Será lançado este ano um novo álbum com os sambas-enredo do Rio Carnaval, além da compilação anual que antecede os desfiles das escolas na Avenida desde, pelo menos, a década de 1960. Agora, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) prepara o “Sapucaí ao Vivo”, com captação de áudio in loco para eternizar as canções que embalam o público nas arquibancadas, frisas e camarotes do Sambódromo. Uma iniciativa semelhante foi criada em 2008, sem continuidade.
Foto: Divulgação/Liesa
Com produção musical de Pretinho da Serrinha e coordenação de Hélio Motta, vice-presidente da Liesa e presidente da Edimusa (a gravadora da entidade), o projeto deve chegar às plataformas de streaming em março. A gravação acontecerá, claro, durante os desfiles oficiais, por meio de uma estrutura móvel situada no primeiro recuo da bateria, diante do Setor 1. O mesmo acontecerá na semana seguinte, no Sábado das Campeãs.
“Agora, vamos gravar no próprio Templo do Samba, enquanto a magia acontece. Queremos transmitir ao ouvinte a espontaneidade e a energia da festa. Será um produto para escutar, fechar os olhos e sentir: ‘Estou na Sapucaí'”, diz Motta, que também atuou no tradicional CD de Sambas-Enredo deste ano, disponível desde dezembro e recém-lançado em versão física para colecionadores.
A Unidos de Padre Miguel vai retratar o intercâmbio cultural entre as culturas árabe e nordestina. “Baião dos Mouros” é um enredo elaborado pela dupla de carnavalescos Edson Pereira, experiente na escola, e Wagner Gonçalves, recém-chegado. Previamente, o tema escolhido havia sido a Irmandade da Boa Morte, mas, como houve atritos de comunicação, a escola optou por respeitar os possíveis homenageados e mudar o enredo. A última vez que a UPM fez um desfile com a temática nordestina foi em 2015 com a homenagem ao Ariano Suassuna, executada por Edson. A agremiação conseguiu o vice-campeonato da Série Ouro naquele ano. Oito anos depois, os carnavalescos acharam que era o momento adequado de voltar a essa estética e se afastar desta vez da plástica africana dos últimos anos.
Fotos: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO
“Eu acho que o enredo é original. A gente já teve carnavais com essa linguagem muçulmana e árabe, que dá um visual bem interessante, e nordestina, esse ano é um ano de muita estética nordestina. Mas o nosso é uma mistura mesmo, essa coisa híbrida. Nos apropriamos da questão do boi, por causa dos mouros e o nosso boi vermelho. Parecia um enredo que já estava pronto ou engatilhado para ser da escola e surgiu naquela circunstância”, explicou Wagner Gonçalves.
A meta da escola da Vila Vintém é subir para o Grupo Especial, após anos chegando perto de alcançá-la. Agora, próximo do desfile na sexta-feira, dia 17 de fevereiro, os componentes conseguem visualizar melhor o potencial do que será apresentado na Sapucaí. Segundo o carnavalesco, a Unidos de Padre Miguel vai entrar para ser protagonista na disputa.
“A nossa inspiração é que a Unidos faça mais um grande desfile. Ela sempre protagoniza o desfile da Série Ouro. Sem querer ser pretensioso e com muito respeito às co-irmãs, esse é o histórico que ela vem apresentando. A gente tem que atender a essa expectativa do público e do componente”, contou Wagner.
Para evitar falhas técnicas em alegorias que já fizeram parte do histórico da UPM, a agremiação vai seguir à risca as especificações da Liga RJ que são próprias para quem está tão longe do Sambódromo. Entre as estratégias está a montagem em módulos dos carros alegóricos para facilitar o transporte.
“Para mim é um carnaval diferente porque é um barracão muito atípico. A escola gosta de carros grandes, só que existe um limite maior do que as outras escolas porque tem um traslado muito maior para a Presidente Vargas. Eu tenho a felicidade de ter um diretor de barracão que foi da Cubango. Mesmo na grandiosidade, a gente fragmenta tudo para atender a medidas que a Liga passa para a gente, sobretudo as escolas que estão desse lado da Av. Brasil”, explicou Gonçalves.
Beleza árabe-nordestina
Para imergir os componentes nesse cenário árabe e nordestino, Wagner Gonçalves e Edson Pereira vão se garantir em um carnaval colorido. Quem for assistir o desfile da Unidos de Padre Miguel, vai observar mistura de tecidos, a presença de bordados e contraste de texturas. Wagner afirma que, por conta da crise na indústria têxtil nos últimos anos desde a pandemia, a solução foi encontrar materiais baratos e investir nas cores.
“A indústrias ainda estão se estabelecendo e a gente não está podendo importar, então fomos no mercado entender. Misturamos muito tecido barato, brincamos com as cores e muita pintura. Deu o resultado que nós queríamos. A comunidade teve acesso às fantasias e ficou bem satisfeita. As fantasias acabaram muito rápido e tem pouquíssimas vagas”, disse o carnavalesco.
Trabalho em dupla
O Carnaval 2023 do boi vermelho da Vila-Vintém está sendo construído a quatro mãos. Edson Pereira é um velho conhecido da casa. Ele é responsável por oito carnavais da agremiação, cinco destes na Série Ouro sempre figurando na parte de cima da tabela de classificação. Já Wagner Gonçalves acabou de chegar na UPM, vindo da Estácio de Sá onde trabalhou com o carnavalesco Mauro Leite.
“Na verdade, eu não pretendia fazer um carnaval de dupla. Acredito que nem o Edson. Já fui chamado para a escola em outro momento, havia esse namoro comigo aqui. Para esse momento agora, a ideia era manter o Edson e ele tem muito carinho pela escola. Então ele me ligou falando que queria continuar, mas, com o compromisso no Salgueiro, ia ficar difícil. Se eu aceitasse, ia ser mais fácil de ele permanecer. Casou. Foi feito um carnaval a duas cabeças, mas a quatro mãos. Eu conheço o trabalho do Edson e o Edson conhece o meu. Mesmo quando eu criava alguma coisa, eu enveredava pela estética dele e vice-versa”, relatou Wagner.
