A Unidos de Bangu prepara para este carnaval um desfile que promete ser repleto de emoção. A escola da Zona Oeste do Rio de Janeiro escolheu como enredo a trajetória de Leci Brandão, uma das maiores vozes do samba e da resistência cultural brasileira. A homenagem mobiliza não apenas os integrantes da agremiação, mas também familiares e admiradores da artista, que veem na avenida um espaço de consagração e reconhecimento.
Nuala e Letícia. Fotos: João Gabriel Rothier/Carnavalesco
Entre os mais entusiasmados estão as sobrinhas da sambista, Nuala Brandão, de 33 anos, e Letícia Cristal Brandão, de 29 anos. Ambas cresceram cercadas pela música da tia e destacam a importância de vê-la transformada em tema de carnaval.
Letícia, bióloga, revela que sua relação com as canções da tia também reflete experiências pessoais.
“Eu gosto muito de Natureza, Lá e Cá, Zé do Caroço. Desde que eu nasci, eu ouço ela. Natureza, para mim, é tudo, porque tudo que remete à natureza nas músicas dela me representa muito, como se ela estivesse falando por mim”.
Já Nuala, que também cresceu ouvindo e consumindo as obras da tia, destaca o caráter atemporal das composições: “Eu gosto muito de Assumindo. É uma música que fala muito sobre ela, muito importante na vida dela e muito atemporal, como todas as composições dela”.
Sobre a escolha de Leci como enredo, as sobrinhas não hesitaram ao falar da grandeza da homenagem. Nuala destacou a importância dessa atitude para uma pessoa que vem do samba.
“É uma consagração, sim. É um presente muito grande ser enredo de uma escola de samba. Isso quer dizer que uma comunidade olha para aquela pessoa e fala: vamos levar para a avenida e mostrar o quão grande essa pessoa é”.
Letícia ainda complementou, ressaltando a trajetória de Leci como compositora de sambas-enredo.
“No caso dela, acho realmente muito importante, porque ela cresceu nesse meio, construiu sua carreira no samba de avenida. É como se fosse uma condecoração do governo, quase um Nobel da Paz para o sambista”.
Quando perguntadas sobre o que não pode faltar no desfile, as sobrinhas foram unânimes: coração e alegria são fundamentais.
Nuala afirmou: “Não pode faltar o coração. A Bangu coloca o afeto em tudo, e é isso que representa minha tia”.
Letícia acrescentou: “A alegria e a energia. Mostrar esse lado dela que é alegre, além da luta. Um samba animado que brinda a vida”.
Fotos: João Gabriel Rothier/ Carnavalesco
A emoção também é a palavra-chave para Regina Passaes, torcedora da Unidos de Bangu desde a década de 1960, quando a escola ainda desfilava de azul e branco. Para ela, a homenagem a Leci é um marco: “O Morro do Pau da Bandeira é um hino. Ser enredo é uma consagração, principalmente quando é em vida, quando não é um enredo póstumo. Não tem como não ficar extasiada”.
Regina acredita que o desfile precisa traduzir a força da artista: “A emoção é o que a Leci representa. Todo mundo tem que vir com a garra que ela sempre teve em defender o samba, principalmente o samba de morro”.
Vivendo a expectativa de alcançar seu espaço no Grupo Especial, a Em Cima da Hora vai contar na Sapucaí, este ano, o enredo “Salve Todas as Marias: Laroyê, Pombagiras”, em homenagem às pombagiras, entidades da umbanda e do candomblé. A escola realizou, na última quarta-feira, o seu primeiro e único ensaio de rua “em casa” nesta temporada. Diferentemente das últimas semanas, quando vinha utilizando as ruas do Centro do Rio para se preparar, a agremiação voltou às origens e ocupou a rua Laurindo Filho, em Cavalcanti, endereço de sua quadra. E, como manda a velha máxima do futebol, jogar em casa fez diferença. O ensaio apresentou pontos positivos logo no primeiro olhar: a bateria “Sintonia de Cavalcanti”, comandada pelo mestre Léo Capoeira, manteve o alto nível já conhecido; o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira exibiu sintonia e segurança; a comissão de frente mostrou energia e entrega; e, principalmente, o canto dos componentes apareceu com mais força e entrega.
A comissão de frente voltou a chamar atenção pela intensidade e pela interpretação. Os componentes executaram a coreografia com energia do início ao fim, demonstrando entrega emocional e entendimento do enredo. Um dos destaques ficou por conta da componente que representa a entidade incorporada, cuja interpretação deu ainda mais força simbólica à apresentação, dialogando diretamente com o universo espiritual proposto pelo enredo. O conjunto funcionou bem, sustentado pela expressividade corporal e pela conexão com o samba.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Marlon Flôres e Winnie Lopes, mostrou sintonia e maturidade no bailado. O mestre-sala se apresentou com calça preta e paletó preto adornado com pedraria dourada, transmitindo elegância e imponência. Já a porta-bandeira surgiu com um vestido amarelo-ouro, também com pedraria dourada na parte superior, chamando atenção pela beleza e pelo brilho.
No desempenho, a segurança e a intensidade dos movimentos do mestre-sala se destacaram, sempre atento ao pavilhão e à sua parceira. A porta-bandeira, por sua vez, exibiu um bailado leve e bem desenhado, com giros firmes e boa leitura musical, reforçando a sintonia do casal.
HARMONIA E SAMBA
Se nos ensaios realizados no Centro do Rio o canto ainda não havia atingido todo o seu potencial, em Cavalcanti o cenário foi diferente. Atuando “em casa”, a Em Cima da Hora cantou mais e melhor. A empolgação foi evidente, especialmente nos momentos em que o carro de som silenciou e o samba foi cantado inteiro apenas pela comunidade.
A comparação com o futebol se encaixa perfeitamente: quando o time joga em casa, impulsionado pela força e pelo canto da torcida, o rendimento costuma crescer. Foi exatamente isso que se viu no ensaio desta quarta-feira. A comunidade abraçou o momento, e a harmonia ganhou um peso extra, mostrando que o samba já está assimilado e tem fácil comunicação.
O samba-enredo confirma suas qualidades: possui beleza melódica, letra bem construída e é de fácil canto, o que ficou ainda mais evidente neste ensaio. A resposta dos componentes mostrou que a obra está assimilada e tem potencial para crescer ainda mais na avenida, especialmente com a força da comunidade cantando junto.
No carro de som, Igor Pitta teve atuação de destaque. O intérprete segurou muito bem a ausência de Carlos Júnior, conduzindo o samba com segurança, energia e boa leitura da bateria. Sua comunicação com os componentes foi clara e eficiente, contribuindo diretamente para o bom rendimento da harmonia ao longo do ensaio.
