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Passistas da Em Cima da Hora mostraram a importância da leitura na luta pela liberdade

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ECDH04As passistas da Em Cima da Hora trouxeram para avenida neste sábado, no segundo desfile do Grupo de Acesso, a historia de Esperança Garcia. Uma mulher negra escravizada que virou voz da resistência e lutou contra a escravidão. A azul e branco, em sua ala nove, mostrou o poder da leitura e da escrita. As passistas, representando Esperança, exibem em sua fantasia ‘horrores e abusos’ a luta de uma mulher que encontrou na leitura e escrita seu poder de luta e resistência.

A fantasia das passistas não é pesada nem complicada. Elas usaram um body dourado escuro, com um cinto na altura da barriga. Meia-rastão marrom, ombreiras com detalhes dourados e um chapéu dourado e laranja compõe a fantasia. Para as passistas, a fantasia deixa elas livres para poder desfilar na avenida.

“É muito leve, a gente tem os braços livres para poder sambar. Muitas fantasias não permitem isso. [….] O passista é a alma do samba, e o samba da Em Cima da Hora fala sobre uma mulher preta. A maioria dos passistas são pessoas pretas”, disse a passista, da Em cima da Hora, Renata Cristina. Ela estava ansiosa para representar a escola no desfile do grupo de Acesso. Renata, assim como Esperança, é advogada e mulher negra.

ECDH03As passistas tiveram a responsabilidade de levar para avenida a importância da leitura e escrita, extremamente relevante na luta de Esperança pela liberdade.

“A fantasia enaltece a leitura e escrita. […] É liberdade. […] O aprendizado é algo que a gente pode levar pra sempre na nossa vida. Ninguém tira de você o que você aprendeu lendo, ninguém tira a escrita de alguém. O aprendizado é uma riqueza pra vida toda”, explicou Maria Angelica, mulher negra e empresária, desfila há cinco anos na avenida.

ECDH01Para as passistas da azul e branca, representar esse símbolo de resistência é uma causa maior. “É um fruto de muito esforço dos nossos coordenadores. […] A leitura e escrita representa o futuro da nossa nação e precisamos incentiva-la”, diz Dandara Barbosa, mulher negra e dona de casa, é passista por mais de dois anos.

A Em Cima da Hora foi a quarta escola a desfilar, no Grupo de Acesso, neste segundo dia desfile. A escola trouxe a vida de Esperança Garcia, primeira advogada negra do Brasil.

Mancha Verde 2023: galeria de fotos

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile

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A bateria da Unidos de Bangu fez um excelente desfile, na estreia de mestre Laion. Um ritmo da “Caldeirão da Zona Oeste” pautado por integrar o samba da escola a cultura musical de vertente africana. Construções musicais profundamente enraizadas em toques de candomblé foram percebidas e embalaram tanto componentes da agremiação, quanto o público presente na Sapucaí. Uma exibição com credenciais para conquistar a nota máxima.

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Na cozinha da bateria foi possível notar uma afinação de surdos de qualidade, além de marcadores de primeira e segunda que tocaram de forma firme, ditando o andamento do belo samba-enredo da Unidos de Bangu. Surdos de terceira deram balanço único ao ritmo, sem contar as participações luxuosas nos arranjos musicais. Um naipe de caixas de guerra sólido ajudou a complementar a musicalidade da parte de trás do ritmo, junto a uma boa ala de repiques.

Na cabeça da bateria, uma ala de tamborins simplesmente fabulosa tocou intercalado a um naipe de chocalhos musicalmente deslumbrante. O casamento musical entre tamborins e chocalhos deu valor sonoro a parte da frente do ritmo. Uma ala de cuícas coesa e segura ajudou na sonoridade das peças leves, junto de um naipe de agogôs que efetuou seu toque através da melodia da obra.

