Um ensaio técnico excelente da bateria Pura Cadência da Unidos da Tijuca, regida por mestre Casagrande. Uma conjunção sonora de raro valor foi exibida. Antes mesmo do início do samba do ano, mestre Casão pediu a palavra ao microfone para ajustar o volume altíssimo das caixas de som do recuo, que poderia, inclusive, tirar a referência sonora dos ritmistas e provocar desencontros. Uma atitude consciente e acertada de um mestre de bateria experiente, que garantiu uma subida segura e um primeiro recuo com ritmo enxuto.
Na cabeça da bateria Pura Cadência, um naipe de cuícas sólido marcou o samba com eficiência. Um naipe de chocalhos, com boa ressonância, exibiu-se de forma eficaz. Uma ala de tamborins de grande virtude coletiva mesclou, com precisão, os toques de “2 por 1” com o “3 por 1”, proporcionando, inclusive, um bom encaixe musical com o destacado naipe de caixas tijucano. Tamborins e chocalhos da Tijuca realizaram um trabalho conjunto de alto valor sonoro, entrelaçando-se musicalmente enquanto executavam desenhos rítmicos simples, porém bastante funcionais e com excelente execução coletiva.
Na cozinha da bateria tijucana, uma afinação de surdos absurdamente acima da média permitiu que os marcadores de primeira e segunda realizassem seu trabalho com classe e segurança. Os surdos de terceira imprimiram um balanço envolvente e único aos graves, inclusive nas bossas. Uma boa ala de repiques tocou em conjunto com um naipe de caixas de altíssimo nível técnico, demonstrando uma sonoridade coletiva bastante diferenciada. A consistência do toque das caixas da Tijuca serviu como base de sustentação para as demais peças, graças a uma disciplina musical nitidamente refinada.
Bossas seguindo as variações melódicas do samba tijucano também utilizaram, com perspicácia, dois artifícios musicais: a pressão sonora dos surdos e a diferença entre os timbres das afinações. Destaque para o belo arranjo da cabeça do samba, que ainda conta com uma subida de tamborins pontuada de modo eficiente. Impressiona a pressão que os surdos tijucanos imprimem nos arranjos apresentados e como o belo encaixe entre ritmo e a obra da escola do Borel ficou evidente, com uma criação musical bem pensada e executada com maestria.
Uma apresentação exemplar da bateria Pura Cadência da Unidos da Tijuca, sob o comando de mestre Casagrande. Um ritmo de exímia qualidade foi exibido, aliado a bossas de grande pressão sonora. A educação musical dos ritmistas tijucanos também merece destaque, inclusive nas retomadas das bossas. Um excelente treino em campo de jogo, mostrando uma bateria da Tijuca já pronta para brigar pela nota máxima após esse grande ensaio.
Uma grande apresentação da ala de bateria da Estação Primeira de Mangueira, sob o comando dos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão. Um refinamento técnico apurado de todos os naipes se uniu a uma criação musical de bossas de alto impacto. Simplesmente brilhante a conjunção sonora de todos os instrumentos, aliada a uma equalização de timbres privilegiada, que permitiu perfeita fluência entre as peças.
Na parte da frente do ritmo mangueirense, uma ala de tamborins de qualidade técnica coletiva privilegiada executou, com maestria, um desenho rítmico complexo e de difícil execução. Um naipe de agogôs de duas campanas (bocas), eficiente e bem sincopado, deu um molho caprichado às peças leves. Uma ala de ganzás ressonante tocou com solidez. Logo à frente, vieram duas filas de xequerês, auxiliando o preenchimento musical da cabeça da bateria da Verde e Rosa. Uma ala de cuícas, com boa ressonância, também deu sua contribuição ao belo trabalho envolvendo as peças leves.
Na cozinha da bateria da Manga, percebeu-se uma potente afinação de surdos. Os marcadores de primeira tocaram com firmeza e segurança, enquanto os responsáveis pelo surdo-mor ficaram encarregados do balanço único mangueirense, com um luxuoso toque de seus ritmistas. Uma ala de repiques acima da média se uniu a um naipe de caixas de coletividade musical requintada. Impressiona a musicalidade destacada das caixas com o tradicional toque rufado da Estação Primeira, servindo como base sólida e preenchendo os médios com virtude sonora.
Na primeira fila da parte de trás do ritmo, um naipe de “timbaques” e timbales mangueirenses trouxe um swing especial, além de participação marcante nas bossas. Nas laterais da bateria, uma autêntica ala de marabaixos avançava para o corredor para executar uma bossa. Inclusive, vieram ritmistas amapaenses diretamente do estado do homenageado, mestre Sacaca, para dar um molho bem peculiar à sonoridade mangueirense, vinculando culturalmente o tema à música da Manga.
Bossas de musicalidade atraente foram apresentadas com precisão quase cirúrgica, todas seguindo fielmente o que o samba da Mangueira pedia, tanto em letra quanto em melodia. A encantadora bossa dos marabaixos é executada exatamente no trecho solicitado pela letra, evidenciando a integração impecável entre ritmo e música. Ela começa ainda no refrão do meio, com solo de “timbaques” e timbales, junto aos agogôs. Logo depois, entra um desenho pontual dos marabaixos, muito bem construído e fortemente atrelado à obra da escola. As demais bossas contaram com a técnica rítmica diferenciada de diversos naipes, além da pressão sonora causada pela pesada primeira marcação da Mangueira. Um conjunto de bossas de inegável impacto musical.
