de alcançar seu espaço no Grupo Especial, a Em Cima da Hora vai contar na Sapucaí, este ano, o enredo “Salve Todas as Marias: Laroyê, Pombagiras”, em homenagem às pombagiras, entidades da umbanda e do candomblé. A escola realizou, na última quarta-feira, o seu primeiro e único ensaio de rua “em casa” nesta temporada. Diferentemente das últimas semanas, quando vinha utilizando as ruas do Centro do Rio para se preparar, a agremiação voltou às origens e ocupou a rua Laurindo Filho, em Cavalcanti, endereço de sua quadra. E, como manda a velha máxima do futebol, jogar em casa fez diferença. O ensaio apresentou pontos positivos logo no primeiro olhar: a bateria “Sintonia de Cavalcanti”, comandada pelo mestre Léo Capoeira, manteve o alto nível já conhecido; o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira exibiu sintonia e segurança; a comissão de frente mostrou energia e entrega; e, principalmente, o canto dos componentes apareceu com mais força e entrega.
A comissão de frente voltou a chamar atenção pela intensidade e pela interpretação. Os componentes executaram a coreografia com energia do início ao fim, demonstrando entrega emocional e entendimento do enredo. Um dos destaques ficou por conta da componente que representa a entidade incorporada, cuja interpretação deu ainda mais força simbólica à apresentação, dialogando diretamente com o universo espiritual proposto pelo enredo. O conjunto funcionou bem, sustentado pela expressividade corporal e pela conexão com o samba.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Marlon Flôres e Winnie Lopes, mostrou sintonia e maturidade no bailado. O mestre-sala se apresentou com calça preta e paletó preto adornado com pedraria dourada, transmitindo elegância e imponência. Já a porta-bandeira surgiu com um vestido amarelo-ouro, também com pedraria dourada na parte superior, chamando atenção pela beleza e pelo brilho.
No desempenho, a segurança e a intensidade dos movimentos do mestre-sala se destacaram, sempre atento ao pavilhão e à sua parceira. A porta-bandeira, por sua vez, exibiu um bailado leve e bem desenhado, com giros firmes e boa leitura musical, reforçando a sintonia do casal.
HARMONIA E SAMBA
Se nos ensaios realizados no Centro do Rio o canto ainda não havia atingido todo o seu potencial, em Cavalcanti o cenário foi diferente. Atuando “em casa”, a Em Cima da Hora cantou mais e melhor. A empolgação foi evidente, especialmente nos momentos em que o carro de som silenciou e o samba foi cantado inteiro apenas pela comunidade.
A comparação com o futebol se encaixa perfeitamente: quando o time joga em casa, impulsionado pela força e pelo canto da torcida, o rendimento costuma crescer. Foi exatamente isso que se viu no ensaio desta quarta-feira. A comunidade abraçou o momento, e a harmonia ganhou um peso extra, mostrando que o samba já está assimilado e tem fácil comunicação.
O samba-enredo confirma suas qualidades: possui beleza melódica, letra bem construída e é de fácil canto, o que ficou ainda mais evidente neste ensaio. A resposta dos componentes mostrou que a obra está assimilada e tem potencial para crescer ainda mais na avenida, especialmente com a força da comunidade cantando junto.
No carro de som, Igor Pitta teve atuação de destaque. O intérprete segurou muito bem a ausência de Carlos Júnior, conduzindo o samba com segurança, energia e boa leitura da bateria. Sua comunicação com os componentes foi clara e eficiente, contribuindo diretamente para o bom rendimento da harmonia ao longo do ensaio.
Fazendo um balanço da temporada, Igor destacou a evolução do samba e projetou um grande desfile: “O samba só cresceu. A gente vê não só nos componentes, mas fora da escola, as pessoas ouvindo bastante o samba, cantando bastante o samba, comentando bastante nas redes sociais. Aqui dentro da comunidade cresceu mais ainda, porque a galera foi comprando a ideia. Quando a comunidade canta, o cantor só segue o fluxo. Sem falsa modéstia, eu tenho certeza de que será o maior desfile da história da Em Cima da Hora”.
