Paraíso do Tuiuti chega forte ao carnaval com um enredo que dialoga diretamente com a ancestralidade, a espiritualidade e a potência da cultura afro-brasileira. Na avenida, esse discurso ganha corpo, voz e emoção na interpretação de Pixulé, um dos grandes nomes do carnaval carioca, que vive um dos momentos mais significativos de sua trajetória à frente do carro de som da escola.
O samba-enredo do Tuiuti construiu sua força ao longo da temporada. Chegou desacreditado para alguns, cresceu nos ensaios, ganhou a rua e hoje figura entre os mais cantados do ano, alcançando o posto de segundo samba mais tocado no Spotify, reflexo direto da conexão estabelecida com o público e com a comunidade.
Para Pixulé, cantar esse samba tem sido uma experiência especial. Ele define o momento como algo maravilhoso e relembra a trajetória da obra até alcançar o patamar atual.
“Cantar esse samba, pra mim, está sendo uma coisa maravilhosa. É um samba que chegou desacreditado e, de repente, foi crescendo, crescendo, crescendo, e virou esse samba querido, na voz de todo mundo. A Sapucaí está esperando esse samba”.
O primeiro contato com a obra também foi marcante. Pixulé lembra da emoção ao ouvi-la pela primeira vez e da responsabilidade de representá-la na avenida.
“Eu fiquei em êxtase. Fiquei maravilhado e feliz ao mesmo tempo. Um samba desse, pra mim, não é qualquer um que canta”.
A fala revela o respeito e a consciência do peso que carrega ao interpretar o hino do Tuiuti.
A ligação espiritual com o enredo intensifica ainda mais essa entrega. Pixulé, que é do candomblé e babalorixá, explica que cantar um samba afro toca diretamente sua essência.
“Mexe mais comigo, sim. Como eu sou da religião, tem tudo a ver. A gente que é do candomblé, cantar um samba afro fala direto com a nossa história e com a nossa fé”.
Essa conexão se reflete na forma como ele conduz o samba: sempre com firmeza, emoção e verdade.
A expectativa para a apresentação na Sapucaí passa, sobretudo, pela reação de quem está na arquibancada e na pista. Para Pixulé, esse é o verdadeiro termômetro do samba. Ele explica de forma simples, com os pés no chão: “Estou esperando a resposta do público. Quando a gente começar o samba na avenida, a gente vai ver qual vai ser a resposta”.
A Dragões da Real realizou seu segundo ensaio técnico rumo ao Carnaval 2026. Foi um treino completo, em que tudo funcionou de forma satisfatória, mas com destaque especial para os quesitos Harmonia e Musicalidade, que deram total suporte para um canto forte e constante. Também foi possível ver uma verdadeira aula de evolução, com componentes soltos, alegres e brincando de carnaval com responsabilidade. Destaque para o intérprete Renê Sobral, que defende o primeiro samba indígena de sua carreira e vem liderando o carro de som com maestria. Um ensaio para marcar história. O Carnaval de São Paulo não se baseia em comparações, mas, sem dúvida, a Dragões da Real está no panteão das grandes escolas da folia paulistana.
Liderada por Ricardo Negreiros, a comissão de frente da Dragões da Real representou de forma satisfatória as Guerreiras Icamiabas. As mulheres, vestidas de onça, assim como os demais personagens, demonstraram garra ao evoluir, transmitindo a sensação de serem, de fato, guerreiras da Amazônia.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
A comissão contou também com a presença de uma criança, na figura de um menino, que realizou movimentos de atuação e utilizou o elemento alegórico em diversos momentos. O garoto representa a alma da Amazônia, o que leva à interpretação de que as Guerreiras Icamiabas lutam pela preservação do território em defesa da criança.
Além disso, quatro homens participaram da comissão, representando os espíritos da floresta. Dessa forma, a ala conseguiu transmitir com clareza a importância das Guerreiras Icamiabas na preservação da Amazônia. Agora, resta aguardar o desfile oficial para conferir o impacto das alegorias completas e do tripé da comissão de frente totalmente revelado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Rubens de Castro e Janny Moreno ensaiou utilizando as fantasias do Carnaval 2025, o que proporcionou maior sustentação durante a evolução na pista e permitirá fácil adaptação à nova vestimenta no dia do desfile.
A apresentação ocorreu de maneira satisfatória, com uma coreografia discreta, porém alinhada ao que o manual do julgador exige. Em todas as cabines, o casal executou corretamente os movimentos obrigatórios e deixou o treino com avaliação positiva.
“Hoje o nosso ensaio foi mágico, foi emocionante e tranquilo, e é isso. Não consigo falar muito hoje, estou muito emotiva hoje. Além da competição, tem um amor muito grande pela nossa arte. Já temos 28 anos de dança, e cada ano é novo e mágico. Hoje só tenho a agradecer a Deus por tudo, estou muito feliz”, diz Janny.
“Hoje a gente está tomada por emoção, estamos felizes por executar e dar um presente para esse público que está aqui no domingo. Fizemos o que estava proposto, todos os ajustes, mas sempre vai ter novos ajustes, até porque a gente é muito metódico e queremos o teste completo, entendeu? Então a gente está preparado para isso, preparado para viver esse pavilhão, preparado para poder defender a nossa arte. A nossa arte nunca vai deixar de ser tradicional, sempre trabalhando. O trabalho nunca acaba, só acaba no dia em que chegarmos aqui na dispersão”, comenta Rubens.
HARMONIA
O canto da comunidade da Dragões da Real foi um verdadeiro espetáculo. Impressiona a forma como a escola abraça seus sambas, e neste ensaio isso ficou ainda mais evidente. Com andamento acelerado, o intérprete Renê Sobral manteve os componentes animados do início ao fim.
A bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada por mestre Klemen, realizou diversos apagões com precisão. O quesito apresentou linearidade, com a escola cantando forte desde a faixa amarela até o encerramento do cortejo.
