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Exu conduz Camisa Verde e Branco em ensaio técnico de impacto no Anhembi

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Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira

O último dia de ensaios técnicos no Anhembi foi encerrado com chave de ouro pelo Camisa Verde e Branco. A escola apresentou uma proposta de leitura clara do enredo e forte conexão visual com a narrativa que pretende levar para a avenida.

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Os componentes desfilaram com tridentes pintados no corpo e também com o próprio elemento nas mãos, além do uso recorrente das cores associadas a Exu. O resultado foi um conjunto visual que dialoga diretamente com o enredo. O Trevo da Barra Funda também apostou em interações com o público e com os jurados.

Com o enredo “Abre Caminhos”, o Camisa Verde e Branco será a última escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, no dia 14 de fevereiro, no Anhembi. A proposta gira em torno de Exu como força que abre caminhos, ideia que aparece de forma constante ao longo das alas, com referências visuais bem distribuídas.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente partiu do princípio central do enredo: se Exu abre caminhos, a abertura precisa ser forte. A coreografia no chão já chama atenção logo de início, com um ator central representando Exu. Em determinados momentos, ele se posiciona de frente para a cabine de jurados, enquanto os demais componentes se organizam atrás, deixando Exu como figura principal e direcionando a leitura do enredo.

O trabalho conta ainda com um tripé que se desacopla em seis módulos. Em alguns momentos, os componentes ocupam o espaço central entre esses módulos e desenvolvem coreografias que reforçam a narrativa. Quando os módulos se unem, o mesmo ator sobe no elemento alegórico e passa a representar Exu no plano superior, compondo uma imagem de forte impacto visual.

A concepção remete, em certa medida, à comissão de frente da Grande Rio em 2022, especialmente pela centralidade do personagem e pela performance marcante. O quesito, porém, pede atenção. Em alguns momentos, os módulos apresentaram leves desalinhamentos, com giros que nem sempre aconteceram de forma totalmente sincronizada. Ao final de algumas movimentações, o conjunto também não se apresentou completamente alinhado, sem que fique claro se isso faz parte da proposta coreográfica.

Ainda assim, o tripé desperta expectativa e se coloca como um dos pontos que mais geram curiosidade para o desfile oficial.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Marquinhos Costa e Lys Grooters mostraram rendimento superior em relação ao primeiro ensaio. Se na passagem anterior o casal se apresentou de forma mais contida, muito em função da chuva e do temporal, desta vez a dupla apareceu mais solta e confiante.

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“Foi muito prazeroso. Foi um período curto, como costuma ser o Carnaval do Camisa, feito em um tempo bem apertado, mas foi um carnaval prazeroso. Particularmente, estou muito feliz com o retorno da parceria. No começo, tivemos que nos reajustar, porque cada um dançou com outros parceiros e acabou adquirindo novas manias”, falou Marquinhos.

Os movimentos ganharam mais amplitude, com giros mais empolgantes e não restritos apenas às cabines de jurados. O casal distribuiu a dança ao longo da pista, executando os movimentos com maior fluidez e presença, o que contribuiu para valorizar o quesito como um todo.

HARMONIA

A Harmonia foi um dos grandes destaques do ensaio. O samba mais longo exige maior atenção ao fôlego da escola, especialmente nos trechos centrais. Ainda assim, a comunidade se fez presente nas alas e nas arquibancadas, sustentando o canto ao longo de toda a pista.

“Estamos cantando bem o samba, o canto funcionou, a harmonia funcionou, os casais mandaram muito bem. Hoje foi maneiro, mas sempre tem alguma coisa para acertar, que fica para o ensaio de rua. A expectativa é muito boa para o Carnaval. Todos os segmentos estão alinhados, vai dar certo para nós”, falou o mestre de bateria Jayson ao CARNAVALESCO.

Foi possível notar que todos os trechos do samba foram entoados em alto volume, inclusive nos momentos em que a obra poderia perder intensidade. As bossas da bateria contribuíram para valorizar o canto e favorecer a sustentação do samba, reforçando a identidade musical da escola.

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EVOLUÇÃO

A Evolução não apresentou erros significativos que comprometessem o desempenho da escola. O tempo de 1h04min59s ficou dentro do limite por pouco. No geral, as alas desfilaram soltas e com elementos visuais expressivos.