EVOLUÇÃO
No quesito evolução, a escola não apresentou problemas. As alas se deslocaram com naturalidade, sem correria ou buracos, mantendo um fluxo constante ao longo do ensaio. Em alguns momentos, espectadores entraram na pista para registrar imagens da escola, algo comum em ensaios de rua, especialmente na comunidade.
Essas interferências, no entanto, foram rapidamente resolvidas por membros da própria agremiação, que orientaram o público, sem que isso atrapalhasse o desempenho da escola ou comprometesse a evolução.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, do mestre Léo Capoeira, também foi um dos grandes destaques da noite. Mantendo a cadência do início ao fim, apresentou bossas bem encaixadas e precisas, com atenção especial para o trabalho dos atabaques, que deram identidade e força à musicalidade do ensaio e à representatividade do enredo.
Ao analisar a temporada, o mestre demonstrou confiança no trabalho desenvolvido: “Estamos já a duas semanas do carnaval. Temos mais um ensaio e, graças a Deus, está tudo bem encaminhado, um saldo bem positivo de tudo o que a gente está pretendendo apresentar na Marquês de Sapucaí. Hoje o ensaio é na comunidade, o que é muito importante para a comunidade entender, conhecer e abraçar o nosso trabalho. Semana que vem é o último e depois é partir para a Vera, que é a Marquês de Sapucaí”.
O ensaio em Cavalcanti deixou claro que, mesmo com pouco tempo ensaiando em sua comunidade nesta temporada, a Em Cima da Hora soube aproveitar o momento. O canto mais forte, a energia dos componentes e a solidez dos quesitos reforçam a sensação de que a escola chega à reta final de preparação em curva ascendente, confiante para o grande dia na Marquês de Sapucaí.
O governador Cláudio Castro autorizou, nesta quinta-feira, o investimento de R$ 40 milhões para as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. O contrato de patrocínio que formaliza a liberação dos recursos foi publicado no Diário Oficial do Estado. Com o incentivo, o Governo do Rio passa a ser o maior patrocinador dos desfiles das agremiações do Grupo Especial no Carnaval 2026.
A medida beneficia trabalhadores e artistas de toda a cadeia produtiva do Carnaval, impulsionando a economia criativa, gerando empregos temporários e fortalecendo a cultura popular fluminense. Parte dos recursos também será destinada à operação da Marquês de Sapucaí, com serviços de infraestrutura essenciais para a realização do espetáculo.
-O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do nosso estado e um motor importante da economia. O investimento garante emprego, renda e dignidade para milhares de famílias, além de fortalecer uma tradição que projeta o Rio de Janeiro para o mundo – declarou o governador Cláudio Castro.
Além do apoio às escolas de samba, o Governo do Estado lançou, no final de 2025, o pacote Folia RJ 2026, composto por cinco editais que contemplam mais de 500 projetos culturais. A iniciativa que conta com investimento de R$ 20 milhões beneficia manifestações tradicionais como Bate-Bolas, Blocos nas Ruas, Não Deixa o Samba Morrer, Folia de Reis e Folias Fluminenses, ampliando o alcance do fomento cultural em diferentes regiões do estado. Já os investimentos para as Séries Ouro, Prata e Bronze, estão na etapa final de tramitação.
Em 2026, os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro acontecerão ao longo de três dias, repetindo o formato do ano anterior. As 12 escolas se apresentam nas noites de domingo, segunda e terça-feira de Carnaval, nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro.
Impacto econômico
O Carnaval 2026 deve impulsionar significativamente o turismo e a economia fluminense. A previsão da organização é de uma movimentação financeira superior a R$ 5,7 bilhões no Rio, durante o período da festa.