Um grande ensaio da bateria Tem que Respeitar Meu Tamborim da Estação Primeira de Mangueira, dirigida pelos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão. Uma sonoridade de elevada qualidade técnica foi exibida em todas as peças, com musicalidade diferenciada nas paradinhas e forte integração com o samba mangueirense. O respeito ao solo de cada instrumento permitiu que cada peça tivesse seu momento específico para brilhar, demonstrando grande educação musical, tanto individual quanto coletiva. Um grande ensaio da bateria da Verde e Rosa, que retorna com seus instrumentos ao Palácio do Samba com esperança de um desfile exemplar, após esse tremendo sacode!
Um ensaio técnico muito bom da bateria Não Existe Mais Quente (NEMQ), da Mocidade Independente de Padre Miguel, sob o comando do mestre Dudu. Um encaixe musical pleno entre bossas e samba foi obtido, propiciado por uma criação musical absolutamente acima da média. Uma bateria com seu típico andamento cadenciado, aliada a uma boa equalização de timbres, permitindo fluidez entre os mais diversos naipes.
Na cabeça da bateria da Estrela-Guia, uma ala de chocalhos — usando peruca vermelha de Rita Lee — tocou de modo exuberante, exibindo-se com classe, sem deixar de executar a popular subida cascavel nas retomadas das bossas. Um naipe de cuícas eficiente tocou junto a uma ala de agogôs sólida e funcional (vestindo arco de ovelha negra). Um naipe de tamborins de alta técnica musical desenhou ritmicamente, pontuando as nuances do melodioso samba independente e evidenciando uma coletividade rítmica acima da média.
Na parte de trás do ritmo independente, a peculiar afinação invertida dos surdos da Mocidade esteve exuberante. Tudo isso com marcadores de primeira e segunda realizando um ensaio seguro e firme. Os surdos de terceira, com seu balanço bastante envolvente, estiveram em nível exemplar, tanto no ritmo quanto nas bossas. Repiques de altíssima técnica musical tocaram junto a um naipe de caixas privilegiado, com sua batida tradicional característica, acentuando a “mão fraca”. Uma cozinha da bateria NEMQ em nível musicalmente muito bom.
Bossas altamente musicais e, até certo ponto, progressivas foram exibidas com garbo pela Não Existe Mais Quente. Todas se basearam nas variações da melodia do samba da verde e branca da Zona Oeste. Destaque para o belíssimo arranjo do estribilho, uma verdadeira aula de conceito criativo e execução precisa. Impressiona a adequação musical das paradinhas da bateria entre ritmo e samba. A musicalidade requintada da bossa do refrão do meio merece ser exaltada, assim como o encaixe perfeito na bossa da segunda parte do samba, com luxuoso auxílio das caixas. Tudo amplamente conectado à fluida obra independente. Absolutamente toda a criação conceitual do conjunto de paradinhas envolve conversas rítmicas bem apropriadas e altamente conectadas ao samba-enredo da agremiação.
Uma apresentação muito boa da bateria NEMQ da Mocidade Independente de Padre Miguel, dirigida pelo mestre Dudu. Um ritmo com conjunto de bossas bem atrelado ao que pedia a canção da Estrela-Guia. Com naipes de indiscutível nível técnico, as execuções desse amplo leque de paradinhas foram impecáveis. Pode-se dizer, inclusive, que o componente da escola foi impulsionado pelos arranjos dançantes e impactantes exibidos com qualidade nesse grande ensaio da bateria da Mocidade.
Um ensaio próximo do correto da bateria Cadência de Niterói, na estreia do mestre Branco Ribeiro pela Acadêmicos de Niterói. A bem da verdade, a sonorização recente da Avenida esteve aquém do espetáculo, infelizmente. Logo na introdução para a subida do samba, ainda no primeiro recuo, o volume elevado das caixas causou um desencontro que poderia ter feito a bateria simplesmente subir torta. Nesse momento, mestre Branco Ribeiro foi enérgico, vindo pelo corredor no meio do ritmo e subindo a bateria Cadência de Niterói literalmente “no braço”. A atitude foi digna de aplausos, já que evitou um desastre ainda maior, diante de um processo de sonorização ainda embrionário e que necessita de certa ambientação.
Na parte da frente do ritmo da Cadência de Niterói, uma ala de cuícas tocou com bastante segurança, marcando o samba para as demais peças leves. Um naipe de chocalhos, com bom trabalho coletivo, se uniu a uma ala de tamborins de qualidade técnica, e ambos pontuaram as nuances rítmicas do ideológico samba da escola de Niterói com eficácia.
Na cozinha da bateria da Niterói, uma boa afinação dos surdos serviu de base para que os marcadores de primeira e segunda ensaiassem de modo correto. Os surdos de terceira foram o ponto alto da parte de trás do ritmo, com um trabalho sólido tanto no ritmo quanto nas bossas, nas quais foram bastante exigidos. Um naipe de caixas com bom volume tocou junto a repiques coesos, preenchendo a sonoridade dos médios com eficiência.
Bossas baseadas nas variações melódicas do samba foram exibidas. O ponto alto da musicalidade ficou por conta do belo arranjo da primeira parte do samba, encorpado e bem costurado à obra da agremiação. Uma bossa que começa com os ritmistas se abaixando e levantando após uma rápida subida com tapas progressivos, para depois aproveitar as diferentes timbragens dos surdos, além de contar com pressão sonora e uma caprichada conversa rítmica. Destaque também para a paradinha do pré-refrão antes do estribilho, com um eficaz trabalho envolvendo o naipe de caixas no arranjo. Ainda assim, é necessário cuidado e atenção nas retomadas, evitando eventuais desencontros rítmicos ao longo do cortejo.