Algumas alas desfilaram em fileiras, o que, em determinados momentos, abriu pequenos espaços entre os componentes. Foi possível perceber uma leve aceleração na penúltima cabine, como forma de garantir o fechamento dentro do cronômetro.
Ainda assim, não houve buracos significativos que prejudicassem diretamente o quesito.

SAMBA-ENREDO

No ensaio, o intérprete oficial foi Rogério Papa, responsável por conduzir o canto e levantar a arquibancada Monumental. Um destaque importante foi a ala musical feminina, que surge como um ganho significativo para a escola, tanto em presença quanto em sustentação vocal.

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Outro ponto alto foi o refrão do meio, que mostrou força equivalente à do refrão de cabeça, especialmente no trecho “Eu sou da rua, macumbeiro sim, senhor”, que cresceu de forma consistente e foi cantado com intensidade por alas e arquibancadas.

OUTROS DESTAQUES

A Bateria Furiosa da Barra manteve a identidade que marca o Camisa Verde e Branco nos últimos anos. A subida segue o estilo característico da bateria, sem uma chamada tradicional de repique. O conjunto sobe inteiro no verso “é olho que tudo vê”, em um jogo de surdos semelhante ao utilizado no encerramento de uma das bossas.
As bossas seguem alinhadas ao tradicionalismo da bateria do Camisa, respeitando a identidade construída ao longo da história da agremiação.

Outro destaque foi a presença de Camila Prins, cria do Camisa Verde e Branco, que retorna à escola e assume o posto de rainha. Camila é a primeira rainha trans do Carnaval de São Paulo e desfilou no último sábado representando Pomba Gira Sete Saias, uma das regentes do ano. Sua presença reforça o diálogo entre enredo, representatividade e identidade da escola.

Canto forte conduz Portela em ensaio de afirmação na Sapucaí

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Por Marcos Marinho, Guibsom Romão, Marielli Patrocínio e Matheus Morais

A Portela realizou mais um ensaio técnico na Marquês de Sapucaí, apresentando como principal trunfo o canto forte e constante da comunidade, sustentado pelo bom entrosamento entre carro de som e bateria. Com evolução leve, alas soltas na pista e momentos de impacto rítmico protagonizados pela “Tabajara do Samba”, a escola reafirmou o momento de transição e rejuvenescimento que atravessa. Entre os destaques positivos, a apresentação segura do casal de mestre-sala e porta-bandeira, que, apesar de enfrentar uma dificuldade pontual no último módulo de jurados, manteve o controle e concluiu a dança com profissionalismo, e uma comissão de frente tecnicamente sólida. A Portela será a penúltima escola a desfilar no domingo de carnaval com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, assinado pelo carnavalesco André Rodrigues.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Cláudia Mota e Edifranc Alves, a comissão de frente da Portela aposta de forma consistente na movimentação como eixo central da apresentação. A coreografia acompanha de perto a letra do samba, sublinhando seus versos por meio de gestos contínuos e bem articulados, com forte referência à movimentação afro, perceptível tanto na qualidade dos movimentos quanto na organização dos corpos em cena.

O figurino reforça esse campo simbólico. Os bailarinos, vestidos de branco, evocam imagens ligadas à iniciação no Batuque, enquanto sete personagens em figurinos vermelhos, com saias, adereços de cabeça na mesma cor e uma chave nas mãos, atravessam a coreografia como Barás. A leitura estética é clara e coerente com o universo temático proposto pelo samba.

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Ao longo da apresentação, no entanto, a comissão opta menos por uma condução cênica narrativa e mais por uma sucessão de movimentos que acompanham a música. Não há, neste momento, uma contação de história propriamente dita ou um fio dramatúrgico que organize as ações como convite explícito ao público. A entrada do espectador se dá, sobretudo, pela qualidade da movimentação, bem executada, precisa e consciente, ainda que sem explosões cênicas ou momentos de grande impacto visual. Essa escolha sugere uma comissão que parece se colocar em estado de experimentação neste primeiro ensaio, preservando possíveis surpresas para um segundo momento ou para o desfile oficial.