A dupla tem a consciência de que embarcou em um projeto de uma escola que está constantemente entre as primeiras colocadas da Série Ouro, sempre brigando ponto a ponto para subir ao Grupo Especial. O foco é um trabalho dinâmico e objetivo, já que Pereira também tem que se equilibrar com o carnaval do Salgueiro. Deste modo, surge um carnaval em que o chão da escola está se reconhecendo, se identificando e sonhando com o título.
Para Gonçalves, é importante compreender que a Unidos de Padre Miguel é uma escola de Série Ouro e enfrenta problemas como as co-irmãs. A vantagem está na estrutura que foi desenvolvida nos últimos anos e Edson também é responsável por construí-la. Neste Carnaval, Wagner vê como uma passagem de bastão e um aprendizado sobre como funciona a vermelho e branco e isso inclui lidar com a criatividade para fazer um desfile com a cara da agremiação.
“Ele está passando o bastão me instruindo como aqui funciona. A gente não faz um projeto grandioso e executa achando que o dinheiro vai chegar. Não vai chegar. Tem que ser muito criativo, entender as prioridades da escola. É um ano de muita dificuldade, com um orçamento mais modesto para todas as escolas do grupo; com a Unidos não é diferente. Então temos que trabalhar, se dedicar e privilegiar a criatividade e o truque. É o truque mesmo, o falso brilhante”, comentou o carnavalesco.
Conheça o desfile da Unidos de Padre Miguel
A vermelho e branco da Vila Vintém vai dividir seus 2500 componentes em três alegorias, dois tripés e 23 alas. O carnavalesco Wagner Gonçalves manteve o segredo da estrutura do desfile, mas contou o que o público pode esperar quando vir a UPM entrar na Marquês de Sapucaí. Primeiramente, o desfile será atemporal, logo não terá uma ordem cronológica do intercâmbio entre os árabes e o povo nordestino.
“Nós entendemos que, entre todas as interferências, a música é a mais latente. Nós estruturamos através da música, o nosso enredo é um repente. E uma estrutura narrativa de repente é que ele pode vir nessas emboladas e improvisações”, disse Gonçalves.
Como a estratégia foi catalogar as influências dos árabes, esse resultado das pesquisas será visto de forma objetiva na Avenida. A promessa é de um visual de fácil entendimento, até mesmo quando os carnavalescos recorrem a analogias. Signos e símbolos de conhecimento geral ajudarão nessa narrativa, por exemplo, o uso de xilogravuras, incensos, cactos, camelos.
“É muito mais simples do que as pessoas possam imaginar, com leitura muito direta. Por mais analogias que tenhamos feito, a leitura visual é muito direta. Nos preocupamos com isso”, garantiu Wagner.
Embora visualmente objetivo, o “Baião dos Mouros” pretende ter um desfile poético por conta da estrutura do repente. A divisão de setores é a solução de trechos compilados da pesquisa feita pelos dois.
“Não é tão literal. A gente pegou trechos do que a gente leu tanto em crônicas quanto em poesia e demos tópicos e títulos. O samba conta isso. ‘Sou eu vivendo o sonho das Arábias, são mil e uma noites de histórias ao luar’, isso é um setor inteiro que nós chamamos de ‘Mil e uma noites sertanejas’. Neste setor, cabem as questões da literatura entre outras. O nosso trunfo, para poder ter essa liberdade de ir e vir nessa construção narrativa, é apresentar um carnaval com novidade, com recorte atemporal, com recortes visuais mais criativos. Não é nada de outro mundo, mas é uma opção que fizemos para criar uma reversão de expectativa”, explicitou Wagner Gonçalves.
Os carnavalescos adiantam que o público pode esperar um tratamento sobre música, literatura, folclore e muitos outros recortes culturais. Para descobrir todos os segredos da Unidos de Padre Miguel, o público terá que esperar a sexta-feira de Carnaval e vê-la como a quinta escola a passar no Sambódromo.
Em 1990, a Lins Imperial levava para a Avenida um carnaval de Sérgio Farias sobre Madame Satã, nome artístico de João Francisco dos Santos, um menino humilde que desde a infância sofreu muito na vida. Drag performer, capoeirista, homossexual, negro e nordestino, Madame Satã tornou-se um simbolo de resistência aos menos favorecidos. Após 33 anos do imponente desfile da Lins Imperial no Grupo Especial, a escola de samba volta a homenagear Madame Satã e promete entregar um belo carnaval na Marquês de Sapucaí. O site CARNAVALESCO visitou o barracão da Lins Imperial para conversar com o carnavalesco Eduardo Gonçalves. Raí Menezes também está na parceria.
Fotos: Raphael Lacerda/Site CARNAVALESCO
Segundo Edu, a ideia de releitura do enredo de Madame Satã já era pensada durante os preparativos do carnaval do ano passado, quando a escola homenageou Mussum na Avenida. Houve a pesquisa de outras dezenas de possíveis enredos, mas a imponente história de João Francisco falou mais alto.
“No início deste ano, após o carnaval do Mussum, começamos a levantar possibilidades de enredos inéditos e, principalmente, de falar sobre os 60 anos que a Lins Imperial vai fazer no dia 23 de março. Os enredos inéditos, obviamente, foram pesquisados. Mas, de todos os 58 projetos que a Lins Imperial levou para a avenida neste período, Madame Satã sempre chamou muito a nossa atenção. Ano passado, no barracão do Mussum, a gente já falava de Madame Satã. Quando vimos que haveria a possibilidade de levarmos de novo Madame Satã com uma releitura, não uma reedição, nos animou bastante”, disse.
De acordo com o carnavalesco, a diferença do deste desfile para o de 1990 é a abordagem que será feita. Desta vez, a escola abordará Madame Satã como um amuleto político e símbolo de resistência. Tal motivo animou a escola e contribuiu para a escolha do enredo.