Os sonhos, tambores, tintas e Prazeres de Heitor se encontram todos em Vila Isabel. O resgate da ancestralidade e da força da escola de Noel se reafirmaram em seu último ensaio de rua da temporada de 2026. Durante um dia de semana, as ruas do Boulevard 28 de Setembro foram completamente tomadas por famílias inteiras, sambistas, curiosos e admiradores, todos em busca de presenciar o show da comunidade azul e branca de Vila Isabel, onde ecoou o samba a plenos pulmões.
Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, a escola se propõe a atravessar o tempo e a memória para homenagear Heitor dos Prazeres, um multiartista, compositor e pintor que transformou o cotidiano negro do Rio de Janeiro em arte, ritmo e cor. Sua obra, profundamente enraizada na cultura afro-brasileira, nasce do samba, da rua e do terreiro. Levar essa história para a avenida, com a delicadeza, beleza e força que ela exige, é uma missão entregue às mãos de Gabriel Haddad e Leonardo Bora, que conduzem esse tributo com respeito, poesia e emoção.
A emoção do canto fica sob a responsabilidade do intérprete da agremiação, Tinga, que reafirmou a felicidade da escola com o enredo, com o trabalho feito até agora e a expectativa de todos os sambistas com o desfile da escola, já que, para muitos, possui o “samba do ano”.
“Coisa linda. A escola está feliz demais com o nosso enredo e o nosso samba. Se Deus quiser, a gente vai fazer um grande ensaio técnico, em busca do nosso sonho maior, que é ser campeão do carnaval e trazer esse título para a nossa comunidade”, relatou o intérprete da Vila.
Com a próxima parada sendo o ensaio técnico na Sapucaí, a Vila entregou para a sua comunidade um ensaio à altura do seu enredo e samba, trazendo muita entrega, força e alegria como resultado do trabalho construído ao longo dos meses. A escola reafirmou para todos o seu excelente pré-carnaval, com canto alto, alas coreografadas, casal de mestre-sala e porta-bandeira em harmonia e bateria entrosada com seu mestre. A escola passou cumprindo as altas expectativas e deixando um gostinho de quero mais.
“Eu acho que o mundo do samba, a bateria, todo mundo tá feliz com o nosso samba. Muita gente fala que vai torcer para a Vila Isabel, mesmo sendo Mangueira, sendo Portela, sendo Salgueiro. Eu acho que o que importa é isso. A gente é feliz demais com a nossa cultura. E é o samba. Nossa equipe de barracão, nota 1000. Da Unidos de Vila Isabel, fazendo um trabalho”, afirmou Tinga, reforçando que todo o trabalho é em torno de apenas um objetivo: trazer o troféu que está há 13 anos sem visitar a quadra da Unidos de Vila Isabel.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob o comando de Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão de frente se apresentou como quem abre um ritual. Os movimentos, precisos e sincronizados, misturavam giros calculados ao samba no pé que pulsava no chão. A coreografia trazia a força dos Orixás, tanto nos gestos quanto na presença cênica dos bailarinos, homens e mulheres em sintonia. No centro, uma figura principal conduzia o espetáculo, bailava como eixo da narrativa, enquanto ao redor o corpo coletivo dançava em harmonia. Dois integrantes representaram Oxum e Xangô, com roupas douradas e vermelhas, respectivamente. No momento em que é entoado o canto “De todos os tons, a Vila, negra é. De todos os sons, a negra Vila é”, os bailarinos fazem um sinal de reverência à comunidade, com movimentos de mãos erguidas em sinal de força e, depois, em direção à escola, como forma de apresentar a Vila Isabel.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com um bailado deslizante, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, comandados pela coreógrafa Cátia Cabral, trouxe um figurino mantendo o tradicional azul e branco, mas com um toque de modernismo na roupa da porta-bandeira, que deixou o tradicional vestido de lado e investiu em uma saia com uma blusa um pouco mais curta.