O ponto alto da comissão surge no trecho do samba que diz “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”. Nesse momento, os bailarinos estendem um estandarte com a imagem de Gilsinho Conceição, histórico intérprete da escola por duas décadas, falecido em setembro, após complicações de uma cirurgia bariátrica. O gesto interrompe a dinâmica contínua da coreografia e cria um instante de forte carga afetiva com o público, estabelecendo uma conexão direta entre memória, identidade e enredo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Marlon Lamar e Squel Jorgea vêm demonstrando, ensaio após ensaio, um entrosamento cada vez mais sólido. A dupla se apresenta com um bailado clássico, sustentado por figurinos de acabamento brilhante e dourado, que conferem elegância ao conjunto e reforçam a leitura tradicional do quesito.

Squel se destaca pelos giros precisos e pela presença cênica constante: sempre sorridente, conduz a dança convocando o mestre-sala para a cena, estabelecendo um diálogo contínuo entre os dois. Marlon responde com segurança, acompanhando a condução da porta-bandeira e reforçando a sensação de parceria madura. O casal dá sinais claros de evolução conjunta, aprofundando um entrosamento que já havia sido consagrado no último Carnaval, quando alcançou a pontuação máxima.

O cortejo se mantém mais clássico, enquanto a coreografia se evidencia em momentos específicos do samba, como no trecho “Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada”, quando o casal executa um gesto direcionado ao chão, em sintonia com a letra e o sentido ritualístico do verso.

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Durante a passagem pelo quarto módulo de jurados, o casal enfrentou um momento delicado. No pré-refrão principal, quando Squel se preparava para a coreografia do refrão, o pavilhão acabou se dobrando e envolvendo brevemente sua cabeça, tocando no rosto da porta-bandeira. A situação foi rapidamente solucionada. O casal seguiu com profissionalismo e controle, mantendo a apresentação estável até o fim do percurso.

No conjunto, Marlon Lamar e Squel Jorgea reafirmam um trabalho pautado pela elegância, pelo amadurecimento técnico e pela leitura consciente do quesito, com margem para ajustes finos, mas sustentados por uma base segura e já consolidada.

SAMBA E HARMONIA

A harmonia se afirma como o grande ponto alto da passagem da Portela neste ensaio. O canto da escola é forte, consistente e bem distribuído ao longo de toda a pista, em diálogo direto com o trabalho desenvolvido por Zé Paulo Sierra à frente do carro de som e com o andamento proposto por mestre Vitinho no comando da bateria “Tabajara do Samba”.

O samba parece coroar o momento de transição e rejuvenescimento vivido pela escola. Há vigor renovado no canto da comunidade, que demonstra domínio da obra de ponta a ponta, sem quedas perceptíveis mesmo fora dos trechos mais explosivos.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

O pré-refrão “Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”, seguido do refrão principal, concentra o ápice de resposta da pista. O componente canta com entrega, transformando esse momento em eixo de sustentação da harmonia. Outros trechos também se destacam pelo rendimento vocal, como “Alupo, meu senhor, Alupô!” e “Portela, tu és o próprio trono de Zumbi”, cantados com potência e reverência.

Gestos simples associados à letra, como o movimento de braços popularizado por Nilce Fran e a coreografia no trecho da coroa do Bará, ajudam a estimular a participação coletiva, reforçando a performance do samba na pista.

EVOLUÇÃO

A evolução da Portela se apresenta leve e fluida. O desenho do samba favorece deslocamentos soltos, permitindo que as alas avancem com naturalidade. Nota-se um ambiente de maior descontração, com alas que interagem entre si e harmonistas próximos dos componentes, estimulando canto e movimento.

A única queda perceptível ocorre no trecho final, entre as alas posicionadas entre as alegorias três e quatro, possivelmente em função do desgaste físico. Ainda assim, trata-se de um ajuste pontual.

A entrada no segundo recuo da bateria se destaca pela organização. A escola reduz levemente o andamento para recompor o conjunto, com a ala de passistas sustentando o tempo à frente da bateria. As alas seguintes entram preenchendo o espaço com fluidez, reforçando a sensação de continuidade.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Tabajara do Samba”, sob comando de Mestre Vitinho, se impõe como um dos pilares do ensaio, oferecendo leitura precisa do samba e sustentando o canto à frente da escola. O trabalho rítmico não apenas acompanha, mas convoca o componente a cantar.

Um dos momentos mais potentes ocorre quando os ritmistas se dividem ao meio e a rainha de bateria, Bianca Monteiro, assume o centro da formação. A coreografia coletiva, com abaixar e levantar sincronizados, cria forte impacto visual, evidenciando o entrosamento entre rainha e mestre de bateria.