“A gente ficou bastante animado, principalmente pelo novo momento, já que foi apresentado em 1990 e era outra época, tinha uma narrativa de uma Madame Satã e de um João Francisco dos Santos romântico, bom vivant, de uma Lapa boêmia – o que era incrível – lindo, inclusive, plásticamente. Este ano, a nossa possibilidade de abrir um leque muito maior; de falar de um Madame Satã biográfico, mas, principalmente, como um amuleto político. Isso nos animou bastante. biográficos os dois são. Mas, este ano, temos a questão política. Madame Satã é um amuleto para a gente, é uma bandeira LGBTQUIA+, é uma bandeira negra, uma bandeira nordestina. Isso porque nós tratamos, principalmente no final do desfile, este tema”, enfatizou.
A escola abordará a bibliografia de João Francisco que, em grande parte, teve uma vida sofrida. O carnavalesco Eduardo contou que ainda na infância, João Francisco foi trocado por uma mula para sustentar seus 17 irmãos. A partir daí, João foi escravizado.
“Desde criança ele começa a enfrentar seus ‘infernos’, que começam aos oito anos em Glória do Goitá, sua cidade, quando ele é trocado por uma mula de nome amorosa para sustentar 17 irmãos. Esse senhor que resolveu adotar João o escravizou. Ele consegue fugir desse senhor com a ajuda de uma senhora que se chamava Felicidade, mas que de felicidade não tinha nada, porque ela traz João para a Lapa mas também o escraviza. Daí, quando ele sai da casa dessa senhora chamada Felicidade, ele vai morar nas ruas. Assim ele se torna, aos 13 anos de idade, um menor de rua, começa a trabalhar para ganhar seus primeiros tostões para alugar esquinas de escadas de bordéis para dormir. Isso tudo é apresentado no enredo. Ele sempre esteve à margem”.
Edu e Raí Menezes se baseiam em dissertações, pesquisas e documentos históricos durante a pesquisa de enredo. Ao longo deste estudo, várias coisas chamaram a atenção dos carnavalescos, mas uma se destacou: Madame Satã não foi um criminoso, ao contrário do que muitos pensam. Edu conta que desde a infância, João Francisco sofreu muito e chegou a ser trocado por uma mula. O sonho dele era se tornar artista.
“Ele não pode ser considerado um criminoso, já que cometeu os crimes em sua defesa. Ele sempre falava que o sonho dele mesmo era ser artista. Ele queria ser a mulata do Balacochê, não esse Madame Satã que ganhou essa fama de malandro, boêmio, guarda-costas de boates ou mesmo de capoeirista. Ele ficou conhecido primeiro como ‘caranguejo da praia das virtudes’, por ser um exímio capoeirista, mas ele só se torna capoeirista porque tem que se defender. Durante todo esse tempo houve esse tratamento em cima de João Francisco como um marginal, e isso que estamos tentando mostrar que não é bem assim, não é por aí”, explica.
Proposta visual do desfile
O carnavalesco ainda revelou que o enredo, as cores e o samba serão alguns dos grandes trunfos da escola, além do fato que a Lins é da comunidade. Edu afirma que, quando o Complexo do Lins se junta, um belíssimo desfile acontece. Com o aniversário de 60 anos da escola, a comunidade vem ainda mais disposta.
“Eu acho que o grande trunfo da gente, numa narrativa plástica, são as cores. A gente está trabalhando com um primeiro setor muito quente, depois a gente vai esfriando, em sequência esquenta de novo e, por fim, as cores da escola. Isso é um dos trunfos da narrativa plástica. Mas é óbvio que a força do enredo é muito forte. A figura de João Francisco dos Santos, hoje como amuleto e bandeira LGBTQUIA+ é muito poderosa, porque nós estamos com a participação de muitos desses movimentos para o desfile. Nós temos o trunfo do samba de enredo, que é considerado um dos melhores sambas do grupo. Fora que a Lins Imperial é uma escola de comunidade. O Complexo do Lins, quando resolve desfilar – e ele resolve sempre desfilar – vem muito forte. Além do que, são 60 anos da escola e as pessoas vêm realmente muito dispostas para fazer um grande desfile”, ressaltou.
Homenagear uma figura como Madame Satã nos anos 90 foi algo ousado para um carnaval. Para Eduardo, esse é um dos destaques do enredo de 1990 da Lins Imperial, além da plástica elaborada por Sérgio Farias.
“Em 90 eu assisti ao desfile do Sérgio pela Lins e o que eu achei mais incrível foi a plástica linda, que Sérgio era muito caprichado e talentoso. Inclusive ele é citado e homenageado tanto na sinopse como no nosso desfile. O que mais me chamou a atenção lá em 90 foi a ousadia. Levar uma personagem homossexual em 1990 não era fácil. A gente tinha uma certa abertura política, mas as pessoas tinham muito preconceito – se ainda tem hoje, imagine em 1990. A diferença é óbvia, hoje nós temos muito mais liberdade, essa é a diferença maior. Poder levar um samba com palavras fortes e inéditas. Como diz o samba, é um samba manifesto – muito mais que carnaval”.
Um manifesto sobre Madame Satã e para a vida em sociedade: a importância do enredo para dar voz às minorias. Essa é uma das propostas do enredo. Edu contou que a escola chegou a criar o prêmio Madame Satã para homenagear personalidades LGBTQIA+.
“Falamos de um carnaval com uma bicha preta, nordestina, analfabeta e que viveu à margem de uma sociedade e sempre apontado como um criminoso. Hoje, a importância de João Francisco no desfile da Lins Imperial é justamente isso: a gente poder falar com tanta clareza para a comunidade. Tivemos a oportunidade de fazer o Prêmio Madame Satã, que foi uma feijoada que nós fizemos todo mês na quadra, onde convidamos personalidades importantes para o mundo LGBT que tiveram, em alguns casos, a primeira oportunidade de ter um microfone na mão dentro de uma quadra de escola de samba. Elas podendo contar as suas histórias, vivências e experiências de vida para a comunidade do Lins. Só isso, para nós, já é uma vitória”.
Conheça o desfile da Lins Imperial
A Lins Imperial será a segunda escola a entrar na Avenida no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, dia 17 de fevereiro. A agremiação levará entre 2700 e 2800 componentes, três carros alegóricos e dois tripés divididos em cinco setores – os quais o carnavalesco chama de ‘cenários’.