Fazendo um balanço da temporada, Igor destacou a evolução do samba e projetou um grande desfile: “O samba só cresceu. A gente vê não só nos componentes, mas fora da escola, as pessoas ouvindo bastante o samba, cantando bastante o samba, comentando bastante nas redes sociais. Aqui dentro da comunidade cresceu mais ainda, porque a galera foi comprando a ideia. Quando a comunidade canta, o cantor só segue o fluxo. Sem falsa modéstia, eu tenho certeza de que será o maior desfile da história da Em Cima da Hora”.
EVOLUÇÃO
No quesito evolução, a escola não apresentou problemas. As alas se deslocaram com naturalidade, sem correria ou buracos, mantendo um fluxo constante ao longo do ensaio. Em alguns momentos, espectadores entraram na pista para registrar imagens da escola, algo comum em ensaios de rua, especialmente na comunidade.
Essas interferências, no entanto, foram rapidamente resolvidas por membros da própria agremiação, que orientaram o público, sem que isso atrapalhasse o desempenho da escola ou comprometesse a evolução.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, do mestre Léo Capoeira, também foi um dos grandes destaques da noite. Mantendo a cadência do início ao fim, apresentou bossas bem encaixadas e precisas, com atenção especial para o trabalho dos atabaques, que deram identidade e força à musicalidade do ensaio e à representatividade do enredo.
Ao analisar a temporada, o mestre demonstrou confiança no trabalho desenvolvido: “Estamos já a duas semanas do carnaval. Temos mais um ensaio e, graças a Deus, está tudo bem encaminhado, um saldo bem positivo de tudo o que a gente está pretendendo apresentar na Marquês de Sapucaí. Hoje o ensaio é na comunidade, o que é muito importante para a comunidade entender, conhecer e abraçar o nosso trabalho. Semana que vem é o último e depois é partir para a Vera, que é a Marquês de Sapucaí”.
O ensaio em Cavalcanti deixou claro que, mesmo com pouco tempo ensaiando em sua comunidade nesta temporada, a Em Cima da Hora soube aproveitar o momento. O canto mais forte, a energia dos componentes e a solidez dos quesitos reforçam a sensação de que a escola chega à reta final de preparação em curva ascendente, confiante para o grande dia na Marquês de Sapucaí.
O governador Cláudio Castro autorizou, nesta quinta-feira, o investimento de R$ 40 milhões para as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. O contrato de patrocínio que formaliza a liberação dos recursos foi publicado no Diário Oficial do Estado. Com o incentivo, o Governo do Rio passa a ser o maior patrocinador dos desfiles das agremiações do Grupo Especial no Carnaval 2026.
A medida beneficia trabalhadores e artistas de toda a cadeia produtiva do Carnaval, impulsionando a economia criativa, gerando empregos temporários e fortalecendo a cultura popular fluminense. Parte dos recursos também será destinada à operação da Marquês de Sapucaí, com serviços de infraestrutura essenciais para a realização do espetáculo.
-O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do nosso estado e um motor importante da economia. O investimento garante emprego, renda e dignidade para milhares de famílias, além de fortalecer uma tradição que projeta o Rio de Janeiro para o mundo – declarou o governador Cláudio Castro.
Além do apoio às escolas de samba, o Governo do Estado lançou, no final de 2025, o pacote Folia RJ 2026, composto por cinco editais que contemplam mais de 500 projetos culturais. A iniciativa que conta com investimento de R$ 20 milhões beneficia manifestações tradicionais como Bate-Bolas, Blocos nas Ruas, Não Deixa o Samba Morrer, Folia de Reis e Folias Fluminenses, ampliando o alcance do fomento cultural em diferentes regiões do estado. Já os investimentos para as Séries Ouro, Prata e Bronze, estão na etapa final de tramitação.
Em 2026, os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro acontecerão ao longo de três dias, repetindo o formato do ano anterior. As 12 escolas se apresentam nas noites de domingo, segunda e terça-feira de Carnaval, nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro.
Impacto econômico
O Carnaval 2026 deve impulsionar significativamente o turismo e a economia fluminense. A previsão da organização é de uma movimentação financeira superior a R$ 5,7 bilhões no Rio, durante o período da festa.
Os sonhos, tambores, tintas e Prazeres de Heitor se encontram todos em Vila Isabel. O resgate da ancestralidade e da força da escola de Noel se reafirmaram em seu último ensaio de rua da temporada de 2026. Durante um dia de semana, as ruas do Boulevard 28 de Setembro foram completamente tomadas por famílias inteiras, sambistas, curiosos e admiradores, todos em busca de presenciar o show da comunidade azul e branca de Vila Isabel, onde ecoou o samba a plenos pulmões.
Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, a escola se propõe a atravessar o tempo e a memória para homenagear Heitor dos Prazeres, um multiartista, compositor e pintor que transformou o cotidiano negro do Rio de Janeiro em arte, ritmo e cor. Sua obra, profundamente enraizada na cultura afro-brasileira, nasce do samba, da rua e do terreiro. Levar essa história para a avenida, com a delicadeza, beleza e força que ela exige, é uma missão entregue às mãos de Gabriel Haddad e Leonardo Bora, que conduzem esse tributo com respeito, poesia e emoção.
A emoção do canto fica sob a responsabilidade do intérprete da agremiação, Tinga, que reafirmou a felicidade da escola com o enredo, com o trabalho feito até agora e a expectativa de todos os sambistas com o desfile da escola, já que, para muitos, possui o “samba do ano”.
“Coisa linda. A escola está feliz demais com o nosso enredo e o nosso samba. Se Deus quiser, a gente vai fazer um grande ensaio técnico, em busca do nosso sonho maior, que é ser campeão do carnaval e trazer esse título para a nossa comunidade”, relatou o intérprete da Vila.
Com a próxima parada sendo o ensaio técnico na Sapucaí, a Vila entregou para a sua comunidade um ensaio à altura do seu enredo e samba, trazendo muita entrega, força e alegria como resultado do trabalho construído ao longo dos meses. A escola reafirmou para todos o seu excelente pré-carnaval, com canto alto, alas coreografadas, casal de mestre-sala e porta-bandeira em harmonia e bateria entrosada com seu mestre. A escola passou cumprindo as altas expectativas e deixando um gostinho de quero mais.