Destaque para os últimos versos do samba, a partir de “Valentes guerreiras”, até o fim da segunda parte, já explodindo no refrão principal. Todas as alas tiveram ótimo desempenho, mas a Ala Sítio merece menção especial. Vestidos de branco, seus integrantes refletiram de forma exemplar a harmonia da escola.
Baianas, alas coreografadas e passistas mostraram domínio total da letra. Também foi visível a atuação constante da equipe de harmonia e dos coordenadores de ala, cobrando rendimento dos componentes a todo momento.
“A expectativa é a máxima possível, porque estamos vendo a entrega da comunidade, do barracão e de todos os departamentos da escola, como a bateria e a ala musical. Acreditamos que vamos apresentar um lindo espetáculo, que vai marcar a história da Dragões e também do Anhembi. Esse samba é um divisor de águas, assim como foi em 2017. Acredito que esse samba também vem para transformar a história da Dragões”, diz Rêne.
EVOLUÇÃO
Mais uma vez, a Dragões da Real demonstrou possuir uma das melhores evoluções do Carnaval de São Paulo. Enquanto muitas escolas adotam movimentos laterais, os componentes da Vila Anastácio enfatizam ainda mais essa dinâmica.
A evolução foi solta, alegre e descontraída. Há responsabilidade por parte dos componentes para evitar buracos ou desorganização entre as fileiras, mas existe liberdade para brincar o carnaval. A impressão para quem acompanha o ensaio de perto é de entrega total ao samba, com extravasamento, canto forte e amor pela escola.
Chama atenção a alegria dos integrantes em estar no Anhembi defendendo as cores da Dragões da Real. Não é obrigação, mas prazer. Coletivamente, não houve riscos de buracos ou divisão de alas. Cada ala utiliza sua camisa com cor específica, criando um grande mosaico colorido que remete a um desfile oficial. Uma verdadeira aula colocada em prática pelos componentes.
SAMBA-ENREDO
Renê Sobral vem dando um show à parte no comando do carro de som da escola. Trata-se do primeiro samba indígena que o intérprete defende no Anhembi em sua longa carreira e, ainda assim, seu desempenho é exemplar.
Ele mantém a comunidade empolgada o tempo todo e demonstra entrosamento de alto nível com a bateria “Ritmo que Incendeia”, especialmente nas bossas de apagão. Destaque também para a introdução feita pela cantora Mayara, que ajudou a ambientar o público no clima do enredo com a frase “sente o cheiro das matas”.
Na sequência, Mayara interpretou os versos “Onça-silva é resistência, guardiã em todo canto / Amazonas com espírito que é santo / Leva o nome de Maria, mulheres comuns / No peito amor, na pele urucum”, demonstrando ótima presença vocal como apoio do carro de som da Dragões da Real.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Ritmo que Incendeia”, sob o comando de mestre Klemen, executou bossas com precisão e apresentou excelente andamento dentro do samba. A forte harmonia da escola passa diretamente pela atuação segura da bateria.
A corte de bateria também merece destaque, com fantasias bem elaboradas e totalmente alinhadas ao enredo. Estiveram presentes a rainha Karine Grum, a princesa Yohana Obyara e a madrinha Lexa.
No setor monumental, foram distribuídas bandeirinhas ao público. Também foram vistas belas bandeiras com a logomarca do enredo, contribuindo para o clima festivo do ensaio.
A Unidos de Vila Isabel chega ao Carnaval 2026 mergulhada em memória, arte e ancestralidade com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, uma homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres. Desenvolvido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, o tema propõe um diálogo profundo entre o samba, a cultura afro-brasileira e a vida cotidiana do Rio de Janeiro, a partir da ideia de que samba é macumba e macumba é samba.
Na linha de frente desse espetáculo, a escola aposta novamente na assinatura artística de Alex Neoral e Márcio Jahu, coreógrafos que acumulam mais de duas décadas de trajetória na dança e que, em 2026, encontram no enredo um espelho direto de suas próprias vivências criativas.
Para Márcio Jahu, o projeto tem um significado especial justamente por essa conexão íntima entre vida, arte e desfile.
“O enredo dessa comissão fala muito do que a gente gosta de desenvolver. Nós trabalhamos com dança há mais de 20 anos, e acho que essa comissão dialoga diretamente com o que a gente faz na vida. Não que nas outras vezes não tivesse sido assim, mas agora sentimos que tem muito mais a nossa cara”.
A fala traduz um sentimento recorrente ao longo da preparação: o de pertencimento. A comissão não surge apenas como uma solução coreográfica para abrir o desfile, mas como uma extensão da identidade artística da dupla, em sintonia direta com a proposta simbólica da Vila Isabel.
Alex Neoral destaca que essa sintonia também se reflete no ambiente interno da escola e na relação construída ao longo do tempo.
“A diferença de 2025 para 2026 é que estamos tendo mais liberdade criativa. Mais confiança da escola. Acho que, a cada ano, a gente afina mais essa parceria”.
Essa confiança permite ousar mais, aprofundar conceitos e assumir riscos criativos — algo fundamental para um enredo que atravessa espiritualidade, música, corpo e território. A comissão de frente, nesse contexto, se transforma em um ritual de abertura não apenas do desfile, mas da própria narrativa que a Vila Isabel deseja apresentar.
Outro elemento que reforça essa proposta é a estreia da cabine espelhada, que transforma a apresentação em um espetáculo verdadeiramente circular. Para Márcio Jahu, a novidade chega para validar uma escolha artística que já fazia parte da linguagem da dupla.
“Em relação à cabine espelhada, estamos muito confiantes. Acho que é algo que veio para contribuir. A gente já tinha essa preocupação de privilegiar todos os lados, e, se as pessoas observarem nossos últimos trabalhos, vão perceber que não viramos de frente apenas para um jurado. Essa mudança valida uma crença que já era nossa. É muito bom, porque todo espetáculo ganha com isso”.
A fala revela uma concepção de espetáculo que rompe com a lógica frontal e hierárquica, propondo uma experiência mais democrática, em que todos veem e são vistos. Um conceito que dialoga diretamente com a obra de Heitor dos Prazeres, artista que transformou o cotidiano do povo negro em arte, dança e resistência.