Uma subida na cabeça do samba deu destaque musical ao ritmo da “Caldeirão da Zona Oeste”. Contou com o balanço das terceiras, aliada a rufadas das caixas feitas com firmeza. O arranjo musical sofisticado já é praticamente uma marca do trabalho de mestre Laion.

Uma alusão musical ao “Machado de Xangô” envolvendo os surdos também foi percebida com o ritmo rolando, no final da segunda do belo samba-enredo da Unidos de Bangu. Uma requintada nuance rítmica integrada ao que a obra pedia.

Uma bossa que também se destacou foi a bela construção musical exibida no refrão do meio. Os surdos de terceira são responsáveis por apresentar um refinado Alujá, quando a “Caldeirão” tocou para Xangô. Com ritmistas de terceira de evidente qualidade técnica, o impacto sonoro da pressão dos surdos foi notada, numa convenção altamente vinculada ao enredo de vertente africana da agremiação do bairro de Bangu.

A paradinha da segunda intercalou pressão e um ritmo junino muito bem executado. Uma convenção de qualidade sonora inegável, muito bem conduzida e principalmente construída. A primeira parte da paradinha também é concluída fazendo alusão à uma batida conhecida como “Machado de Xangô” no refrão que precede o principal, evidenciando uma concepção criativa refinada. No estribilho também é consolidado um toque de Alujá, produzindo uma musicalidade de raro valor. Durante a exibição da bossa, no toque junino, bandeirinhas juninas eram posicionadas através das laterais da pista, ficando por cima da bateria da Bangu. O movimento ainda era completado por ritmistas abaixados na hora do arranjo no refrão principal, com direito ainda a pirotecnia na parte da frente do ritmo da “Caldeirão”.

As três apresentações em frente aos módulos de julgadores foram soberbas, sendo as melhores as das duas primeiras cabines. Devido ao tempo próximo do limite, a bateria da Bangu não entrou no recuo, fazendo somente a bossa junina em frente ao último módulo, mas que encantou a plateia, além de ficar evidente a boa receptividade do jurado da terceira cabine. Mestre Laion estreou na “Caldeirão da Zona Oeste” com pé direito, apresentando uma conjunção sonora virtuosa, além de arranjos musicais sofisticados e modernos. As criações musicais plenamente integradas à música ajudaram no verdadeiro sacode da bateria da Unidos de Bangu.

Componentes da Em Cima da Hora ressaltam a importância de representar a história de Esperança Garcia

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ECDH02 1A Em Cima da Hora trouxe para a Avenida a história de Esperança Garcia, a primeira mulher advogada do Brasil. Infelizmente a história de luta contra a escravidão da advogada não é conhecida pelo público. Apesar de não conhecerem Esperança, os componentes da escola se sentiram honrados em contar sua trajetória na Marquês de Sapucaí.

Vanderlita Patrocínio de Santana, técnica em enfermagem do trabalho de 50 anos, é baiana da Em Cima da Hora. Vanderlita conheceu a história de Esperança Garcia pelo carnaval e, como mulher negra, logo se identificou.

“É uma honra poder participar de uma história de uma personalidade. Estou muito feliz e agradeço a escola pela oportunidade de representar uma figura tão importante (…) Isso (a escravidão) é uma marca do negro, é uma coisa que ainda não foi superada totalmente. A gente ainda sofre com muita repressão, é uma luta diária de igualdade racial”, disse Vanderlita.

ECDH04 1Juliano Coelho, psicólogo de 40 anos, ressaltou a importância do samba da Em Cima da Hora na luta contra o racismo. Para ele, a mensagem que a escola trouxe foi muito importante.

“É muito importante. Ela (Esperança Garcia) deixou todo um legado de dias que passaram, mas hoje a gente ainda enfrenta (…) Ela veio antes para abrir o caminho para lutar contra o racismo. Hoje a gente veio para a Marquês de Sapucaí trazer essa mensagem, ‘evocar’, como diz o samba, que todos pensem e pulsem para o mesmo sentido”, expressou Juliano.

