Já era manhã de domingo quando a Inocentes de Belford Roxo cruzou a avenida e encerrou os desfiles da Série Ouro. Mesmo com arquibancadas esvaziadas, a abertura do desfile foi positiva e causou uma boa impressão, a comissão de frente da coreógrafa Juliana Frathane levou para a avenida o mito da criação humana na tradição guarani, com uma dança forte e ótima indumentária, a proposta foi passada de maneira clara. Logo depois, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Machado e Jaçanã Ribeiro, uniu juventude e experiência em uma bela exibição. O principal ponto negativo do desfile foi a falta de acabamento nas alegorias, algumas passaram com forração simples e outras tinham ferragem aparente. * VEJA AQUI FOTOS DO DESFILE

Apresentando o enredo “Mulheres de Barro” assinado pelo carnavalesco Lucas Milato, a caçulinha da baixada prestou uma homenagem à cultura das mulheres paneleiras capixabas da região de Goiabeiras Velha, em Vitória, capital do Espírito Santo. A tricolor foi a última agremiação a cruzar a passarela do samba na segunda noite de desfiles da Série Ouro. A escola terminou sua apresentação com 55 minutos.
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Comissão de Frente
Coreografada por Juliana Frathane, a comissão de frente da Inocentes foi um dos destaques do desfile, no total, foram com 15 componentes, sendo 14 mulheres e um homem. O figurino representava “O sopro de Tupã” e retratou o mito da criação do homem na tradição guarani, exaltando o barro, elemento do qual são feitas as panelas, como a matéria inicial da existência.

A comissão foi composta por dois atos, regidos pelo pivô, Deus Tupã, o grande criador. Para auxiliar na encenação, foi utilizado um elemento cenográfico. No primeiro momento, as outras 14 componentes representaram partículas de barro, no processo de criação do primeiro ser humano pelo Deus da mitologia tupi-guarani. Quando Tupã sopra e dá vida ao primeiro ser humano, que foi representado através de uma escultura de mulher, as 14 componentes se transformaram em artesãs indígenas, homenageando as primeiras detentoras dos saberes da cerâmica. Nesse momento, a escultura de uma cobra soltou fumaça, em todos os módulos de julgamento a comissão passou de forma correta e arrancou aplausos do público presente.
Mestre-sala e Porta-bandeira
Dupla formada para esse carnaval, o primeiro casal Matheus Machado e Jaçanã Ribeiro mostrou já um bom entrosamento e a união da juventude com a experiência se mostrou um acerto. Eles vieram representando a força da natureza sobre o trabalho das paneleiras e a confecção das panelas: os raios de sol que são atores fundamentais na hora da secagem. A dupla optou por um estilo mais clássico da dança, Matheus é um mestre-sala muito expressivo e se destacou pelos movimentos precisos e pela intensidade, o mesmo vale para Jaçana, experiente, a porta-bandeira conduziu o pavilhão com extrema classe. O bom nível de apresentação se manteve o mesmo em todas as cabines de julgamento.

Harmonia
De volta à escola, o intérprete Thiago Brito conduziu com maestria o carro de som da escola, apesar das arquibancadas esvaziadas, ele conseguiu inflamar a comunidade e por mais que o canto não tenha sido completamente uniforme, as alas driblaram o cansaço e cantaram de forma satisfatória. O destaque ficou por conta da ala de abertura, “Por mãos Pretas”, os componentes, além de cantar com empolgação, balançavam o adereço de mão que compunha o figurino. No geral, a harmonia da escola se mostrou coesa do início ao fim e sem discrepância entre as alas.

Enredo
O carnavalesco Lucas Milato, em seu segundo ano pela Inocentes, desenvolveu o enredo “Mulheres de Barro”, em homenagem às paneleiras de Goiabeiras. Lucas dividiu a escola em quatro setores, sendo o primeiro “A matéria da criação”, em que toda a ancestralidade índigena na arte de moldar através do barro foi mostrada. O segundo, denominado “A senhora perfeição” começou a desvendar os processos de feitura da panela de barro e apresentou ao público as etapas desse processo, e também os lugares e as memórias que envolvem essas mulheres. no terceiro setor, “As cores das ruas de goiabeiras”, o enredo homenagem à região de Goiabeiras. Para isso, a gente exaltou a cultura da região. Foram vistos os festejos e expressões culturais presentes em Goiabeiras. O quarto e último setor, ”Galpão das paneleiras: a arte brasileira do barro ao barracão”, além de homenagear as Paneleiras de Goiabeiras, ampliou essa homenagem a outras artesãs do Brasil. Foi uma grande ode às artesãs.