Um ensaio da Cadência de Niterói que deixa margem para eventuais melhorias, visando o desfile oficial. Um ritmo bem vinculado ao samba-enredo da escola, aproveitando as variações da melodia para imprimir sua sonoridade. Com trabalho destacado dos surdos de terceira, inclusive nas paradinhas, as bossas integradas ao samba foram sendo apresentadas com firmeza cada vez maior ao longo do cortejo. Alguns desencontros nas retomadas das paradinhas foram percebidos, mas rapidamente ajustados por diretores atentos e bastante participativos. Um ensaio de estreia produtivo de mestre Branco Ribeiro pela Acadêmicos de Niterói.
Por Guibsom Romão, Matheus Morais, Luiz Gustavo e Marcos Marinho
Com uma comissão de frente primorosa, um casal de mestre-sala e porta-bandeira de excelência e um canto estonteante, a Mangueira deixou a Sapucaí encantada com a magia da Estação Primeira do Amapá. A Verde e Rosa, a terceira escola a ensaiar na primeira noite de ensaios técnicos do Grupo Especial, fecha o domingo de carnaval, 17 de fevereiro, com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidney França.
O enredo homenageia Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, que foi um curandeiro conhecido como um “doutor da mata”, pois transformou o saber empírico sobre ervas e raízes em uma ponte entre a ancestralidade e a ciência. Além da homenagem ao Mestre, o enredo enaltece as tradições afro-indígenas do Norte do Brasil, em específico o Amapá, a Amazônia Negra, onde o Mestre Sacaca viveu e fincou sua raiz.
O Amapá esteve evidente em todo o cortejo verde e rosa na Sapucaí, mas sobressaiu na bateria, na qual 15 caixeiros(as) de marabaixo, vindos diretamente do Amapá, inclusive, uma neta do mestre Sacaca, executaram uma bossa com o instrumento do estado nortista em evidência.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob a coordenação dos coreógrafos Karina Dias e Lucas Maciel, os 15 componentes, dos quais 14 estavam vestidos de rosa da cabeça aos pés e um pivô representava um preto-velho, transmitiram, por meio de seus figurinos, a natureza mística, orgânica e encantada do enredo. A coreografia se baseou inteiramente no chão, como uma raiz que brota do solo e se fortifica: das folhas que cresceram, fez-se um chá medicinal para beber; das flores que desabrocharam, saiu um aroma encantado, que enfeitiçou a Sapucaí de ponta a ponta, das arquibancadas às frisas.
Foi uma dança executada com muita precisão diante das três cabines de jurados; tudo deu certo. A coreografia apresentava um alto nível de sofisticação e execução. Alguns elementos cênicos, como dois tecidos que se uniam por velcro e formavam um solo com raízes neon, e que precisavam ser desgrudados no momento exato, foram manipulados com maestria nas três apresentações, assim como uma bandeira que unia as bandeiras do estado do Amapá e da Mangueira e era entregue ao preto-velho, sendo repassada corretamente para que todos pudessem vê-la do lado certo.
Ainda sobre o momento do tecido de raízes, no qual as luzes da avenida se apagavam e uma luz neon era acesa, deixando em evidência as raízes desenhadas no tecido, alguns componentes brotavam em seu meio, levantando o público presente, assim como no momento da entrega da bandeira.
Em suma, mais uma noite de gala para o casal de coreógrafos da Verde e Rosa e seus componentes. O conjunto coreográfico, aliado aos figurinos e aos elementos cênicos, construiu uma apresentação coesa e visualmente impactante, que traduziu com clareza o misticismo e a força orgânica do enredo. A precisão na execução, o sincronismo entre luz, movimento e cenário, além das interações que despertaram reação imediata do público, evidenciaram o alto nível técnico e artístico do grupo. Com isso, a performance se consolidou como um momento marcante do ensaio, unindo estética, narrativa e emoção em uma exibição segura e encantadora.
“A execução é sempre um desafio. Quando a gente vem para cá, é um desafio enorme, mas eles conseguiram executar tudo o que a gente vem treinando, com o fôlego e a dinâmica da coreografia. Claro que não será a mesma coreografia do desfile, mas as dinâmicas são parecidas, justamente para treinar esse fôlego e essa resistência. A cabine espelhada acho que será uma grande surpresa, tanto na forma como cada escola vai trabalhar sua apresentação quanto na maneira como cada jurado irá avaliar. Na semana que vem, como estaremos muito perto do desfile oficial, não mudaremos muito. Claro que a gente sempre pensa em alguma coisa para ser diferente, mas deve ser praticamente a mesma ideia, com a mesma energia”, comentou Karina Dias.
“O ensaio técnico serve para trabalharmos tudo o que foi ensaiado, mas a gente não pode deixar de trazer uma surpresa que as pessoas esperam. O ensaio técnico virou um novo show, então pensamos em preparar algumas coisas especiais para a galera curtir. Pegamos os detalhes do minidesfile, um pouco do que vamos trazer para o oficial, juntamos e fizemos o espetáculo de hoje. A gente já tinha a característica de trabalhar uma coreografia de forma que todo o público pudesse participar desse trabalho com a gente. Óbvio que agora há momentos que precisarão de reverência para o jurado, mas nosso trabalho já abrangia todos os lados. Foi um acerto colocar a cabine espelhada para poder contemplar, de fato, os dois lados”, citou Lucas Maciel.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Vestidos de dourado, o casal-furacão da Visconde de Niterói, Matheus Olivério e Cintya Santos, entrou com o vigor de sempre para se apresentar nas cabines de julgadores. Está evidente o quanto o casal exala felicidade, sintonia e companheirismo; isso se reflete na notável e exemplar sintonia que demonstram a cada apresentação juntos. O encantamento mútuo entre eles, em alguns momentos, assemelha-se à atração de ímãs, pois suas mãos se juntam suavemente, mas com muita precisão e magnetismo.
