A Estação Primeira de Mangueira, em sua jornada rumo ao Carnaval 2026, lança um manifesto documental em formato de curta-metragem. O projeto mergulha no universo afro-indígena do Amapá para apresentar a narrativa de seu próximo enredo: a vida e a ancestralidade de Mestre Sacaca, o “Xamã Babalaô” da Amazônia Negra. O documentário não apenas antecipa a estética do desfile, mas humaniza a figura de Sacaca através de depoimentos emocionantes. O vídeo cruza as vozes de ícones mangueirenses com o relato íntimo da família do homenageado, que mantém vivo o legado do mestre em solo amapaense.
O carnavalesco Sidnei França destaca que a obra funciona como uma bússola para a comunidade e para o público entenderem a profundidade da pesquisa deste ano: ”Esse manifesto foi produzido para que as pessoas ouçam a percepção dos segmentos e integrantes da Mangueira sobre o enredo.
Além disso, é uma chance de conhecer a história de Mestre Sacaca de uma maneira afetiva, através de sua própria família. Eles carregam esse legado até hoje, e isso fica explícito no vídeo”, afirma.
A produção conta com um elenco de peso, unindo a nobreza do samba à ancestralidade da família Sacaca. Entre os participantes estão nomes como Alcione, Evelyn Bastos, Matheus Olivério, Cintya Santos e Dowglas Diniz, além de segmentos representados por Vitor Art, Rodrigo Explosão (Digão) e o próprio Sidnei França. A família Sacaca — representada por Dona Madalena (viúva de Mestre Sacaca), Armistrong, Dô, Fábio e Lídia — traz a materialização da sua herança amazônica para o coração do Morro de Mangueira.
O curta já está disponível no canal oficial da agremiação no YouTube, servindo como o primeiro capítulo de um desfile que promete ser histórico.
Ficha Técnica (Manifesto)
Tema: Mestre Sacaca e a Amazônia Negra.
Elenco: Alcione, Armistrong Sacaca, Cintya Santos, Digão do Cavaco, Dona Chininha, Dona Gilda, Dona Madalena, Dowglas Diniz, Dô Sacaca, Evelyn Bastos, Fábio Batista, Fábio Sacaca, Felipe Tinoco, Guezinha, José William, Josilana Santos, Karina Dias, Lídia Sacaca, Lucas Maciel, Matheus Oliverio, Sidnei França, Sthefanye Paz e Vitor Art.
Realização: Estação Primeira de Mangueira.
A Unidos da Tijuca viveu, na última quinta-feira, um dia que marca um divisor de águas em sua história. A escola inaugurou oficialmente o terreno que dará espaço à sua nova quadra, na região da Gamboa, próximo à Cidade do Samba. Mais do que a apresentação de um espaço físico, o momento simbolizou conquista, estabilidade e projeção de futuro para a comunidade tijucana, que há décadas sonhava com um endereço definitivo.
O terreno conta com 2,5 mil metros quadrados e recebeu um investimento de R$ 13 milhões da Prefeitura do Rio. A abertura da licitação está prevista para o dia 12 de março de 2026, com início das obras em abril e prazo estimado de conclusão de até nove meses. A nova quadra nasce como um equipamento cultural pensado para funcionar durante todo o ano, atendendo não apenas aos momentos de festa, mas também às atividades sociais e comunitárias da escola.
A cerimônia reuniu o presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, o presidente da Liesa, Gabriel David, além de dirigentes, representantes do carnaval e membros da comunidade. Em clima de celebração, os discursos reforçaram a importância institucional, simbólica e cultural da conquista.
O prefeito Eduardo Paes destacou a relação entre gestão pública, organização e valorização das escolas de samba como pilares do desenvolvimento do carnaval carioca.
“Quando tem gestão, organização e comando, não falta dinheiro nunca. Não é que está sobrando. Claro que a cidade precisa de um monte de coisas, a gente sempre precisa melhorar. Mas ninguém vê, nos meus governos, salário de servidor atrasar, fornecedor deixar de receber ou obra parada por falta de grana. A quadra da Tijuca é uma realidade porque a hora era agora. O carnaval não é só aquele momento mágico dos dias de festa; as escolas de samba são instituições que dão identidade à nossa cidade, ao nosso povo. Desde 2009, a prefeitura não parou de incentivar para que o carnaval pudesse avançar e crescer”, afirmou o prefeito.
Paes também fez questão de enaltecer o trabalho do presidente da Liesa, traçando um paralelo com a trajetória de Fernando Horta na Tijuca.
