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É tudo nosso! Portela pinta o Vivo Rio de azul e branco em noite histórica de homenagem a Gilsinho

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O céu de Madureira desceu à Zona Sul na noite da última quinta-feira. O Vivo Rio foi tomado pelo azul e branco da Portela no espetáculo “O céu de Madureira é mais bonito”, idealizado e comandado por Teresa Cristina, em uma celebração marcada pela memória, pelo afeto e por uma reverência profunda a Gilsinho, o maior intérprete da história da escola. Com casa cheia, o show reuniu nomes fundamentais da agremiação e do samba: a Velha Guarda Show da Portela, Zé Paulo Sierra, Leonardo Bessa, Ito Melodia, Rixxah e a cantora Simone, além da participação especial da bateria Tabajara. Entre os presentes, lideranças e personalidades da escola, como o presidente Júnior Escafura, a vice-presidente Nilce Fran, a presidente de honra Vilma Nascimento, o ex-mestre-sala Jerônimo e a atriz Cacau Protásio, entre outros.

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Fotos: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Teresa Cristina abre caminhos com a alma portelense

A anfitriã da noite abriu o espetáculo reverenciando a história da Portela, interpretando sambas clássicos que atravessam gerações. Com sensibilidade e domínio do repertório, Teresa conduziu o público por uma viagem afetiva, chamando ao palco, um a um, os convidados da noite. A sequência respeitou a tradição: primeiro a Velha Guarda, depois Tia Surica, seguida por Leonardo Bessa, Rixxah, Ito Melodia e Simone, todos celebrando a força do samba e da memória portelense.

Silêncio que falou mais alto

Um dos momentos mais impactantes da noite veio quando todas as luzes se apagaram e o Vivo Rio ficou completamente no escuro. O público passou a ouvir clássicos eternizados na voz de Gilsinho, criando um clima de comoção coletiva. O silêncio respeitoso se transformou em homenagem.

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Na sequência, as luzes se acenderam, revelando a bateria Tabajara no palco. Logo depois, Zé Paulo Sierra surgiu para interpretar um medley de sambas consagrados por Gilsinho, reafirmando a continuidade de uma história que não se encerra.

Encontro de gerações e de amor

O ápice emocional da noite veio com a entrada de Vinícius Sumas, filho de Gilsinho. Ao lado de Zé Paulo Sierra e Teresa Cristina, ele deu voz à memória do pai em um dos momentos mais comoventes do espetáculo, arrancando aplausos do público.

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O encerramento foi apoteótico. Com a bateria Tabajara, o samba-enredo da Portela para 2026, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Marlon e Squiel, além das musas da escola, o Vivo Rio ficou de pé, cantando em coro, transformando o espaço em uma extensão da quadra de Madureira.

Legado que não se apaga

Presente ao evento, o presidente da Portela, Júnior Escafura, falou ao CARNAVALESCO sobre a importância de Gilsinho para a escola e para o carnaval.

“Gilsinho é um cara que dispensa comentários. Além de ser o cantor da Portela, era meu amigo de longa data. Eu o conheci ainda na época do (grupo) Fora de Série, quando ele cantava pagode no Rio de Janeiro. Venho de uma família de sambistas, e ele fez vários shows nas casas da minha família, como o Sambola e o River da Piedade. Depois, a gente se reencontrou na Portela. Posso dizer, sem dúvida alguma, que Gilsinho foi o maior intérprete da história da Portela”, afirmou Escafura.

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O dirigente também destacou a importância simbólica da realização do evento na Zona Sul da cidade.

“A importância não é só para a Portela, é para o carnaval. O sambista está aqui, na Zona Sul, onde existem muitos portelenses. A Portela tem uma tradição muito grande por aqui, porque nos anos 70 ensaiava no Mourisco, em Botafogo. Toda vez que a Portela vem ao Vivo Rio é casa cheia. Muitos portelenses não conseguem ir à quadra por falta de tempo ou deslocamento e aproveitam quando a escola vem para cá. Onde a Portela vai, é casa cheia e todo mundo feliz, porque a Portela tem uma torcida gigante”, destacou.

Ao falar sobre o legado deixado por Gilsinho, Escafura foi enfático. “O maior legado é o amor. O amor que Gilsinho tinha pela Portela vai ficar para sempre. Os filhos dele estão aqui, participando do show, junto com a gente. Eu prometi a eles que honraria o contrato do Gilsinho e assim fiz, pagando integralmente o salário para os filhos. É o mínimo que eu poderia fazer. O nome do Gilsinho jamais cairá no esquecimento da Portela e do mundo do samba. A voz dele vai ecoar sempre nos sambas históricos da escola”, afirmou.

Personalidade, talento e continuidade

Atual intérprete da Portela, Zé Paulo Sierra falou da relação pessoal com Gilsinho e da ausência sentida pelo amigo.

“Gilsinho era um cara de poucos amigos, mas de amizades sinceras. Eu tive o privilégio de estar nesse grupo. A gente tinha duas coisas muito fortes em comum: o samba e o jiu-jitsu. Ele era faixa-preta, eu também sou. Sempre que nos encontrávamos, falávamos de música, de carnaval e de esporte. Além de um grande cantor, ele era compositor, músico completo, tocava vários instrumentos. Era um cara extremamente prazeroso de conversar”, contou.

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Zé Paulo lembrou que uma das últimas memórias ao lado de Gilsinho foi uma viagem para o Maranhão, em um dos últimos shows do intérprete.

“Foi uma das últimas vezes que estivemos juntos. Ele faz muita falta, não só como cantor da Portela, mas como pessoa, com muita personalidade e autenticidade”, destacou.

Sobre a homenagem no Vivo Rio, o intérprete ressaltou a importância da iniciativa. “Teresa Cristina é uma portelense que sempre brigou pelo samba. Desde a pandemia, com as lives, sempre valorizou os artistas do samba. Essa homenagem é grandiosa e justa. Pena que ele não esteja em vida para ver isso, mas tenho certeza de que, onde estiver, está sentindo nossa energia. É uma noite de gala para o samba”, afirmou.

Ao falar da responsabilidade de ocupar o posto deixado por Gilsinho, o cantor foi direto. “Não gosto de falar em substituição. É uma missão muito difícil ocupar um espaço que ele construiu por 20 anos. São personalidades diferentes, e eu precisei impor a minha identidade. Tenho certeza de que ele está me abençoando, me dando axé, para que a gente faça um grande desfile”, concluiu.

Amizade, respeito e voz marcante

Leonardo Bessa destacou a amizade e a afinidade musical com Gilsinho. “A gente tinha uma amizade e um respeito muito grandes, muito pela afinidade musical. Fizemos vários trabalhos juntos, inclusive ele participou de um projeto audiovisual meu com muito carinho. Eu era muito fã do timbre, da pessoa e do cantor Gilsinho. Ele vai fazer muita falta, mas a lembrança dele fica no coração da gente”, contou.

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Sobre o legado, Bessa foi enfático. “Ele deixou uma entrega muito grande na avenida. Uma voz marcante, um sorriso, uma alegria. Para mim, uma das grandes vozes da história da Portela e do carnaval como um todo”, afirmou.

Compadre, um sonho e um rei de azul

O depoimento de Ito Melodia foi um dos mais emocionantes da noite. Afilhado de casamento de Gilsinho, ele falou do choque com a partida e da ausência sentida.