Ana Mara Barroso, secretária escolar de 55 anos, não conhecia Esperança Garcia. Após conhecer essa personalidade histórica, Mara se sentiu honrada por representá-la, justamente por ser uma mulher negra como Esperança.

ECDH03 1“Eu como uma mulher negra fico honrada em representar. Fico também triste por a gente não ter conhecimento dessas histórias de personalidades negras que não chegam para todo mundo (…) Muita coisa eu aprendi através do carnaval.

Yuri Soares, comerciante de 45 anos, é cigano. Para Yuri, o carnaval é muito importante para contar histórias de culturas historicamente reprimidas.

“Para a gente é um prazer, pois foi como o povo cigano: discriminação, luta (…) É importante o carnaval mostrar essa cultura, porque não tem ninguém que fale e que mostre. O carnaval é mundial, vai para fora do país mostrar a cultura do Brasil, é sempre bom”, explicou Yuri.

Fotos: desfile da Em Cima da Hora no Carnaval 2023

Último carro da Unidos de Bangu levou para avenida as festas juninas e o sincretismo religioso

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Bangu04 3A Unidos de Bangu foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí na noite deste sábado pela Série Ouro. Com o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó, a agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a história de uma qualidade de Xangô e apresentou os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira.

A terceira alegoria da escola trouxe o sincretismo de Xangô com os santos católicos e a comemoração, no mês de junho, dos festejos a Aganjú. No alto do carro foi encenada uma quadrilha. Predominante dourada e com esculturas bem acabadas, a fachada do carro lembrou uma igreja.

Bangu06 2O cabeleireiro Pablo Guimarães, representante do grupo rainbow, diz que sua fantasia representa a quadrilha e a diversidade carioca, ele, que é espírita, conta que é uma honra desfilar pela Bangu com esse enredo tão importante, que é falar de uma das figuras de Xangô.

“Desfilar nesse carro e na Rainbow que é a nossa quadrilha, que representa a diversidade carioca, pra mim é uma honra representar todo público, principalmente na quadrilha e nas festas. O sincretismo religioso é algo muito forte, pra mim é uma coisa que realmente deveria ser mais explorada e respeitada. Nós temos diversidade, existem vários tipos de religiões, no caso, eu sou candomblecista, nossa religião é muito visada porque você acha que o público gay deve ser macumbeiro ou espírita. Não, mas a gente tá em todas as áreas, a gente pode atuar em todas as áreas, Então, eu me encontrei realmente no espiritismo e estar hoje aqui nesse desfile e como esse enredo é também parte da nossa etnia brasileira”, disse Pablo.

Bangu02 2Para o vendedor Jorge Henrique, de 32 anos, desfilar nessa alegoria é um momento muito especial. Ele é nordestino e tem a oportunidade de representar as festas juninas típicas da região. Jorge é budista e mesmo não tendo muito conhecimento sobre Xangô, acredita que passar vibração e positividade é essencial em todas as religiões.

“Esse carro me representa porque é uma cultura da minha região, eu sou do Nordeste, eu sou do Rio Grande do Norte, então isso traz uma lembrança da minha infância, eu sempre dancei quadrilha lá no meu interior e estar aqui hoje é muito especial, estou muito feliz de verdade. Eu sou budista, não tenho muito conhecimento com Xangô, mas acredito que a vibração e positividade no coração das pessoas é que faz tudo isso acontecer, temos que respeitar todas as religiões. Desejo alegria e paz para todos, porque é isso que hoje representa no meu coração”, contou Jorge.

Fotos: desfile da Unidos de Bangu no Carnaval 2023

Abre-alas da Unidos de Bangu levou para a avenida a Morada de Aganjú

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Bangu05 1A Unidos de Bangu foi a terceira escola a entrar na Marquês de Sapucaí na noite deste sábado pela Série Ouro. Com o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó, a agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a história de uma qualidade de Xangô e apresentou os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira.