Com uma coreografia vigorosa, porém muito delicada, o casal foi aclamado pelas arquibancadas e frisas do começo ao fim. Matheus, que apresentou uma dança madura, leve e sagaz, deslizou pela avenida com maestria; seu desempenho foi irretocável. Cintya, que poderia dançar com os olhos vendados, transmite a sensação de segurança no que faz e muito controle de todo o seu corpo.
A clássica bandeirada da porta-bandeira, ao se despedir dos jurados no fim da apresentação, foi arrepiante. Se há um símbolo deste ensaio que ilustra o primeiro verso do samba, “Finquei minha raiz”, é essa bandeirada.
“É importante enfatizar que são quatro coreografias, e a gente está trabalhando desde junho, com coreógrafa nova e empenho máximo. Ainda mais porque o ano passado foi um trabalho de muita luta, mas também de vitória, já que a nossa entrega de dança foi maravilhosa. A despontuação foi em cima da fantasia. Está sendo muito gratificante confirmar a parceria e afirmar, no cenário, o casal Furacão, empenhando, colocando a grife e a nomenclatura de um casal da Estação Primeira de Mangueira, com características próprias, que defende sua identidade até o final e defende o seu trabalho em qualquer lugar. Ainda mais defendendo o pavilhão da Estação Primeira de Mangueira na avenida, em busca da nota máxima, que é o mais importante para a gente, para a nossa comunidade e para essa gestão inteligente da Guanayra, que dá todo o suporte possível. Estou muito feliz com tudo o que a gente entregou hoje e vou te falar, de coração: acho que nunca falei isso, mas a gente brincou”, disse o mestre-sala.
“Brincamos hoje pela primeira vez em quatro anos. É o meu quarto ano na Estação Primeira de Mangueira, e fiquei feliz por me sentir em casa e poder dizer que hoje eu me diverti. Hoje o casal Furacão foi furacão. Vocês viram que ainda temos pontos para acertar; sempre há algo para melhorar, a gente sempre busca a perfeição, apesar de ela não existir. Então, sempre tem um detalhe, alguma coisa para acrescentar ou tirar. Sim, há observações a fazer, e na sexta-feira que vem vocês vão ver ainda melhor”, completou a porta-bandeira.
HARMONIA E SAMBA
O departamento musical da Mangueira, com Dowglas Diniz no comando do microfone principal, merece todos os louros. O canto da comunidade foi impecável, entoado com entusiasmo, nuances e muita garra. Para quem duvidava do desempenho do samba na avenida, a comunidade deu a resposta. O canto foi exemplar; a comunidade deu o tom do samba neste ensaio.
O carro de som estava, como sempre, em estado de graça. Dowglas fez uma apresentação de altíssimo nível em sua primeira vez sozinho no microfone principal da Mangueira na Sapucaí; a Mangueira do Amanhã produziu um fruto que veio para ficar.
O trecho “Iyá, Benedita de Oliveira” é ovacionado e continua fazendo uma boa abertura para o refrão principal, trazendo o público junto, assim como já era notado nos ensaios de rua.
No entanto, é preciso atenção ao canto da escola como um todo, pois no paradão há uma quebra de expectativa quanto ao volume do canto.
“Analisando a nossa passagem, o carro de som, juntamente com a bateria, conseguiu colocar em prática tudo aquilo que a gente vem ensaiando. Estou muito feliz com o resultado de hoje e acredito que, na sexta-feira, a gente tem que manter esse padrão para chegar ao dia do desfile como passamos aqui, cantando o samba e envolvendo todos que estavam na Marquês de Sapucaí. No som, está rolando um delayzinho no retorno, mas já estamos conversando com a equipe. Tenho certeza de que, até o dia do desfile, a gente conseguirá acertar isso e vai dar tudo certo. Mas, comparando ao som de antes, o som de hoje é, sem palavras, excelente”, assegurou o intérprete Dowglas Diniz.
EVOLUÇÃO
A Mangueira deu uma aula de evolução, pois nem estagnou nem correu. Sua experiência foi posta à mesa, e a escola soube administrar o tempo e a avenida. Com alas espaçadas, fluidas e com muitos componentes dançando, a Verde e Rosa transformou o percurso em um verdadeiro desfile técnico, demonstrando maturidade e consciência coletiva. Foi um ensaio com muitas nuances. Não houve buracos nem atropelos: cada setor parecia compreender exatamente o seu papel dentro do conjunto, permitindo que o espetáculo se mantivesse vivo do início ao fim. A cadência constante favoreceu o canto forte da comunidade. Foi uma evolução segura, mas sem acomodação, um equilíbrio que evidencia entrosamento e preparo, mostrando que a escola não apenas ensaia, mas constrói, passo a passo, uma performance pensada para brilhar na avenida.