“Foi um choque muito grande. Duas semanas antes a gente tinha se falado, eu não sabia da gravidade da situação. Ele era a cara da Portela. Assim como outros grandes intérpretes, ele deixou a marca dele. Hoje ele faz muita falta”, afirmou.

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Ito também compartilhou um sonho marcante vivido no Natal. “Eu sonhei que estávamos no Sambola, com vários cantores. O Gilsinho estava sentado em uma cadeira azul, como se fosse um trono, uma cadeira de rei. Ele apontava para mim, sem falar nada. Aquilo me emocionou muito. Acordei com a sensação de que ele estava bem, de que tinha feito a passagem em paz”, contou.

Por fim, Ito fez uma reflexão sobre respeito entre gerações no samba. “O samba precisa de respeito entre as gerações. Eu sou da época em que grandes vozes se respeitavam. Cantar aqui hoje é uma honra, representando o Gilsinho, a Portela e o samba. Tenho certeza de que a Portela vai fazer um grande desfile em homenagem a ele”, destacou.

Voz que ficou marcada para sempre

Rixxah relembrou a relação com a família de Gilsinho e a admiração mútua. “Eu trabalhei com o pai do Gilsinho, o Jorge da Conceição, que dizia que o filho me ouvia em São Paulo, tentando me imitar. Quando contei isso a ele, já adulto, ele se emocionou. Ele dizia, sem vergonha nenhuma, que era meu fã. Isso, para mim, é só orgulho”, contou.

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Para Rixxah, o legado é incontestável. “A voz dele defendendo a Portela é o maior legado. Um tenor potente, inconfundível. Hoje o nome dele é saudade, mas uma saudade boa, de quem foi uma pessoa boa e fez história”, concluiu.

Sacode do Salgueiro no último ensaio de rua em busca da décima estrela

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Por Ana Beatriz Campelo e João Gabriel Rothier

Com organização, força e o samba na ponta da língua, o Acadêmicos do Salgueiro fez seu último ensaio de rua na última quinta-feira. Na busca pela tão sonhada décima estrela no carnaval, com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, em homenagem a Rosa Magalhães, a escola deu aula de como levantar a comunidade do chão na Avenida Maxwell. O risco de chuva para a noite não impediu os salgueirenses de saírem de suas casas para presenciarem o espetáculo da bateria “Furiosa”, comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo, a maestria harmoniosa do intérprete Igor Sorriso, a coreografia em alto nível da comissão de frente e a elegância do querido casal Sidclei e Marcella.

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COMISSÃO DE FRENTE

O alto carisma e a sincronia entre os componentes da comissão de frente arrancaram sorrisos e aplausos do público em frente ao primeiro módulo de julgamento. A coreografia de Paulo Pina, agora em sua segunda passagem pela escola, procura honrar o legado da multifacetada Rosa Magalhães, apostando em referências diretas a personagens que a carnavalesca levou em sua história na Marquês de Sapucaí. Mesmo sem fantasias, o resultado do trabalho de meses do grupo é evidente e não decepciona na pista. Assim como em 2025, o Salgueiro deseja novamente a avaliação máxima dos jurados neste quesito.

O grande destaque da dança acontece no momento em que o som do violino entra em cena, no verso “Mestra, você me fez amar a festa”, e os dançarinos se organizam em suas posições para saudar a “Rosa dos Ventos”, que guiará a agremiação no último dia de desfiles do Grupo Especial, em 17 de fevereiro.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O último ensaio na rua também reforçou como Sidclei Santos e Marcella Alves estão seguros atrás do “10” em mais um ano juntos no carnaval. O mestre-sala e a porta-bandeira do Vermelho e Branco incorporaram a potência e a poesia do samba do início ao fim da apresentação para a primeira simulação do júri. Mesclando leveza e elegância aos movimentos com a bandeira, Marcella transmitiu no rosto estar totalmente à vontade para fazer o primeiro ensaio técnico na Passarela do Samba, no próximo sábado, um verdadeiro espetáculo. O mesmo para Sidclei, que, com muito gingado e agilidade nos pés, conduziu os rodopios da companheira sempre atento aos detalhes da execução. A troca de olhares e a interação do primeiro casal do Salgueiro nos versos “Andar na Ouvidor / Virou caso de amor / Pro meu coração” também foi outro grande momento da noite.

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HARMONIA E SAMBA

A harmonia da escola fez um excelente trabalho ao longo da Maxwell. Já na arrancada, todos os componentes estavam animados e cantando a plenos pulmões o samba que, desde a escolha no ano passado, foi um dos mais populares do Grupo Especial. Com a voz potente e a maestria sem igual do intérprete Igor Sorriso, em seu segundo ano à frente do Salgueiro, a comunidade não deixou a desejar na força do canto, independentemente de o verso ser refrão ou não. Pouco antes de se posicionar ao lado do carro de som, Igor fez um balanço da temporada da agremiação ao CARNAVALESCO.

“É uma evolução, uma crescente. O Salgueiro, a cada semana que passa, vai ficando mais pronto para o grande dia. Trabalhamos muito desde a escolha do enredo até a do samba e, agora, nos ensaios de rua e nos ensaios técnicos que estão se aproximando. O Salgueiro está pronto para fazer um grande desfile, um grande espetáculo e uma homenagem emocionante para Rosa Magalhães”, prometeu.

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Fotos: Ana Beatriz Campelo e João Gabriel Rothier/CARNAVALESCO

Ele também compartilhou a emoção do último dia na rua e as expectativas para o teste na Sapucaí: “Hoje é o dia de motivar o povo ainda mais, para a gente chegar no dia do ensaio técnico com um povo afiado e motivado. Pequenos ajustes para chegar lá e fazer o nosso ensaio com tudo o que a gente planejou, da melhor forma possível”.

Mesmo na chegada à dispersão, a comunidade salgueirense não abaixou o tom da letra e mostrou por que o samba em homenagem à gigante do carnaval merece a popularidade que tem.

EVOLUÇÃO

Todas as alas da escola demonstraram muito capricho neste ensaio final de rua, vibrando, cantando e sem deixar buracos visíveis em nenhum setor. Na entrada da bateria, ao segundo recuo, toda a direção de harmonia mostrou estar extremamente sincronizada e competente, apesar de o trecho da Avenida Maxwell oferecer grandes desafios neste quesito, devido à largura da rua e à quantidade de desfilantes durante o ensaio. O posicionamento exemplar dos diretores das alas do Vermelho e Branco foi fundamental para que nem mesmo as dificuldades geográficas do espaço atrapalhassem o andamento e a finalização do treino.

OUTROS DESTAQUES

As alas coreografadas no último setor roubaram a cena. Os desfilantes carregavam leques, balões e vestiam fantasias associadas ao carnaval de rua. O efeito dos leques batendo durante o verso “Que ti-ti-ti é esse pelo mundo a me levar?/Naveguei sem sair do meu lugar” fez a alegria da torcida salgueirense que prestigiava o ensaio.

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Em todos os ensaios de rua, a bateria “Furiosa”, dos mestres Guilherme e Gustavo, guiou perfeitamente o ritmo da escola, e nesta noite não seria diferente. À frente do grupo de ritmistas, a rainha Viviane Araujo mostrou todo o seu carisma e respeito à comunidade do Salgueiro, atendendo e cumprimentando o público, principalmente as crianças, durante o desfile.