“Eu acho que o mundo do samba, a bateria, todo mundo tá feliz com o nosso samba. Muita gente fala que vai torcer para a Vila Isabel, mesmo sendo Mangueira, sendo Portela, sendo Salgueiro. Eu acho que o que importa é isso. A gente é feliz demais com a nossa cultura. E é o samba. Nossa equipe de barracão, nota 1000. Da Unidos de Vila Isabel, fazendo um trabalho”, afirmou Tinga, reforçando que todo o trabalho é em torno de apenas um objetivo: trazer o troféu que está há 13 anos sem visitar a quadra da Unidos de Vila Isabel.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob o comando de Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão de frente se apresentou como quem abre um ritual. Os movimentos, precisos e sincronizados, misturavam giros calculados ao samba no pé que pulsava no chão. A coreografia trazia a força dos Orixás, tanto nos gestos quanto na presença cênica dos bailarinos, homens e mulheres em sintonia. No centro, uma figura principal conduzia o espetáculo, bailava como eixo da narrativa, enquanto ao redor o corpo coletivo dançava em harmonia. Dois integrantes representaram Oxum e Xangô, com roupas douradas e vermelhas, respectivamente. No momento em que é entoado o canto “De todos os tons, a Vila, negra é. De todos os sons, a negra Vila é”, os bailarinos fazem um sinal de reverência à comunidade, com movimentos de mãos erguidas em sinal de força e, depois, em direção à escola, como forma de apresentar a Vila Isabel.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com um bailado deslizante, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, comandados pela coreógrafa Cátia Cabral, trouxe um figurino mantendo o tradicional azul e branco, mas com um toque de modernismo na roupa da porta-bandeira, que deixou o tradicional vestido de lado e investiu em uma saia com uma blusa um pouco mais curta.
Assim como a comissão de frente, o casal traz, em momentos da dança, a exaltação à escola e à sua comunidade. Em sintonia com o samba, a coreografia também apresenta movimentos delicados com as mãos, simbolizando a pintura, quando é cantado: “Da nossa favela branca e azul do céu. No branco da tela, o azul do pincel. Vem ser aquarela, pintar a Unidos de Vila Isabel”. Além, é claro, das referências às danças afro, que encerram a perfeita sintonia da coreografia do casal com o enredo e o samba. O casal bailou protegido por uma espécie de “guardiões” que se posicionavam tanto à frente quanto atrás, criando uma corrente simbólica de proteção e destaque.
HARMONIA E SAMBA
O samba nasceu grande, mas veio crescendo a cada ensaio e a cada vez que era cantado por um sambista. O encerramento dos ensaios de rua demonstrou que a obra chegou a todos: escola, comunidade e público. Com canto alto e forte durante todo o desfile, a suposição de que a escola cantava apenas no refrão foi completamente desmentida. A escola canta a todo momento, e o refrão é berrado com a alma de quem está apaixonado pelo seu samba. Destaque para as duas alas seguintes após a alegoria 4, que entoaram o samba em alto e bom som durante todo o ensaio, com a animação e o entusiasmo de quem tem verdadeiro amor pelo pavilhão e vai em busca dos quarenta pontos do quesito. Destaque estão as alas dos setores 1, 3 e 5.
EVOLUÇÃO
As alas mostraram vibração sincronizada e coesa. Tinga com sua bela voz empolgava os componentes a cantar e fazia do refrão o ponto alto do ensaio, onde as pessoas abaixavam e subiam pulando cantando o samba. Ensaiar na 28 de Setembro é um exercício de logística, já que o espaço não tem largura para receber confortavelmente os componentes. A preocupação dos diretores era não deixar dar buraco, mesmo com essa dificuldade geográfica.
OUTROS DESTAQUES
A sempre competente bateria “Swingueira de Noel”, do mestre Macaco Branco, dando o ritmo ideal para o histórico samba-enredo da Vila Isabel. A rainha de bateria e a corte de musas da escola são um show à parte. Com uma simpatia arrebatadora, Sabrina Sato exibe todo o seu amor e respeito pela escola, mostrando por que reina há 15 anos à frente da bateria e continua sendo tão amada. Entre as musas, chama a atenção Juliana Morais, que, além de muita beleza e gingado, esbanja simpatia e conexão com a comunidade. A sambista atravessou o ensaio técnico sambando, coreografando e sendo atenciosa com crianças e admiradores que gritavam seu nome enquanto admiravam seu samba no pé.
“É muito gratificante poder estar à frente da bateria da Vila Isabel nesse ano maravilhoso, que fala sobre o Heitor dos Prazeres, um multiartista. A temporada tem sido linda com esse samba lindo. A comunidade cantando em plenos pulmões. Temos uma surpresa na fantasia para o desfile. O povo ficar emocionado com a Vila Isabel”, prometeu mestre Macaco Branco.
A Mocidade Alegre convida o público a assistir ao seu espetáculo no Sambódromo do Anhembi, palco conhecido como o “teatro” do sábado de desfile. A escola do bairro do Limão levará para a avenida uma grande homenagem à renomada atriz Léa Garcia, artista que abriu caminhos para mulheres negras no teatro e no cinema brasileiro. A Morada do Samba apresentará um cortejo marcado pela ancestralidade negra, pela religiosidade de matriz africana, por grandes sucessos da carreira da atriz e pelos prêmios que coroaram sua trajetória. Com um dos sambas mais aclamados do carnaval, a agremiação também busca empolgar o público e conquistar a tão sonhada décima terceira estrela. A Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no Anhembi no sábado de Carnaval, com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”. O CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Caio Araújo, artista responsável pelo desenvolvimento do desfile. Importante: a escola não autoriza imagens de suas alegorias.
De acordo com o artista, o tema surgiu por meio do filho da homenageada, que levou a proposta até a escola. A narrativa encantou Caio, o enredista Léo Antan e a presidente Solange Cruz. “O enredo chegou em novembro de 2025, quando estávamos desenvolvendo o desfile ‘Quem não pode com mandinga não carrega patuá’. A proposta veio por meio do filho da Léa e, de imediato, percebemos que tínhamos um tesouro nas mãos. Assim que saí da reunião, liguei para o nosso enredista, Léo Antan, apresentei o tema e ele gostou muito. Eu, o Léo e a presidente Solange percebemos que esse enredo precisava ser desenvolvido para 2026. A ideia nos atingiu de forma muito forte e rápida. Nós nos apaixonamos, iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento e, quanto mais aprofundávamos na carreira e no legado da Léa, mais certeza tínhamos de que a escolha havia sido a correta”, contou.
Pesquisa do enredo
Dentro da pesquisa do enredo, Caio contou que não houve dificuldade, pois o filho de Léa esteve bastante presente para que tudo se tornasse realidade. “Dificuldade não tivemos, porque mantínhamos contato direto com o Marcelo, filho da Léa. Ele foi uma fonte muito importante, principalmente para o Léo, que mora no Rio e estava mais próximo. Ainda assim, realizamos uma pesquisa profunda sobre a obra dela. O grande interesse do enredo é mostrar o quanto o trabalho dessa mulher foi fundamental para que hoje possamos enxergar o protagonismo negro nas novelas e nos filmes. E não apenas na frente das câmeras, mas também entre quem escreve, dirige e produz. Hoje vemos artistas negros falando sobre narrativas negras, e esse é um legado que a Léa construiu ao longo da vida. Ela conseguiu ver esse legado se concretizar antes de partir. Essa é a grande herança que ela deixa, e o desfile foca exatamente nessa construção, mostrando como cada trabalho contribuiu para formar esse legado transformador na dramaturgia brasileira”, disse.