A Acadêmicos do Tatuapé concluiu sua temporada de ensaios técnicos no Sambódromo do Anhembi. A agremiação realizou seu ensaio em 1h04min. O grande destaque ficou por conta da harmonia e do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Os componentes cantaram em alto volume, demonstrando determinação em alcançar seus objetivos, enquanto Diego e Jussara, por mais um ano, apostaram no equilíbrio entre técnica e criatividade durante as apresentações nos módulos.
O Tatuapé será a quarta escola a desfilar na sexta-feira de Carnaval, levando para a avenida o enredo “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente. Tem muita gente sem terra”, assinado pelo carnavalesco Wagner Santos.
COMISSÃO DE FRENTE
Os bailarinos, liderados pelo coreógrafo Leonardo, ensaiaram caracterizados com figurinos coloridos e asas de borboleta. Acompanhada por um tripé, a coreografia apresentou uma proposta lúdica, com dança contemporânea que representa o enredo de forma literal.
Cumprindo os movimentos obrigatórios do quesito, saudar o público, apresentar a escola e o enredo, os componentes simbolizaram o ato de “semear”. Durante a apresentação, uma personagem central ganhou destaque ao interagir com os demais bailarinos, representando o sopro de Tupã.
Enquanto encenavam no tripé, utilizaram um adereço em forma de plantas para complementar a coreografia.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Diego e Jussara mostraram, mais uma vez, a importância que têm para a Acadêmicos do Tatuapé. O casal executou corretamente todos os movimentos obrigatórios do quesito.
A dupla apostou no equilíbrio entre criatividade e técnica durante as apresentações nos módulos. Vestidos de azul, demonstraram preparo e segurança para buscar o resultado almejado.
O casal analisou o ensaio e comemorou o êxito. “Hoje a gente entrou totalmente diferente do primeiro. Como era o primeiro, semana passada, a gente entrou um pouquinho tenso. Ainda tivemos alguns imprevistos, mas hoje a gente entrou muito mais focado, com a energia lá em cima. E hoje, não posso falar a palavra, mas foi do caramba, a gente gostou muito. Graças a Deus, deu tudo certo! É nessa energia e empolgação que, se Deus quiser, no dia três a gente vai entrar nessa pista para dar tudo certo. Hoje foi impecável”, diz Diego.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
“A gente teve algumas coisas que aconteceram no primeiro, mas, graças a Deus, a gente conseguiu resolver e alinhar nos ensaios durante a semana, e hoje aqui a gente fechou com chave de ouro. Graças a Deus, estamos prontos”, vibra Jussara.
HARMONIA
A harmonia do Tatuapé segue, há alguns anos, como um dos principais pontos positivos da escola. Os componentes cantaram em alto volume do início ao fim do ensaio, do primeiro ao último setor.
Com a mudança de posição das cabines, os diretores de harmonia incentivaram ainda mais o canto dos componentes na parte final da pista, ação que elevou de forma significativa o desempenho vocal da escola.
No trecho do samba que entoa “Que a esperança está no amanhã”, o canto se destacou de maneira ainda mais evidente.
EVOLUÇÃO
Os componentes desfilaram de forma dançante, soltos e empolgados. Encerrando o ensaio em 1h04min, o único ponto de atenção em relação ao andamento foi o espaçamento do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O regulamento permite um afastamento máximo de até 12 grades, e o casal desfilou exatamente nesse limite. É necessário cuidado para que esse espaçamento não se transforme em um buraco prejudicial ao conjunto.
Esse foi o único ajuste observado, considerando que a escola conseguiu equilibrar técnica e diversão ao longo do percurso.
SAMBA-ENREDO
O samba-enredo, fruto de uma junção de obras, apresentou funcionamento satisfatório. A composição possui melodia linear e letra de fácil assimilação. O intérprete oficial, Celsinho, conduziu a obra com eficiência durante o ensaio.
Ao final, o CARNAVALESCO conversou com o cantor, que fez um balanço positivo da temporada de ensaios visando o Carnaval de 2026.
“Todo mundo sabe que, no carro de som, a gente não consegue ver tudo. Só consigo ver o andamento da bateria, que foi excelente. O povo cantando mais do que nos outros anos, o samba está bem encaixado, a melodia bem dividida. Estamos dentro de todos os balizamentos que são pedidos para o samba, a harmonia e a evolução”, conta Celsinho.
“Agora é o seguinte: manter o respeito e trabalhar alguns pontos que ainda temos que melhorar, já que tudo pode sempre melhorar. Mas estou muito feliz. É um lindo samba, e a comunidade está a fim de fazer um grande desfile e viver o carnaval. O carnaval é alegria. Estamos competindo, mas é alegria. Estamos felizes para brindar mais um ano que Deus nos deu. E tem um segredo que vou dar como spoiler, apenas uma palavra: formiga. Prestem atenção”, diz.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelo mestre estreante Cassiano, realizou uma apresentação de qualidade. Durante o ensaio, já com o sistema de som ligado, foi possível perceber todos os instrumentos bem afinados. As bossas executadas dialogaram com a ala musical e contribuíram para a evolução da escola.
A ala das baianas vestiu figurinos com a imagem de Tupã na parte frontal e alimentos na barra das saias. Além da representatividade das vestimentas, as baianas dançaram do início ao fim do ensaio, reforçando o impacto visual e simbólico da ala.
A Portela se prepara para o Carnaval 2026 atravessando um tempo de recomeço. Com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, a escola mergulha na ancestralidade negra do Sul do país para contar a história de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, africano do Benin que se tornou símbolo religioso, político e de resistência no Rio Grande do Sul. Um desfile que fala de fé, identidade e permanência.
Na condução desse pavilhão carregado de história estão Marlon Lamar e Squel Jorgea, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da águia altaneira, vivendo um momento que vai além da técnica e da coreografia: é simbólico, político e profundamente emocional.