Ao CARNAVALESCO, o mestre Guilherme também fez comentários sobre o balanço da escola: “Foi uma temporada muito intensa para a gente. O Salgueiro tem uma agenda muito grande, e a gente faz de tudo para dar conta de tudo e para que tudo dê certo. Acho que a gente, em mais uma temporada, tem conseguido. É um trabalho que eu venho fazendo com o Gustavo: pegamos o enredo e pesquisamos o que ele pode entregar para a gente. A Rosa tem muitos detalhes nos carnavais dela, nos antigos da década de 90, que a gente está aproveitando e trazendo para o nosso trabalho este ano”.

Na última terça-feira, as escolas da elite do carnaval testaram o novo sistema de som do Sambódromo, que será inaugurado oficialmente nos próximos desfiles. “A gente acabou de sair da passagem de som. Eu, particularmente, gostei muito, não só da passagem de som final, que estava excelente. Espero que esteja assim no dia. Só o fato de poder ensaiar os dois meses com o som real da Sapucaí muda muito para a gente no dia do espetáculo.

orque, antigamente, ensaiavam só a campeã e a vice-campeã. A expectativa vai estar lá em cima; eu tenho certeza de que vai dar tudo certo”, complementou Guilherme.

O público também pode esperar surpresas na Avenida para o ensaio técnico. “Pior que tem (surpresas) e vai ser emocionante, só que a gente não vai espalhar agora, senão vai perder a surpresa. Ninguém sabe, só eu, o Guilherme e a Paulinha, que é a nossa ajudante da mídia do marketing. A gente estava bolando o plano, e vai ser uma parada bem emocionante. Pode ter certeza: quem é salgueirense e curtiu o carnaval da década de 90 vai se emocionar muito”, finalizou o mestre Gustavo.

Série Barracões: Leandro Vieira define projeto visual como o mais surpreendente de sua trajetória na Imperatriz

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Trocar de pele é mais do que um conceito estético no enredo “Camaleônico”, que a Imperatriz Leopoldinense apresentará no Carnaval 2026 em homenagem a Ney Matogrosso. Para o carnavalesco Leandro Vieira, trata-se de um modo de viver e festejar a liberdade, princípio que atravessa tanto a obra do artista homenageado quanto o momento vivido pela agremiação. A Imperatriz, ao trocar de pele, desfila com corpos que deixam de apenas ilustrar um enredo e passam a afirmar, na Avenida, o corpo como território político.

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Fotos: Leonardo Queiroz/Divulgação Imperatriz

“O Ney é um enredo que está na minha cabeça há algum tempo. O que mais me interessa nesse personagem é o quanto ele foi um corpo que abrigou muitas identidades. E o fato de esse corpo abrigar muitas identidades fez com que esse corpo também fosse um território muito político”, afirmou o carnavalesco.

É a partir dessa leitura que Leandro Vieira insere o enredo “Camaleônico” em um percurso iniciado na Imperatriz em 2023, marcado por enredos diferentes entre si, mas unidos pela recusa da fixidez e pela afirmação da transmutação como projeto artístico.

“O que me chamou mais atenção nesse processo é o quanto mudar de pele é importante para a história e a trajetória artística de uma personalidade que fez disso uma bandeira. Ele é a bandeira pelo direito de ser quem se é, de poder ser o que se quer ser: bicho, homem, mulher, bandido, transgressor”, declarou.

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É essa noção de liberdade, entendida como constante metamorfose do comportamento, que Leandro identificou também no momento vivido pela Imperatriz Leopoldinense.

“Por mais que o ‘Lampião’ não tenha a ver com a ‘Cigana’, que a ‘Cigana’ não tenha a ver com o ‘Oxalá’ e que o ‘Oxalá’ não tenha a ver com o ‘Ney’, o que fica é justamente essa ideia de escola em constante metamorfose”, destacou.

Uma metamorfose que se traduz no comportamento da escola em desfile e reposiciona a Imperatriz para além do antigo rótulo de “Certinha de Ramos”.

“O grande trunfo dos carnavais da Imperatriz, para mim, são enredos que possibilitam o comportamento que a comunidade tem hoje. A escola está contaminada por um espírito de festa e de liberdade, que reflete no comportamento. Não existe mais a ideia de fila, não existe mais a ideia de ordem pré-estabelecida, não existe mais a ideia de marcha”.

Se a liberdade se manifesta na evolução de um corpo coletivo livre, a festa surge como elemento permanente nos enredos de Leandro Vieira à frente da Imperatriz Leopoldinense, funcionando como desfecho recorrente de seus carnavais.

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Foto: Wagner Rodrigues/Divulgação Imperatriz

“O que fica de permanente é a ideia de liberdade na escola, e isso se reflete em comportamento. E o que fica também é uma ideia de festa”, destacou.

Ao longo dos últimos carnavais, essa lógica se manifestou de formas distintas. Em 2023, o desfile sobre Lampião se encerrava em uma festa terrena, após a travessia entre céu e inferno. No ano seguinte, a Cigana terminou com a Imperatriz celebrando a sorte plena, enquanto o enredo sobre Oxalá, em 2025, tinha como desfecho a cerimônia das águas, também marcada pela proposta de celebração.

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Em 2026, porém, essa ideia de festa ganha um novo sentido. “O Ney se encerra numa festa altamente hedonista. ‘Se joga na festa’ talvez seja a frase que resume o desfecho do desfile”, revelou o artista.

Leveza como escolha estética

A liberdade e a festa se materializam, antes de tudo, no corpo que veste o desfile. Em “Camaleônico”, as fantasias são concebidas para colocar o componente no centro da narrativa, dialogando diretamente com a trajetória de Ney Matogrosso, marcada pelo uso do figurino como elemento fundamental de construção artística e de afirmação identitária ao longo da carreira.

Para Leandro Vieira, não há dissociação entre enredo e forma de vestir. A leveza das fantasias, segundo ele, é uma exigência do próprio enredo.

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“O meu enredo para 2026 é naturalmente um enredo de pouca roupa. Não faz sentido imaginar um artista que fez da pouca roupa um discurso público de liberdade sendo homenageado com um desfile de pessoas vestidas de gola e manga fechada da cabeça aos pés”, disse.

Nesse sentido, o conjunto de fantasias foi pensado para respeitar a individualidade dos corpos que compõem a escola, permitindo que pele, barriga, colo e coxa apareçam como parte constitutiva da linguagem do desfile.

“O enredo do Ney me possibilitou ter um conjunto de fantasias em que a individualidade dos corpos da minha comunidade é respeitada. Um conjunto em que a sensualidade da nudez é possibilitada.”

Cores e impacto visual

Se o corpo ganha liberdade, a cor assume papel central na construção do carnaval da Imperatriz Leopoldinense em 2026. Leandro Vieira definiu o projeto visual como o mais surpreendente de sua trajetória na escola.

“Em termos de cor, talvez seja o carnaval mais surpreendente que eu já fiz até aqui, até para mim. A abertura é muito mais colorida, muito mais doida. É uma Imperatriz luxuosa, brilhosa”, contou.

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A escolha dialoga diretamente com o universo estético de Ney Matogrosso, artista cuja imagem pública sempre esteve associada ao brilho e aos figurinos como linguagem. Para o carnavalesco, o material visual que Ney acumulou ao longo da carreira transforma o homenageado em síntese do próprio Carnaval.