Alta aceitação da comunidade
O lançamento do enredo foi feito no Teatro Rui Barbosa, um dos principais da cidade de São Paulo — local de respeito para o tamanho e a representatividade de Léa Garcia. No dia, a aprovação foi grande e, segundo o carnavalesco, o cotidiano diz muito. “No dia do anúncio, percebemos imediatamente que a comunidade ficou feliz com a escolha do enredo. A Mocidade tem uma comunidade muito fiel e próxima, que participa do cotidiano da escola e pensa o carnaval junto com a gente. Essa proximidade acontece na quadra, nas redes sociais e no contato direto. Fomos recebendo essas devolutivas no diálogo com os componentes e observando como o comportamento da comunidade refletia esse envolvimento. O enredo começou a ganhar vida nos ensaios. As alas passaram a pesquisar filmes, entender personagens e se aprofundar na história. É muito bonito ver a comunidade vestir o enredo e ir para a avenida sabendo exatamente o que está defendendo. Quando isso acontece, tudo fica mais potente. O samba também contribuiu muito. Temos um samba forte, envolvente e muito gostoso de desfilar”, declarou.
“A Deusa Negra” — o ponto alto do desfile
Elencando um ponto alto do desfile da escola, Caio Araújo falou sobre o seu xodó: o quarto carro, que representa a obra “A Deusa Negra”. Neste filme de 1979, Léa Garcia interpretou uma sacerdotisa. “A Mocidade apresenta um conjunto bem linear, mantendo qualidade do primeiro ao último carro. As alegorias são diversas e não se repetem. Cada uma tem uma proposta diferente, o que torna o desfile muito pessoal. Para mim, o ponto alto é a terceira alegoria, que fala sobre A Deusa Negra, filme protagonizado pela Léa. Nesse momento, mostramos como ela abraçou a religiosidade afro-brasileira. Ela interpretou mães de santo, orixás e entidades ao longo da carreira. Esse carro sintetiza tudo isso, com uma proposta artesanal e uma decoração diferente do que estamos acostumados a ver. É, sem dúvida, o meu xodó”, comentou.
Mocidade colorida
O artista explicou que a escola irá com uma plástica diferente. Os setores não vão dialogar em termos de cores, e ele aposta em uma Mocidade colorida. “O processo de criação começa em abril, durante a pesquisa e o desenvolvimento da sinopse. Paralelamente, já iniciamos a pesquisa visual e os desenhos. É um trabalho árduo, especialmente porque buscamos coerência em cada assunto levado à avenida. Cada setor tem cores dominantes, que não vão dialogar entre si. No primeiro, predominam o vermelho e o preto. Depois, fazemos uma transição para rosa e roxo, chegamos ao laranja e encerramos o desfile com dourado e preto. A escola virá bastante colorida. Em relação aos materiais, apostamos em uma grande diversidade. Há carros voltados ao luxo, outros mais cenográficos, alguns com proposta rústica e outros que investem na ousadia das formas”, explicou.
Setor a setor
Setor 1
“No primeiro setor, abordamos o início da Léa no Teatro Experimental do Negro, quando ela ingressa na carreira de atriz. Destacamos a importância desse legado e a relação dela com Abdias do Nascimento, que aparece representado como Exu. Não apenas por ter interpretado esse orixá diversas vezes, mas por ter sido alguém que abriu caminhos para uma dramaturgia preta no Brasil. Após estabelecer a relevância do Teatro Experimental do Negro, seguimos mostrando a trajetória da Léa no teatro”.
Setor 2
“No segundo setor, apresentamos os papéis que levaram a Léa a esse lugar de destaque, evidenciando a diversidade de personagens. Encerramos com a transição do teatro para o cinema, a partir de Orfeu Negro. A Léa participou da peça Orfeu da Conceição no Teatro Experimental do Negro, que depois se transformou no filme. Essa obra concorreu ao Festival de Cannes e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A partir daí, mostramos a transição da carreira da Léa para o audiovisual, abordando o cinema e a televisão. O setor também discute como esses meios limitavam os papéis oferecidos a artistas negros. Enquanto no teatro ela interpretava rainhas, orixás e entidades, na televisão passou a viver personagens como pessoas escravizadas, empregadas domésticas e secretárias. É nesse contexto que surge sua atuação política dentro da profissão”.
Setor 3
“Esse terceiro setor aborda de forma intensa a construção do legado de uma mulher que, a cada oportunidade, colocava um tijolo para construir um mundo diferente para quem viria depois. Desde a personagem Rosa, em A Escrava Isaura, quando se recusou a gravar uma cena em que deveria chutar um ebó, algo inconcebível para alguém de matriz africana, até o diálogo com roteiristas e diretores que resultou na mudança da cena. Passamos também por A Viagem, quando ela escreve uma carta ao diretor da Globo, Boni, questionando a ausência de pessoas negras no céu. Esse trecho, inclusive, inspira parte do samba. O setor mostra como a Léa utilizou a ancestralidade para construir esse caminho e se encerra com a alegoria que homenageia A Deusa Negra”.
Setor 4
“No quarto setor, mostramos a colheita dos frutos desse legado. Apresentamos a Léa recebendo prêmios por filmes como Filhas do Vento e conquistando espaço para que pessoas negras participassem de todo o processo audiovisual, atuando atrás das câmeras como diretores, roteiristas e produtores. Essa conquista era extremamente importante para ela e aparece representada no desfile. Encerramos com a homenagem ao prêmio pelo conjunto da obra que a Léa receberia no Festival de Gramado. Ela faleceu na manhã do dia em que seria homenageada, e o desfile finaliza celebrando sua carreira, colocando a Léa como protagonista do pavilhão da Mocidade no Carnaval de 2026”.
Ficha técnica
Quatro alegorias
Dois tripés
Elemento alegórico (comissão de frente)
18 alas
2.500 componentes
Diretor de barracão — Mestre Sombra
A quadra da Portela foi palco de um encontro histórico, promovido pelo programa Apoteose do Samba, da Rede Globo, que vai ao ar no próximo fim de semana. A gravação contou com uma grande roda de samba, que reuniu os intérpretes e mestres de bateria das escolas do Grupo Especial do Rio para cantar clássicos do gênero e sambas-enredo marcantes. Apresentado por Lilian Ribeiro, Chico Regueira, Francini Augusto e Alexandre Henderson, o especial se propõe a dar visibilidade a quem constrói o carnaval diariamente.