Para Marlon, o desfile de 2026 representa um marco de virada dentro da própria Portela.
“O início de tudo, né? É um novo começo, uma nova história. Eu acho que tudo começa em um sonho. E a Portela está realizando um sonho depois de uma eleição difícil. O Júnior lutou bravamente para que esse resultado chegasse. É um cara destinado, acho que estava entrelaçado com a história dele virar presidente da Portela”.
A leitura do mestre-sala não se restringe à administração, mas alcança toda a escola e seus segmentos.
“Sinto que é um começo para todos nós. Para nós, mestre-salas e portas-bandeiras; para ele, como presidente; para a escola como um todo. E, claro, essa energia maravilhosa que a gente está sentindo em Oswaldo Cruz e Madureira, na Portela inteira”.
Quando o assunto é fantasia, Marlon preserva o mistério, elemento essencial do carnaval, mas deixa escapar o sentimento que o figurino carrega.
“Ah, eu acho que faz parte do segredo. O carnaval ainda tem essa peculiaridade de você não saber de fato… de deixar para o momento. Mas posso garantir que, como portelense, vai emocionar a nossa nação. Isso, para mim, é irrefutável. Vai ser muito linda. Aos modos da Portela”.
Outro desafio que atravessa o trabalho do casal em 2026 é a cabine espelhada, que amplia o número de jurados e exige uma dança pensada em múltiplas direções. Marlon encara a mudança com maturidade e bom humor.
“Com certeza muda o posicionamento. Agora a gente evita ficar muito de costas para uma cabine. Elaboramos uma coreografia com movimentos em 360 graus, para que haja uma ampla visão e uma expressão corporal muito mais definida.
Para quem está julgando, não pode ficar a sensação de falta de sincronismo ou de expressão. É um grande desafio para 2026. Essa cabine espelhada traz um desafio enorme, mas estamos movidos a desafios. Eram quatro jurados, agora são seis. É um presente de grego maravilhoso”, disse, aos risos.
Do outro lado do pavilhão, Squel Jorgea traduz esse novo cenário com clareza e serenidade. A responsabilidade aumenta, mas a essência permanece.
“A responsabilidade é a mesma. O que aumenta é a adrenalina, por sermos julgados por seis pessoas, seis olhares distintos. Aí, sim, é o desafio de agradar seis jurados. Antes eram quatro, agora são seis”.
Sobre a dança em si, Squel aponta para um carnaval em constante transformação e para um casal que soube acompanhar esse movimento.
“Hoje isso já se tornou algo natural para a gente. O carnaval mudou, e a nossa coreografia também, assim como a nossa passagem pela avenida. A gente acabou se adequando a novos métodos”.
Por Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira
A bruxa realmente está solta, e quem estava no Sambódromo do Anhembi sentiu o feitiço lançado pela Colorado do Brás no segundo ensaio técnico. Em comparação com a primeira passagem, a escola apresentou crescimento evidente, especialmente no canto da comunidade e no entrosamento entre os quesitos, e encerrou seu último ensaio técnico dentro do tempo, em 1h03
Com o enredo “A Bruxa Está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a escola mostrou mais segurança na condução do desfile e reforçou a proposta de um carnaval carregado de simbologia, teatralidade e força ancestral. A Colorado será a segunda escola a desfilar na sexta-feira, pelo Grupo Especial, no Carnaval de 2026.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Paula Gasparini, a comissão de frente manteve a proposta teatral já apresentada no primeiro ensaio, mas com leitura ainda mais clara. O tripé da escola vem com um caldeirão, de onde sai fumaça e cria um visual diferente na avenida. Ao redor dele, os componentes desenvolvem coreografias que remetem à feitiçaria.
Em alguns momentos, o caldeirão aparece desacoplado e é levado mais à frente. Em outros, ele retorna acoplado ao tripé, ampliando o impacto visual das coreografias no chão.
No ponto alto da apresentação, o ator Taiguara é suspenso no alto do elemento alegórico, criando a imagem de uma entidade, e “voa”.
Taiguara representa Hécate, deusa ancestral ligada à magia e às encruzilhadas. Ao longo da coreografia, o ator desce do tripé, interage com o caldeirão e com o público, como quem lança a poção em direção às arquibancadas. A leitura simbólica se fortalece quando se considera o sincretismo religioso, no qual Hécate se aproxima de figuras como Exu e Pombagira, entidades que também regem as encruzilhadas e as transformações.
O conjunto apresentou boa fluidez e forte impacto visual, o que coloca a comissão de frente como um dos pontos altos do desfile.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Brunno Mathias e Jéssika Barbosa farão sua estreia como casal e já mostraram um trabalho leve e muito bem entrosado. A dança do casal dialoga diretamente com o enredo, com movimentos que remetem à ideia de encantamento, como se um enfeitiçasse o outro ao longo da apresentação.
Os passos têm leitura clara, o conjunto se mantém fluido e a conexão entre os dois aparece de forma constante, sem que um se sobreponha ao outro. O casal apresentou uma atuação segura.
HARMONIA
A harmonia apresentou evolução significativa em relação ao primeiro ensaio. Se antes algumas alas do meio para o fim da escola ainda precisavam ajustar o canto, neste segundo dia o desempenho foi mais regular. Todas as alas cantaram com intensidade. Isso também foi notório para o intérprete Léo do Cavaco:
“Cara, a escola cresceu do último ensaio para cá e hoje cantou mais, já tinha cantado muito no primeiro. A gente fez alguns ajustes nos ensaios também, então a escola vem crescendo, e é bom que cresça aos poucos e chegue e cante no desfile. Porque, às vezes, a gente faz um grande ensaio aqui, mas chega no desfile e não consegue repetir. Então eu prefiro que seja essa crescente, porque as coisas têm que acontecer no desfile. Ensaio técnico é legal, mas é só um ensaio; o que vale mesmo é o desfile”, disse o cantor.
Além disso, a interpretação corporal dos componentes reforçou a proposta do enredo. Em diversos momentos, os integrantes dançavam com gestos e expressões que remetem diretamente à bruxaria.