“O Ney traz um material estético muito grande. Esteticamente, ele é o carnaval em pessoa. A fantasia sempre foi fundamental na construção artística dele.”

Samba do enredo

Essa mesma lógica de liberdade e celebração também atravessa o samba-enredo, concebido para sustentar o desfile sem romper com o projeto estético e narrativo da escola. Na avaliação de Leandro Vieira, a obra cumpre o papel de comunicar com clareza a proposta do enredo e dialogar com o comportamento que a Imperatriz tem construído nos últimos anos.

“O samba é totalmente dentro do enredo. Ele apresenta a ideia do Ney de forma completa e tem a qualidade descritiva, que é o que a Imperatriz tem feito nos últimos carnavais”.

Liberdade inegociável

Ao falar sobre sua trajetória recente, Leandro Vieira também destacou que a liberdade criativa não é apenas um valor estético, mas uma condição inegociável de seu trabalho. Para ele, a possibilidade de experimentar caminhos distintos em uma mesma escola está diretamente ligada à recusa de rótulos e ao respeito institucional pelo projeto artístico proposto.

“Eu não gosto da ideia de um artista rotulado. Um artista disso, desse perfil. Fazer a Imperatriz quatro vezes diferente, para mim, aponta para uma negação, mas também para uma continuidade. Eu estou reafirmando a troca o tempo todo”.

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“A ideia de liberdade é fundamental no meu trabalho. É uma ideia inegociável. Fazer isso na Imperatriz tem a ver com o respeito da diretoria pelo que eu proponho e com o respeito que eu tenho pelo que acredito”.

Diante desse entendimento, as especulações recorrentes sobre sua permanência na escola de Ramos perdem centralidade. Segundo o carnavalesco, esse tipo de comentário acompanha sua trajetória em diferentes agremiações, mas nunca determinou o modo como constrói seus projetos.

“Há anos dizem que é meu último Carnaval em todos os lugares por onde eu passo. Eu fico muito mais tempo do que dizem que eu vou ficar”.

Essa mesma liberdade orienta a decisão de abordar Ney Matogrosso a partir de sua obra, e não de uma narrativa biográfica.

“O enredo é focado na obra. Não é biográfico. O que me interessa é o discurso estético, o discurso de transgressão, os personagens que ele construiu ao longo da carreira”.

Em 2026, essa leitura ganha a Sapucaí como experiência coletiva. Entre corpos livres, fantasias leves, cores exuberantes e um desfecho festivo sem juízo ou pecado, a Imperatriz Leopoldinense transforma a obra de Ney Matogrosso em afirmação: de que o carnaval pode ser, ao mesmo tempo, espetáculo, festa e território político, um espaço onde mudar de pele é uma maneira de exercer a liberdade.

Conheça o desfile

Todas essas escolhas se organizam no desenho do desfile que a Imperatriz Leopoldinense levará para a Sapucaí no Carnaval 2026. Segundo o carnavalesco, o enredo “Camaleônico” será desenvolvido na Sapucaí em cinco setores, com um total de nove alegorias e cerca de 3 mil componentes. Conheça os nomes de cada setor:

1º Setor: Meio homem, meio bicho
2º Setor: A coragem no corpo
3º Setor: O poema que afronta o sistema
4º Setor: A voz de tantas canções
5º Setor: Sem juízo ou pecado, se joga na festa

Casal símbolo do carnaval, Claudinho e Selminha celebram união e legado

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Em 1996, Claudinho e Selminha davam início na Beija-Flor a uma história de parceria, respeito e amor com o pavilhão nilopolitano e, desde então, vêm se tornando referência por sua sintonia e pela capacidade de se renovar em meio às inovações que surgiram no quesito, agregando-as, mas mantendo a tradição. A comemoração dessas três décadas foi realizada no bar do carnaval, o Baródromo, nesta última quarta-feira, e teve como destaque a celebração do casal com seus amigos, o mestre-sala mostrando seus dons no canto ao interpretar o samba de 1996 e o discurso de Aydano Motta, jornalista e amigo do casal. Vale lembrar que antes a dupla já tinha brilhado na Estácio e conquistado o título no carnaval de 1992.

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Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Em 2026, Claudinho e Selminha retornam à Sapucaí com o peso de completar 30 anos defendendo o pavilhão nilopolitano e em busca do bicampeonato. Neste ano, a agremiação apresentará o enredo “Bembé”, em homenagem à maior manifestação de candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado, que acontece na cidade de Santo Amaro, na Bahia.

O casal contou como é ter tantos anos juntos: “Eu só tenho a agradecer a Deus, aos Orixás. Acho que quando a gente se propõe a fazer um trabalho com muito amor, com muito carinho, fazendo aquilo que a gente ama… Somos duas pessoas diferentes, porém com o objetivo de realizar um trabalho de qualidade, com muita seriedade, através da cultura. Porque a gente sabe que hoje todas as escolas têm seus torcedores, e a Beija-Flor é uma escola que tem um mundo de torcedores. A gente sabe que, ali com aquela bandeira, a gente está representando todos esses torcedores com a nossa nota para somar com a escola e chegar ao objetivo, que é ganhar o título”, diz Claudinho.

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“É muito mágico saber que nós estamos ali com todo o vigor, toda a garra, toda a vontade de continuar, de entregar com compromisso, com orgulho, com carinho, com respeito a todos que amam a escola e que estavam nos assistindo. Este ano é especial por ser 30 anos cravados de desfile. […] Eu acho que, mesmo quem não torce pela escola, mas ama o samba, entende que existem personagens que marcaram, marcam e marcarão a história. E é lindo ter personagens que evidenciam que vale a pena estar ali se entregando tanto, fazendo essa cultura, fazendo a roda girar, fazendo a roda se movimentar. Independentemente de torcida, acho que todo mundo olha para Claudinho e Selminha com muito carinho e diz: ‘Nossa, esses caras aí, essa menina e esse menino, quando eu nasci, eles já estavam dançando’. E outros dizem: ‘Tô velhinho, mas vi Claudinho e Selminha começarem e agora estão aí, e eu estou aqui olhando para eles’. É algo muito mágico dos Orixás. Acho que eles olham para a gente e ficam felizes, porque deram essa missão e nós estamos cumprindo com muita maestria e dignidade, porque quando eu empunho o pavilhão da Beija-Flor, não é só a bandeira: tem ali uma força ancestral de gratidão e de resistência, porque eles sabem o tamanho do respeito e da gratidão que eu tenho por eles, que tanto lutaram para que nós estivéssemos aqui”, diz Selminha Sorriso.

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Um dos momentos de destaque na noite de quarta-feira foi o discurso de Aydano Motta, que, com muita precisão, carinho e intimidade com o casal, expressou a grandeza que eles representam juntos. Trata-se de um amigo com um olhar atento e observador, que acompanhou a caminhada deles ao longo dos anos.

Aydano conta que, em 2007, após a apresentação do casal na avenida, Selminha estava com as costas sangrando, mas não sentia dor por conta da animação. Essa cena ficou tão marcada em sua memória que o motivou a escrever um livro sobre as porta-bandeiras, colocando a mulher como protagonista dessa história e expressando a força desse quesito.