SETOR 1: “João, menino, em Glória do Goitá. O folclore de Glória do Goitá, os bonecos mamulengos – a cidade tem um dos maiores museus de bonecos mamulengos do Brasil – e a gente traz isso, mas com essa narrativa de ‘inferno’, porque ele vive esse ‘inferno’ nessa cidade, nesse início de infância. Portanto, o primeiro setor tem essas vivências de João menino e os seus ‘infernos’, o seu primeiro inferno”.
SETOR 2: “João chegando na Lapa, ainda criança, ganhando seus tostões para dormir em esquinas de escada e a sua experiência com os malandros – como sete coroas e tantos outros malandros – que o transforma em ‘caranguejo da praia das virtudes’. Nesta parte também entram os bordéis, casas de tolerância que João Trabalhou, o seu primeiro emprego, que foi na pensão Lapa, onde ele conheceu as prostitutas, cortesãs e onde ele aprendeu a cozinhar e aprendeu as vivências e experiências sexuais – ainda como criança, com 14 ou 15 anos”.
SETOR 3: “O que chamamos de momento ‘sonhos’. Os momentos em que ele dizia que só queria ser artista. Sendo artista, ele poderia trabalhar na noite, ganhar muito dinheiro e talvez ele realizasse o sonho dele. Ele tinha Josephine Baker como santa para ele, ele dizia que era devoto de Josephine Baker. A Carmen Miranda ele dizia ser muito amigo. E ele teve essa experiência de poder encenar num teatro, que foi a casa de caboclo, uma peça onde ele representou a personagem a Mulata do Balacochê. Isso está neste setor. É um setor muito forte, porque tem a bateria. Também temos surpresas nesse setor. Também nesse setor vem o apelido”.
SETOR 4: “É Mito, Lenda e Legenda, que ele ganha fama muito tempo depois. Apenas quando ele vai dar entrevista para o Pasquim que ele fura a bolha da Lapa, atingindo outros públicos como a burguesia carioca, os paulistas e vira a celebridade Madame Satã. Começou a ser pesquisado, virou tema de filme – A rainha diaba. Ele começa a gostar disso, mas já era muito tarde, ele estava bastante idoso, morando em Ilha Grande e já estava totalmente dedicado a sua vidinha final. Tudo isso é tratado nesse setor”.
SETOR 5: “A gente chama de No Terreiro de Satã, onde convidamos os renegados, vadios, as bonecas e invisibilizados para celebrarem esse culto no bloco manifesto em homenagem e saudação a Madame Satã e aos 60 anos da Lins Imperial”.
Repetindo o sucesso de 2022, a Liga-SP manteve os desfiles do Grupo de Acesso II uma semana antes dos desfiles do Grupo Especial de São Paulo. Ou seja, neste sábado, doze escolas brigam por duas vagas no Grupo de Acesso II em 2023, enquanto outras três serão rebaixadas para a UESP, mudanças importantes no regulamento para este ano. O início previsto dos desfiles no Sambódromo do Anhembi é às 20h, enquanto a última está marcada para entrar às 5h10, cada escola tem entre 45 a 50 minutos para passar pela pista. Vale ressaltar que terá entrada gratuita para assistir o desfile. Os desfiles vão ter transmissão ao vivo pelo YouTube da Liga-SP e flashes pela TV Brasil. Segue um giro completo nas doze escolas do Grupo de Acesso II trazendo enredo, histórias, equipe de profissionais e outros detalhes para 2023.
Foto: Jose Cordeiro/ SPTuris.
Imperatriz da Paulicéia – 20h
Muito se falou da estreia da Imperatriz no Anhembi, porém a agremiação já desfilou no Sambódromo paulista nos anos 2000. Entretanto tem uma novidade, verdadeira estreia, que é de uma mestra mulher comandando uma bateria, a Swing da Paulicéia tem Mestra Rafa como um grande atrativo, histórica presença. Neste ano, a escola cantará “Bem-vindos à Vila Esperança – O Berço do Carnaval paulistano”.
No comando do som, o intérprete Fabiano Melodia. O casal que defende o pavilhão será Ronaldo e Leila. Por fim, carnavalesco é o Pedro Alexandre, conhecido como Magoo, o coreógrafo é Diego Albornoz e a rainha Ariê Suyane.
Fundação: 1980
Escola madrinha: Não tem
Melhor resultado: 5ª lugar do Grupo Acesso II
Colocação em 2022: Campeã – UESP
Amizade Zona Leste – 20h50
Em sua décima participação seguida no Acesso II, a escola ainda busca o sonho de chegar no Grupo de Acesso. Bateu na trave no primeiro ano em 2014, ficou no 3º lugar. Mas em 2022 acabou ficando somente na 9ª colocação. O enredo escolhido para esse ano é “Do Zé Pelintra ao Zé Ninguém. Qual Zé Você É?”.
A escola tem uma Comissão de Carnaval desenvolvendo as alegorias e fantasias. Os intérpretes Adauto Jr. e Eliezer PQP, o primeiro casal João e Angélica Paiva. No comando da Batucada da Amizade está Vinicius Nagy e o coreógrafo Márcio Akira. Por fim, a rainha Katharina Monteiro.
Fundação: 1995
Escola madrinha: Unidos de São Lucas
Melhor resultado: 3º lugar do Grupo de Acesso II em 2014
Colocação em 2022: 9º lugar – grupo de Acesso II
Brinco da Marquesa – 21h40
Venceu o Grupo Especial de Bairros da UESP em 2020, e em 2022 ficou na 10ª colocação no Grupo de Acesso II, mantendo assim na divisão, que era sua meta inicial. Com a permanência do carnavalesco Carlos Marques, trará o enredo: “É festa! No Brasil, é alegria o ano inteiro. A Marquesa comemora com você”.
O mestre da Bateria Fantástico é o jovem Juan Cotto, a rainha é a Thamires Seixas, enquanto Samuel e Juliana Ferreira defendem o pavilhão da escola. Por fim, o coreógrafo é Danilo Pacheco e o intérprete é o Buiu MT.