“Já estamos batendo papo aqui. Foi um ensaio bom, com bom canto e boa evolução; é o que a gente vem aprendendo na Visconde. Aqui a gente sente alguma diferença: já fizemos um tempo maior de avenida, mas não tem carro alegórico. Então, aquela inércia do carro, para sair aqui, é o empurrador que empurra a placa, e a gente estava dosando isso. Fizemos o tempo bem encostado na mão, para brincar mesmo, vamos usar o tempo inteiro e já estamos conversando sobre isso. Há correções a fazer. Na segunda-feira, vamos ter uma reunião no barracão, um bate-papo com a liderança. Tenho certeza de que a gente já está chegando ao topo da montanha para o próximo ensaio e, depois, para o grande desfile do carnaval”, explidou Dudu Azevedo, diretor de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
A ala das crianças é o resumo de tudo o que há de mais belo no cortejo da escola; elas performam nas bossas e imitam passos das rainhas e musas.
A rainha de bateria Evelyn Bastos é sempre um destaque quando a Mangueira está na avenida. Vestida de indígena, com penas verde e rosa e pintura corporal, Evelyn sambou como sempre e encantou o público, que a ovacionou.
“Estou extremamente feliz com o que foi apresentado hoje. A galera absorveu muito bem tudo o que ensaiamos, o nervosismo natural do primeiro ensaio foi controlado e o resultado até superou a nossa expectativa. O som atendeu bem na nossa passagem, deu base para a bateria executar tudo como foi pensado. Com ajustes normais para o próximo ensaio, a tendência é vir ainda melhor, se continuar assim, vamos buscar os 40 pontos”, garantiu mstre Rodrigo Explosão.
“A avaliação é super positiva. Já no primeiro box deu para sentir a energia: a escola evoluiu bastante e, principalmente, cantou. A bateria foi perfeita hoje; claro que sempre há detalhes para lapidar, como andamento e alguma bossa, mas tudo funcionou. Tivemos pequenos ajustes de retorno no início e um leve delay na avenida, nada que atrapalhasse. No geral, foi um ensaio muito positivo da Mangueira”, afirmou mestre Taranta Neto.
Em busca dos sonhados 40 pontos, o Casal Furacão encara a reta final para o próximo Carnaval com trabalho intenso. Em conversa com o site CARNAVALESCO, Matheus e Cintya falam sobre a preparação para o desfile e as adaptações para a apresentação diante da cabine dupla de jurados.
Foto: Divulgação/Mangueira
Com a coreografia pronta para o grande dia, o casal garante que está intensificando os ensaios. “Está lindo. Pode ter certeza de que vai ser uma apresentação bonita. E, na cabine espelhada, será uma apresentação diferente também. Eu falo sempre que saímos da zona de conforto, mas estamos prontos”, comentou Cintya.
Refletindo sobre a mudança no julgamento, agora com cabine dupla de jurados, a porta-bandeira vê a novidade como uma forma de revolucionar a dança dos casais de mestre-sala e porta-bandeira. “Eu saí da zona de conforto. Hoje a gente vai poder dançar para ambos os lados, revolucionar a dança. E, para a gente, pode ter certeza de que vai ser lindo. Vai ser uma apresentação bem bonita”, afirmou.
Defendendo juntos o pavilhão da Verde e Rosa desde 2023, o casal exalta a parceria e a emoção, e rasga elogios um ao outro. “Sobre o Matheus, tenho que destacar a parceria. Ele é um mestre-sala parceiro em todos os momentos, não só na dança, mas fora dela também. Não é só meu mestre-sala, hoje ele é meu irmão”, disse Cintya.
“Emoção e alegria. Ela traz emoção para a dança e para a parceria, e traz alegria também. Ela nasceu para isso. É muito maneiro olhar para a pessoa e admirar tanto talento, perceber que ela nasceu para isso. Vem de berço, vem de família. Então a gente cria uma referência, e ter essa referência do lado dançando é muito gratificante, só engrandece ainda mais a nossa dança”, compartilhou Matheus.
Conhecidos pela força no bailado, pelos giros precisos e pela icônica bandeirada de Cintya ao final da apresentação, o casal garante que fará jus ao apelido “Furacão” por mais um ano. “É uma união de respeito e parceria que está dando certo, e a gente promete continuar assim”, declarou Cintya.
As pessoas se apertam nas ruas estreitas do Boulevard 28 de Setembro para ver a Vila Isabel tomar a rua pela primeira vez em 2026. O primeiro casal, Raphael e Dandara, se posiciona alguns minutos antes do esquenta e, logo, crianças e torcedores se aproximam para desejar boa sorte e dar um abraço na dupla. Assim é a recepção do casal em mais um ensaio para o Carnaval que marca o retorno de ambos à Vila Isabel, abraçados pela comunidade. Em conversa com o site CARNAVALESCO, Raphael e Dandara falaram sobre as expectativas para o desfile e as novidades no julgamento do Carnaval 2026.
Foto: Divulgação/Vila Isabel
“Essa volta está sendo bem especial para nós dois, que vivemos momentos diferentes na Vila Isabel e estamos retornando juntos, mais amadurecidos, como casal também amadurecido. E viver esse momento, viver Heitor, que é um enredo que é a cara da Vila Isabel, que é o jeito da Vila Isabel desfilar, cantar, pulsar o coração do vila-isabelense… As expectativas são enormes. É trabalhar bastante para a gente poder chegar ao campeonato”, declarou Raphael.
Com foco total nos 40 pontos, o casal reflete sobre o trabalho que vem realizando e destaca o acolhimento da comunidade. “Estamos à vontade, satisfeitos com a coreografia que estamos criando, com o avanço que temos tido nesses ensaios, com a conexão com a escola, com a comunidade, com esse reencontro, esse reabraço. O balanço é 100% positivo, mas sempre existe algo para melhorar, um detalhe aqui, outro ali, que vamos ajustando nessa reta final”, avaliou a porta-bandeira.