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“Eles construíram uma história política. Porque eles resumem o carnaval, resumem a arte carioca, resumem a melhor cara do Brasil, que é o carnaval. O Brasil não inventou nada melhor do que a escola de samba. E um ponto alto da escola de samba é o casal de mestre-sala e porta-bandeira. E o maior casal, por toda a história, pela fidelidade um com o outro, pela coerência, pela atitude, pelo recomeço — e é a trigésima quinta vez que vai recomeçar tudo outra vez —, eles começam como se fosse a primeira”, diz Aydano Motta.

Em tantos anos juntos defendendo o pavilhão nilopolitano, com enredos distintos, qual foi o desfile que mais marcou cada um?

“Eu tive 2015, foi África. Tive as duas Áfricas, quando a Beija-Flor homenageou as duas. O ‘Monstro’, para mim, foi um desfile maravilhoso, que eu amo muito; o do Laíla também, entre outros. […] Todos a gente fez com amor e carinho. Se eu for ficar falando aqui, são vários desfiles, porque eu gostei de quase todos”, conta Claudinho.

“O ano de 2015 foi o desfile que mais me marcou, foi Guiné Equatorial, porque representei uma mulher africana com cabelo black power. Eu nem entendia o que era racismo como entendo hoje, mas ali foi uma virada de chave. Eu podia assumir um black power e representar a negritude no cabelo, quando ninguém fazia isso. A roupa era incrível, foi mágico. Todos os desfiles da Beija-Flor foram maravilhosos. Tivemos obstáculos como chuva, água, óleo, salto quebrado (risos), mas tudo isso fez e faz parte dessa construção que ainda estamos construindo. E com certeza ficaremos até a hora que os deuses, os Orixás, quiserem que a nossa permanência seja feita aqui nesse plano, por essa escola tão amada”, afirma Selminha.

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Em 30 anos, o casal enfrentou diversos obstáculos, entre eles chuva e calor extremo, que atingiram diretamente o condicionamento físico devido às fantasias mais elaboradas, mas conseguiram superá-los com maestria.

“A gente já pegou muita chuva, já pegou muito calor intenso, e isso, para a gente que veste uma fantasia bastante quente, acho que prejudica um pouco, mas nada como o amor e o carinho para superar todos esses percalços”, diz o mestre-sala.

“Você passa por transições, e nós resistimos a elas e continuamos sendo admirados e respeitados, fazendo o máximo possível para manter a tradição da dança do mestre-sala e da porta-bandeira raiz. Mas é claro: houve inovações, e nós entendemos isso e seguimos com elas, mantendo também as tradições e sendo muito felizes fazendo isso. É notório que fazemos com alegria e felicidade. Ver os próprios colegas, nossos pares, com tanto respeito e carinho por nós não tem preço. Eles entendem que é uma história muito longeva e bonita, e nós não nos achamos melhores que ninguém; somos iguais a todos”, afirma a porta-bandeira.

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No discurso dado pelo casal no Baródromo, eles comentaram a importância do diretor de carnaval e carnavalesco Laíla na inserção deles na agremiação, pois foi ele quem os levou para o time nilopolitano. Diante disso, o peso de ter vencido o Carnaval 2025 se torna ainda maior, como forma de agradecimento por ele ter deixado essa porta aberta.

“Eu acho que não só o casal Claudinho e Selminha, mas houve uma comoção da escola por tudo que ele nos ensinou. Ele foi o nosso ‘griô’. Todos os títulos ele deu para a escola. Ele não era só diretor de carnaval, mas também carnavalesco, porque opinava em várias áreas: carros alegóricos, confecção de fantasias, comunidade, samba… Diversos sambas tiveram a mão do Laíla e nós fomos sagrados campeões. A importância dele para nós foi enorme, e tínhamos essa obrigação de dar esse presente para ele, seja lá onde esteja, em outro plano, e para toda a sua família”, diz Claudinho.

“Era como se eu estivesse vivendo um filme, porque foi tudo muito recente. Eu continuei tendo muito contato com ele no final da vida aqui nesse plano. Tenho um áudio dele, duas semanas antes de falecer, dizendo o tamanho do amor que tinha por mim. Ele disse que quem venceu foi o meu talento e o meu esforço, que ele só lapidou. Isso me fez chegar tão longe, e ele tinha muito orgulho de mim”, revela Selminha.

Com o desfile se aproximando, o casal segue focado e ensaiando para 2026. “O momento atual é trabalhar muito, focado na parte física. Acabei de sair do treino. Porque sabemos que, cuidando do corpo, da mente, tendo qualidade de vida e colocando Deus no coração, com a parte espiritual em equilíbrio, conseguimos fazer um trabalho à altura do que o jurado, a escola e o povo esperam da gente. É dedicação, garra e vontade de vencer”, afirma Claudinho.

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“A gente está muito feliz com esse enésimo desfile. Vamos deixar, como sempre, o universo nos levar, mas fazendo por onde, para não nos acomodarmos. Buscamos sempre sermos iniciantes, termos o ‘shoshin’, a mente de principiante da filosofia japonesa, que entende que sempre há o que aprender. Quando você acha que sabe tudo, se acomoda. Sabemos, sim, pela longevidade, mas precisamos aprender mais, entender mais, e isso nos dá força para continuar”, diz Selminha.

O casal também falou sobre as expectativas para o Carnaval 2026 e a busca pelo bicampeonato:

“O enredo vai levantar uma pauta muito importante, que é mostrar o que realmente é o candomblé, a religião de matriz africana, que é linda e da qual nos orgulhamos. O Estado é laico, e o respeito à diferença precisa existir todos os dias. Esse enredo vai transcender, esclarecer e fazer as pessoas refletirem, serem menos racistas e preconceituosas. Tenho orgulho de ser macumbeira e de representar, em 2026, o Bembé do Mercado, um candomblé de rua a céu aberto. Que minha Oxum, minha mãe de cabeça, e todas as Iabás se sintam felizes ao ver essa filha de Oxum e o Claudinho, filho de Ogum, representando a ancestralidade dos Orixás”, conta Selminha.

“Vai ser um ano especial! Para mim, principalmente, que sou um dos autores do samba. Estou muito feliz. Claro que precisamos ter cuidado e técnica, porque não podemos nos emocionar demais. Somos diferentes: Selminha fica mais na parte emocional, e eu fico mais na técnica, tomando cuidado com ela”, diz Claudinho.

Selminha também falou sobre sua experiência como presidente da escola mirim O Sonho do Beija-Flor: “É uma grande realização. Sempre pontuei a educação no samba. Trabalhar com crianças e jovens é manter viva a história do samba. Quando fui escolhida, levei um susto, mas agradeci. Minha missão sempre foi promover o samba através da educação antirracista e da história da Beija-Flor, fazendo com que eles tenham orgulho do que são. O samba é subsistência, inclusão social, resistência, cultura, arte e educação. A escola mirim mostra que o samba nunca vai morrer”, diz Selminha.

Mangueira lança manifesto documental exaltando o legado de Mestre Sacaca para o Carnaval 2026

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A Estação Primeira de Mangueira, em sua jornada rumo ao Carnaval 2026, lança um manifesto documental em formato de curta-metragem. O projeto mergulha no universo afro-indígena do Amapá para apresentar a narrativa de seu próximo enredo: a vida e a ancestralidade de Mestre Sacaca, o “Xamã Babalaô” da Amazônia Negra. ​O documentário não apenas antecipa a estética do desfile, mas humaniza a figura de Sacaca através de depoimentos emocionantes. O vídeo cruza as vozes de ícones mangueirenses com o relato íntimo da família do homenageado, que mantém vivo o legado do mestre em solo amapaense.