O carro abre-alas, denominado “O Império do senhor do fogo… A chama da renovação”, representou, como o nome diz, o Império do fogo. A morada de Aganjú foi retratada, assim como o fogo que ilumina, purifica e queima todas as mazelas da humanidade. A alegoria teve tons avermelhados e muitas esculturas, a principal delas foi a de um grande Xangô no centro do carro, o impacto causado foi positivo.

Bangu09Um dos destaques do carro, o vendedor de 26 anos Gabriel Faleiro, contou que sua fantasia representava Alafim e o fogo. Ele disse também que se identifica muito com o enredo e fez questão de desfilar novamente pela escola.

“Minha fantasia representa o Alafim, eu tô muito feliz por estar aqui, desfilo na escola desde 2019, estive em 2020 e também no ano passado. Agora, nesse enredo sobre Xangô é ainda mais especial, meus amigos brincam que eu deveria ser advogado, eu sou justiceiro, eu acredito na justiça, quando eu vi o enredo da Bangu eu tinha que vir aqui como alafim, como justiceiro e como Xangô”, contou Gabriel.

Bangu08As composições femininas representaram as guerreiras do rei, em entrevista, a pedagoga Luana Behringer trabalha na área da educação e desfilou pela primeira vez na Unidos de Bangu, para ela, representar o desfile é especial por conta do enredo.

“É uma satisfação muito grande estar aqui hoje em Bangu como destaque. Sobre a ala, o que eu posso falar é que ela representa o Xangô, que é o verdadeiro guerreiro da justiça. É uma satisfação grande, foi um convite inesperado e eu me sinto muito lisonjeada de estar aqui como vocês também. É a primeira vez que desfilo aqui na Bangu, mas já fui madrinha de outras escolas”, contou Luana.

Bangu07Voltando a desfilar pela escola, a correspondente bancária Jéssica Souza, disse estar muito emocionada por poder fazer parte desse momento especial para a escola que está valorizando a comunidade.

Tenho certeza que será um desfile emocionante, afinal, essa é a escola do meu bairro, eu moro em Bangu desde que nasci, então eu já estou muito emocionada por voltar depois de dez anos, ainda mais com esse enredo tão lindo e tão importante, tenho certeza que a história vai ser contada de uma forma linda e é uma honra poder fazer parte desse momento”, pontuou Jéssica.

Acadêmicos do Tucuruvi exalta Bezerra da Silva em desfile marcado pela irreverência do conjunto de fantasias

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O Tucuruvi foi a segunda escola a desfilar na noite deste sábado, pelo segundo dia do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo 2023. Com destaque para as divertidas e irreverentes fantasias e alegorias, nem a chuva impediu o Zaca de levantar o público, que se divertiu e aprendeu com a mensagem que a escola quis transmitir. A agremiação encerrou o desfile com uma hora e três minutos. A escola da Zona Norte apresentou este ano o enredo “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”. * VEJA FOTOS DO DESFILE

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Comissão de Frente

A comissão de frente da Tucuruvi representou “Os Da Silvas”. Um protagonista, representando o homenageado, interagiu com os demais atores dançando no ritmo do Partido Alto, em um bailar característico do malandreado. De um elemento cenográfico, simbolizando uma favela em estilo antigo, o protagonista surgiu à frente de uma cruz e começou sua evolução junto com os demais na própria alegoria, que contou também com uma espécie de tablado rotatório, girando por vezes de acordo com o repertório proposto.