Além disso, eles creditam o bom desempenho ao cuidado de uma equipe multidisciplinar. “Ninguém faz nada sozinho. A gente tem a nossa equipe: a Cátia Cabral, nossa coreógrafa; o Rafael Japa, nosso preparador; o Arnaldo Gomes, nosso fisioterapeuta; a Aline Almeida, nossa apresentadora. É um trabalho coletivo, cada um contribuindo um pouco para o resultado. Estamos trabalhando cada vez mais para, se Deus quiser, chegar ao êxito, que são os 40 pontos”, acrescentou o mestre-sala.
Ao falar dos desejados 40 pontos, o casal avalia que a nova forma de julgamento, com cabine dupla de jurados, será um momento emblemático para os casais. “A gente acha que é um momento muito importante, vai ser emblemático. Estamos criando novos parâmetros e veremos como isso vai funcionar, de fato, na avenida. Tivemos encontros com a LIESA durante a preparação, que nos deixaram muito entusiasmados, porque acreditamos que haverá uma valorização maior da dança do casal e da conexão entre mestre-sala e porta-bandeira. Estamos nessa busca”, afirmou Dandara.
Ainda refletindo sobre a avaliação, o casal resume a receita para os sonhados 40 pontos. “Trabalho. Tem que ter foco na entrega”, disse Dandara. “Essa é a chave. É o único lugar em que o trabalho vem antes do sucesso. É só trabalho”, completou Raphael.
Com cinco anos de parceria, o casal exalta as qualidades um do outro. “A Dandara é minha pedra preciosa. Então, preciso cuidar, cultivar, para que ela esteja sempre brilhando. É isso que eu preciso fazer”, declarou o mestre-sala.
“O principal é essa parceria. O Raphael é um mestre-sala com uma carreira incrível, um olhar sensível, e conseguimos construir juntos essa parceria. A generosidade dele nesse processo é uma das coisas que mais admiro”, ressaltou a porta-bandeira.
Pensando no desfile, o casal adianta novidades sobre as fantasias com as quais defenderão o pavilhão azul e branco. “A fantasia foi um grande presente dos carnavalescos, e estamos muito felizes. Também estamos com o ateliê do Bruno Oliveira, que chega ao Rio de Janeiro neste ano. Acompanhávamos o trabalho dele há muito tempo. Não posso dizer que nossas expectativas são apenas altas, porque já estamos vendo o resultado, mas elas são enormes para o grande dia. Essa união torna tudo ainda mais especial: a fantasia, o enredo, a dança. Vivemos um momento muito especial que reúne tudo isso”, compartilhou Dandara.
No Carnaval 2025, o desejado gabarito no quesito Harmonia foi derrubado por uma única nota 9,7. Para este ano, a Mangueira se empenha em alçar voos mais altos. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o mestre Rodrigo Explosão falou sobre como a escola tem se debruçado sobre as novas exigências do quesito na preparação para o próximo Carnaval.
“Fomos a uma plenária na Liesa em que explicaram tudo, como seria esse formato. Nós gostamos muito, achamos interessante, até para a gente e para todo mundo começar a entender, de fato, o que está sendo pedido. Desde que esse novo formato, com os subquesitos, foi apresentado, reunimos a bateria e trabalhamos as questões de bossa, de desenhos e de andamento. Tudo baseado no que eles estão pedindo, para alcançarmos a nossa nota”, disse.
Para o mestre, as mudanças são benéficas tanto para as baterias quanto para os jurados: “Eu acho que vai ser a melhor maneira possível de julgar. Os próprios jurados vão prestar mais atenção em cada detalhe que está sendo pedido nos subquesitos. Hoje você não chega lá para perder nota; hoje você tem que ganhar a sua nota. Então a gente está chegando para ganhar e botar o julgamento debaixo do braço para buscar o quarenta”, afirmou.
Como uma das mudanças para o próximo Carnaval, agora Dowglas Diniz dá voz aos sambas da Estação Primeira sozinho. Segundo Rodrigo, a decisão da presidente Guanayra Firmino foi um grande acerto, e ele destaca a ligação do intérprete com o carro de som e a bateria.
“Ele é oriundo da bateria, foi ritmista durante uns quatro ou cinco anos. Ele não queria sair da bateria para virar intérprete; foi a gente que insistiu muito. Graças a Deus ele está lá. É um cara muito colado com a gente, tanto ele quanto o Vitor e o Digão. Sempre vamos aos ensaios, estamos sempre ouvindo, sempre em conversa. Somos ligados um ao outro. Conversamos, debatemos e decidimos sobre as bossas, quantos acordes vão colocar, o que acham dos cacos do Dowglas, se vai atrapalhar a bateria ou não. Nos preocupamos com os mínimos detalhes. Eu acho que isso enriquece muito a musicalidade da Mangueira e está dando resultado”, compartilhou.
Para a Tem Que Respeitar Meu Tamborim, a criatividade exigida no julgamento não é problema e faz a equipe sair da zona de conforto: “É uma coisa que já vinha sendo utilizada. Agora somos obrigados a fazer paradinhas criativas, até com mais complexidade, que não fiquem só no comum, e a gente está puxando para esse caminho. Eu gostei, porque vai nos tirar da zona de conforto. Vamos precisar trabalhar um pouco mais para atender a todos os critérios do julgamento”, declarou.