Lilian Ribeiro e Francini Augusto. Fotos: Carolina Freitas e Gabriel Radicetti/CARNAVALESCO
“A proposta desse programa é contar a história do samba pela perspectiva de quem o faz. O samba, além de ser uma cultura completa, com gastronomia, moda, costumes, jeito de falar, um estilo próprio de composição e organização das escolas de samba, também gera emprego, renda e começa dia primeiro de janeiro, acabando em 31 de dezembro. Nesse programa, a gente homenageia quem faz a festa e as pessoas não veem. Contamos os bastidores pelo ponto de vista do trabalho”, explicou Chico Regueira.
Francini Augusto reforçou que o programa nasceu com a missão de ser mais do que uma disputa de agremiações. “A mensagem do Apoteose do Samba é mostrar as pessoas que vibram o carnaval e os profissionais que fazem tudo isso acontecer. Estamos reunindo, pela primeira vez, as 12 escolas do Grupo Especial, mostrando que, apesar de ser uma competição, em que todo mundo quer a nota 10 e o campeonato, o carnaval vai muito além disso. Ele gera economia, renda, emprego e sustenta muitas famílias. É um universo que existe para além da Marquês de Sapucaí, e o programa vai mostrar os bastidores, os motoristas, as fábricas de instrumentos, quem trabalha nos barracões, nas feijoadas, com um olhar jornalístico atento, revelando tudo o que acontece além do dia do desfile, tanto na Sapucaí quanto na Apoteose do Samba”.
O conceito da edição de 2026 é sintetizado no subtítulo “Apoteose do Samba: gente que faz”. Para Alexandre Henderson, essa ideia está presente em todo o conteúdo apresentado.
“A proposta do programa este ano é mostrar que o mundo do carnaval vai além do desfile. As escolas funcionam durante os 12 meses do ano e os profissionais estão envolvidos full time. A gente homenageia os ferreiros, os aderecistas, os mestres-sala e porta-bandeiras, os ritmistas, os intérpretes… Toda essa gente que faz o carnaval acontecer, o maior espetáculo da Terra, ganhar vida”.
Lilian Ribeiro destaca que a roda de samba é apenas o ponto de partida. “No Apoteose, a gente reúne representantes das 12 escolas, mas não fica só na roda de samba. A proposta é trazer muito conteúdo, com reportagens sobre os profissionais que constroem o Carnaval nas mais diversas áreas. Vamos mostrar, por exemplo, o processo de reciclagem de fantasias, o dia a dia do Emerson Dias, que é intérprete da Niterói, mas também técnico em telecomunicações, o trabalho do motorista da escola de samba, que tem um papel fundamental nesse universo. É um mergulho completo nesse mundo que vai muito além do desfile”.
Emoção que transborda
O fato de a gravação ter sido na quadra da Portela teve um peso emocional especial para os apresentadores. Revelando algumas torcidas, eles dividiram com o CARNAVALESCO a felicidade de terem sido selecionados para comandar a edição deste ano do programa, que já teve apresentação de Milton Cunha e Mariana Gross no passado.
Jornalista Chico Regueira
“Representa uma honra enorme. A primeira vez que eu entrei na quadra da Portela, fiquei emocionadíssimo, porque sempre gostei muito de música popular brasileira, samba sobretudo, e sempre escutei compositores aqui da Portela: Paulinho da Viola, Casquinha, Seu Jair do Cavaquinho, Candeia. Estar hoje apresentando um programa aqui, falando da Portela, é uma alegria. Nem nos meus melhores sonhos eu pensei ou sonhei com isso”, revelou Chico Regueira, com felicidade.
Francini definiu o convite como um marco profissional e pessoal. “Ser escolhida para integrar a equipe do programa representa uma responsabilidade absurda. Agradeço muito a confiança da equipe e a oportunidade de participar desse projeto. O samba é potência. Eu gosto de carnaval, vibro o carnaval, mas trabalhar é diferente: tem a folia, mas também tem responsabilidade. Hoje tive a chance de viver um programa só com notícia boa. O choro foi só de emoção. Já fui batizada, o salto já quebrou, já aconteceu de tudo; por isso, pode me chamar sempre. Eu adorei o convite”.
“Para mim, é uma honra estar na Portela, que é a anfitriã e maior detentora de títulos do Campeonato Carioca, recebendo com tanto carinho as 12 coirmãs do Grupo Especial. Tem o simbolismo do samba, da feijoada, desse movimento que agrega, alegra e fortalece os laços de amizade. Temos aqui brancos, negros, mestiços, gente rica, gente pobre, e é um lugar de respeito. A sociedade deveria olhar a escola de samba como um espelho de como conviver com o outro”, contou Alexandre, muito emocionado por estar na escola pela qual torce.
Jornalista Alexandre Henderson
Lilian também destacou o sentimento de pertencimento trazido pela experiência. “Sou uma apaixonada por carnaval. Sou carioca, do subúrbio do Rio de Janeiro, e poder falar desse lugar e da cultura que se produz aqui foi muito especial. Hoje me senti falando da minha própria gente”.
Os apresentadores também aproveitaram para falar sobre a própria trajetória na cobertura carnavalesca.
Chico relembrou sua chegada ao universo do samba a partir do jornalismo: “Eu era repórter investigativo do Fantástico. Tenho uns dez carnavais, ao menos”.
Já Alexandre comentou sobre o impacto de ter começado justamente no ano de retomada do evento após a pandemia.
“Comecei em 2022, logo com o retorno do pós-pandemia. E imagina: eu, que sou apaixonado pelo universo carnavalesco, começar lá na Sapucaí cobrindo o desfile da Série Ouro e, no ano seguinte, do Grupo Especial. Cada ano é uma emoção forte e diferente”.
Roda de alegria
Com o clima de união e alegria, o dia foi repleto de vários momentos memoráveis. Entre os mais marcantes, Regueira destacou o que considerou o ponto mais alto.
“A participação de Fernando Procópio e Gabrielzinho do Irajá. Eu adoro partido alto. Na hora em que rolou aquele partido alto, foi um momento maravilhoso do programa”.
Francini lembrou do frisson do encerramento: “No final da gravação, quando todo mundo cantou junto e se abraçou, não foi um abraço cenográfico. Foi de verdade. A gente sentiu a energia, viu que deu certo, que entregou mais um programa com qualidade, amor e paixão. Sou canceriana e chorei muito”.
Alexandre também apontou o “gran finale” como ápice emotivo: “Foi a sensação de dever cumprido. Eu me emocionei muito quando entrevistei os casais de mestre-sala e porta-bandeira. Ver o amor à bandeira, o amor ao carnaval, e perceber que é um trabalho feito com muito afinco e profissionalismo foi muito tocante”.
Para Lilian, o que mais simbolizou o espírito do programa foi a celebração feita ao mestre Ciça. Enredo da Viradouro, ele teve os demais mestres e intérpretes presentes o abraçando e exaltando enquanto cantavam o samba da escola que o homenageia.