Outro ponto que chama atenção é a presença de coreografias em elementos alegóricos, com componentes encenando rituais e, em determinados momentos, soltando gritos que chegam a surpreender quem está mais próximo da pista. Esses recursos ajudam a construir a atmosfera de feitiço que a Colorado pretende levar para a avenida.
EVOLUÇÃO
Na evolução, o principal ponto de atenção ficou por conta do primeiro carro, que vinha logo após o casal de mestre-sala e porta-bandeira e apresentou um deslocamento levemente torto em alguns momentos.
No geral, porém, a escola desfilou de forma organizada. Não houve erros graves ou situações que comprometam de maneira direta o quesito. O conjunto mostrou melhor controle de andamento em relação ao primeiro ensaio, fechando o tempo de forma segura.
SAMBA-ENREDO
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
O samba-enredo funcionou melhor neste segundo ensaio em relação à primeira passagem. A escola mostrou mais segurança na execução da obra, com canto mais firme e resposta coletiva mais homogênea ao longo da pista.
Ele apresentou bom rendimento; em nenhum momento houve queda. A comunidade sustentou todos os trechos, com destaque para o refrão do meio, que cresce bastante nas arquibancadas.
O intérprete Léo do Cavaco conduziu o samba com clareza, mantendo a escola ligada ao canto e à narrativa apresentada na avenida.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelo mestre Acerola de Angola, mostrou mais entrega neste segundo ensaio. Os ritmistas apareceram mais animados, com recursos cênicos que dialogam com o enredo, como os gritos coletivos que antecedem retomadas do samba.
Outro ponto interessante acontece no trecho “Vem ver, vai ferver o caldeirão”. A bateria realiza uma parada estratégica alguns compassos antes e explode exatamente na entrada do refrão. A retomada acontece com a bateria inteira voltando junta, sem alteração rítmica.
“A bateria evoluiu cada vez mais com o samba, e a nossa ideia sempre foi essa. Desde o começo, montamos o samba junto com a bateria para que ela crescesse junto, e ele está crescendo. Para o dia, a gente tem mais surpresas ainda, inclusive outros estilos de bateria”, diz o mestre.
Terceira escola a desfilar no domingo de Carnaval, a Portela promete abrir caminhos na Marquês de Sapucaí em 2026 ao levar para a avenida o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A proposta mergulha na ancestralidade e na resistência negra no Sul do país, a partir da história de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, africano do Benin que se tornou um importante símbolo religioso no Rio Grande do Sul.
Durante a concentração da escola para o ensaio técnico realizado neste sábado, os coreógrafos da comissão de frente, Edifranc e Cláudia Motta, falaram sobre o significado do trabalho, os desafios do novo carnaval e a força de um enredo que une religiosidade, política, memória e espetáculo.
Para Cláudia Motta, estar à frente da comissão de frente da Portela representa a concretização de um sonho e um momento simbólico na trajetória da dupla.
“Em primeiro lugar, é a realização de um sonho, porque a Portela é a nossa matriarca no samba. Ela carrega uma potência histórica muito grande e sempre apresenta enredos muito fortes. Esse é mais um deles. A gente está muito feliz por poder viver essa nova era da Portela e muito grata pelo convite do Júnior, porque esse é, sem dúvida, um dos momentos mais importantes da história recente da escola”, afirmou.
Edifranc destacou o caráter histórico da proposta ao levar o Batuque para a avenida, algo inédito na Sapucaí, especialmente a partir do olhar da maior campeã do carnaval carioca.
“É um grande acontecimento a Portela trazer o Batuque para a avenida e apresentar uma comissão de frente batuqueira. Isso vai trazer muito axé, muita beleza, mas também respeito e ressignificação. A Portela transforma o Batuque em um movimento nacional, não apenas do Rio Grande do Sul. O Brasil vai conhecer o Batuque de forma plena, e ele vai deslizar pela primeira vez na Marquês de Sapucaí”, declarou.
Ao falar sobre a evolução do trabalho em relação ao carnaval anterior, Cláudia ressaltou o amadurecimento artístico da dupla e o suporte oferecido pela escola.
“Todo ano é diferente, e cada enredo exige um estudo novo. Não costumo comparar trabalhos, mas hoje temos muito mais maturidade. São 21 anos de carnaval, o que nos permite ter uma visão mais ampla, saber onde gastar energia e onde não é necessário. E temos um apoio incondicional da escola e do Júnior. Tudo o que precisamos está nas nossas mãos, o que eleva muito a qualidade do trabalho e nos aproxima de um resultado de excelência”, comentou.
Edifranc reforçou que a principal marca do trabalho da dupla é a coerência conceitual, sempre construída a partir do enredo.
“A gente criou, ao longo do tempo, uma congruência de trabalho. Tudo parte do enredo, mas sempre a partir de um conceito bem definido, para que o projeto tenha coerência. Esse enredo é muito importante, é político-social, traz a negritude do Rio Grande do Sul, a história do Príncipe Custódio, do Negrinho do Pastoreio, do Bará Lodê. A gente traz para a avenida as religiões de matriz africana do Sul, para não ficar restrito ao eixo Bahia–Rio. O Brasil é negro, e as religiões de matriz africana são brasileiras. O que a Portela está fazendo é unir essas negritudes de todas as regiões, dando as mãos a partir do Batuque. Isso é muito bonito e muito potente”, afirmou.
Os coreógrafos também comentaram sobre uma das grandes novidades do Carnaval de 2026: a cabine espelhada dos julgadores, que altera a dinâmica das apresentações das comissões de frente.
“Não tem como saber ainda qual será o padrão. A gente resolveu a nossa comissão de acordo com o que vamos apresentar. Cada escola, com seu enredo e sua proposta, vai buscar a melhor forma de fazer com que jurados e público vejam o espetáculo”, avaliou Cláudia.
Edifranc destacou o impacto da mudança para o público e os desafios para os criadores.