Bianca Monteiro também se destaca individualmente. Com figurino dourado, apresenta muito samba no pé e reafirma uma identidade ligada ao samba de Madureira, sustentada pela qualidade da dança.

Outro destaque é a ala de passistas, que surge com figurino vermelho, em contraste com o azul tradicional da Portela. Mais do que a mudança cromática, o que sustenta o impacto é o desempenho: samba no pé, entrega e leitura clara do ritmo. Sob coordenação de Lucas Matheus, a ala preserva o legado de excelência construído ao longo dos anos, especialmente no período em que foi conduzida por Nilce Fran.

Projeto Sou Roseira impulsiona o canto da comunidade e reforça organização da Rosas de Ouro no segundo ensaio técnico

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Por Gustavo Lima e Will Ferreira 

A atual campeã do Carnaval, a Rosas de Ouro, realizou neste sábado seu segundo ensaio técnico. O grande destaque do treino foi, mais uma vez, o canto da escola. É nítida a evolução da comunidade no quesito Harmonia, sobretudo com a implantação do Projeto Sou Roseira, que consiste em ensaios específicos voltados aos componentes da escola.

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A comunidade vem abraçando plenamente tudo o que a diretoria propõe, e isso tem resultado em um alto nível de organização. Na pista, os componentes desfilaram soltos, corretos e confiantes. O clima remete bastante à Rosas de Ouro de 2025, ano em que a escola conquistou o título. O resultado oficial só será conhecido em cerca de duas semanas, mas o que se vê da atual campeã são mudanças significativas na pista e um ambiente claramente amistoso e positivo.

A Rosas de Ouro será a quinta escola a desfilar na sexta-feira de Carnaval, com o enredo “Escrito nas Estrelas”, desenvolvido pelo carnavalesco Fábio Ricardo.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Arthur Rozas, a comissão de frente da Rosas de Ouro cumpriu com precisão os requisitos estabelecidos pelo manual do julgador e se destacou pela excelente sincronia entre os bailarinos. Vestidos de alienígenas verdes, os integrantes executaram os movimentos de forma extremamente igualitária, com clara leitura coletiva, priorizando passos bem encaixados no ritmo do samba.

A pista foi bem preenchida durante toda a apresentação, e a vestimenta prateada contribuiu para um belo efeito visual na passarela. Assim como no primeiro ensaio, a escola levou para a pista seu elemento alegórico, que ainda não permite uma leitura completa de seu significado, já que deverá receber decoração futuramente. No entanto, o elemento possui movimentos e foi bastante explorado pelos integrantes.

Fato é que a comissão de frente da Rosas de Ouro parece “esconder o jogo” e promete surpresas para o dia do desfile. Tudo indica que a ala fará uma representação ligada ao espaço, com forte referência à astrologia e aos planetas do sistema solar.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Em seu terceiro ano juntos, Uilian Cesário e Isabel Casagrande ensaiaram com figurino inteiramente rosa e apresentaram uma performance segura e elegante. O casal realizou os movimentos obrigatórios em frente às cabines, com um bailado leve e bem executado.

Os giros, tanto no sentido horário quanto no anti-horário, foram realizados de maneira mais cadenciada, possivelmente como estratégia para reduzir o desgaste físico. No Carnaval de São Paulo, os casais de mestre-sala e porta-bandeira praticamente não param de evoluir e, com o novo sistema de cabines, a adaptação tornou-se necessária devido ao pouco espaço entre uma cabine e outra.

Ao que tudo indica, a estratégia de Uilian e Isabel é priorizar a técnica e investir fortemente nos movimentos obrigatórios exigidos pelo manual do julgador, algo que vem sendo adotado por diversos casais neste novo formato.

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“Fizemos ajustes simples. No primeiro ensaio, o chão estava muito molhado por conta da chuva e da garoa, o que gera insegurança. Neste ensaio foi mais tranquilo. Conseguimos sentir melhor a cadência e a evolução da escola. Ajustamos detalhes de mão, cabeça e acabamento, mas mantivemos grande parte da coreografia. O trabalho está bem limpo”, disse Uilian.