Fundação: 1988
Escola madrinha: Acadêmicos do Turucuvi
Melhor resultado: 12º lugar no Acesso II em 2018
Colocação em 2022: 10º lugar – grupo de Acesso II
Primeira da Cidade Líder – 22h30
Um lado do Rio de Janeiro no Anhembi, a Primeira da Cidade Líder sonha com voos maiores, ficou em quarto lugar no ano de 2019 e repetiu em 2022. Pois com o carnavalesco Ewerton Vissoto, traz um enredo carioca: “70 anos de uma escola diferente, lá vem Salgueiro”!
Na Batucada de Primeira, Mestre Alexandre Jr, defendendo o pavilhão, o casal Fabiano Dourado e Sandra de Jesus. Já no comando do carro de som, o intérprete Thiago Melodiah e o coreógrafo da comissão de frente, Robson Santos, que também é rei da bateria, e a rainha Amanda Martins.
Fundação: 1993
Escola madrinha: Leandro de Itaquera
Melhor resultado: 4º lugar no Acesso II em 2019 e 2022
Colocação em 2022: 4º lugar – grupo de Acesso II
Imperador do Ipiranga – 23h20
Com muita tradição, histórico de disputar inclusive Grupo Especial, está no seu terceiro ano no Acesso II. Foram 19 vezes na elite do carnaval de São Paulo, a última em 2010. Venceu quatro vezes o Acesso I, sendo a última em 2006. Para 2022 terá o carnavalesco Ivan Pereira e o enredo: “Gratidão, Fé e Amor… Vem! Sou Imperador”.
O casal que carrega o pavilhão será Vitor Barbosa e Naiomy Pires, na bateria Thiago Praxedes, enquanto o intérprete é Rodrigo Atração. A rainha é Rhawane Izidoro, simplesmente a rainha da Corte do Carnaval.
Fundação: 1968
Escola madrinha: Gaviões da Fiel
Melhor resultado: 5º lugar do Grupo Especial em 1973
Colocação em 2022: 8º lugar – grupo de Acesso II
Uirapuru da Mooca – 00h10
Do bairro da Mooca, a Uirapuru vai para o décimo primeiro ano seguido disputando o Acesso II e sonhando com a volta ao Acesso, onde esteve entre 2010 e 2011. Bateu na trave no retorno em 2013, quando foi vice-campeão, se repetir em 2023, sobe, afinal mudou o regulamento. Neste ano, o carnavalesco Toninho trouxe o enredo: “Amazônia: Terra do Uirapuru – Salve os donos da terra e suas lendas”.
A Moocadência conta com mestre Murilo Borges e a rainha Acassia Nascimento, defendendo o pavilhão Anderson Guedes e Pâmela Yuri. Na comissão de frente, Giovanna Lacerda e o intérprete André Ricardo.
Fundação: 1976
Escola madrinha: Unidos de Vila Maria
Melhor resultado: 6º lugar no Acesso I em 2010
Colocação em 2022: 5º lugar – grupo de Acesso II
Leandro de Itaquera – 1h00
Ficou sete anos consecutivos no Acesso I, a Leandro de Itaquera escapou da queda por algumas vezes, mas em 2022 não teve jeito, caiu para o Grupo de Acesso II. Buscando reestruturação a agremiação da Zona Leste fez uma reedição do enredo de 1992: “Batuque, a Força da Raiz”, sob comando do carnavalesco Augusto Oliveira.
Conta com uma dupla de intérpretes Rodrigo Jacopetti e Tays Calhado, o coreógrafo da comissão de frente é Marcelo Gomes. A Batucada do Leão segue com Mestre Pelézinho, e a rainha Kaluana Luane. Por fim, o casal José Luis e Juliana defendendo o pavilhão mais um ano.
Fundação: 1982
Escola Madrinha: Nenê de Vila Matilde
Melhor resultado: 4ª lugar no Grupo Especial em 1991
Colocação em 2022: 8º lugar – grupo de Acesso I
Unidos do Peruche – 1h50
Muita tradição, mas vai para o terceiro ano consecutivo no Grupo de Acesso II. Vive o pior momento da sua história em questão de divisão. Um sexto lugar em 2020, e um vice-campeonato em 2022, que hoje daria o acesso. Em 2022 cantou sobre água, mas em 2023 com Mauro Xuxa seguindo como carnavalesco será perfume: “A Essência Que Me Seduz”.
O mestre Acerola de Angola segue no comando do Rolo Compressor, com a rainha Juliana Guariglio. O casal Kawê Lacorte e Nathalia Bete defendem o pavilhão perucheano, o intérprete é o Alex Soares e o coreógrafo Pedro Vinícius.
Fundação: 1956
Escola madrinha: Lavapés
Melhor resultado: 5 vezes campeã do Grupo de Especial (última em 1967)
Colocação em 2022: 2º lugar – grupo de Acesso II
Unidos de Santa Bárbara – 2h40
A escola do Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, vai para sua nona participação no Acesso II, sendo que em 2013 disputou o Grupo de Acesso, por ter sido campeã deste Grupo que está atualmente. Mas em 2022 escapou do rebaixamento por pouco, Tradição Albertinense acabou caindo para a UESP. Outra escola que busca uma reedição de 2010, o carnavalesco Anderson Paulino trará “Kosi Ewe — Salve as Folhas. Sem Folhas, Não Tem Orixás”, em homenagem a Mãe Helena, que faleceu no último ano e era uma das fundadoras da escola.
Com a potente voz de Elci Souza no carro de som, a bateria Ritmo Tempestade do Mestre Wallace junto com a rainha Renata Treme Tudo. No pavilhão conta com Dyego Santos e Walesca Alves, o coreógrafo é Luiz Romero.
Fundação: 1993
Escola madrinha: Leandro de Itaquera
Melhor resultado: 8º lugar no Grupo de Acesso I em 2013
Colocação em 2022: 11º lugar – grupo de Acesso II
Torcida Jovem – 3h30
Sempre brigando para subir, ficou no terceiro lugar na última temporada. Sonha com o retorno ao Grupo de Acesso que disputou em 2011, mas acabou rebaixado na primeira oportunidade. Para 2023, vem com o enredo “Torcida Jovem está presente e canta nas águas de Mãe Iemanjá”, desenvolvido por uma comissão de carnaval.