“Essa nova configuração vem atender a uma demanda do público, que muitas vezes se sentia desassistido ao ver a comissão de costas. Agora teremos um espetáculo em 360 graus, o que é incrível do ponto de vista visual. Mas é um experimento, é algo novo para todos nós. Todo mundo teve que quebrar a cabeça para resolver. A gente mergulhou nessa ideia e está trazendo a nossa proposta”, explicou.
Para fechar, a dupla falou sobre o samba-enredo, que vem crescendo de forma consistente e já caiu no gosto do público.
“Esse samba está mexendo com o Brasil inteiro. A gente recebe vídeos de crianças, idosos, todo mundo fazendo o bracinho. Pessoas de outras escolas vão aos nossos ensaios, à quadra, querem estar perto. Pegou. Já é um sucesso”, afirmou Cláudia.
Edifranc reforçou a força popular e narrativa da obra. “É um samba magnífico, muito potente e muito pop. Ele já tomou o Rio de Janeiro e acredito que vai tomar o Brasil. Ele traz todas as nuances da ancestralidade do povo rio-grandense, do Batuque, do Negrinho do Pastoreio, do Bará Lodê e do Príncipe Custódio. É um samba que não cansa, a gente quer ouvir mais e mais. Estamos todos muito felizes”, concluiu.
a Tom Maior celebrou literalmente o dom da vida. Com uma comunidade empolgada, o quesito Harmonia se sobressaiu em relação aos demais. Embalados pelo intérprete Léozinho Nunes, os componentes vibravam a cada verso cantado. Outro destaque foi a comissão de frente, coreografada por Gandhi Tabosa, artista do Amazonas que vive sua primeira experiência no carnaval de São Paulo. Os bailarinos representaram de forma satisfatória o que está por vir na homenagem à cidade de Uberaba, remetendo à antiguidade da terra. Uma bateria bem equalizada contribuiu para o conjunto musical apresentado pela agremiação em seu segundo e último treino. Agora, resta saber como a escola se apresentará com fantasias e alegorias, especialmente nos setores que retratam Chico Xavier. Com andamento tranquilo, a escola encerrou o ensaio no tempo de 1h04.
A Tom Maior levará para a avenida o enredo “Chico Xavier – Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, desenvolvido pelo carnavalesco Flávio Campello.
COMISSÃO DE FRENTE
Vindo diretamente do Festival de Parintins e do carnaval manauara, esta é a primeira experiência do coreógrafo Gandhi Tabosa no carnaval de São Paulo. No treino, a comissão de frente apresentou suas credenciais. Com os bailarinos pintados de vermelho, toda a coreografia foi executada sobre o elemento alegórico. Foram contemplados os requisitos previstos no manual do julgador, como a saudação ao público e a apresentação da escola durante o cortejo.
A encenação no tripé remete à pré-história e à era paleolítica, com movimentos típicos dos homens daquele período. A escolha dialoga diretamente com a cidade de Uberaba, que possui forte ligação com esse tema, já que abriga um geoparque com fósseis de dinossauros, importante atração turística local. Esse contexto pode ter inspirado o coreógrafo a retratar os primeiros habitantes da região e o surgimento da terra.
O ponto de atenção fica para o tamanho do elemento alegórico, considerando que há uma cabine de jurados no Setor H praticamente ao nível do chão. Fica a dúvida sobre como será a visibilidade da comissão de frente nesse ponto específico da avenida. Ainda assim, a proposta de destacar os primeiros habitantes como eixo central se mostrou bastante satisfatória.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Ruhanan Pontes e Ana Paula Sgarbi realizou um ensaio marcado inicialmente pela dificuldade da pista molhada, situação que foi bem contornada ao longo da apresentação. A dupla sempre se destacou pelas coreografias integradas ao samba e pela sincronia existente entre ambos, qualidades que ficaram evidentes no treino. Em todas as cabines, o casal obteve êxito nas tentativas de giros horários e anti-horários. Em resumo, o ensaio foi satisfatório, superando as dificuldades iniciais e alcançando os objetivos propostos.
“Acho que fechamos com chave de ouro. Hoje foi melhor que o outro ensaio. No anterior, ainda estávamos estranhando as cabines, foi tenso, mas agora é só guardar a ansiedade para o dia do desfile. Graças a Deus, hoje foi incrível. Se fosse hoje, era nota 40”, celebrou Ana Paula.
“Eu estava muito ansioso, e a Ana não. Hoje fiquei bem tranquilo e realmente me diverti. Acho que a galera conseguiu entender o que faltava e ficou muito feliz. Consegui agir quase como um psicólogo comigo mesmo, porque estava muito ansioso e hoje aproveitei. Ensaio nota 10, perfeito. Vamos para as cabeças”, comemorou Ruhanan.
HARMONIA
“Vamos cantar, cantar, cantar!” Foi o pedido do presidente e mestre Carlão antes da entrada da escola na pista. Sem dúvida, este foi o principal destaque da Tom Maior no ensaio. O samba-enredo, de melodia cadenciada, foi cantado com força pela comunidade. Apesar do tom melódico mais baixo, os componentes compensaram com vozes potentes, especialmente nos trechos de maior intensidade. A obra foi cantada do início ao fim sem erros, mantendo consistência e energia constantes.
Os refrães se destacaram, assim como o verso final da segunda parte: “Quem corre atrás do que gosta não cansa jamais!”. O intérprete Léozinho Nunes foi fundamental para o desempenho do quesito, executando cacos durante todo o ensaio e elevando ainda mais o ânimo da comunidade. Também merece destaque o trabalho da equipe de harmonia e dos coordenadores de alas, que incentivaram os componentes o tempo todo. Outro ponto alto foram os apagões realizados pela bateria Tom 30. A equipe de harmonia e os chefes de ala sinalizavam com as mãos, fazendo com que o canto ecoasse ainda mais forte.