“Foi algo muito espontâneo, todo mundo celebrando um nome tão importante do carnaval. Ele é um cara muito simples, muito humilde, de uma bondade enorme e, ao mesmo tempo, um artista tecnicamente e musicalmente incrível. Merece muito respeito e reconhecimento”.
Relação afetiva com as escolas de samba
Nem tudo fica no campo profissional quando falamos de cobertura carnavalesca. Por mais que sejam imparciais enquanto profissionais, cada apresentador carrega uma paixão no coração, torcidas e vínculos pessoais com o mundo das escolas de samba.
“Eu sou Portela. Minha relação com ocarnaval e a escola de samba é profunda. Frequento a quadra da Portela, adoro a Portela, mas adoro também Mangueira, Imperatriz, Mocidade, Império, Salgueiro. O samba tem uma missão de paz, um ideário de paz a ensinar para a sociedade de maneira geral. De conviver e abraçar o diferente. O samba faz isso”, revelou, com empolgação, Chico Regueira.
Francini, em contrapartida, contou que está se inserindo cada vez mais no mundo do samba e absorvendo de tudo um pouco.
“Minha relação com as escolas de samba ainda está em construção. Sempre me perguntam isso, e é parecido com o esporte: o repórter evita dizer o time para não parecer tendencioso. Agora que estou mais inserida nesse universo, vou um pouquinho na Portela, passo pelo Tuiuti, dou um pulinho na Mangueira e amo cada experiência. Eu desfilei no Paraíso do Tuiuti no ano em que o Caetano Veloso foi homenageado, e foi muito especial. Foi a primeira vez que pisei na Marquês de Sapucaí sem estar trabalhando”.
Alexandre trouxe uma memória de família que explica sua ligação profunda com a Portela. “Tive um tio-avô que foi promotor de justiça, um negão lá na década de 1960. Ele foi um dos fundadores do Renascença e era um portelense apaixonado. Levou essa paixão para a minha família. Desde pequeno, lá em casa, sempre tivemos o costume de comprar discos de samba-enredo e assistir aos desfiles. Sou Portela e frequento os eventos da escola desde a década de 1990”.
Lilian contou que sua aproximação com o carnaval se deu pelo trabalho. O fascínio, segundo ela, sempre foi pelos bastidores do espetáculo.
Jornalista Lilian Ribeiro
“Minha relação com as escolas de samba não vem de família. Não cresci frequentando quadras, mas sempre me encantei com o samba e com os desfiles, que eu acompanhava pela televisão. Foi através do jornalismo que me aproximei de verdade desse universo. Entender a cabeça do carnavalesco, como ele costura uma ideia com o apoio de tantos outros artistas, da bateria aos intérpretes, diretores de ala, sempre me fascinou”.
Carnaval na memória e no coração
Quando o assunto são lembranças inesquecíveis vividas na Sapucaí, as respostas dos quatro apresentadores demonstraram o quanto o carnaval marca quem vive a festa de perto.
Francini destacou um ritual que se repete a cada desfile: “No Sambódromo, o momento que mais me marca é o clássico: a entrada no Setor 1, o aquecimento. Qualquer escola. Aquele comecinho, o grito de guerra, todo mundo vibrando.” Para ela, o fechamento do portão é sempre decisivo. “Depois, quando o portão vai fechando e a escola começa a desfilar, são dois momentos muito fortes”.
Alexandre citou um desfile que, apesar de recente, já o marcou profundamente. “O desfile de 2025 da Beija-Flor, falando de Laíla, principalmente na passagem do carro que tinha Laíla na frente e Joãosinho Trinta.” Ele definiu a cena como uma catarse. “Celebrar um homem negro como Laíla, que fez tanto não só pela Beija-Flor, mas para o mundo do samba, foi muito emocionante”.
Lilian mencionou uma imagem que ficou gravada na memória popular do brasileiro. “Um desfile da Portela, quando a águia desceu para passar por baixo da plataforma, que hoje nem existe mais. Ver aquilo ao vivo foi inacreditável. Parecia que todo mundo estava respirando junto, torcendo para dar certo. Poderia ser qualquer escola, mas naquele instante todo o Sambódromo estava unido.”
Destoando de seus colegas, Chico surpreendeu ao apontar um momento fora do Sambódromo: “Foi hoje. Foi aqui na Portela”.
Ao reunir essas histórias e tantas outras que irão ao ar nos dias 31 de janeiro e 07 de fevereiro, o Apoteose do Samba se firma como mais do que um programa musical. A atração assume o papel de celebrar a cultura brasileira, levando para dentro das casas brasileiras mais uma parte do espetáculo que é o carnaval carioca, mostrado como ele é vivenciado o ano inteiro, além da Sapucaí.
A Unidos do Peruche exaltará no Anhembi, em 2026, um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira. Com o enredo “Oi… Esse Peruche lindo e trigueiro… Terra de samba e pandeiro. ‘70 anos’”, assinado pelo histórico carnavalesco Chico Spinosa, a Filial do Samba fará uma longa viagem no tempo para revisitar os primeiros registros conhecidos do pandeiro — instrumento mais antigo do que inúmeras civilizações — até sua chegada ao Brasil e a consolidação ao lado do samba no Carnaval brasileiro.
A equipe do CARNAVALESCO visitou o barracão da Peruche e conversou com Felipe Milanes, assistente de Chico Spinosa no desenvolvimento do desfile, para conhecer melhor a proposta do enredo, que também marca a celebração dos 70 anos de fundação da escola, na busca pelo título do Grupo de Acesso II de São Paulo.
Brasilidade perucheana no início de uma nova década
A ideia de contar, na Avenida, a história do pandeiro surgiu da intenção de abordar um símbolo nacional por meio de uma escola que carrega, em seu pavilhão, as cores da bandeira do Brasil.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
“A ideia original é do Chico Spinosa. Ele trouxe essa proposta para a escola, essa vontade, e a escola abraçou por diversos motivos. Um deles é o fato de o pandeiro ser um símbolo nacional e a Peruche carregar as cores do Brasil, além de ter, em seu símbolo, a constelação do Cruzeiro do Sul. É uma escola muito caracterizada pela brasilidade, e toda a comunidade abraçou essa ideia. A escola percebeu, de certa forma, que é um elemento que ainda não havia sido retratado com esse olhar de contar a sua história, a história que existe por trás do pandeiro”, explicou Felipe Milanes.
O artista destacou ainda que, neste século, tornou-se uma característica da Peruche apostar em temas ligados ao país sempre que a agremiação completa uma nova década de existência.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
“Há uma coisa curiosa: quando a Peruche completou cinquenta anos, trouxe um elemento nacional, que foi Santos Dumont. Quando fez sessenta anos, contou o centenário do samba-enredo. Para os setenta anos, a escola também quis trazer essa brasilidade de alguma forma. Tudo isso culminou nessa grande festa de setenta anos”, completou.