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​Uma ponte entre o Rio e a Amazônia Negra

​O carnavalesco Sidnei França destaca que a obra funciona como uma bússola para a comunidade e para o público entenderem a profundidade da pesquisa deste ano: ​”Esse manifesto foi produzido para que as pessoas ouçam a percepção dos segmentos e integrantes da Mangueira sobre o enredo.
Além disso, é uma chance de conhecer a história de Mestre Sacaca de uma maneira afetiva, através de sua própria família. Eles carregam esse legado até hoje, e isso fica explícito no vídeo”, afirma.

​A produção conta com um elenco de peso, unindo a nobreza do samba à ancestralidade da família Sacaca. Entre os participantes estão nomes como Alcione, Evelyn Bastos, Matheus Olivério, Cintya Santos e Dowglas Diniz, além de segmentos representados por Vitor Art, Rodrigo Explosão (Digão) e o próprio Sidnei França. A família Sacaca — representada por Dona Madalena (viúva de Mestre Sacaca), Armistrong, Dô, Fábio e Lídia — traz a materialização da sua herança amazônica para o coração do Morro de Mangueira.

​O curta já está disponível no canal oficial da agremiação no YouTube, servindo como o primeiro capítulo de um desfile que promete ser histórico.

O manifesto está disponível no link: https://youtu.be/1fy46vX1bWM?si=-HUBbY00k77-TlqS

​Ficha Técnica (Manifesto)
​Tema: Mestre Sacaca e a Amazônia Negra.
​Elenco: Alcione, Armistrong Sacaca, Cintya Santos, Digão do Cavaco, Dona Chininha, Dona Gilda, Dona Madalena, Dowglas Diniz, Dô Sacaca, Evelyn Bastos, Fábio Batista, Fábio Sacaca, Felipe Tinoco, Guezinha, José William, Josilana Santos, Karina Dias, Lídia Sacaca, Lucas Maciel, Matheus Oliverio, Sidnei França, Sthefanye Paz e Vitor Art.
​Realização: Estação Primeira de Mangueira.

Unidos da Tijuca inaugura terreno que projeta futuro da escola e reforça papel do carnaval na cidade

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A Unidos da Tijuca viveu, na última quinta-feira, um dia que marca um divisor de águas em sua história. A escola inaugurou oficialmente o terreno que dará espaço à sua nova quadra, na região da Gamboa, próximo à Cidade do Samba. Mais do que a apresentação de um espaço físico, o momento simbolizou conquista, estabilidade e projeção de futuro para a comunidade tijucana, que há décadas sonhava com um endereço definitivo.

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Fotos: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O terreno conta com 2,5 mil metros quadrados e recebeu um investimento de R$ 13 milhões da Prefeitura do Rio. A abertura da licitação está prevista para o dia 12 de março de 2026, com início das obras em abril e prazo estimado de conclusão de até nove meses. A nova quadra nasce como um equipamento cultural pensado para funcionar durante todo o ano, atendendo não apenas aos momentos de festa, mas também às atividades sociais e comunitárias da escola.

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A cerimônia reuniu o presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, o presidente da Liesa, Gabriel David, além de dirigentes, representantes do carnaval e membros da comunidade. Em clima de celebração, os discursos reforçaram a importância institucional, simbólica e cultural da conquista.

O prefeito Eduardo Paes destacou a relação entre gestão pública, organização e valorização das escolas de samba como pilares do desenvolvimento do carnaval carioca.

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“Quando tem gestão, organização e comando, não falta dinheiro nunca. Não é que está sobrando. Claro que a cidade precisa de um monte de coisas, a gente sempre precisa melhorar. Mas ninguém vê, nos meus governos, salário de servidor atrasar, fornecedor deixar de receber ou obra parada por falta de grana. A quadra da Tijuca é uma realidade porque a hora era agora. O carnaval não é só aquele momento mágico dos dias de festa; as escolas de samba são instituições que dão identidade à nossa cidade, ao nosso povo. Desde 2009, a prefeitura não parou de incentivar para que o carnaval pudesse avançar e crescer”, afirmou o prefeito.

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Paes também fez questão de enaltecer o trabalho do presidente da Liesa, traçando um paralelo com a trajetória de Fernando Horta na Tijuca.

“O que o Gabriel está fazendo com o carnaval carioca foi o que o Fernando fez na Unidos da Tijuca. Está organizando e profissionalizando. A evolução está acontecendo de verdade. Eu sou político, sou candidato, mas nunca tive medo de tomar medidas, muitas vezes impopulares, para garantir o direito do povo de ir a um lugar de lazer, diversão e manifestação cultural. Gabriel, conta com o apoio da prefeitura e segue firme fazendo as modificações no carnaval. Você tem aumentado o faturamento das escolas. Essa festa é tão bonita, tão popular e tão bem vendida para o mundo todo”, declarou.

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Em um dos discursos mais emocionados do dia, o presidente Fernando Horta falou da longa luta até a conquista do terreno e do significado do espaço para a comunidade.

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“Hoje eu realizo um sonho pelo qual luto há mais de 20 anos: um espaço para a Unidos da Tijuca. Estávamos no Clube dos Portuários e, todo ano, recebíamos aviso de despejo. Isso aqui não é para mim, é para a minha comunidade, para as crianças, para a velha guarda. Depois dessa obra, o nosso nome será maior ainda, porque agora temos um terreno. Quero realizar o aniversário da escola aqui em dezembro, e o discurso final vai ser quando me entregarem a chave da quadra”, afirmou o presidente.

O presidente da Liesa, Gabriel David, ressaltou o reconhecimento ao trabalho da Tijuca e a importância do alinhamento entre poder público e carnaval.

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“É um dia muito marcante ver o trabalho do presidente Horta sendo reconhecido com a entrega desse terreno. Bons projetos só acontecem quando existe visão para a cidade e entendimento da importância das escolas de samba. Fernando luta há mais de 40 anos pela sua agremiação. E, quando o arquiteto também é sambista e coloca o coração dentro de um projeto, a gente sabe que a quadra vai ser bonita e funcional”, destacou.

Gabriel também ampliou o olhar para o cenário atual do carnaval, citando avanços estruturais e organizacionais.

“Esse apoio público é fundamental. Tivemos o maior número de eventos populares ao longo do ano, todas as escolas do Grupo Especial fizeram ensaios de rua e, pela primeira vez, todas poderão passar na avenida com teste de som e luz duas vezes. Isso é para que os verdadeiros protagonistas dessa festa, os artistas, possam brilhar”, completou.

Responsável pelo projeto arquitetônico da nova quadra, Miguel Pinto Magalhães apresentou os detalhes do espaço, que foi pensado para unir funcionalidade, acolhimento e identidade simbólica da escola:

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“Escolhemos essa parte do espaço para realizar o grande samba e ter uma quadra aberta do outro lado, ao ar livre, com bar, restaurante e outros serviços. Nos conceitos originais, eram contêineres improvisados, mas a infraestrutura fez questão de planejar banheiros de primeiríssimo mundo, em uma quantidade enorme, muito melhor do que a quadra atual”, explicou o arquiteto.