EVOLUÇÃO
A evolução da Tom Maior foi bastante satisfatória neste ensaio técnico. A escola desfilou compacta, sem abrir buracos ou provocar divisões. Dentro das alas, os desfilantes cumpriram bem seu papel, mantendo a compactação e evitando espaços entre as fileiras. No ritmo do samba, os componentes desfilaram soltos, evoluindo de um lado para o outro, sempre com alegria e sorriso no rosto. Não houve coreografia durante o samba, apenas no refrão do meio, com movimentos de braços para a esquerda, direita e para frente. Os pompons, bexigas e outros adereços de mão utilizados pelas alas criaram um belo contraste visual na pista.
SAMBA-ENREDO
Com pouco tempo de escola, Léozinho Nunes mostrou, nesses dois ensaios, que sua contratação foi mais do que acertada. Ele tem se dedicado intensamente ao comando da ala musical, chamando a comunidade, interagindo com o público e exaltando a escola o tempo todo. Foi uma grande atuação do cantor carioca, que vive sua primeira experiência no carnaval de São Paulo. A ala musical apresentou boa equalização, com destaque também para a voz feminina entre os apoios. Esse trabalho vem sendo desenvolvido desde a época de Gilsinho e, agora, a escola encontrou um substituto totalmente disposto a se dedicar à Tom Maior.
“Quero dizer que, a cada dia, a gente aprimora mais alguma coisa. No ensaio técnico, nos ensaios de quadra, no estúdio e nos ensaios da bateria, sempre melhoramos algum detalhe. Até o dia do desfile, vamos evoluir cada vez mais. Foi um ensaio emocionante para a ala musical. A gente não consegue ver todo mundo cantando, mas dá para sentir a energia do público”, contou Léozinho.
“Esse samba era muito subestimado, mas, no primeiro ensaio técnico, foi muito elogiado por todos os sites. Agora demos uma cara nova, trouxemos outra nuance, mais garra, e estamos construindo esse coral. Estão cantando muito, o samba está lá em cima”, completou o intérprete.
OUTROS DESTAQUES
A bateria Tom 30, comandada pelo mestre Carlão, apresentou um ritmo contagiante e cadenciado, com destaque para o apagão no refrão principal.
Nas três primeiras marcações de alegorias, passaram caminhões com componentes realizando coreografias, cada um com uma cor e uma dança diferente. Apenas na última marcação veio a velha-guarda da escola.
Por Marielli Patrocínio, Lucas Santos, Marcos Marinho e Matheus Morais
A Beija-Flor de Nilópolis entrou na Marquês de Sapucaí já sob um signo simbólico poderoso. O ensaio técnico aconteceu no dia 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, e a escola fez questão de abrir sua apresentação saudando a orixá, levando à frente do desfile uma imagem dedicada à Rainha do Mar. O gesto antecipou o tom do que viria a seguir: um ensaio forte, ancestral e avassalador. Com o enredo “Bembé”, sobre o maior candomblé de rua que acontece todo 13 de maio em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a azul e branca da Baixada Fluminense mostrou por que é historicamente reconhecida como o “rolo compressor” da Sapucaí e deixou evidente que quer, mais uma vez, brigar diretamente pelo título.
Assinada pelos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão de frente da Beija-Flor foi um dos grandes pontos altos do ensaio técnico. A apresentação se destacou pela potência dos movimentos e pela sincronia impecável dos 15 bailarinos, que atuaram com extrema precisão.
A coreografia começa com movimentos concentrados nos braços, de forte carga simbólica, e evolui para ações mais diretas e ágeis com o corpo inteiro, demarcando claramente o espaço da comissão e ocupando a pista com autoridade. As constantes trocas de posição garantem dinamismo e leitura fácil, característica fundamental para o julgamento e o entendimento do público.
Um dos elementos de maior impacto visual foi o recurso cenográfico que simulava a continuidade do corpo de uma bailarina posicionada no topo, realizando movimentos mais sutis, porém carregados de simbolismo e força estética, evocando a ancestralidade como eixo central da narrativa. Os figurinos, em tons terrosos e com estampas que remetem à herança africana, reforçaram o conceito da apresentação.
Foi uma comissão com performance de desfile oficial, que funcionou de maneira exemplar para a cabine espelhada, demonstrando maturidade e alto nível de acabamento.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Claudinho e Selminha Sorriso, o mais longevo em atividade atualmente na Marquês de Sapucaí, apresentou uma dança segura, refinada e de forte caráter tradicional, sem abrir mão da leitura temática do samba.
Vestida de Iemanjá, Selminha Sorriso realizou uma dança em saudação à orixá no trecho “Iemanjá alodê no mar, no mar”, enquanto Claudinho a reverenciava com precisão e respeito ritualístico. A coreografia alternou momentos de cortejo, interações mais próximas entre o casal e passagens de grande leveza, equilibradas com trechos de maior vigor, acompanhando as variações do samba.
Uma apresentação madura, bem construída e tecnicamente segura, com excelente aproveitamento da pista e leitura clara.
HARMONIA E SAMBA
A Beija-Flor reafirmou uma de suas marcas históricas: o chão. A comunidade cantou o samba do início ao fim com força, entrega e harmonia uníssona, sem oscilações perceptíveis. O ponto alto foi o paradão, em que a escola sustentou o canto apenas na voz dos componentes, em volume alto e impressionante, evidenciando o entrosamento entre comunidade e samba.
Os intérpretes Nino do Milênio e Jéssica Martin conduziram o samba com extrema competência, exibindo uma sintonia vocal que se encaixa perfeitamente com a ala musical. Destaque para a potência vocal de Jéssica, que imprimiu força e emoção à condução da obra.
EVOLUÇÃO
A evolução da Beija-Flor foi segura e impactante em todos os setores. A escola tomou a Marquês de Sapucaí com autoridade, justificando plenamente o apelido de rolo compressor. As alas desfilaram cantando forte, bem posicionadas, enfileiradas e ocupando corretamente os espaços.