“O que o Gabriel está fazendo com o carnaval carioca foi o que o Fernando fez na Unidos da Tijuca. Está organizando e profissionalizando. A evolução está acontecendo de verdade. Eu sou político, sou candidato, mas nunca tive medo de tomar medidas, muitas vezes impopulares, para garantir o direito do povo de ir a um lugar de lazer, diversão e manifestação cultural. Gabriel, conta com o apoio da prefeitura e segue firme fazendo as modificações no carnaval. Você tem aumentado o faturamento das escolas. Essa festa é tão bonita, tão popular e tão bem vendida para o mundo todo”, declarou.
Em um dos discursos mais emocionados do dia, o presidente Fernando Horta falou da longa luta até a conquista do terreno e do significado do espaço para a comunidade.
“Hoje eu realizo um sonho pelo qual luto há mais de 20 anos: um espaço para a Unidos da Tijuca. Estávamos no Clube dos Portuários e, todo ano, recebíamos aviso de despejo. Isso aqui não é para mim, é para a minha comunidade, para as crianças, para a velha guarda. Depois dessa obra, o nosso nome será maior ainda, porque agora temos um terreno. Quero realizar o aniversário da escola aqui em dezembro, e o discurso final vai ser quando me entregarem a chave da quadra”, afirmou o presidente.
O presidente da Liesa, Gabriel David, ressaltou o reconhecimento ao trabalho da Tijuca e a importância do alinhamento entre poder público e carnaval.
“É um dia muito marcante ver o trabalho do presidente Horta sendo reconhecido com a entrega desse terreno. Bons projetos só acontecem quando existe visão para a cidade e entendimento da importância das escolas de samba. Fernando luta há mais de 40 anos pela sua agremiação. E, quando o arquiteto também é sambista e coloca o coração dentro de um projeto, a gente sabe que a quadra vai ser bonita e funcional”, destacou.
Gabriel também ampliou o olhar para o cenário atual do carnaval, citando avanços estruturais e organizacionais.
“Esse apoio público é fundamental. Tivemos o maior número de eventos populares ao longo do ano, todas as escolas do Grupo Especial fizeram ensaios de rua e, pela primeira vez, todas poderão passar na avenida com teste de som e luz duas vezes. Isso é para que os verdadeiros protagonistas dessa festa, os artistas, possam brilhar”, completou.
Responsável pelo projeto arquitetônico da nova quadra, Miguel Pinto Magalhães apresentou os detalhes do espaço, que foi pensado para unir funcionalidade, acolhimento e identidade simbólica da escola:
“Escolhemos essa parte do espaço para realizar o grande samba e ter uma quadra aberta do outro lado, ao ar livre, com bar, restaurante e outros serviços. Nos conceitos originais, eram contêineres improvisados, mas a infraestrutura fez questão de planejar banheiros de primeiríssimo mundo, em uma quantidade enorme, muito melhor do que a quadra atual”, explicou o arquiteto.
Segundo Miguel, a quadra foi pensada para servir à comunidade durante todo o ano: “Essa será uma quadra preparada para cozinha, banheiros e bares, que vai servir muito bem à comunidade. Teremos quatro coberturas e um sistema estrutural metálico que facilita e barateia a obra. Pela forma triangular, ela remete às caudas do pavão do nosso Fernando Horta”, detalhou.
O projeto também contempla dois pavimentos e acessibilidade universal: “O pavimento superior contará com bar, terraço, restaurante e camarotes. É importante lembrar que essa parte é absolutamente acessível. Toda obra da prefeitura tem infraestrutura de acessibilidade universal, e teremos elevador”, concluiu.
A inauguração do terreno não representa apenas o início de uma obra, mas a consolidação de um espaço de pertencimento, memória e futuro. Para a Unidos da Tijuca, a nova quadra simboliza estabilidade institucional, fortalecimento comunitário e a possibilidade de ampliar suas ações culturais, sociais e carnavalescas. Um passo concreto que reafirma o papel das escolas de samba como pilares vivos da identidade do Rio de Janeiro.
Sob o impacto do enredo “Rita Lee – A Padroeira da Liberdade”, assinado por Renato Lage, a Mocidade Independente de Padre Miguel inicia a temporada de ensaios com um sentimento que há tempos não ganhava tanta força: a crença coletiva em uma virada de chave. Em entrevista ao CARNAVALESCO, torcedores falaram sobre confiança, engajamento da comunidade e reconstrução. A percepção comum no minidesfile foi a de uma escola mais aguerrida.