Segundo Miguel, a quadra foi pensada para servir à comunidade durante todo o ano: “Essa será uma quadra preparada para cozinha, banheiros e bares, que vai servir muito bem à comunidade. Teremos quatro coberturas e um sistema estrutural metálico que facilita e barateia a obra. Pela forma triangular, ela remete às caudas do pavão do nosso Fernando Horta”, detalhou.

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O projeto também contempla dois pavimentos e acessibilidade universal: “O pavimento superior contará com bar, terraço, restaurante e camarotes. É importante lembrar que essa parte é absolutamente acessível. Toda obra da prefeitura tem infraestrutura de acessibilidade universal, e teremos elevador”, concluiu.

A inauguração do terreno não representa apenas o início de uma obra, mas a consolidação de um espaço de pertencimento, memória e futuro. Para a Unidos da Tijuca, a nova quadra simboliza estabilidade institucional, fortalecimento comunitário e a possibilidade de ampliar suas ações culturais, sociais e carnavalescas. Um passo concreto que reafirma o papel das escolas de samba como pilares vivos da identidade do Rio de Janeiro.

Independente aposta na virada: comunidade da Mocidade se une por um 2026 de reconquista

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Sob o impacto do enredo “Rita Lee – A Padroeira da Liberdade”, assinado por Renato Lage, a Mocidade Independente de Padre Miguel inicia a temporada de ensaios com um sentimento que há tempos não ganhava tanta força: a crença coletiva em uma virada de chave. Em entrevista ao CARNAVALESCO, torcedores falaram sobre confiança, engajamento da comunidade e reconstrução. A percepção comum no minidesfile foi a de uma escola mais aguerrida.

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Juventude desperta e comunidade mais unida

Para muitos integrantes, a virada já se manifesta no comportamento da escola, especialmente entre os mais jovens. A administradora Karen Nathália, em seu segundo ano desfilando, vê o enredo como elo entre gerações.

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Karen Nathália

“A juventude estava adormecida, e esse enredo aproximou todo mundo. A quadra está forte, com canto intenso. A comunidade abraçou”, disse.

Estreante na Avenida, mas criado na tradição da escola, o estudante Gabriel Fernandes

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Gabriel Fernandes

reforça: “A Mocidade está mais junta, mais família, mais aguerrida. Está bonito de ver”.

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Wendel Rosa

O ritmista Wendel Rosa, há seis anos no surdo de primeira, percebe o mesmo clima: “Há brilho no olhar e esperança real de virar o jogo. Até quem está de fora abraça esse amor”.

Rita Lee como símbolo da identidade independente

O enredo surge como motor dessa mobilização. Para Pedro Flores, ritmista do chocalho, a escolha é certeira: “Rita Lee é irreverente, ousada, fora da curva. É a cara da Mocidade”.

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Pedro Flores

Gabriel destaca a identificação da juventude com a artista: “Essa maluquice boa da Rita combina com o fanatismo da Mocidade”.

Karen reforça o caráter libertário do tema: “Rita estava à frente do seu tempo. Ser sem censura e sem regras fala muito com a gente e ainda aproxima gerações”.

Para o estreante Matheus Ferreira, o conceito é claro: “Liberdade. Poder ser quem se é. Que isso leve a Mocidade mais alto”.

Renato Lage e a reconstrução

O retorno de Renato Lage é visto como pilar de estabilidade. “Ele fez a história da escola. Tem tudo para dar certo”, resumiu Pedro.

Matheus lembra o peso simbólico da volta: “Nosso último título foi com ele. Também queremos vencer pela Márcia. São mentes brilhantes”.

Karen completa: “A proposta retrô do Renato casa muito com a Rita Lee”.

Bateria e casal como pilares

A confiança na bateria “Não Existe Mais Quente”, de Mestre Dudu, é unanimidade. “Vem forte, preparada e resiliente”, disse Wendel.

Gabriel define o peso do quesito: “A bateria é o coração da escola”.

Outro ponto de segurança é o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos. “São próximos da comunidade e têm uma conexão linda”, afirmou Karen.

Escolha de acreditar

A virada da Mocidade aparece menos como promessa e mais como atitude. “Se o componente não comprar essa ideia, nem tem que estar”, sintetizou Matheus.

É essa disposição coletiva que alimenta a esperança de que 2026 marque um novo momento para a Estrela Guia.

‘O chão também era nosso’: enredistas da Beija-Flor relatam experiência em Santo Amaro para criação do enredo sobre o Bembé

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A Beija-Flor de Nilópolis aposta em uma história que atravessa fé, ancestralidade e resistência para o Carnaval 2026. O enredo sobre o Bembé do Mercado — o maior candomblé de rua do mundo, celebrado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia — ganhou corpo após duas visitas dos enredistas Bruno Laureato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira à cidade: a primeira, em abril, dedicada à pesquisa, e a segunda, em maio, durante as celebrações do 13 de Maio.

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Em entrevista ao CARNAVALESCO, os enredistas falaram sobre as impressões das viagens à Bahia, os elementos fundamentais levados para a sinopse, a parceria criativa com o carnavalesco João Vitor Araújo, a recepção do enredo pela comunidade de Santo Amaro e a forma como a narrativa se desdobra nas fantasias e alas do desfile.

A força da rua e do mercado

Guilherme conta que a experiência mais marcante foi testemunhar o povo preto de Santo Amaro ocupando o Mercado Municipal. “Do hasteamento da bandeira do 13 de Maio até a entrega dos presentes, o que mais me impressionou foi ver o quanto, para o povo santo-amarense, é importante levar o candomblé para a rua”, disse.

Vivian recorda a sensação de pertencimento imediato: “Santo Amaro é uma cidade mágica. Assim que pisamos no mercado, sentimos como se estivéssemos em casa. Era como se aquele chão também nos pertencesse”. Ela também destacou a recepção calorosa: na volta da equipe, após o anúncio oficial do enredo, moradores abordaram os pesquisadores para celebrar a escolha.

Para Bruno, a viagem foi um presente não apenas para eles, mas para toda a comunidade nilopolitana. “O Bembé é uma celebração religiosa, política e de cultura popular brasileira. E o que me bateu lá foi: como pode uma festa que acontece há 136 anos e o Brasil não conhecer?”, questionou.

O que não poderia faltar na sinopse

O processo de construção da sinopse foi diretamente alimentado pelas imagens e experiências vividas no Recôncavo Baiano. Bruno defendeu a centralidade da figura de João de Obá, responsável por fincar a primeira bandeira do 13 de Maio no mercado, em 1889. “Imagina se hoje a gente fizesse um candomblé na Central do Brasil? Sofreríamos preconceito religioso. Agora, imagina isso no ano 1, logo após a abolição?”, refletiu.

Vivian destacou o mercado como espaço indispensável: “É um lugar muito sensorial: é cheiro, é gosto, é barulho. Queríamos dar, na sinopse, a sensação do caos do mercado, que funciona, ao mesmo tempo, como terreiro”.

Guilherme trouxe três imagens que considera fundamentais: a comeeira, a estátua de João de Obá e os balaios de Oxum e Iemanjá. “Essas três referências ficaram comigo o tempo todo”, contou.

Uma construção em parceria

Os enredistas também ressaltaram a parceria com o carnavalesco João Vitor Araújo. “O João é uma das pessoas mais generosas que já conheci. Ele é quem desenha e pensa o Carnaval, mas a gente constrói junto com ele. Toda a construção é horizontal”, afirmou Guilherme.