Os componentes demonstraram alto nível de animação e entrega, atravessando a Avenida em verdadeiro estado de êxtase, o que contribuiu para a fluidez do desfile e para o impacto do conjunto.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Soberana”, comandada por mestre Rodney e Plínio, deu um verdadeiro espetáculo. As bossas se destacaram especialmente nos trechos “atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”, com os sons dos atabaques ecoando com força pela Sapucaí, e em “Iemanjá alodê no mar, no mar”, quando a bateria executou uma bossa inspirada no toque da orixá. Uma bateria de identidade clara, pulsante e carregada de força ancestral.
Fotos: Vítor Melo/Divulgação Rio Carnaval
A rainha de bateria Lorena Raíssa foi um dos grandes nomes da noite, com muito samba no pé, carisma e uma performance que reforça a ideia de que o samba é ancestralidade em movimento.
As alas coreografadas também chamaram atenção, adicionando ainda mais força ao conjunto e reforçando a imagem de uma escola que atravessa a Sapucaí com potência, organização e impacto visual.
O ensaio técnico da Beija-Flor de Nilópolis deixou uma mensagem clara de que a escola está preparada, segura de suas escolhas e disposta a lutar com força total pelo bicampeonato em 2026.
Por Matheus Morais, Marcos Marinho, Lucas Santos e Marielli Patrocínio
Evocando a cultura pernambucana do Manguebeat e a força ancestral da lama, a Grande Rio veio firme em seu primeiro ensaio técnico na Sapucaí nesta temporada, entrando na Marquês de Sapucaí após a maior parte da chuva que tomou conta da cidade nesta noite de domingo. Saudando Nanã em sua comissão de frente, a escola de Caxias demonstrou uma participação ativa de sua comunidade por meio do canto e da desenvoltura dos componentes ao longo da pista, com merecido destaque também para o casal Daniel Werneck e Taciana Couto, que abrilhantou a Avenida durante sua passagem. Com o enredo “A Nação do Mangue”, a Grande Rio será a terceira escola a se apresentar na terceira noite de desfiles do Grupo Especial, na terça-feira de carnaval.
A apresentação comandada por Hélio e Beth Bejani apresentou uma narrativa em torno de Nanã e do mangue, com os bailarinos representando viventes e sobreviventes desse tipo de bioma, além da própria orixá, que tem profunda relação com a lama e funciona como ponto de partida do enredo. A história encenada teve recepção muito animada do público das arquibancadas, iniciando-se a partir da metade do refrão do meio e percorrendo uma trajetória guiada pela orixá, que passa pela pobreza, pela diversidade dos viventes do mangue, incluindo os animais, por suas lutas e desafios.
A coreografia se destaca por movimentos mais diretos, com uso frequente dos braços e da cabeça, remetendo aos caranguejos, e ganha nova dinâmica na segunda parte da apresentação com a utilização da luz roxa na Sapucaí, focando mais na dimensão social do enredo. O deslocamento rápido do elenco dominou bem o espaço da Avenida, com movimentos bem sincronizados e até uma queda muito bem executada, que obteve boa resposta do público.
O figurino utilizado pelos bailarinos da comissão também foi muito bem realizado, com referências aos pescadores e a outros profissionais que têm na lama e no mangue sua forma de sustento. Houve bom uso de elementos como redes e tecidos que remetem a trapos, com Nanã surgindo na mesma linguagem estética dos demais integrantes.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Em uma noite encantada, Daniel e Taciana viveram um grande momento protegendo e portando o pavilhão tricolor de Caxias. Com uma apresentação segura em todos os módulos, o casal demonstrou muita garra ao desfilar após a chuva e ainda sob vento forte na Avenida. A coreografia foi muito bem executada, com destaque para os giros precisos de Taciana e para a dança e o cortejo de Daniel, ambos de perfil tradicional, mas incorporando com propriedade elementos relacionados a trechos do samba ao longo da apresentação, como nos gestos que remetem a Nanã durante o refrão do meio.
O casal apresentou figurinos coerentes com a proposta: o terno de Daniel trouxe referências mais ligadas à arte, enquanto Taciana vestiu um traje mais tradicional, em tons de roxo e lilás escuro, cores associadas a Nanã.
SAMBA E HARMONIA
Demonstrando canto forte e consistente, a comunidade caxiense leva seu hino para 2026 muito a sério e canta com alegria e verdade a obra que estará na Sapucaí. O samba se mostrou poético, carregando a escola e convidando à reflexão, sendo interpretado com maestria por Evandro Malandro, que demonstrou grande segurança na condução da obra, assim como os componentes da Tricolor de Caxias.
O domínio do samba ficou evidente e reforça a profundidade da identidade que a Grande Rio vem construindo nos últimos carnavais. Um dos destaques foi, mais uma vez, o trabalho de Evandro Malandro em conjunto com o carro de som, impecável dentro da proposta, inclusive nos momentos em que a condução deixou espaço apenas para a voz da comunidade se destacar nas paradinhas. Trechos que já viralizaram foram bem cantados e bem recebidos pelas arquibancadas, como os refrões e a subida “Freire, ensine um país analfabeto / Que não entendeu o manifesto da consciência social”, que marcaram claramente o ensaio.
EVOLUÇÃO
A Grande Rio passou leve e correta pela Passarela do Samba, demonstrando uma evolução tranquila, sem deixar de se movimentar e de se divertir, mesmo sustentando um forte grito social. As alas desfilaram sem atropelos, com boa comunicação com o público, especialmente aquelas que apresentaram coreografias ou elementos mais inusitados, como as plaquinhas com trechos do samba.
Fotos: Vítor Melo/Divulgação Rio Carnaval
De ponta a ponta, a escola de Caxias mostrou bom manejo dos momentos de avanço e de pausa realizados ao longo do ensaio deste domingo.
A bateria da Grande Rio veio pulsando com muita força sob o comando de mestre Fafá, que utilizou com propriedade as bossas e convenções apresentadas na Sapucaí diante da comunidade, reforçando o bom trabalho desenvolvido à frente do naipe. A rainha Virgínia Fonseca também esteve presente em seu primeiro ensaio técnico na Passarela do Samba.