Para muitos integrantes, a virada já se manifesta no comportamento da escola, especialmente entre os mais jovens. A administradora Karen Nathália, em seu segundo ano desfilando, vê o enredo como elo entre gerações.
Karen Nathália
“A juventude estava adormecida, e esse enredo aproximou todo mundo. A quadra está forte, com canto intenso. A comunidade abraçou”, disse.
Estreante na Avenida, mas criado na tradição da escola, o estudante Gabriel Fernandes
Gabriel Fernandes
reforça: “A Mocidade está mais junta, mais família, mais aguerrida. Está bonito de ver”.
Wendel Rosa
O ritmista Wendel Rosa, há seis anos no surdo de primeira, percebe o mesmo clima: “Há brilho no olhar e esperança real de virar o jogo. Até quem está de fora abraça esse amor”.
Rita Lee como símbolo da identidade independente
O enredo surge como motor dessa mobilização. Para Pedro Flores, ritmista do chocalho, a escolha é certeira: “Rita Lee é irreverente, ousada, fora da curva. É a cara da Mocidade”.
Pedro Flores
Gabriel destaca a identificação da juventude com a artista: “Essa maluquice boa da Rita combina com o fanatismo da Mocidade”.
Karen reforça o caráter libertário do tema: “Rita estava à frente do seu tempo. Ser sem censura e sem regras fala muito com a gente e ainda aproxima gerações”.
Para o estreante Matheus Ferreira, o conceito é claro: “Liberdade. Poder ser quem se é. Que isso leve a Mocidade mais alto”.
Renato Lage e a reconstrução
O retorno de Renato Lage é visto como pilar de estabilidade. “Ele fez a história da escola. Tem tudo para dar certo”, resumiu Pedro.
Matheus lembra o peso simbólico da volta: “Nosso último título foi com ele. Também queremos vencer pela Márcia. São mentes brilhantes”.
Karen completa: “A proposta retrô do Renato casa muito com a Rita Lee”.
Bateria e casal como pilares
A confiança na bateria “Não Existe Mais Quente”, de Mestre Dudu, é unanimidade. “Vem forte, preparada e resiliente”, disse Wendel.
Gabriel define o peso do quesito: “A bateria é o coração da escola”.
Outro ponto de segurança é o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos. “São próximos da comunidade e têm uma conexão linda”, afirmou Karen.
Escolha de acreditar
A virada da Mocidade aparece menos como promessa e mais como atitude. “Se o componente não comprar essa ideia, nem tem que estar”, sintetizou Matheus.
É essa disposição coletiva que alimenta a esperança de que 2026 marque um novo momento para a Estrela Guia.
A Beija-Flor de Nilópolis aposta em uma história que atravessa fé, ancestralidade e resistência para o Carnaval 2026. O enredo sobre o Bembé do Mercado — o maior candomblé de rua do mundo, celebrado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia — ganhou corpo após duas visitas dos enredistas Bruno Laureato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira à cidade: a primeira, em abril, dedicada à pesquisa, e a segunda, em maio, durante as celebrações do 13 de Maio.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, os enredistas falaram sobre as impressões das viagens à Bahia, os elementos fundamentais levados para a sinopse, a parceria criativa com o carnavalesco João Vitor Araújo, a recepção do enredo pela comunidade de Santo Amaro e a forma como a narrativa se desdobra nas fantasias e alas do desfile.
A força da rua e do mercado
Guilherme conta que a experiência mais marcante foi testemunhar o povo preto de Santo Amaro ocupando o Mercado Municipal. “Do hasteamento da bandeira do 13 de Maio até a entrega dos presentes, o que mais me impressionou foi ver o quanto, para o povo santo-amarense, é importante levar o candomblé para a rua”, disse.
Vivian recorda a sensação de pertencimento imediato: “Santo Amaro é uma cidade mágica. Assim que pisamos no mercado, sentimos como se estivéssemos em casa. Era como se aquele chão também nos pertencesse”. Ela também destacou a recepção calorosa: na volta da equipe, após o anúncio oficial do enredo, moradores abordaram os pesquisadores para celebrar a escolha.
Para Bruno, a viagem foi um presente não apenas para eles, mas para toda a comunidade nilopolitana. “O Bembé é uma celebração religiosa, política e de cultura popular brasileira. E o que me bateu lá foi: como pode uma festa que acontece há 136 anos e o Brasil não conhecer?”, questionou.