Assim como a comissão de frente, o casal traz, em momentos da dança, a exaltação à escola e à sua comunidade. Em sintonia com o samba, a coreografia também apresenta movimentos delicados com as mãos, simbolizando a pintura, quando é cantado: “Da nossa favela branca e azul do céu. No branco da tela, o azul do pincel. Vem ser aquarela, pintar a Unidos de Vila Isabel”. Além, é claro, das referências às danças afro, que encerram a perfeita sintonia da coreografia do casal com o enredo e o samba. O casal bailou protegido por uma espécie de “guardiões” que se posicionavam tanto à frente quanto atrás, criando uma corrente simbólica de proteção e destaque.
HARMONIA E SAMBA
O samba nasceu grande, mas veio crescendo a cada ensaio e a cada vez que era cantado por um sambista. O encerramento dos ensaios de rua demonstrou que a obra chegou a todos: escola, comunidade e público. Com canto alto e forte durante todo o desfile, a suposição de que a escola cantava apenas no refrão foi completamente desmentida. A escola canta a todo momento, e o refrão é berrado com a alma de quem está apaixonado pelo seu samba. Destaque para as duas alas seguintes após a alegoria 4, que entoaram o samba em alto e bom som durante todo o ensaio, com a animação e o entusiasmo de quem tem verdadeiro amor pelo pavilhão e vai em busca dos quarenta pontos do quesito. Destaque estão as alas dos setores 1, 3 e 5.
EVOLUÇÃO
As alas mostraram vibração sincronizada e coesa. Tinga com sua bela voz empolgava os componentes a cantar e fazia do refrão o ponto alto do ensaio, onde as pessoas abaixavam e subiam pulando cantando o samba. Ensaiar na 28 de Setembro é um exercício de logística, já que o espaço não tem largura para receber confortavelmente os componentes. A preocupação dos diretores era não deixar dar buraco, mesmo com essa dificuldade geográfica.
OUTROS DESTAQUES
A sempre competente bateria “Swingueira de Noel”, do mestre Macaco Branco, dando o ritmo ideal para o histórico samba-enredo da Vila Isabel. A rainha de bateria e a corte de musas da escola são um show à parte. Com uma simpatia arrebatadora, Sabrina Sato exibe todo o seu amor e respeito pela escola, mostrando por que reina há 15 anos à frente da bateria e continua sendo tão amada. Entre as musas, chama a atenção Juliana Morais, que, além de muita beleza e gingado, esbanja simpatia e conexão com a comunidade. A sambista atravessou o ensaio técnico sambando, coreografando e sendo atenciosa com crianças e admiradores que gritavam seu nome enquanto admiravam seu samba no pé.
“É muito gratificante poder estar à frente da bateria da Vila Isabel nesse ano maravilhoso, que fala sobre o Heitor dos Prazeres, um multiartista. A temporada tem sido linda com esse samba lindo. A comunidade cantando em plenos pulmões. Temos uma surpresa na fantasia para o desfile. O povo ficar emocionado com a Vila Isabel”, prometeu mestre Macaco Branco.
A Mocidade Alegre convida o público a assistir ao seu espetáculo no Sambódromo do Anhembi, palco conhecido como o “teatro” do sábado de desfile. A escola do bairro do Limão levará para a avenida uma grande homenagem à renomada atriz Léa Garcia, artista que abriu caminhos para mulheres negras no teatro e no cinema brasileiro. A Morada do Samba apresentará um cortejo marcado pela ancestralidade negra, pela religiosidade de matriz africana, por grandes sucessos da carreira da atriz e pelos prêmios que coroaram sua trajetória. Com um dos sambas mais aclamados do carnaval, a agremiação também busca empolgar o público e conquistar a tão sonhada décima terceira estrela. A Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no Anhembi no sábado de Carnaval, com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”. O CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Caio Araújo, artista responsável pelo desenvolvimento do desfile. Importante: a escola não autoriza imagens de suas alegorias.