A composição do trio André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho é sucesso nas redes e um dos sambas mais ouvidos do Carnaval 2026. A canção embalará a Vila Isabel na avenida no próximo ano, no enredo em homenagem a Heitor dos Prazeres — multi-instrumentista, alfaiate, ogã e pintor que traduziu a negritude, o samba e o subúrbio em suas obras. O tema foi abraçado pela comunidade, tem gerado identificação e despertado expectativa entre os sambistas. O site CARNAVALESCO conversou com componentes e torcedores sobre como “Macumbembê, Samborembá” os toca.
O fotógrafo e destaque da escola, Breno Santos, aponta a saudação a Oxum — “Ora yê yê ô, Oxum” — presente no refrão, como seu trecho preferido do samba. Ele afirma que quem pratica religiões de matriz africana se identifica imediatamente com a canção:
“A melodia do samba é muito gostosa. É envolvente, fácil de cantar, fácil de gravar. Acho que por isso o samba vem sendo o preferido de muita gente — e o meu também — por conta da identificação. A melodia, as rimas e toda a identidade de resistência. Acho que combinou tudo”, disse.
Dudu Pretinha, auxiliar de serviços gerais e cria da comunidade, faz parte da Vila Isabel há 30 anos. Para ele, o samba representa um resgate da ancestralidade da escola:
“Este ano estamos voltando a afirmar nossa ancestralidade. Estamos voltando com tudo, mostrando para o nosso povo e para o Carnaval que a Vila Isabel vai brigar pelo título. Estamos fazendo um excelente trabalho, com ensaios maravilhosos. A comunidade abraçou o enredo e tudo o que a escola está proporcionando”, declarou.
Para o portelense Charles Nelson, professor e coreógrafo de dança afro, o apreço pelo samba ultrapassa as fronteiras das escolas. O artista não poupou elogios:
“É um samba magnífico, fico muito emocionado. Heitor foi tudo. Foi músico, pintor, cantor, fez muitas coisas na vida”, contou.
Com expectativas altas para o trabalho do intérprete Tinga e da Swingueira de Noel na avenida, Lúcio Fernando, passista da Vila Isabel e aderecista, acredita que o samba cresce ainda mais com o desempenho do cantor:
“Quando um samba vai para a voz do Tinga, ele ganha outro sentido, outra garra. A bateria, nem se fala. O Macaco está todo ano trazendo um trabalho incrível de paradinhas”, disse.
Ele completa, ao recordar as notas baixas em samba-enredo no julgamento do último Carnaval, apontando que a saudade também é um fator para o sucesso do samba deste ano:
“Já fazia tempo que a escola não falava de enredo afro, e voltar agora, em 2026, é uma vitória para todo mundo. Todos estavam esperando esse momento da Vila, porque é uma escola que fala de afro. Saudar Oxum e dizer ‘pra você, Heitor’ no refrão traz muito da ancestralidade da escola e relembra coisas que precisavam voltar a ser ditas. Foi um tempo em que a escola deixou de falar dos seus para falar dos outros”, afirmou.
O Tigre de São Gonçalo segue firme na luta pelo retorno ao Grupo Especial por mais um ano. Após o vice-campeonato em 2025, a escola ousa com o enredo “Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite”. Idealizado pelo carnavalesco Mauro Quintaes e escrito pelo enredista Diego Araújo, o desfile abordará a vida das trabalhadoras sexuais. Em visita do site CARNAVALESCO ao ateliê onde o desfile ganha vida, Mauro Quintaes contou que o enredo foi pensado originalmente como uma trilogia para os carnavais da década de 1990, mas acabou sendo reescrito e atualizado para os dias atuais.
“Eu tinha três enredos para serem desenvolvidos quando fiz parte da escola entre 1994 e 1998: um sobre os ladrões, outro sobre os loucos e outro sobre as prostitutas. Saí da escola por cinco anos, e esse enredo acabou ficando esquecido de alguma maneira. Mas foi ideia do presidente de honra, Fábio Montebello, fazer o enredo das prostitutas neste ano. Eu falei que as prostitutas de 1997 não são as de hoje. Hoje, o enredo precisa ter outro olhar, um olhar político diferenciado. Existem várias categorias que precisam ser contempladas: as mulheres, os homens, as pessoas trans”, compartilhou.
Durante a pesquisa do enredo, Mauro destacou uma história que atravessa prostituição, machismo e questões religiosas: a das Polacas, mulheres que foram contrabandeadas para o Brasil com o objetivo de serem exploradas sexualmente e que acabaram formando o primeiro coletivo de profissionais do sexo.
“Elas saíam da Polônia casadas com homens que já vinham com essa intenção. Eles iam às aldeias, casavam com duas, três, quatro mulheres em locais diferentes e as traziam para o Brasil, onde elas se prostituíam. Passaram a ser conhecidas como Polacas por virem da Polônia. Eram mulheres de pele clara, cabelos ruivos e olhos claros. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, onde a maioria das prostitutas era parda, preta e de classe baixa, tornavam-se muito requisitadas. O pior é que perdiam o direito de exercer sua religião, porque a comunidade judaica não aceitava mulheres judias que fossem prostitutas. Elas ficavam sem nada. Pela primeira vez, percebemos a existência de um coletivo de mulheres profissionais do sexo. Elas se reuniram e, de cota em cota, construíram a própria sinagoga e o próprio cemitério, já que não podiam ser enterradas nos mesmos espaços sagrados que os judeus que não se prostituíam. É uma história de dor e tristeza, mas que, no fundo, também carrega o sentido do prazer”, refletiu.