Uma das imagens mais simbólicas do carnaval brasileiro é a da passista sambando ao lado de um pandeirista equilibrando o instrumento. Apesar disso, o pandeiro deixou de ser um elemento obrigatório nos desfiles e vem aparecendo cada vez menos nas apresentações das escolas de samba. Para Felipe, esse imaginário popular representa um elemento a ser resgatado, assim como o momento vivido pela Peruche nos últimos anos.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
“Essa imagem foi muito forte para a construção desse carnaval. Hoje, pensando bem, é uma imagem muito clássica quando se imagina o carnaval, mas é um elemento que nós temos cada vez menos. O número de pandeiristas diminuiu significativamente ao longo dos anos. Foi mais um motivo e uma inspiração para trazer esse enredo, que fala de resgate. A Peruche está em um processo de autorresgate, que já vem acontecendo há alguns anos. O pandeiro chega também dessa forma, com a escola se reencontrando. É uma história a ser resgatada, um símbolo a ser revivido e a ter sua importância contada”, afirmou.
Um símbolo nacional de origem milenar
A narrativa do enredo da Peruche parte da reconstrução da história do pandeiro desde seus primeiros registros, ainda antes de o instrumento assumir o formato conhecido atualmente. Segundo Felipe Milanes, é a partir desse resgate que o desfile se desenvolve até alcançar a chegada do pandeiro ao Brasil.
“O enredo faz uma viagem pela história do pandeiro, que é um símbolo muito comum nas rodas de samba, nas escolas de samba e no carnaval de forma geral. Dentro da ideia proposta, ele percorre, de forma cronológica, a história do pandeiro desde os primeiros registros, cerca de seis mil anos antes de Cristo, até a sua chegada ao Brasil”, explicou.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
Milanes contou que a escola optou por não seguir uma divisão tradicional em setores.
“Não fizemos uma divisão muito clássica, como muitas escolas costumam fazer. O enredo transcorre mais como uma história contínua, quase como se fosse um único setor. Ainda assim, existe uma separação conceitual entre o pandeiro como origem e o pandeiro como legado”, apontou.
O desfile abordará a origem milenar do pandeiro, quando ele ainda não possuía as conhecidas soalhas — as peças metálicas que chacoalham na circunferência do instrumento. A narrativa tem como base uma escultura descoberta em um território localizado na atual Turquia, antiga Anatólia, onde o pandeiro aparece retratado nas mãos da deusa Cibele.
“A partir dessa escultura, que a mitologia local acreditava ter caído dos céus por causa de um meteoro, começamos a entender o quanto existe de história por trás do pandeiro. Ele passa por diversas civilizações, pela Índia, por meio dos grupos ciganos, pela Europa, nas procissões e festas religiosas, e por outros povos, sempre como forma de cultura, lazer, entretenimento e expressão artística”, explicou.
No Brasil, o pandeiro se consolidou como muito mais do que um instrumento musical. Seu uso tanto na música quanto em rituais religiosos o transformou em um elemento identitário do povo brasileiro, conectando-se diretamente ao desfecho do desfile da escola.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
“Quando ele chega ao Brasil, o pandeiro vai criando novas formas, lugares e personalidades. Ele chega quadrado e aqui se torna redondo, meia-lua, mantendo diferentes formatos. Vai passando pelos festejos populares, pelas tradições culturais, e se transforma ao longo da história. Vamos falar do pandeiro como aliado do samba na resistência, quando o samba era marginalizado, até encerrarmos com esse pandeiro celebrando os setenta anos da Peruche”, afirmou.
A linha musical que costurará o desfile será inspirada em “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, canção eternizada mundialmente na voz de Carmen Miranda. A referência estará presente desde o título do enredo até o último verso do samba-enredo.
“O título do enredo é inspirado em ‘Aquarela do Brasil’, que utilizou o pandeiro como elemento musical. A música foi interpretada por Ary Barroso e também por Carmen Miranda, que a levou aos Estados Unidos. Essa obra vai atravessar o desfile tanto musical quanto visualmente”, contou.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
O enredo também destacará o momento em que o pandeiro se transforma em símbolo da identidade brasileira fora do país, levado por nomes como Carmen Miranda e Jackson do Pandeiro.
Anseio pelo acesso e estética como trunfos
Pela primeira vez, a Peruche celebra uma nova década de história fora do Grupo Especial. O retorno ao Acesso I esteve próximo em 2025 e, para Felipe Milanes, o grande combustível da escola para 2026 é o desejo coletivo da comunidade.
“A comunidade está com essa gana. Sonhou muito com o carnaval de 2025, que homenageou o Seo Carlão, e acreditou que poderia subir, mas ficou a um décimo do acesso. Isso criou uma vontade engasgada. Comemorar 70 anos fora do Grupo Especial é um incentivo a mais para buscar essa ascensão”, destacou.
No campo artístico, Milanes aponta a estética como um diferencial importante.
“Acreditamos que a estética será um dos grandes trunfos. Ela será diferente do que a Peruche apresentou nos últimos anos, com referências retrô misturadas à modernidade e elementos contemporâneos. Tudo isso para celebrar esses 70 anos. O enredo, por si só, já motiva muito a comunidade, e isso tem gerado uma ansiedade positiva dentro da escola”, concluiu.
Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO
Ficha técnica Enredo: “Oi… Esse Peruche lindo e trigueiro… Terra de samba e pandeiro. ‘70 anos’” Número de componentes: 1.100
Alegorias: 2 carros + 1 tripé
Alas: 11
Diretor de barracão: Julião
Diretor de ateliê: Maurílio Oliveira
Ordem de desfile: Sexta escola a desfilar pelo Grupo de Acesso II
Após o elogiado ensaio técnico do último fim de semana, a União de Maricá entra na reta final de preparação para o Carnaval. A escola realiza seu penúltimo ensaio de rua na próxima sexta-feira (30), a partir das 20h, em um local especial: a Orla de Itaipuaçu.
Fotos: Ney Junior/União de Maricá
O ensaio terá início na altura da Rua Paraná e seguirá até a esquina com a Rua Rio de Janeiro, percorrendo toda a extensão do Circuito Claudinho Guimarães, à beira-mar, reforçando a proposta de aproximar a escola das diferentes regiões da cidade. O diretor de Carnaval, Wilsinho Alves, e o diretor de Harmonia, Mauro Amorim, realizaram uma visita técnica ao local, ao lado de autoridades da cidade, para conhecer o trajeto.
O presidente da agremiação, Matheus Santos, destacou a importância de levar a União de Maricá para Itaipuaçu e fortalecer o vínculo com a população local e com o turismo da cidade.