O que não poderia faltar na sinopse
O processo de construção da sinopse foi diretamente alimentado pelas imagens e experiências vividas no Recôncavo Baiano. Bruno defendeu a centralidade da figura de João de Obá, responsável por fincar a primeira bandeira do 13 de Maio no mercado, em 1889. “Imagina se hoje a gente fizesse um candomblé na Central do Brasil? Sofreríamos preconceito religioso. Agora, imagina isso no ano 1, logo após a abolição?”, refletiu.
Vivian destacou o mercado como espaço indispensável: “É um lugar muito sensorial: é cheiro, é gosto, é barulho. Queríamos dar, na sinopse, a sensação do caos do mercado, que funciona, ao mesmo tempo, como terreiro”.
Guilherme trouxe três imagens que considera fundamentais: a comeeira, a estátua de João de Obá e os balaios de Oxum e Iemanjá. “Essas três referências ficaram comigo o tempo todo”, contou.
Uma construção em parceria
Os enredistas também ressaltaram a parceria com o carnavalesco João Vitor Araújo. “O João é uma das pessoas mais generosas que já conheci. Ele é quem desenha e pensa o Carnaval, mas a gente constrói junto com ele. Toda a construção é horizontal”, afirmou Guilherme.
Vivian reforçou a cumplicidade: “A ideia do Bembé chegou para a gente de formas diferentes. Quando nos reunimos, todos citaram o Bembé. Para mim, o primeiro contato foi por meio de uma entrevista de Pai Pote, liderança do Bembé, ao programa ‘Avisa Lá’, de Paulo Vieira”.
Bruno completou: “Trabalhar com João é ter a oportunidade de pensar como essa história pode ser contada. Ele é um cara generoso, que divide o palanque. Nosso trabalho é baseado na troca mútua”.
Do enredo às fantasias
O grupo explicou que a narrativa do enredo se traduz com clareza no desenvolvimento plástico. “É um enredo com começo, meio e fim. As fantasias também têm começo, meio e fim, e não há dificuldade em justificá-las”, afirmou Bruno.
Guilherme acrescentou que o desenvolvimento das alas coreografadas e da comissão de frente tem sido feito em diálogo com os pesquisadores envolvidos. A expectativa é que o desfile traduza, em imagens e movimentos, a potência do encontro ancestral celebrado há mais de um século no Recôncavo Baiano.
Mesmo com a troca de carnavalesco, a Grande Rio inicia a temporada rumo ao Carnaval 2026 com a sensação de continuidade. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o diretor de Carnaval Thiago Monteiro afirmou que a chegada de Antônio Gonzaga representa a manutenção da linha estética e narrativa que sustenta a trajetória recente e vitoriosa da escola de Duque de Caxias.
Segundo Thiago, a escolha não teve como objetivo alterar a identidade visual da agremiação, mas preservar um caminho consolidado desde 2020, ano do primeiro título da escola. Gonzaga, inclusive, já havia participado de projetos importantes do pavilhão caxiense antes de assumir o cargo.
“A escola tem uma direção que sabe o caminho que quer continuar trilhando. Cada artista tem sua peculiaridade, mas existem linhas estéticas que se reconhecem. A ideia era manter esse discurso, e isso estamos conseguindo. Vocês vão ver uma Grande Rio muito semelhante ao que estão acostumados, claro com o toque particular de cada artista”, explicou.
Thiago também destacou que o trabalho de Gonzaga não chega como surpresa, mas como confirmação de um potencial já conhecido.
“O trabalho do Antônio é maravilhoso. Ele já tinha contribuído muito no enredo ‘Exu’, depois foi titular no Arranco e na Portela. Estamos muito satisfeitos e isso vai aparecer na avenida”, garantiu.
Com Grande Rio e Vila Isabel desfilando na mesma noite, surgiram comparações entre Gonzaga e os ex-carnavalescos da escola, Gabriel Haddad e Leonardo Bora. O diretor, porém, rejeitou esse tipo de leitura.
“São propostas artísticas diferentes. Não faz sentido comparar. Estamos disputando com outras dez escolas, não com trajetórias específicas”, afirmou.
Apesar da manutenção da equipe que venceu em 2022 e brigou pelo título em 2025, Thiago adota um discurso equilibrado entre ambição e cautela.
“A gente sai de casa buscando o título, aquele décimo que faltou. A escola está focada, organizada, mas o carnaval também depende do dia, do astral, da resposta da avenida”, ponderou.