O coreógrafo da comissão de frente é Ricardo Dias, seguido pelo casal Alex Santos e Dani Motta que defende o pavilhão. O intérprete é Adeilton, já o mestre de bateria é Marcelo Caverna com sua rainha Dóris Grace.
Fundação: 1969
Escola madrinha: Vai-Vai
Melhor resultado: 8º lugar no Grupo de Acesso I em 2011
Colocação em 2022: 3º lugar – grupo de Acesso II
Camisa 12 – 4h20
Outra escola oriunda de torcida organizada, a Camisa 12 também busca o seu lugar no Grupo de Acesso há algum tempo. Já conseguiu bons resultados, mas somente o vice-campeonato em 2020, não conseguiu ir ao Grupo de Acesso I. Em 2022 acabou perdendo décimos por estourar o tempo. Para mudar isso, tem Delmo de Moraes como carnavalesco e o enredo “Da inclusão à superação. Todos somos iguais. Sou um Campeão”.
O pavilhão é defendido por Luan Camargo e Mari Santos, a porta-bandeira que inclusive está grávida. A dupla de intérpretes com Tim Cardoso e Benson, o mestre Lipe e a rainha Tatá Soares, além da experiente coreógrafa Yáskara Manzini.
Fundação: 1996
Escola madrinha: Gaviões da Fiel
Melhor resultado: 2º lugar no Acesso II em 2020
Colocação em 2022: 7º lugar – grupo de Acesso II
Dom Bosco de Itaquera – 5h10
Fechando o dia mais uma vez, outra escola da zona leste, e tem batido na trave pelo acesso há algum tempo. A agremiação comandada pelo Padre Rosalvino, perdeu 0,5 por conta de estourar o tempo em 2022, pois gabaritou quesitos e subiria com pontuação máxima… Mas não subiu, e conta com uma comissão artística no enredo “Sinfonia Brasileira, uma aquarela em poesia”.
A agremiação conta com o casal Leonardo Henrique e Mariana Vieira defendendo o pavilhão, Luana Polleti é a coreógrafa da comissão de frente. O intérprete é Rodrigo Xará, enquanto o Mestre Bola comanda a bateria que conta com Mayra Barbosa, rainha, que teve o nascimento da sua filha há uma semana.
Fundação: 2000
Escola madrinha: Nenê de Vila Matilde
Melhor resultado: 3º lugar do Grupo de Acesso II (cinco vezes, última 2020)
Colocação em 2022: 6º lugar – grupo de Acesso II
A Liga-RJ finalizou esta semana o curso de julgadores para o Carnaval 2023. O encerramento contou com a presença da professora e ex-carnavalesca, Maria Augusta. A Liga-RJ este ano inovou e fez uma estratégia diferente para avaliação. O processo seletivo contou com duas etapas: uma prova escrita de conhecimentos gerais sobre carnaval e julgamento e em seguida aulas expositivas, explanações e workshops. No total foram três encontros com oito horas de duração cada, sob o comando da Dra. Lydia Rey, que possui longa trajetória comandando cursos de jurados em diversos carnavais do país.
Fotos: Diego Mendes/Liga-RJ
“Fiquei bastante satisfeita com o resultado. A prova foi importante. Tivemos 100 candidatos durante o processo de seleção e capacitação participando ativamente. A avaliação foi um parâmetro importante pra Liga-RJ e seus representantes conseguirem escolher aqueles candidatos cada vez mais preparados tecnicamente. Tivemos muitas mudanças em relação ao curso promovido no ano passado porque procuramos melhorar a cada ano. Nesta edição focamos principalmente em relação à postura do julgador, o que a gente espera dessa função julgador na Avenida”, contou a coordenadora do curso.
O júri não está definido ainda. Agora a lista dos aprovados segue para a avaliação dos presidentes das escolas da Série Ouro, que devem ser aprovados em plenária, na semana que vem.
Dudu Azevedo é diretor de carnaval da Beija-Flor de Nilópolis desde 2020, quando a escola desfilou com o enredo “Se essa rua fosse minha…” e voltou para o sábado das campeãs. Outro sucesso seu foi o vice-campeonato em 2022 com o enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”. O jeito de comandar o carnaval é inspirado no presidente de honra Anísio Abraão David e no presidente Almir Reis. Para 2023, ano em que a Beija-Flor vai apresentar mais um enredo político, na esteira do ano anterior, o diretor busca acertar erros de outros anos e planejar os riscos. O site CARNAVALESCO conversou com Dudu Azevedo para ouvir o que ele tinha para dizer sobre seu jeito de liderar, como ele solucionou alguns problemas e a entrada da Ludmilla como intérprete.
Foto: Matheus Vinícius/site CARNAVALESCO
Você sente dentro da Beija-Flor um novo caminho com os enredos que dialogam mais com o dia a dia da sociedade?
Dudu Azevedo: “Não vejo como um novo caminho, porque a Beija-Flor já trouxe vários enredos críticos e sociais. A era Joãosinho Trinta falou muito disso. Depois também com ‘Saco vazio não para em pé’ e tem uma série de enredos que trazem essa parte social e política. Eu não vejo como um novo caminho, mas a gente vem de dois anos com enredo que coloca a sociedade para pensar e provoca a sociedade a ver história, a ver o seu dia a dia. Acaba que o componente se vê dentro dessa história. Isso é legal. Isso para a gente que trabalha esse nosso chão que é espetacular de estrelas é muito importante”.
É falado que vocês estão recuperando o jeito Beija-Flor de desfilar. Para você, o que é esse jeito da escola?
Dudu Azevedo: “Eu cresci vendo a Beija-Flor desfilar e tudo que eu queria era estar dentro para participar daquilo que eu via na Avenida. Em algum momento, depois da saída do mestre Laíla, que foi só um carnaval, começaram a deixar em dúvida esse chão da escola. Como eu já falei, são 3000 desfilantes, 3000 artistas. Quem veste a camisa da Beija-Flor leva no sangue, no peito e na raça o amor pela escola. A escola tem duas pilastras que a sustentam que são ensinamentos do Anísio [Abraão David] e, hoje, seguidos pelo Almir [Reis], nosso presidente: muito amor que a gente tem, nós derramamos muito amor, e muito respeito. Quem está aqui dentro tem isso por essência, são as pilastras que carregam a Beija-Flor. A Beija-Flor se encontra, como diz o samba de 2020, ‘Eu me encontro nos seus braços, Beija-Flor’. Ela se encontra nela mesma. Nosso papel é colocar essa energia por igual, equilibrar tudo isso trazendo grandes enredos, grandes sambas e fazendo esse show pulsar na Avenida”.