Fotos: Ney Junior/União de Maricá
“Somos uma escola que representa toda Maricá. Estar em Itaipuaçu é fundamental para aproximar ainda mais a comunidade da escola e valorizar uma região tão importante e turística do município”, afirmou o presidente.
O ensaio geral, último antes do desfile oficial, está confirmado para o dia 6 de fevereiro, às 20h, na Passarela do Samba Adélia Breve, no Centro de Maricá. A União de Maricá será a sexta escola a desfilar no dia 14 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, com o enredo “Berenguendéns e Balagandãs”, do carnavalesco Leandro Vieira.
Com assinaturas e dedicatórias, um caminhão de apoio instalado no Sambódromo do Anhembi tem reforçado a experiência do público e promovido o sentimento de pertencimento à comunidade do samba durante os ensaios técnicos das escolas paulistanas.
A iniciativa é da Liga-SP, que, em parceria com sua equipe de comunicação, desenvolveu a ação com o objetivo de aproximar ainda mais os apaixonados pelo carnaval e ampliar a vivência do público dentro do sambódromo.
Estacionado no Anhembi, o caminhão já se tornou parte da rotina das agremiações. Além de atuar no suporte à limpeza da avenida durante os desfiles, o veículo também oferece apoio direto às escolas, contribuindo para a estrutura operacional do maior palco do carnaval paulistano.
Ana Carla Dias/CARNAVALESCO
Mais do que um recurso funcional, o caminhão ganhou um novo significado ao se transformar em um espaço de expressão da comunidade do samba. A lataria do veículo foi disponibilizada para receber assinaturas e dedicatórias de integrantes, torcedores e visitantes, tornando-se um ponto de interação e identificação coletiva.
“A ideia do caminhão é ser um apoio na avenida, auxiliando de várias formas. Inicialmente, ele receberia apenas uma adesivação simples, mas optamos por preencher esse espaço com assinaturas, como uma forma de aproximar ainda mais o público da Liga-SP e fazer com que as pessoas se sentissem incluídas”, explica Carlos Henrique dos Santos Júnior, de 31 anos, analista de comunicação da Liga-SP e responsável pelo projeto.
Ana Carla Dias/CARNAVALESCO
Segundo Carlos, a proposta é aberta a todos, independentemente da escola ou da região de origem. “É só chegar e assinar. Também é importante dedicar à sua escola, mostrar de onde você vem e qual agremiação representa. A ideia é que seja algo pessoal”, afirma.
O caminhão passou a funcionar como ponto de encontro espontâneo, onde o público manifesta sua paixão e identidade com o samba. De acordo com o analista, muitos foliões aproveitam o espaço para escrever gritos de guerra, trechos de sambas-enredo ou mensagens de amor às suas escolas.
“Muitas pessoas vêm de longe e fazem questão de deixar sua marca. É algo diferente, e o público está gostando muito. Além disso, o caminhão vai desfilar na avenida e será um dos principais apoios operacionais, tanto na pista quanto no entorno do Sambódromo”, completa Carlos
A União da Ilha do Governador vive um carnaval carregado de emoção em 2026. À frente da bateria, Gracyanne Barbosa atravessa a temporada de forma diferente, longe da plenitude física que sempre marcou sua passagem pela Sapucaí, mas ainda mais próxima da essência que move a escola. Após uma lesão que exigiu cirurgia e um longo processo de recuperação, a rainha segue firme, sustentada pelo carinho da comunidade, da bateria e da direção da escola.
A própria Gracyanne reconhece que este não é um ano comum, mas faz questão de destacar o quanto ele tem sido especial.
“É um ano muito diferente. Ao mesmo tempo que eu fico preocupada, sentida por não entregar tudo o que a União da Ilha merece, o que a bateria merece, eu também acho que está sendo um ano extremamente emocionante. Quando eu sofri a lesão e fiz a cirurgia, nós conversamos, e eles falaram: vamos esperar”.
Mesmo com os médicos apontando a dificuldade de um retorno em condições ideais, a decisão da escola foi unânime. O pedido partiu da comunidade e da própria bateria, que fizeram questão da presença da rainha à frente do seu ritmo.
“Conversei com o mestre, com o presidente, com o carnavalesco, e todos falaram a mesma coisa: você vem de cadeira de rodas, de muleta, do jeito que você puder, desde que venha à frente da bateria. Foi a comunidade que pediu para que eu voltasse. A bateria queria muito e quer que eu esteja ali”.
Presença que vai além da dança
Mesmo com restrições médicas, Gracyanne não esconde a emoção ao falar sobre o que viveu nos ensaios e sobre o que espera do desfile oficial.
“Eu me senti extremamente honrada, feliz, grata. Tenho certeza de que esse desfile vai ficar na minha memória para sempre. Pisar na Sapucaí e ser recebida com esse carinho é algo realmente indescritível”.
As limitações físicas exigiram adaptações. Nada de salto alto e samba no limite do possível, mas sem abrir mão da essência.
“Os médicos falaram que era tênis, nada de salto. Eu nem podia sambar, mas, gente, como é que escuta a bateria e não samba? É impossível. Eu vou sambar miudinho, com cuidado, mas vou entregar toda a minha vontade, toda a minha alegria e todo o meu amor”.
Para ela, o enredo da União da Ilha dialoga diretamente com o momento pessoal que atravessa.
“O enredo é maravilhoso, o samba é muito bom, a Ilha é a escola da alegria. Esse Carnaval tem tudo para ser belíssimo, digno de voltar ao Grupo Especial. Eu estou orando, torcendo e dando o meu melhor para estar à altura dessa escola tão maravilhosa”.
Fase de ressignificação
O carinho recebido neste carnaval também tem um peso simbólico. Para Gracyanne, o momento representa uma verdadeira renovação de energia e de sentido.
“Eu acho que estou na melhor fase da minha vida. Passei por vários processos e precisei ressignificar a minha história. Tudo mudou, desde a separação até o BBB, que foi um autoconhecimento muito grande”.
A lesão, segundo ela, foi mais um marco de transformação. “Isso tudo me fez botar a cabeça no lugar e valorizar cada momento. Antes eu me preocupava muito em trabalhar e conquistar, mas hoje eu entendo que o que realmente importa são os momentos com quem a gente ama. É isso que eu estou vivendo agora”.
Fantasia adaptada, esseência preservada
As mudanças também chegaram à fantasia, pensada para garantir segurança sem perder o impacto visual. “A gente teve que dar uma enxugada no costeiro e na cabeça, para não ficar pesado e eu não correr o risco de cair. É uma fantasia mais minimalista, mas vai ser linda”.
Para Gracyanne, o mais importante permanece intacto. “O que interessa mesmo é a bateria. A função da rainha é trazer o holofote para ela, e é isso que eu quero fazer”.