Para ele, o maior diferencial da Grande Rio segue sendo a coesão interna e a valorização coletiva.
“A nossa força é a equipe. Aqui todo mundo é importante, do porteiro da quadra ao presidente de honra. Não temos medalhões. No nosso ônibus, todo mundo tem janela”, concluiu.
O CARNAVALESCO conversou com componentes da Porto da Pedra sobre o que elas, enquanto mulheres, pensam a respeito do enredo de 2026. Parte final de uma trilogia criada pelo carnavalesco Mauro Quintaes ainda na década de 1990, o desfile se debruça sobre a temática das profissionais do sexo. A professora e assistente social Sérgia Valéria, de 60 anos, há três anos na Porto da Pedra, aprovou a coragem da escola.
“O enredo é maravilhoso porque enaltece e faz com que a gente pense sobre essa puta mulher, essa tigresa que mata um leão por dia. Ela sai para trabalhar e enfrenta tudo. É mãe de família, tem filhos. É irmã, tia. Eu falo com orgulho que sou uma puta de uma mulher. Trabalho, criei dois filhos sozinha”, afirmou.
A orientadora social Aldaíza Silva, de 29 anos, criticou o tabu que envolve a questão.
Aldaíza Silva
“A Porto da Pedra fala de uma profissão que muitas exercem, que leva sustento para a família e faz parte da sociedade, por mais que ela seja preconceituosa”, declarou.
Para Nathália Guimarães, assistente social de 37 anos, em seu sexto desfile pela vermelho e branco de São Gonçalo, o tema possui múltiplas camadas.
Nathália Guimarães
“Eu, como mulher, achei o tema incrível não só pela mensagem de empoderamento histórico, da mulher dona do seu corpo, que o utiliza, desde muito tempo até hoje, para ganho financeiro, como também pela personalidade guerreira. É prazeroso demais representar a minha escola, o meu São Gonçalo, o meu município, com esse tema”, comentou.
Pâmela Fernandes, de 28 anos, dançarina e bailarina, que vai para o seu quinto ano na agremiação, destacou o julgamento social sofrido pelas prostitutas.
Pâmela Fernandes
“É muito importante levantar essa questão para tirar todo esse preconceito que as pessoas têm. É uma profissão que a sociedade precisa respeitar e parar de julgar”, pontuou.
A sexagenária Sérgia Valéria argumentou ainda que a origem dessa profissão está relacionada à demanda masculina.
“A mulher só é o que é porque o homem, a sociedade machista, a colocou nessa posição. Só que hoje ela está muito mais consciente, sabe dos seus direitos”, afirmou.
Apesar da maior organização dessas trabalhadoras na luta por dignidade, apontada por Sérgia, o caminho por direitos ainda é longo, como explicou Nathália.
“Essa profissão ainda não é formalmente reconhecida. Assim como eu tenho uma profissão, você tem outra e tantas outras pessoas também têm. O problema começa aí. A gente precisa, sim, bater na tecla de que isso é uma profissão por meio da qual muitas mulheres, inclusive casadas, mantêm sua vida financeira, sustentam seus filhos e realizam suas próprias vontades”, destacou.
A ausência de registro em carteira, contudo, não foi o único entrave mencionado pelas entrevistadas.
“A maior dificuldade é a forma como as pessoas olham. Julgam sem saber o que elas passaram, sem conhecer a história e a realidade de cada uma”, refletiu Pâmela.
Sérgia concordou: “É enfrentar obstáculos em uma sociedade que não valoriza e usa o corpo da mulher apenas como objeto”.
Com o objetivo de provocar reflexão sobre o estigma e a falta de garantias sociais enfrentadas pelas prostitutas, a Porto da Pedra, sob a assinatura de Mauro Quintaes, canta e brinca essas putas mulheres.
“A escola quebra essa corrente e mostra para todo mundo, em forma de samba, que ser profissional do sexo é, sim, uma profissão. Viemos mostrar a força do nosso enredo e a força do tigre de São Gonçalo”, finalizou Aldaíza.
Entre apostas e incertezas, os componentes da Estácio de Sá, Carla, Allan, Andréa e Luiz Carlos conversaram com o CARNAVALESCO e revelaram a ansiedade e o êxtase de integrar o maior espetáculo da Terra. A professora de Língua Portuguesa Carla Neves, de 48 anos, demonstrou confiança total na agremiação pela qual desfila desde os 15 anos.