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A malandragem dos morros se fez presente. Com uma coreografia tomada pela dança, Bezerra, seus malandros e malandras levaram o público a entrar de cabeça no desfile. A entrada triunfal do protagonista ascendendo com a cruz no topo da alegoria enquanto os dançarinos tocavam seus instrumentos logo abaixo arrancou aplausos, e a coreografia se desenrolou em alto nível ao longo de duas passagens do samba. A chuva não comprometeu em nada a evolução do grupo cênico, que pode ir para terça-feira otimista quanto a suas notas.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Luan Caliel e Waleska Gomes dançaram pela Avenida representando em suas fantasias “Sua Majestade, a Malandragem”. Um casal que se trata como se fossem mãe e filho fora da Avenida, e que ao defender o pavilhão demonstram o porquê disso com sincronia, elegância e beleza de movimentos. A chuva resolveu enfrentar a dupla duramente, com direito a ventos que obrigaram Waleska a mostrar o porquê é uma das melhores porta-bandeiras da atualidade.

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Nos giros com Luan, a dançarina não teve apenas que cumprir o seu papel habitual, mas também duelou com a intempérie com a valentia de uma guerreira, fazendo o público vibrar mais que o habitual durante as passagens do segmento. O mestre-sala foi irretocável em seus movimentos, executados de acordo com o que tem que ser. Uma pequena observação é preciso ser feita, porém. Perto do final da apresentação obrigatória diante do primeiro módulo, o vento empurrou o pavilhão para o mastro e enroscou levemente, o que pode render dedução do jurado. Agora, se o casal passou pelos últimos módulos do mesmo jeito que passou pelo segundo, será mera nota de descarte.

Harmonia

Se tem que ter fé para viver nesse país, cantar diante de uma imparável chuva gelada não é diferente. Nesse aspecto, a comunidade do Zaca cumpriu bem o seu papel, muito ajudada pela irreverência do samba da Tucuruvi. O conjunto de fantasias foi tão divertido que o público inevitavelmente reagia a cada uma, o que contagia inevitavelmente os componentes na pista. Alguns componentes aparentando cansaço em certas alas, porém, podem ter sido notados pelos jurados.

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Enredo

Com o título “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”, a proposta da Tucuruvi para 2023 foi mais do que homenagear Bezerra da Silva. O famoso sambista este inserido no enredo com fio condutor, através de sua vida e obra, de uma temática com cunho social falando da realidade dos moradores das favelas. Um enredo que, tal qual as músicas de Bezerra, pode ser interpretado das mais variadas maneiras possíveis dependendo da classe social a qual o expectador pertence. Quem não sabe o que é viver em uma favela entende de forma caricata e bem-humorada, mas quem já passou pelas difíceis provações da vida das comunidades consegue perceber o quão sério o conteúdo dos sambas de Bezerra da Silva é e quão criativa era a maneira como o artista era para conseguir furar as diferentes bolhas sociais de sua época.

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Um dos enredos de mais fácil leitura a passar pelo Sambódromo do Anhembi nesse ano. As propostas de cada segmento eram muito claras de serem entendidas, e as músicas escolhidas pelos carnavalescos Dione Leite e Yago Duarte foram estrategicamente posicionadas para permitir uma linha narrativa irretocável e divertida.

Evolução

A chuva pode atrapalhar muito as escolas, ainda mais se for de forma constante. Não foi totalmente o caso da Tucuruvi, que desfilou de maneira constante do início ao fim, parando apenas para as manobras de entrada e saída do recuo da bateria. Em alguns momentos foram observados espaçamentos excessivos à frente dos carros dois e três, mas para ser considerados falhas dependerá da interpretação de cada jurado. Com portões fechados em uma hora e três minutos, sem correr, foi um desempenho no geral correto da escola. Vale destacar o trabalho do vice-presidente Rodrigo Delduque, que liderou a harmonia com muita habilidade nos momentos chave do quesito.