De acordo com o artista, o tema surgiu por meio do filho da homenageada, que levou a proposta até a escola. A narrativa encantou Caio, o enredista Léo Antan e a presidente Solange Cruz. “O enredo chegou em novembro de 2025, quando estávamos desenvolvendo o desfile ‘Quem não pode com mandinga não carrega patuá’. A proposta veio por meio do filho da Léa e, de imediato, percebemos que tínhamos um tesouro nas mãos. Assim que saí da reunião, liguei para o nosso enredista, Léo Antan, apresentei o tema e ele gostou muito. Eu, o Léo e a presidente Solange percebemos que esse enredo precisava ser desenvolvido para 2026. A ideia nos atingiu de forma muito forte e rápida. Nós nos apaixonamos, iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento e, quanto mais aprofundávamos na carreira e no legado da Léa, mais certeza tínhamos de que a escolha havia sido a correta”, contou.
Pesquisa do enredo
Dentro da pesquisa do enredo, Caio contou que não houve dificuldade, pois o filho de Léa esteve bastante presente para que tudo se tornasse realidade. “Dificuldade não tivemos, porque mantínhamos contato direto com o Marcelo, filho da Léa. Ele foi uma fonte muito importante, principalmente para o Léo, que mora no Rio e estava mais próximo. Ainda assim, realizamos uma pesquisa profunda sobre a obra dela. O grande interesse do enredo é mostrar o quanto o trabalho dessa mulher foi fundamental para que hoje possamos enxergar o protagonismo negro nas novelas e nos filmes. E não apenas na frente das câmeras, mas também entre quem escreve, dirige e produz. Hoje vemos artistas negros falando sobre narrativas negras, e esse é um legado que a Léa construiu ao longo da vida. Ela conseguiu ver esse legado se concretizar antes de partir. Essa é a grande herança que ela deixa, e o desfile foca exatamente nessa construção, mostrando como cada trabalho contribuiu para formar esse legado transformador na dramaturgia brasileira”, disse.
Alta aceitação da comunidade
O lançamento do enredo foi feito no Teatro Rui Barbosa, um dos principais da cidade de São Paulo — local de respeito para o tamanho e a representatividade de Léa Garcia. No dia, a aprovação foi grande e, segundo o carnavalesco, o cotidiano diz muito. “No dia do anúncio, percebemos imediatamente que a comunidade ficou feliz com a escolha do enredo. A Mocidade tem uma comunidade muito fiel e próxima, que participa do cotidiano da escola e pensa o carnaval junto com a gente. Essa proximidade acontece na quadra, nas redes sociais e no contato direto. Fomos recebendo essas devolutivas no diálogo com os componentes e observando como o comportamento da comunidade refletia esse envolvimento. O enredo começou a ganhar vida nos ensaios. As alas passaram a pesquisar filmes, entender personagens e se aprofundar na história. É muito bonito ver a comunidade vestir o enredo e ir para a avenida sabendo exatamente o que está defendendo. Quando isso acontece, tudo fica mais potente. O samba também contribuiu muito. Temos um samba forte, envolvente e muito gostoso de desfilar”, declarou.
“A Deusa Negra” — o ponto alto do desfile
Elencando um ponto alto do desfile da escola, Caio Araújo falou sobre o seu xodó: o quarto carro, que representa a obra “A Deusa Negra”. Neste filme de 1979, Léa Garcia interpretou uma sacerdotisa. “A Mocidade apresenta um conjunto bem linear, mantendo qualidade do primeiro ao último carro. As alegorias são diversas e não se repetem. Cada uma tem uma proposta diferente, o que torna o desfile muito pessoal. Para mim, o ponto alto é a terceira alegoria, que fala sobre A Deusa Negra, filme protagonizado pela Léa. Nesse momento, mostramos como ela abraçou a religiosidade afro-brasileira. Ela interpretou mães de santo, orixás e entidades ao longo da carreira. Esse carro sintetiza tudo isso, com uma proposta artesanal e uma decoração diferente do que estamos acostumados a ver. É, sem dúvida, o meu xodó”, comentou.