O carnavalesco aponta que o grande trunfo do enredo é o respeito, a leveza e a poesia com que o tema foi desenvolvido, o que garantiu a aceitação da comunidade.
“O texto que o Diego Araújo escreveu foi tão bem recebido que não tive nenhuma crítica negativa. Tivemos um cuidado enorme na forma de apresentar isso à comunidade. Como chegar para uma mãe baiana e dizer: ‘Você vai ser prostituta’? No desfile, as baianas virão como Madame Pompadour, da corte francesa. Ela era uma cortesã, então há suavidade no personagem, e elas amaram. Além disso, não teremos crianças no desfile. Tudo foi alinhavado com muito cuidado e respeito. O objetivo do enredo é esse: levar para a avenida — que hoje é um grande espaço de fala política — uma reflexão respeitosa, mostrando que é uma profissão que precisa ser vista como profissão. Os corpos não são vendidos, são usados. Se conseguirmos diminuir um pouco o estigma das profissionais do sexo, a escola já terá cumprido seu papel político”, afirmou.
Entenda o desfile
A Porto da Pedra defenderá o enredo “Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, abordando a trajetória das trabalhadoras sexuais. Pensado como uma sequência dos lendários “No Reino da Folia, Cada Louco com Sua Mania” (1997) e “Samba no Pé e Mãos ao Alto. Isto é um Assalto!” (1998), o desfile foi adaptado às condições e demandas políticas da atualidade, contemplando a diversidade.
A proposta é percorrer figuras da cultura popular, a representação do trabalho na noite em suas formas contemporâneas e, por fim, a luta política das profissionais do sexo. A história será contada por meio de 16 alas, três alegorias e cerca de mil componentes.
Segundo o carnavalesco, a beleza do desfile estará na poesia, na leveza e na alegria com que o tema será abordado, começando pelo samba-enredo. Mauro afirma que a escola pretende tocar o público mais com “recursos sentimentais do que pirotécnicos” e relata a forte reação da comunidade de profissionais do sexo ao samba.
“Antes da escolha do samba, participei de uma reunião com o Coletivo das Putas da Vida e, por acaso, estava com a letra do samba que eu acreditava que venceria. Entreguei para uma delas recitar. Enquanto recitava, algumas começaram a chorar. Ali percebi que o samba tinha uma mensagem que chegava a quem precisava chegar. As profissionais do sexo — mães, avós, filhas — que estão nessa luta, seja por prazer, aventura, necessidade ou obrigação, se emocionaram muito. Acho que estamos no caminho certo. ‘São tigresas que matam um leão por dia’”, declarou.
Quanto à plástica do desfile, Mauro adianta que apostará fortemente em cenários e esculturas — todas inéditas neste ano.
“Meu carnaval não é de frufru, nem de plaquinhas ou babados. É um carnaval de cenários. Um carro da Porto é um carro da Porto. Uma boate de Copacabana vai ser uma boate de Copacabana. Gosto desse tipo de carnaval: cenários alegres, vivos, bem feitos e bem acabados”, afirmou.
Setor 1
O desfile começa com a licença e as bênçãos das Pombagiras, na comissão de frente. Forças espirituais femininas e ancestrais, consideradas guardiãs das ruas e das mulheres, serão representadas em coreografia criada por Aline Kelly. O carro abre-alas mostrará a chegada das Polacas ao Brasil, simbolizando as mulheres contrabandeadas para a prostituição. A alegoria retratará o porto onde trabalhavam, com marinheiros que formavam a clientela, além de trazer a Velha Guarda da escola.
O primeiro setor também apresentará personagens populares como Tieta do Agreste e Perpétua, da obra Tieta, Madame Pompadour e outros ícones da cultura popular. A proposta é uma abertura suave, envolvente e de reconhecimento imediato com o público.
Setor 2
A segunda parte do desfile abordará o lado festivo da noite: boates, acompanhantes e as diversas formas contemporâneas de trabalho das profissionais do sexo. Estarão representadas as boates de Copacabana, as trabalhadoras das calçadas e aquelas que atuam no pole dance, retratadas na segunda alegoria, com barras de pole acopladas às laterais do carro.
Nesse setor, surgirão figuras como Monique Prada, escritora e profissional do sexo; Vivi Castelo, do coletivo Divas de Copacabana; Elisa Sanchez, ex-atriz pornô; a musa Andressa Urach; e Stela, representante das profissionais que exercem a atividade por escolha.
Setor 3
O último setor tratará da luta e do posicionamento político das profissionais do sexo. O carro final é assumidamente político e trará símbolos dessa luta, como Indianarae Siqueira, além de uma homenagem ao legado de Gabriela Leite, falecida em 2013. Também estarão presentes cerca de 40 militantes de coletivos de todo o Brasil, que atuam nas pautas de saúde, segurança e direitos das profissionais do sexo.
Na plástica, o carnavalesco destaca esculturas femininas e uma pequena representação de um cabaré, criada a pedido de Lourdes Barreto, ativista de 83 anos que estará presente no desfile. Lourdes fundou o Coletivo Nacional de Prostitutas ao lado de Gabriela Leite e foi eleita uma das 100 mulheres mais importantes do Brasil.
“Vamos cumprir nosso papel com a sociedade, com as profissionais do sexo, com a escola, com o público e, principalmente, com o espetáculo como um todo. Vamos mostrar que é possível falar de temas historicamente apagados com leveza e na tentativa de diminuir o estigma”, concluiu o carnavalesco.