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Samba-Enredo

Um samba digno da obra de Bezerra da Silva. A primeira parte da letra tem um tom descontraído, descrevendo o sambista como mais um dentro da comunidade em que vivia. O refrão do meio cita a religiosidade de Bezerra, elemento fundamental para que ele conseguisse sair das ruas. A parte final da obra trata da realidade das pessoas sofridas da favela de maneira séria, apelando para palavras fortes e pouco comuns em sambas-enredo, entregando para o refrão principal uma autêntica síntese do que é o dia-a-dia do povo brasileiro e como a vida de Bezerra se assemelha com a de tantos outros “Da Silvas” que vivem no Brasil. A obra, composta pela ala de compositores da Tucuruvi e anunciada junto ao próprio enredo, é assinada por: Paulo César Feital, Marcelo Casa Nossa, André Diniz, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Evandro Bocão e Carlos Júnior.

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Se na letra o samba tem jeito de Bezerra, na voz não foi diferente. Mais um desempenho arrebatador para a conta do intérprete Carlos Junior, que estreou na Tucuruvi esse ano com o pé direito. A obra é de tão fácil assimilação e tem tantos elementos de identificação com as pessoas que até mesmo o público dos camarotes foi contagiado. Chega a ser curiosa essa observação se lembrar do comentário feito a respeito das “bolhas” no quesito Enredo.

Fantasias

As fantasias das alas da Tucuruvi utilizaram em grande parte das obras de Bezerra da Silva para ilustrar a realidade dos moradores da favela. Quando o tema não eram as músicas do sambista, registros de sua história de vida se fizeram presente para costurar o fio condutor de acordo com a proposta do enredo.

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Parece até que foi uma continuidade ramificada para o lado musical do desfile que passou antes. A irreverência das fantasias em contar a realidade do povo periférico e a facilidade como a leitura aconteceu deram ao desfile da Tucuruvi cores raramente vistas em enredos com teor crítico. Se o luxo não reinou nas roupas da escola é porque seria elemento estranho ao desfile, já que falar do povo brasileiro é apelar para o popular e o discurso direto de quem quer ter sua voz ouvida. Risadas foram muitas em alas, com grande destaque para a ala “O Presidente Caô”, com direito a uma cabeça de jacaré com uma coroa e faixa com o nome da fantasia, e também para a ala “O Dia a Dia em Família” que retratou de forma inconfundível a música “Sequestraram Minha Sogra”.

Alegorias

Os carros da Tucuruvi ilustraram diferentes elementos formadores das comunidades que fizeram parte da vida de Bezerra da Silva. O Abre-alas veio com o nome “A Arte que Pulsa ao Som dos Meus Batuques”, com o segundo carro trazendo a religiosidade do sambista com o título “Quem me Protege Não Dorme”. A terceira alegoria foi uma exaltação aos “Talentos Brasileiros à Serviço da Canção”, com o quarto carro finalizando o desfile com um “Salve o Povo da Favela!”.

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Um Abre-alas monumental, na forma de grande exaltação ao próprio símbolo da Tucuruvi e em tons de azul com laranja. O segundo carro foi uma exaltação à religiosidade do povo brasileiro através dos símbolos religiosos que ajudaram Bezerra da Silva a superar o momento em que viveu nas ruas de Copacabana. O terceiro carro, porém, é muito similar a uma das alegorias apresentadas no ano anterior, e destoou do conjunto geral. Já o quarto carro finalizou o desfile com maestria ao trazer uma grande favela com componentes interpretando pessoas no dia-a-dia da periferia em diferentes aspectos e espalhados por todos os cantos. As alegorias passaram impecáveis em acabamento, e a leitura de todas elas foi muito clara tal qual as fantasias. Os décimos perdidos em 2022 no quesito podem ser recuperados pela escola este ano.

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Outros destaques

Aplausos para a “Bateria do Zaca”, liderada por Mestre Serginho, que junto com o irretocável carro de som deram ao desfile da Tucuruvi um ambiente digno do povo das favelas. A Rainha Carla Prata deu o toque de beleza diante de toda a malandragem das roupas dos ritmistas, e foram um conjunto de alto nível para um desfile de alto nível.