“Hoje foi bem melhor, sem chuva. Fizemos apenas alguns ajustes. Este foi o último ensaio técnico da escola, mas seguimos ensaiando na quadra e nos nossos fechados. Hoje foi show”, completou Isabel.

HARMONIA

A Rosas de Ouro já apresenta um canto forte há alguns carnavais, mas, com a inserção do Projeto Sou Roseira, o quesito Harmonia ganhou ainda mais consistência. Assim como no ano passado, a comunidade parece ter ignorado críticas negativas em relação ao samba-enredo e respondeu com um canto extremamente potente.

Trata-se de um samba que, em termos de melodia, remete bastante ao ano do título: andamento para frente, samba curto, refrões marcantes, rimas simples e letra de fácil assimilação. Todas as alas, do início ao fim do desfile, mantiveram a intensidade do canto desde a linha amarela até o fechamento do portão.

Vale ressaltar que o quesito Harmonia é avaliado até o final da apresentação, com uma das cabines posicionada próxima à saída dos componentes da avenida. É fundamental que, nesse ponto, o jurado consiga ouvir claramente o canto em sincronia com o carro de som e a bateria.

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“Existe um projeto no Rosas de Ouro que está dando muito certo, que é o Projeto Sou Roseira. Ele tem apenas dois anos, mas, se a escola investir, pode crescer muito. Dependendo do resultado, a Rosas de Ouro pode se tornar ainda maior por meio desse projeto. O que vi hoje foi algo que deu certo e que pode prosperar daqui para frente”, comentou o intérprete Carlos Júnior.

A escola se apresentou de forma compacta e extremamente organizada. Os tradicionais bastões com LED vermelho foram bem utilizados, especialmente durante a chegada da bateria ao recuo e no momento da parada para a entrada no box, evitando qualquer tipo de buraco ou divisão na escola.

Destaca-se o trabalho constante da equipe de Harmonia, que se comunicou o tempo todo com os componentes, incentivando o canto e auxiliando na organização, principalmente no momento da parada — considerado um dos mais tensos do desfile. O resultado foi uma atuação coletiva muito eficiente.

Entre as alas, viu-se uma comunidade alegre, solta e confiante, lembrando bastante a Rosas de Ouro do ano passado. Cantando forte, sorridentes e felizes, os componentes demonstraram evolução tanto coletiva quanto individual, pontos bastante positivos neste ensaio.

SAMBA-ENREDO

Como citado anteriormente, o samba-enredo dialoga diretamente com a obra apresentada no ano passado, que deu resultado. A escola aposta novamente nessa fórmula, e a comunidade parece, mais uma vez, comprar a ideia.

O intérprete Carlos Júnior teve atuação de alto nível, condizente com sua qualidade, contando com o suporte da ala musical para garantir a sustentação necessária. Os cacos animaram a comunidade durante todo o ensaio. Trata-se de um samba desafiador, direto e sem pausas, que exige participação constante do intérprete — algo que Carlos Júnior conseguiu executar com êxito.

“Conseguimos corrigir bastante coisa em relação ao primeiro ensaio. Estávamos com muita emoção e pouca técnica, o que é normal no primeiro contato, por conta da euforia. Além disso, a comunidade enfrentou cerca de uma hora e meia de chuva, o que prejudicou um pouco o nosso setor. Precisávamos empolgar o público, e a técnica acabou ficando em segundo plano. O planejamento, então, foi trabalhar a técnica, e acredito que atingimos o objetivo. Hoje consegui observar melhor a escola: as alas passaram cantando e dançando, e acredito que a Harmonia preparou bem a escola”, avaliou Carlos Júnior.

OUTROS DESTAQUES

A “Bateria com Identidade”, comandada por mestre Rafa, realizou diversas bossas e apresentou um ritmo consistente durante o ensaio. Destaque para o arranjo que começa no refrão principal e termina no início da primeira parte do samba, no trecho “A explosão do universo”.

Um dos diretores de bateria também avaliou o desempenho no ensaio:

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“O ensaio de hoje foi melhor que o primeiro. A escola está feliz e pronta para o bicampeonato. A gente depende só de nós mesmos. Se passarmos certinho, com a escola cantando, em harmonia e evolução, vamos brigar forte. A expectativa é enorme. Nossa bateria é um trabalho de anos, sempre em evolução. Este ano, as bossas serão um pouco menos ousadas, mais melódicas e pensadas para o samba. A escola abraçou a ideia, e vai ser um desfile incrível”, afirmou.