Evolução
Desfilar pela manhã foi um grande desafio para a escola por conta do possível cansaço de seus componentes, porém, a evolução não foi comprometida e a agremiação passou de forma fluida pela avenida, vale destacar que os componentes desfilaram de forma solta e espontânea. O único senão foi o fato da bateria não ter parado para se apresentar no segundo módulo de julgamento.

Samba-Enredo
O samba composto por Cláudio Russo, Junior Fionda, Fadico, Lequinho, Hugo Bruno, Leandro Thomaz e Altamiro contou de forma clara o enredo apresentado pela escola, a letra seguiu à risca a sinopse. Mesmo sem um momento de explosão, a obra passou de forma satisfatória pela avenida, ainda que a comunidade pudesse cantar com mais vontade. Os trechos da obra que tiveram maior desempenho foram o refrão principal “É na renda, é na palha”, o refrão do meio “É no barreiro do vale do mulembá” e um outro bis na segunda do samba que começava com o “Tambor de Congo”.

Alegorias e Adereços
A Caçulinha da Baixada levou para a avenida três alegorias, dois tripés e um elemento cenográfico da comissão de frente. No geral, o conjunto visual apresentado pela escola desejou a desejar no acabamento, diferente do último carnaval, o carnavalesco ousou um pouco mais na volumetria das alegorias. Porém, a falta de acabamento mais refinado nos carros comprometeu o bom uso das formas e cores.

A abertura da escola contou um tripé, chamado “Criadora e criatura”, mostrou a influência indígena que permeia o nascimento das paneleiras, o abre-alas “Saber Ancestral”, exaltou a arte da cerâmica, a segunda alegoria, “Mulheres de Barro – Ensinar e aprender”, representou a comunidade de Goiabeiras e os laços formados entre essas mulheres, a lateral do carro teve falhas e emenda acabou sendo visível. O tripé “Bloco dos Sujos”, foi inspirado nas nostalgias de carnaval das paneleiras. A última alegoria, “O galpão das artesãs”, recriou o espaço conquistado pelas artesãs no fim dos anos 80, a escultura de uma paneleira apresentou falhas evidentes em acabamento e a ferragem estava exposta.
Fantasias
Diferente das alegorias, o conjunto de fantasias que a escola levou para a avenida foi positivo, com soluções interessantes, as alas passaram completas e em sua maioria com bastante volume. Já imaginando que o desfile seria ao amanhecer, o carnavalesco fez um uso de cores interessante. O início da escola foi pautado em tons mais terrosos e a medida que o enredo avançava, as cores mudaram e ganharam mais vida, o carnavalesco utilizou o laranja, o amarelo e o dourado para acender a escola, com a luz do dia, o efeito foi alcançado de forma satisfatória. A volumetria nas fantasias, assim como bom acabamento engrandeceram o conjunto apresentado. Vale destacar a ala de baianas, posicionadas no início do desfile, as senhoras de Belford Roxo representaram artesãs indígenas. Outras alas de extremo bom gosto foram: “Por mãos pretas”, “Pedras do Rio”, “Carnaval capixaba” e “Artesãs do Carnaval”. O destaque negativo ficou por conta do grupo performático que veio atrás do primeiro carro, a fantasia “Barreiro do Vale do Mulembá – extração” era muito simples e destoou do conjunto apresentado pela escola.

Outros Destaques
A bateria do mestre Juninho realizou bossas que cativaram o público presente, com a fantasia “Ao redor das fogueiras – queima”, os ritmistas puderam se exibir sem problemas e com mobilidade, a rainha Malu Torres representou o fogo e demonstrou muita simpatia à frente da bateria.
Raphael Rodrigues, mestre-sala do Paraíso do Tuiuti foi o responsável por apresentar o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Muito respeitado no mundo do samba, Carlinhos do Salgueiro desfilou pela escola ao lado de um grupo performático, com uma fantasia que remete ao barro, o bailarino e o grupo arrancaram aplausos.