Foi pressão demais entrar na escola após resultados ruins e saída do Laíla?
Dudu Azevedo: “Eu vim um ano depois da saída do Laíla. A pressão da Beija-Flor é por títulos, está acostumada a ser campeã. Ela é a maior detentora de títulos da Marquês de Sapucaí, então vamos estar sempre nos cobrando para ser campeã. E está certo. Escola grande tem que ser campeã. Vamos trabalhar para ganhar títulos”.
Como é trabalhar com o Alexandre Louzada, tão campeão, e com o André Rodrigues que é da nova geração?
Dudu Azevedo: “[O Louzada] é o maior campeão junto com a Rosa Magalhães da era Marquês de Sapucaí. Eles estão maravilhosamente bem na sintonia deles. É importante para nós esse trabalho do dia a dia. A gente sempre teve em mente que o Carnaval é uma obra coletiva, tudo é debatido, tudo é conversado. Eu os vejo o tempo todo conversando e chegando no entendimento. Eu nunca tinha trabalhado com dois carnavalescos e está sendo surpreendente. Eu estou gostando muito da construção coletiva”.
Doeu em você ver a escola entrar sem as pessoas na alegoria no desfile de 2022?
Dudu Azevedo: “Foi muito ruim, né. Nós fazemos planejamento de carnaval, colocamos diretores para cuidar das alegorias e profissionais que montam as alegorias no barracão. De repente, a gente se viu em um beco na nossa comunicação na Avenida. O carro ainda não estava montado já na curva e decidimos levar o carro sem as pessoas. Entendíamos que, lá em cima, nós conseguiríamos arrumar as pessoas que não aparecessem. Acabou não rolando. Uma composição que poderia dar um passo para o lado colocaria a gente em um outro patamar. Isso fez a gente, esse ano, treinar bastante a subida e a descida das meninas e dos meninos dos carros, colocarem os diretores com toda programação e planejamento novamente nas mãos. Já ensaiamos duas vezes subidas e descidas, tem mais um ensaio no sábado [11 de fevereiro]. Acredito que a gente vai reparar esse erro que aconteceu no último ano”.
Qual é o seu desfile inesquecível no carnaval e por qual motivo?
Dudu Azevedo: “Eu coloco como meu desfile inesquecível meu primeiro ano de Beija-Flor: 2020. Gosto muito da letra do samba. Eu estou nessa batalha de Carnaval, eu falo, desde a barriga da minha mãe, mas tem 44 anos. Estou fazendo 10 anos de direção de carnaval, fiquei quase 10 como diretor de Harmonia. Quando você chega em uma Beija-Flor, é inesquecível o primeiro desfile. Entrar a primeira vez na Avenida e falar: ‘Caramba, cheguei na Beija-Flor de Nilópolis’. Não tem mais para onde subir. É uma escola de excelência. Eu cresci ouvindo o nome do Anísio, trabalhei ouvindo o nome do Almir. Quando você entra com essas duas pessoas e conversa de Carnaval, a gente vê o quanto aprende todo dia. O Anísio é uma entidade do carnaval e o Almir é uma enciclopédia. O dia a dia da Beija-Flor é uma coisa maravilhosa pela parte coletiva e vem desses ensinamentos, dessas pilastras que erguem a escola”.
Você vem mudando os concursos de samba. O que ainda pensa em fazer que não conseguiu colocar em prática?
Dudu Azevedo: “Eu já tentei uma vez Copa do Samba, que foi legal para caramba. Já fiz uma final com dois sambas só. Eu acho que é um momento muito importante para a escola. Eu respeito muito a ala de compositores. A ala de compositores é segmento da escola e temos que respeitá-los. Eles fazem uma canção que eleva o desfile. Eu acredito que 60% ou 70% do desfile é você ter um um grande samba-enredo. Já vi escolas campeãs passarem na Avenida com problemas e até erros, mas o samba te emociona. Eu sou do tempo que o samba era cantado no Maracanã. Para mim, samba tem que ser cantado em plenos pulmões, em coro, por muita gente. Na disputa de samba-enredo, você cria personagens dentro da escola de samba. Tem personagens que você só encontra nas disputas de samba-enredo e integrantes seguem essas pessoas para torcer pelo samba e depois ficam na escola. Eu vejo como um momento muito importante a disputa de samba-enredo. Por muitas vezes, eu tento tirar dos compositores aquela coisa do investimento para você mostrar sua grande obra. É claro que se me colocar para cantar ‘Parabéns’ é muito diferente do Roberto Carlos. Investe em cantor, investe em palco. Eu tento diminuir algumas ali no dia a dia. Só que é uma disputa e, como toda disputa, quem tem garrafa para vender acaba elevando o nível. Eu não gosto da palavra proibir, mas você orienta não ter bandeira, não ter alegoria, aí o cara vem com lencinho, bolinha, chuva de papel picado, tem sempre uma estratégia para abrilhantar uma disputa. Por isso, a gente está sempre se perguntando como deixar a vara bem baixa, para sempre fomentar novos compositores e grandes compositores a estarem na escola. É o desafio de todo ano. Na Beija-Flor, vai ter sempre disputa de samba-enredo, porque nós temos uma ala de compositores maravilhosa e nos brinda todo ano com grandes sambas. A gente não pode deixar de fazer isso todo ano”.
O que pensa sobre a posição do casal no desfile volta para cabeça da escola?
Dudu Azevedo: “Eles voltam para atrás da comissão de frente. A gente tentou um outro local, mas cria uma tensão, cria um planejamento de desfile que não há necessidade”.
Para você, hoje, qual é a principal função de um diretor de carnaval?