“A Estácio vai ganhar. A confiança é total, porque a escola está muito bonita e a comunidade está se dedicando”, afirmou.
Quem também não titubeou ao cravar o título foi o administrador Allan Galdino, de 29 anos, em seu primeiro Carnaval defendendo a bandeira vermelha e branca.
Allan Galdino
“A Estácio vai arrebentar a avenida, vai ser um grande desfile. A escola vem com tudo. A gente vem para conquistar o título”, projetou.
Andréa Soares, professora da rede municipal do Rio de Janeiro, de 52 anos, também celebrou a força estaciana.
Andréa Soares
“A comunidade tem um canto muito forte, o povo vem com garra e com vontade de ganhar. A bateria é ótima. O pessoal aqui não brinca em serviço”, disse Andréa, que desfila na Estácio desde 1992, entre idas e vindas, e que, em 2026, retorna à agremiação após quatro anos afastada.
Na análise do aposentado Luiz Carlos dos Santos, de 62 anos, que caminha para o seu terceiro desfile pela Estácio, as coirmãs têm chances, mas a vermelha e branca não fica atrás.
Luiz Carlos dos Santos
“Está concorrido, tem muita escola boa, mas estamos fazendo a nossa parte”, avaliou.
Sobre a competitividade, Andréa concorda: “Tem muitas escolas que também vêm com a mesma garra. Hoje em dia está difícil demais. Um milésimo faz muita diferença”.
Engana-se, porém, quem pensa que a Estácio chega despreparada ou alheia ao peso da disputa.
“O grande trunfo é o nosso enredo, sobre o pai de santo Tata Tancredo”, opinou Allan.
Já Andréa e Luiz Carlos apostam na força humana da escola. “Destaco o pé no chão e o amor que cada componente tem pela agremiação”, afirmou a professora.
“Vou citar a harmonia. Está todo mundo envolvido”, completou o aposentado.
Há, de fato, motivos para a animação dos entrevistados, considerando o histórico recente da escola do Morro de São Carlos.
“No último desfile, a gente quase ganhou. O título não veio por poucos décimos”, lembrou Luiz Carlos, ao comentar o vice-campeonato de 2025.
O estreante Allan, contudo, acredita que os ajustes necessários foram feitos para a tão aguardada vitória.
“A Estácio já realizou os acertos necessários para conquistar o campeonato e subir para o Grupo Especial”, concluiu.
O CARNAVALESCO conversou com torcedores da Beija-Flor de Nilópolis para saber como estão as expectativas para o desfile de 2026. Com o enredo “Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, a azul e branco da Baixada venceu o Carnaval 2025 e agora mira a conquista do bicampeonato.
“Nós nunca vimos a nossa escola com um potencial tão grande como neste ano. Nunca vimos uma Beija-Flor tão forte para buscar o bicampeonato. Laíla resgatou a espiritualidade, a identidade da escola e a ancestralidade do povo preto da Baixada, e isso nos dá força para buscar esse bi”, afirmou o professor de Português, Literatura e Redação Diego Rufino, de 27 anos.
Para 2026, a agremiação mergulha na manifestação do Bembé do Mercado, considerado o maior encontro de candomblé de rua do mundo, realizado em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. A direção artística segue sob o comando de João Vítor Araújo, que, em 2025, tornou-se o primeiro carnavalesco preto retinto a vencer um desfile da principal divisão do Carnaval carioca com um trabalho solo.
Anderson Gomes
“A Beija-Flor vem com um enredo muito potente, cheio de ancestralidade, originalidade e forte apelo emocional. A gente fala da libertação dos escravizados e da procissão do Bembé do Mercado, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. É evidente que a escola está com a expectativa lá em cima, torcendo muito para que o bicampeonato venha”, declarou o jornalista Anderson Gomes, de 40 anos.
Simone Silva
“O enredo tem tudo para nos levar ao bicampeonato. O Bembé é um patrimônio do povo brasileiro e do povo baiano, do qual ninguém nunca falou no Carnaval. E ele tem a cara da Beija-Flor, porque, se você observar, todos os nossos títulos dialogam com a cultura afro”, pontuou a pedagoga Simone Silva, de 56 anos.
Ismael Costa
“A comunidade, quando abraça o enredo — que é o mais importante no Carnaval —, não tem para ninguém. Isso vale para todas as escolas. Assim como abraçamos o enredo do Laíla, estamos abraçando o Bembé. Esse já é um passo importante rumo ao campeonato”, garantiu o empreendedor Ismael Costa, de 60 anos.