Sétima escola de samba a desfilar, o Império da Tijuca iniciou a sua passagem pela Sapucaí já com os primeiros raios de sol da manhã de domingo. O enredo “Cores do axé” foi desenvolvido pelos carnavalescos Junior Pernambucano e Ricardo Hessez; e teve a sua inspiração nas pinturas do artista argentino Carybé, que era um verdadeiro apaixonado pela Bahia e a cultura de seu povo.
Regina D’Ogum, 78 anos, desfila no Império desde os 8 anos de idade e estava emocionada durante concentração da escola. “O axé é tudo pra mim”, expôs Regina, que desfilou na ala das baianas com a fantasia “Oferendas”. Ela comentou a importância desse enredo cultural, que serve “Para mostrar para muitas pessoas que são desentendidas o que é cultura, o que é religião. Saber diferenciar uma da outra. Eu sou do axé, feita há 68 anos. E hoje, não só a minha religião, mas também o mundo do samba, é a minha saúde. Se hoje eu tenho energia, agradeço muito estar no mundo do samba, porque isso aqui é uma terapia. Ainda mais durante a pandemia, que eu tive depressão, diabetes… E depois que voltou eu estou outra pessoa, graças ao samba”.
A passita Mariane Caldas, 23 anos, desfila no Império da Tijuca desde 2019 e também enxerga o samba como uma espécie de terapia. “O samba melhora a nossa vida de todas as formas, porque através dele a gente se cura, a gente cura o outro, leva alegria pras pessoas, então pra mim o samba é uma forma de axé e resistência”. Ela ainda completa: “A gente é um povo que tem muita luta, mas também tem muita alegria. Não é só tristeza e dor. A gente, apesar disso tudo, consegue resistir e ser feliz…”. As passistas vieram com uma fantasia branca que representava a “Lavagem do Bonfim”, que ocorre em Salvador, Bahia.
Mauro Jorge, 41 anos, é o diretor do naipe de timbal da Sinfonia Imperial, que foi inserido justamente por conta do enredo “Cores do Axé”. Ele falou sobre a emoção de representar os Ogãs, que através do som dos atabaques, formam o ponto de contato entre o Orum (mundo dos deuses) e o Ayê (plano terreno). “A palavra axé tem uma semantica que é inexplicável. Axé é tudo. Principalmente no mundo do samba, no mundo dos negros. Eu que não sou um negro, que não tenho esse corpo retinto, tenho que respeitar toda essa cultura negra. Acho que o axé é isso, e está embutido em tudo que a gente faz no meio do samba. Falar de samba e não falar do axé, não combina”.
Chris Essombe, de 30 anos, nasceu em Camarões, no continente africano, cresceu no Canadá e agora mora no Brasil. Para ela, que fez a sua estreia na Sapucaí, o Axé “é uma parte central de tudo, nas energias da ancestralidade. Acho que é muito importante entender essas energias para poder usá-las bem e contribuir com coisas positivas”. Chris ainda complementa: “acho que só as escolas de samba podem passar para as gerações futuras essas pautas, para poder construir um futuro que tem sentido pra todo mundo, com raízes na compreensão do passado”.

















































Uma figura que não pode faltar no carnaval carioca é o coreógrafo Carlinhos do Salgueiro. Dessa vez, o público pôde vê-lo na Inocentes de Belford Roxo, última escola a desfilar pela Série Ouro, em 2023. O seu grupo performático veio representando o “Barreiro do Vale do Mulembá” e, durante a apresentação, os componentes iam sujando suas roupas brancas de barro.
A Inocentes de Belford Roxo começou seu desfile no amanhecer de domingo com um abre-alas que evocava a ancestralidade das paneleiras capixabas de Goiabeiras, chamado “Saber ancestral”. A escultura de um rosto indígena feminino ficava na frente do carro, que era predominantemente verde. Esculturas grandes de vasos em marrom com padronagens geométricas pretas e brancas tomavam conta do carro e serviram de pedestal para os componentes.










Última escola a desfilar no sábado de carnaval da Série Ouro, a Inocentes de Belford Roxo exaltou as paneleiras de barro de Goiabeiras Velha, em Vitória, no Espírito Santo, através do enredo “Mulheres de Barro”, do carnavalesco Lucas Milato. Muito elogiadas por quem as consome, as comidas feitas em panelas de barra renderam elogios também na ala de baianas da Caçulinha da Baixada, que estavam vestidas de “Artesãs Indígenas”.
Pela primeira vez desfilando na Inocentes de Belford Roxo, Glória Mattos concordou convictamente com sua colega de ala. Moradora do Estácio, a estreante elegeu o peixe feito na panela de barro como seu prato favorito. “Eu gostei muito de comer comida feita em panela de barro, é muito bom. Tem muitos anos que eu comi. Minha irmã sempre faz peixe na panela de barro, é meu prato favorito”.