Dudu Azevedo: “Eu falo que eu sou um diretor de carnaval que eu gosto de trabalhar com os melhores. Eu não quero saber tudo, não tenho essa pretensão. Eu não digo: ‘Coloca a escultura assim que vai ficar bonito’. Não! Eu digo: ‘Você que é escultor, como que a gente coloca para ficar bonito’. Ele é o profissional. Eu não falo para o Rodney e Plínio para tocar assim. Eu quero saber como eles colocam 260 pessoas para tocar à vontade. Eu faço sempre um diálogo e um debate. Os melhores profissionais vão me dizer o que é melhor para aquilo ali. Eu tento equilibrar todas essas energias e essas sabedorias deles. Eu acredito que o bom diretor de carnaval tem que passear por todos os segmentos, entender de tudo e saber que precisa trabalhar com os melhores para que os melhores saibam tudo. Eu só preciso entender, mas quem tem saber são eles. Aí põe tudo isso unificado para passar na Avenida”.
Foto: Eduardo Hollanda/Divulgação
Em termos plásticos, qual é o caminho da Beija-Flor? É realmente impossível alguma escola de samba repetir um desfile como Áfricas em 2007 em termos de alegorias?
Dudu Azevedo: “Isso tem que perguntar para os carnavalescos [rindo]. Eles fazem alguma coisa, eu falo ‘bonito’, ‘maneiro para caramba’, ‘isso funciona’, ‘vambora’, ‘isso não é legal’, ‘isso não é maneiro’. Nós dialogamos, debatemos e achamos o caminho. Tem tanto material hoje diferente de 2007, a gente pode buscar volumes e riquezas diferentes de 2007 e de repente olhar falar que a escola está rica para caramba. Acho que cada carnaval é um carnaval. Eu acho que esse ano está rico para caramba, mas nem de longe se gastou o que se gastava naquele tempo”.
O falado gigantismo nas alegorias é um caminho sem volta?
Dudu Azevedo: “Eu prefiro falar de volume. O gigantismo às vezes te leva a planejamentos e risco de erro. Você ter volume é diferente. Eu adoro carnaval volumoso. Tem que ter volume. Nem sempre é uma escultura grande que faz você ser grandioso. De repente, você coloca 10 esculturas médias no carro e deu volume. Acho que volume é um caminho sem volta. Hoje, quem assiste quer se ver naquilo ali. Já foi se o tempo em que se fazia uma fantasia branca e falava: ‘representa a paz’. Hoje, a gente vive no mundo da imagem. Instagram, Facebook, tudo tem imagem. Quando você fala que aquilo ali é paz, você quer ver uma pomba da paz, por exemplo. Quando você vê, você interage com aquilo ali. Você está desfilando na Avenida, a pessoa está te apontando, está vibrando com você. Essa interação eu busco todo ano. Eu vejo como volume e imagem com essa troca de sedução de dentro para fora e de fora para dentro”.
Os componentes em todas escolas praticamente não sambam mais. Como melhorar o quesito Evolução?
Dudu Azevedo: “Realmente, quando a gente pega a década de 1980, é todo mundo sambando no meio da ala. Nós passamos por um período com o lance do desfile técnico. Eu gosto de fazer desfile para o povão, só que eu tenho que saber que eu sou julgado. Então nós temos o mínimo de organização e eu tento deixar o povo solto para andar para um lado, para o outro, abrir os braços. Tem uma palavrinha no quesito Evolução que pouca gente bate e aqui a gente brinca muito e cobra muito essa palavra: espontaneidade. Tem que ser espontâneo. Eu não posso ficar pedindo para todo mundo sambar, todo mundo abrir os braços. Tem que ser espontâneo. A melodia tem que te embalar de uma forma que você tenha espontaneidade de abrir os braços, de andar de um lado para o outro e sambar. É o que a gente tenta convencer o nosso componente a fazer”.
Com a entrada da Ludmilla, a Beija-Flor terá duas mulheres no carro de som. Como você aproveita as vozes femininas na tua harmonia?
Dudu Azevedo: “Hoje, o quesito Harmonia está sendo julgado por excelentes profissionais de canto, músicos, cabe a nós tentar entregar para quem vai nos julgar um equilíbrio de vozes, sustentação de vozes, não perder emissão de voz. E, nesse equilíbrio de um coro, eu tenho que ter voz masculina e feminina. Ano passado colocamos a Jéssica [Martin]. Esse ano, a gente tem a Jéssica e a Ludmilla ensaiadas, todas no seu timbre, fazendo um conjunto bem legal para dar cama ao nosso intérprete maior, a voz do Carnaval, Neguinho da Beija-Flor. Essa direção musical fica com o Betinho [Santos] ensaiando com eles. A gente confia muito no nosso carro de som”.
A Liesa realiza neste sábado, a partir das 19h, a tradicional cerimônia de lavagem da pista da Marquês de Sapucaí. O evento, que já faz parte do calendário de atividades do Sambódromo, reunirá baianas, ritmistas e componentes das escolas de samba do Grupo Especial, que pretendem atrair sorte e boas energias para os desfiles que estão por vir.
Foto: Allan Duffes/Site CARNAVALESCO
“Todos os anos, só podemos dizer que estamos prontos para o Carnaval depois da lavagem da Sapucaí. Vai ser mais um grande reencontro entre os sambistas, abrindo caminho para um espetáculo inesquecível”, afirma o diretor de Carnaval da Liesa, Elmo José dos Santos.
Logo após a lavagem, haverá mais uma noite de ensaios técnicos, com a Vila Isabel e a Viradouro realizando o teste de luz e som do Sambódromo. Já no domingo (11), a partir das 20h30, será a vez de Beija-Flor e Grande Rio encerrarem a temporada. O público pode acompanhar tudo de maneira gratuita nas arquibancadas. Além disso, as estações Praça Onze e Central do metrô permanecerão abertas para embarque até a meia-noite.
Para quem não puder estar presente, o Rio Carnaval transmitirá ao vivo o ritual e os ensaios técnicos pelo YouTube, no canal https://www.youtube.com/@riocarnaval_oficial.
Lavagem da Sapucaí
Data: 11/02
Horário: 19h
Local: Sambódromo
Entrada franca