A comunidade nilopolitana, no entanto, reconhece que a falta de trabalho e o excesso de confiança podem custar caro na busca pelo tão sonhado bicampeonato.
“É preciso manter os pés no chão e fazer um bom trabalho. Somos os atuais campeões, vencemos em 2025, mas as coirmãs também desenvolvem trabalhos excelentes. É torcer pelo bi sem contar com ele. É fazer um trabalho gigantesco para que o bicampeonato venha naturalmente”, ponderou Anderson.
“Por mais que estejamos confiantes, temos que seguir com humildade, no sapatinho. Fazendo o nosso trabalho de forma correta e profissional, a gente pode alcançar o campeonato”, completou Diego.
Para a dona de casa Maria Lúcia Gonçalves, de 58 anos, o segredo do sucesso está na determinação e no esforço da comunidade nilopolitana.
Maria Lúcia Gonçalves
“A Beija-Flor é trabalho, é muito trabalho. Às vezes as pessoas dizem que a gente é metido ou convencido, mas não é isso. A gente leva os ensaios muito a sério, desde os tempos em que Laíla ensinou isso, e seguimos assim até hoje. É um sonho para o nilopolitano e para a Beija-Flor, então a gente vai à luta, vai na garra”, explicou.
Além da humildade e do empenho, a escola precisa repetir, na visão dos torcedores, o chamado “rolo compressor” que marcou o último desfile.
“A gente conseguiu resgatar a potência da Beija-Flor de Nilópolis com um samba fabuloso, que viralizou no Carnaval, e com a energia do Laíla, que foi o nosso enredo. Se mantivermos esse rolo compressor que é a Beija-Flor, com certeza já temos meio caminho andado para o bicampeonato”, avaliou Anderson Gomes.
“É fundamental manter o chão, a comunidade nilopolitana, que é o grande diferencial da escola e foi resgatado no enredo do Laíla”, cravou Simone Silva.
“A Beija-Flor é garra, é comunidade. Se ela entrar comprando o barulho daquilo que a escola está propondo, não tem para quase ninguém. Com um bom samba — e a safra deste ano está maravilhosa —, desenvolvimento consistente e a comunidade abraçando o enredo, fica muito difícil para as outras”, garantiu Maria Lúcia.
“A mesma garra da comunidade, um bom samba e um bom desenvolvimento, como aconteceu no enredo do Laíla, é tudo”, finalizou Ismael Costa.
O CARNAVALESCO entrevistou o novo coreógrafo da comissão de frente do Paraíso do Tuiuti, David Lima, e o bate-papo se debruçou sobre sua estreia na principal divisão do carnaval carioca e os preparativos para o desfile oficial. Durante a conversa, David Lima revelou os protagonistas da abertura do cortejo amarelo-ouro e azul-pavão.
“Assim como trouxemos no minidesfile, a comissão de frente no dia oficial vai apresentar os eborais, entidades do Ifá afro-cubano que são pré-orixás e protegem as florestas. Por apresentarem certas deformidades, eles não conseguiram atingir o estágio de desenvolvimento pleno do orixá. Eles não são únicos, eles são vários. Quero que o público conheça essas figuras tão presentes na nossa apresentação”, confidenciou.
Com passagens por diversas escolas, como Unidos de Padre Miguel, Acadêmicos de Santa Cruz e São Clemente, David Lima estreia em 2026 no Grupo Especial.
“Chego agora com bastante experiência, no tempo certo. Nos últimos carnavais, pude mostrar grandes trabalhos, com nota máxima e o campeonato em 2024, com a UPM, na Série Ouro. Sempre trabalhei arduamente para construir um espetáculo que traga a essência dos enredos”, explicou o artista da dança.
David relatou as negociações com a diretoria do Paraíso do Tuiuti para coordenar um dos segmentos de maior visibilidade e expectativa no carnaval atual.
“Vim dar uma força para o presidente com algumas questões da escola, de coreografia. Ele gostou muito do trabalho que eu e minha equipe fizemos e, logo depois, me chamaram para uma reunião. O presidente perguntou se eu tinha interesse, se eu estava avaliando convites. Tive outras propostas, poderia ter passado por outras escolas, mas o meu coração é amarelo e azul”, recordou.
Uma vez acertado com São Cristóvão, o coreógrafo mergulhou de cabeça no Ifá cubano para montar uma apresentação coerente e representativa.