Mocidade colorida
O artista explicou que a escola irá com uma plástica diferente. Os setores não vão dialogar em termos de cores, e ele aposta em uma Mocidade colorida. “O processo de criação começa em abril, durante a pesquisa e o desenvolvimento da sinopse. Paralelamente, já iniciamos a pesquisa visual e os desenhos. É um trabalho árduo, especialmente porque buscamos coerência em cada assunto levado à avenida. Cada setor tem cores dominantes, que não vão dialogar entre si. No primeiro, predominam o vermelho e o preto. Depois, fazemos uma transição para rosa e roxo, chegamos ao laranja e encerramos o desfile com dourado e preto. A escola virá bastante colorida. Em relação aos materiais, apostamos em uma grande diversidade. Há carros voltados ao luxo, outros mais cenográficos, alguns com proposta rústica e outros que investem na ousadia das formas”, explicou.
Setor a setor
Setor 1
“No primeiro setor, abordamos o início da Léa no Teatro Experimental do Negro, quando ela ingressa na carreira de atriz. Destacamos a importância desse legado e a relação dela com Abdias do Nascimento, que aparece representado como Exu. Não apenas por ter interpretado esse orixá diversas vezes, mas por ter sido alguém que abriu caminhos para uma dramaturgia preta no Brasil. Após estabelecer a relevância do Teatro Experimental do Negro, seguimos mostrando a trajetória da Léa no teatro”.
Setor 2
“No segundo setor, apresentamos os papéis que levaram a Léa a esse lugar de destaque, evidenciando a diversidade de personagens. Encerramos com a transição do teatro para o cinema, a partir de Orfeu Negro. A Léa participou da peça Orfeu da Conceição no Teatro Experimental do Negro, que depois se transformou no filme. Essa obra concorreu ao Festival de Cannes e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A partir daí, mostramos a transição da carreira da Léa para o audiovisual, abordando o cinema e a televisão. O setor também discute como esses meios limitavam os papéis oferecidos a artistas negros. Enquanto no teatro ela interpretava rainhas, orixás e entidades, na televisão passou a viver personagens como pessoas escravizadas, empregadas domésticas e secretárias. É nesse contexto que surge sua atuação política dentro da profissão”.
Setor 3
“Esse terceiro setor aborda de forma intensa a construção do legado de uma mulher que, a cada oportunidade, colocava um tijolo para construir um mundo diferente para quem viria depois. Desde a personagem Rosa, em A Escrava Isaura, quando se recusou a gravar uma cena em que deveria chutar um ebó, algo inconcebível para alguém de matriz africana, até o diálogo com roteiristas e diretores que resultou na mudança da cena. Passamos também por A Viagem, quando ela escreve uma carta ao diretor da Globo, Boni, questionando a ausência de pessoas negras no céu. Esse trecho, inclusive, inspira parte do samba. O setor mostra como a Léa utilizou a ancestralidade para construir esse caminho e se encerra com a alegoria que homenageia A Deusa Negra”.
Setor 4
“No quarto setor, mostramos a colheita dos frutos desse legado. Apresentamos a Léa recebendo prêmios por filmes como Filhas do Vento e conquistando espaço para que pessoas negras participassem de todo o processo audiovisual, atuando atrás das câmeras como diretores, roteiristas e produtores. Essa conquista era extremamente importante para ela e aparece representada no desfile. Encerramos com a homenagem ao prêmio pelo conjunto da obra que a Léa receberia no Festival de Gramado. Ela faleceu na manhã do dia em que seria homenageada, e o desfile finaliza celebrando sua carreira, colocando a Léa como protagonista do pavilhão da Mocidade no Carnaval de 2026”.
Ficha técnica
Quatro alegorias
Dois tripés
Elemento alegórico (comissão de frente)
18 alas
2.500 componentes
Diretor de barracão — Mestre Sombra