Vivian reforçou a cumplicidade: “A ideia do Bembé chegou para a gente de formas diferentes. Quando nos reunimos, todos citaram o Bembé. Para mim, o primeiro contato foi por meio de uma entrevista de Pai Pote, liderança do Bembé, ao programa ‘Avisa Lá’, de Paulo Vieira”.

Bruno completou: “Trabalhar com João é ter a oportunidade de pensar como essa história pode ser contada. Ele é um cara generoso, que divide o palanque. Nosso trabalho é baseado na troca mútua”.

Do enredo às fantasias

O grupo explicou que a narrativa do enredo se traduz com clareza no desenvolvimento plástico. “É um enredo com começo, meio e fim. As fantasias também têm começo, meio e fim, e não há dificuldade em justificá-las”, afirmou Bruno.

Guilherme acrescentou que o desenvolvimento das alas coreografadas e da comissão de frente tem sido feito em diálogo com os pesquisadores envolvidos. A expectativa é que o desfile traduza, em imagens e movimentos, a potência do encontro ancestral celebrado há mais de um século no Recôncavo Baiano.

‘A gente sai de casa buscando o título, aquele décimo que faltou’, diz Thiago Monteiro sobre a Grande Rio no Carnaval 2026

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Mesmo com a troca de carnavalesco, a Grande Rio inicia a temporada rumo ao Carnaval 2026 com a sensação de continuidade. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o diretor de Carnaval Thiago Monteiro afirmou que a chegada de Antônio Gonzaga representa a manutenção da linha estética e narrativa que sustenta a trajetória recente e vitoriosa da escola de Duque de Caxias.

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Segundo Thiago, a escolha não teve como objetivo alterar a identidade visual da agremiação, mas preservar um caminho consolidado desde 2020, ano do primeiro título da escola. Gonzaga, inclusive, já havia participado de projetos importantes do pavilhão caxiense antes de assumir o cargo.

“A escola tem uma direção que sabe o caminho que quer continuar trilhando. Cada artista tem sua peculiaridade, mas existem linhas estéticas que se reconhecem. A ideia era manter esse discurso, e isso estamos conseguindo. Vocês vão ver uma Grande Rio muito semelhante ao que estão acostumados, claro com o toque particular de cada artista”, explicou.

Thiago também destacou que o trabalho de Gonzaga não chega como surpresa, mas como confirmação de um potencial já conhecido.

“O trabalho do Antônio é maravilhoso. Ele já tinha contribuído muito no enredo ‘Exu’, depois foi titular no Arranco e na Portela. Estamos muito satisfeitos e isso vai aparecer na avenida”, garantiu.

Com Grande Rio e Vila Isabel desfilando na mesma noite, surgiram comparações entre Gonzaga e os ex-carnavalescos da escola, Gabriel Haddad e Leonardo Bora. O diretor, porém, rejeitou esse tipo de leitura.

“São propostas artísticas diferentes. Não faz sentido comparar. Estamos disputando com outras dez escolas, não com trajetórias específicas”, afirmou.

Apesar da manutenção da equipe que venceu em 2022 e brigou pelo título em 2025, Thiago adota um discurso equilibrado entre ambição e cautela.

“A gente sai de casa buscando o título, aquele décimo que faltou. A escola está focada, organizada, mas o carnaval também depende do dia, do astral, da resposta da avenida”, ponderou.

Para ele, o maior diferencial da Grande Rio segue sendo a coesão interna e a valorização coletiva.

“A nossa força é a equipe. Aqui todo mundo é importante, do porteiro da quadra ao presidente de honra. Não temos medalhões. No nosso ônibus, todo mundo tem janela”, concluiu.

Tigresa que mata um leão por dia! Mulherada da Porto da Pedra enaltece enredo de 2026

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O CARNAVALESCO conversou com componentes da Porto da Pedra sobre o que elas, enquanto mulheres, pensam a respeito do enredo de 2026. Parte final de uma trilogia criada pelo carnavalesco Mauro Quintaes ainda na década de 1990, o desfile se debruça sobre a temática das profissionais do sexo. A professora e assistente social Sérgia Valéria, de 60 anos, há três anos na Porto da Pedra, aprovou a coragem da escola.

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Sérgia Valéria

“O enredo é maravilhoso porque enaltece e faz com que a gente pense sobre essa puta mulher, essa tigresa que mata um leão por dia. Ela sai para trabalhar e enfrenta tudo. É mãe de família, tem filhos. É irmã, tia. Eu falo com orgulho que sou uma puta de uma mulher. Trabalho, criei dois filhos sozinha”, afirmou.

A orientadora social Aldaíza Silva, de 29 anos, criticou o tabu que envolve a questão.

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Aldaíza Silva

“A Porto da Pedra fala de uma profissão que muitas exercem, que leva sustento para a família e faz parte da sociedade, por mais que ela seja preconceituosa”, declarou.

Para Nathália Guimarães, assistente social de 37 anos, em seu sexto desfile pela vermelho e branco de São Gonçalo, o tema possui múltiplas camadas.

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Nathália Guimarães

“Eu, como mulher, achei o tema incrível não só pela mensagem de empoderamento histórico, da mulher dona do seu corpo, que o utiliza, desde muito tempo até hoje, para ganho financeiro, como também pela personalidade guerreira. É prazeroso demais representar a minha escola, o meu São Gonçalo, o meu município, com esse tema”, comentou.

Pâmela Fernandes, de 28 anos, dançarina e bailarina, que vai para o seu quinto ano na agremiação, destacou o julgamento social sofrido pelas prostitutas.

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Pâmela Fernandes

“É muito importante levantar essa questão para tirar todo esse preconceito que as pessoas têm. É uma profissão que a sociedade precisa respeitar e parar de julgar”, pontuou.

A sexagenária Sérgia Valéria argumentou ainda que a origem dessa profissão está relacionada à demanda masculina.

“A mulher só é o que é porque o homem, a sociedade machista, a colocou nessa posição. Só que hoje ela está muito mais consciente, sabe dos seus direitos”, afirmou.

Apesar da maior organização dessas trabalhadoras na luta por dignidade, apontada por Sérgia, o caminho por direitos ainda é longo, como explicou Nathália.

“Essa profissão ainda não é formalmente reconhecida. Assim como eu tenho uma profissão, você tem outra e tantas outras pessoas também têm. O problema começa aí. A gente precisa, sim, bater na tecla de que isso é uma profissão por meio da qual muitas mulheres, inclusive casadas, mantêm sua vida financeira, sustentam seus filhos e realizam suas próprias vontades”, destacou.

A ausência de registro em carteira, contudo, não foi o único entrave mencionado pelas entrevistadas.

“A maior dificuldade é a forma como as pessoas olham. Julgam sem saber o que elas passaram, sem conhecer a história e a realidade de cada uma”, refletiu Pâmela.

Sérgia concordou: “É enfrentar obstáculos em uma sociedade que não valoriza e usa o corpo da mulher apenas como objeto”.

Com o objetivo de provocar reflexão sobre o estigma e a falta de garantias sociais enfrentadas pelas prostitutas, a Porto da Pedra, sob a assinatura de Mauro Quintaes, canta e brinca essas putas mulheres.

“A escola quebra essa corrente e mostra para todo mundo, em forma de samba, que ser profissional do sexo é, sim, uma profissão. Viemos mostrar a força do nosso enredo e a força do tigre de São Gonçalo”, finalizou Aldaíza.