“Eu apresentei para a diretoria, para o presidente e para o carnavalesco dois projetos e o Jack, quando viu um deles, falou: ‘É isso, é isso aqui’. Vamos ter um trabalho forte, bem dentro do enredo, construído a várias mãos. Queremos que o público entenda o que é o Ifá. Avalio, pelo samba e pelos ensaios de rua, que estamos alcançando nosso objetivo. A gente só tem recebido elogios. Nesse minidesfile, percebi uma boa recepção do público. O pessoal quer ver, entender, gravar vídeos”, analisou o novo talento.
Em êxtase após a apresentação do minidesfile, David Lima comemorou a boa fase no Tuiuti e a conexão com a escola.
“Estou maravilhado e muito feliz de estar realizando esse trabalho aqui. Cheguei à agremiação no finalzinho deste ano, agora em 2025, e me senti tão em casa, sabe? O Jack (Vasconcelos) é um carnavalesco fantástico, e o Renato (Thor) é um presidente que escuta, traz uma ideia, acrescenta. A química que a escola está construindo para esse próximo carnaval vai ser incrível”, finalizou.
O CARNAVALESCO conversou com a equipe criativa das escolas da Série Prata e Bronze, diretamente da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), no Centro do Rio, sobre os preparativos para os desfiles de 2026.
Foto: Gabriel Radicetti / CARNAVALESCO
Alex Santiago, que divide o cargo de carnavalesco da Novo Império com Elvis Luiz e Jorge Caribé, se debruçou, em detalhes, sobre o enredo “No canto sagrado dos pajés e curandeiros, a cura que brota da floresta”, defendido neste ano pela agremiação na Série Bronze.
“Em 2026, a Novo Império trabalha a cura por meio da força ancestral da floresta. A gente vai fazer uma exaltação de todo esse saber passado de geração em geração, utilizando as folhas e demais elementos empregados para que essa cura seja corporal, mental e espiritual. Além das flores e folhas, essa cura da qual falamos vem das matas, da espiritualidade, dos banhos, das bênçãos, da fala, do sorriso e da alegria”, explicou Alex.
O profissional recordou o processo de escolha do tema, que surgiu por sugestão de Ney Lopes.
“Ney Lopes trouxe essa proposta para mim a partir de uma foto e de uma música antiga. Aí eu falei: ‘Olha, dá para pensar em um novo enredo e um novo samba em cima desse projeto inicial’. A gente foi discutindo e começou a tecer uma linha, em que se entende que esse saber ancestral tem um viés indígena e outro africano. Ele atravessa o oceano e vem se unificar aos saberes dos povos indígenas brasileiros, juntamente com os saberes dos portugueses e da própria Igreja Católica, formando um grande sincretismo em prol da cura”, contou Alex.
O carnavalesco ainda detalhou o projeto do desfile.
“A escola vem colorida, com fantasias diversificadas, grandes e volumosas. Vamos levar dois tripés, um carro alegórico e 19 alas. No primeiro setor, eu venho trabalhando essa questão da travessia africana do oceano. Os ancestrais africanos trazem saberes que vêm parar no Brasil. O segundo setor traz a questão dos pretos-velhos Catende, que, no sincretismo, vinculam-se a São Benedito, santo católico que utilizava as raízes e as folhas das matas para curar as pessoas. No último setor, a gente vem trazendo a cura que ultrapassa apenas as folhas. Nos debruçamos sobre a alegria do Carnaval e dos Doutores da Alegria. Uma cura além dos remédios, que passa pelo espírito, pelo sorriso e pelo samba”, disse ele.
O desenvolvimento conceitual e estético do cortejo encontra limitações operacionais na Intendente Magalhães, como relatou Alex Santiago, mas, apesar disso, a Novo Império aposta cada vez mais em sua equipe para levar ao público da região um espetáculo do mais alto nível.
“O grande desafio é a gente conseguir o contingente. Acabamos competindo, às vezes, com escolas da Sapucaí. Seiscentos componentes é um quantitativo gigantesco. Também tem a questão da logística de chegar à Intendente. As ruas laterais são estreitas, então não se pode pensar em carro alto, carro grande. Isso limita a questão da escultura. A escola, no entanto, passa por um crescimento. A gente era do Grupo de Avaliação no ano passado; este ano, a gente está na Série Bronze e vem se fortalecendo cada vez mais. Foi feita uma reestruturação da equipe, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira. Os nossos três carnavalescos têm, cada um, o seu potencial. Construímos um carnaval competitivo, grande e esperançoso”, finalizou Alex.