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A Tucuruvi se preparou para o Carnaval de 2023 com muita consciência a respeito da própria realidade e de suas pretensões. O resultado disso foi um pré-Carnaval todo moldado sem ter metas ambiciosas, o que resultou em um desfile acima das expectativas e de muito bom gosto. Não seria de se estranhar que a agremiação da região da Cantareira tenha um resultado muito melhor do que o planejado. Desfile para tal, ao menos, eles certamente fizeram.

Valorização à ancestralidade das baianas está presente na fantasia da ala para 2023 na Bangu

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Bangu01 1As baianas da Unidos de Bangu no desfile que conta a história da qualidade do Xangô menino, apresentando os festejos de Aganju, reservou para as baianas, matriarcas do samba e bastiões das religiões de matriz africana, uma parte central. Em “Awá Dupé… a roda de Xangô”, nome do figurino produzido para as guardiões do samba e religião, nos ritos Nagô, Ketu, Efon, Awá Dupé é um agradecimento a presença do rei de Oyó, o orixá Xangô.

A presidente da alas de baianas da Unidos de Bangu, Teresa Cristina, esclareceu mais sobre a fantasia, seu valor dentro do enredo e da religiosidade do tema, além de contar como as componentes ficaram felizes com o figurino.

“Fiquei muito feliz com a fantasia, com a escolha do tema do figurino e com o enredo. As baianas estão adorando, estão amando, vamos arrebentar na Avenida, mostrar a força que Xangô tem. Elas vem representando o Xirê de Xangô. É a força da escola, o orixá traz essa força. Todas adoraram porque todas adoram Xangô. Vai trazer uma grande energia, ainda mais que dessa vez não viemos abrindo a escola, deixando uma surpresa”, contou com alegria a presidente da ala.

Bangu03 1Componentes da ala das baianas da Bangu, Maria Inês e sua irmã Maria Nazaré, falaram um pouco sobre a importância do figurino das matriarcas do samba apresentarem uma temática ligada ao afro e sua ancestralidade.

“Eu acho muito importante a gente não perder as nossas raízes,, as baianas em cada escola representam realmente a ancestralidade , na realidade partiu de Tia Ciata, então eu acho muito importante essa ala nunca acabar e a gente ter essa representação para os mais novos e que eles saibam contar a nossa história. Os novos não sabem mais , a gente se sente muito importante dentro dessa roupa, ainda mais com esse enredo”, conta Maria Inês.

A médica Maria Nazaré, irmã de Maria Inês, além de exaltar a fantasia e todo o seu significado, fez questão de ressaltar a valorização da cultura africana e das religiões de matriz dentro das escolas como um brado contra a intolerância.

“Em um momento que a gente vive tanta polarização religiosa, a demonização da cultura africana. Para as religiões de matriz africana, as escolas resgatam essa história da nossa ancestralidade, do povo preto que veio para ser escravizado e passa sua religiosidade de maneira bonita, alegre e não de forma como se fosse demoníaca. Respeito. As escolas de samba estão aqui representando uma religião que tem muita ancestralidade. É um brado contra intolerância, a gente tem que lutar até que todos nos ouçam. Temos terreiros de umbanda sendo destruídos e as pessoas que professam essa fé tem sido impedidas até de falar alguma coisa. Eu acho que isso tem que acabar”, acredita a baiana.

A baiana Valdemira Sacramento, aproveitou a importância da fantasia e do tema para lembrar de como as baians são importantes para as agremiações.

“É um resgate também do valor que as baianas tem. Tem muita gente que não valoriza a gente, mas na escola de samba a baiana não dá ponto, mas tira. Temos nossa importância no desfile porque somos ancestralidade das escolas, temos que ser valorizadas. Mas tem muita gente que não repara nisso. E além do desfile somos as pessoas que sempre ajudam nas escolas, na comida, barracão, fantasias”, completou a componente.