Paraíso do Tuiuti apresenta ensaio técnico poderoso, com comissão de frente impactante e harmonia em alto nível

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Por Marielli Patrocínio, Guibsom Romão, Matheus Morais e Marcos Marinho

O Paraíso do Tuiuti realizou um primeiro ensaio técnico consistente na Marquês de Sapucaí, demonstrando segurança na execução do enredo “Lonã Ifá Lukumí”, que será apresentado no Carnaval 2026. A escola mostrou bom desempenho nos principais quesitos, com destaque para a comissão de frente, a harmonia e o conjunto musical, reafirmando sua identidade como quilombo do samba.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

COMISSÃO DE FRENTE

Um dos grandes destaques do ensaio, a comissão de frente apresentou uma coreografia forte, de leitura clara e bem resolvida para o julgamento. A encenação gira em torno de um tripé que representa Eleguá, entidade que surge viva acima da fumaça, criando uma imagem de impacto imediato e forte simbologia.

O corpo de bailarinos representa os eborais, entidades do Ifá afro-cubano consideradas pré-orixás e protetoras das florestas. Com caracterização precisa, os bailarinos carregam galhos que, em determinado momento da apresentação, são fincados no tripé, provocando a saída de fumaça no topo da estrutura. Dela surge um menino empunhando a bandeira Brasil–Cuba, síntese visual direta da proposta do enredo.

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A comissão conta ainda com a figura central do babalaô, sentado sobre uma esteira, que faz referência literal ao verso do samba “sentado à esteira de um babalaô”, expressão ligada ao conhecimento, à iniciação e à vivência ritualística no culto de Ifá. Bailarinos com trajes típicos cubanos completam a cena, reforçando a identidade estética da apresentação.

A coreografia foi estrategicamente pensada para as cabines de julgamento. Na primeira cabine, a apresentação se desenvolveu de forma lateral, dialogando diretamente com os jurados; já na cabine espelhada, ganhou frontalidade total. O conjunto apresentou impacto, emoção e plena funcionalidade para a avaliação.

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O casal Vinícius Antunes e Rebeca Tito apresentou uma dança segura, elegante e de alto nível técnico. Com entrosamento evidente, a dupla aliou firmeza no chão à leveza dos movimentos, resultando em uma apresentação fluida e bem construída. Referências pontuais à dança afro-cubana surgiram de maneira sutil e natural, sem comprometer a coreografia tradicional do casal. A leitura do pavilhão foi clara, com excelente ocupação do espaço e ótimo aproveitamento da cabine espelhada.

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EVOLUÇÃO

A evolução do Paraíso do Tuiuti foi organizada e, em sua maior parte, fluida. Nos primeiros setores, a escola apresentou um andamento um pouco mais acelerado, mas rapidamente ajustou o ritmo e seguiu com maior controle.

A escola desfilou de forma mais compacta, o que chama atenção para uma agremiação que, historicamente, leva grande número de alas comerciais no desfile oficial, fator que pode interferir no tempo e na dinâmica da evolução. Ainda assim, o Tuiuti ocupou bem os espaços, manteve as alas preenchidas e concluiu o percurso dentro do tempo regulamentar.

HARMONIA E SAMBA

A harmonia foi um dos pontos fortes do ensaio. A escola cantou com intensidade e regularidade do início ao fim, sem oscilações perceptíveis. O samba já demonstra estar assimilado pela comunidade, que respondeu com canto forte e uniforme.

A ala musical vive um momento positivo. A bateria SuperSom, comandada por mestre Marcão, teve como principal destaque as bossas fortemente ancoradas na musicalidade afro-cubana. O desenho rítmico privilegiou a utilização dos atabaques, criando uma sonoridade orgânica e profundamente conectada à proposta do enredo.

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As bossas foram bem executadas, com entradas e saídas precisas, sem comprometer o andamento do samba. O diálogo entre a bateria tradicional e os elementos percussivos de matriz afro-cubana ampliou a identidade sonora da obra, conferindo personalidade e coerência ao conjunto musical.

O trabalho mostrou equilíbrio entre criatividade e funcionalidade para a avenida, valorizando o samba e potencializando o canto da escola, em perfeita sintonia com a condução do intérprete Pixulé e da ala musical. Esse conjunto se encaixou com precisão na condução de Pixulé, que liderou o canto com potência, boa afinação e excelente comunicação com a escola, ao lado de sua equipe musical.

OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria Mayara Lima foi um dos nomes mais celebrados do ensaio. Reconhecida como uma das principais rainhas da atualidade, brilhou à frente da SuperSom. Durante a bossa de inspiração afro-cubana, incorporou elementos da dança afro-caribenha, com repertório corporal amplo, preciso e expressivo.

Com fantasia dourada adornada por búzios, Mayara reforçou o impacto visual da bateria e contribuiu para o bom desempenho do conjunto.

Comissão de Frente e andamento da bateria se destacam no segundo ensaio técnico da Estrela do Terceiro Milênio

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Por Lucas Sampaio e Will Ferreira 

A Estrela do Terceiro Milênio realizou, no último sábado, seu segundo ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile no Carnaval 2026. A primazia da coreografia da comissão de frente e a ousadia no andamento da bateria foram os principais destaques da passagem da escola, encerrada após 62 minutos na Passarela do Samba. A Coruja do Grajaú será a quinta escola a desfilar no dia 14 de fevereiro, pelo Grupo Especial, com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo.

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O comprometimento da comunidade do Grajaú, que supera as longas distâncias — cerca de uma hora da quadra da escola até o Sambódromo — com alegria radiante, é uma demonstração da capacidade do samba de vencer desafios. Essa força popular se intensifica a cada passagem da Terceiro Milênio pelo Anhembi. Isso permite à escola ganhar corpo para alcançar degraus cada vez maiores no Grupo Especial. A força apresentada por uma série de quesitos neste segundo ensaio técnico mostra uma agremiação competitiva para alcançar posições na parte superior da tabela, e é isso que a análise a seguir se propõe a detalhar.

COMISSÃO DE FRENTE

O quesito comandado por Régis Santos, duas vezes laureado com o Prêmio Estrela do Carnaval, promovido pelo CARNAVALESCO, mais uma vez leva para a Avenida uma apresentação de leitura significativamente fácil. Já se tornou característica das comissões da Milênio desenvolver coreografias que ilustram visualmente o conteúdo da letra do samba, e, mais uma vez, isso acontecerá com zelo e criatividade.

Uma alegoria alta e volumosa serve de palco, mas o que realmente importa são os atores que, de acordo com o coreógrafo, representarão a vida e a obra de Paulo César Pinheiro por meio da dança. Os principais elementos da evolução acontecem na pista, iniciados por um ator mirim que interpreta “o menino e seu dom de compor” e que, gradativamente, vai narrando os acontecimentos descritos pelos versos com fidelidade excepcional. Tudo dialoga com a sinopse e, inclusive, com o conteúdo da entrevista que o homenageado concedeu ao CARNAVALESCO e que foi publicada recentemente no site. Mesmo com a cenografia ainda não finalizada, já está claro que o quesito reúne plenas condições de obter novamente os quarenta pontos no dia da apuração.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Seriam Waleska Gomes e Arthur dos Santos ou Clara Nunes e seu guia espiritual? O casal parecia inspirado pelas fantasias utilizadas e realizou uma apresentação de alto nível. Nos módulos em que foram observados, um parecia o espelho do outro, respondendo aos movimentos com sincronia e agilidade. O cumprimento das obrigatoriedades do quesito não foi meramente protocolar: foi executado com elegância, beleza e confiança. Há sinais evidentes de que os três anos de parceria favoreceram o amadurecimento da performance da dupla.

O casal fez um balanço sobre a evolução do desempenho ao longo do ciclo de ensaios técnicos da Terceiro Milênio, destacando as diferenças entre os dois treinamentos gerais.

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“Acredito que não tivemos mudanças drásticas. Mantivemos o trabalho bem-feito que planejamos, com calmaria e segurança no nosso trabalho, na nossa equipe e na nossa escola. Estamos muito positivos, porque vamos entregar no dia oficial, e o público pode esperar bastante coisa linda”, disse Arthur.

“O que mudou foi a responsabilidade e a atenção. Hoje também nos permitimos nos divertir um pouco por ser o último dia. Fizemos um trabalho realmente longo durante o ano todo. Tecnicamente, o que mudou foi a qualidade, porque sempre pode ser um pouquinho melhor. E a alegria de estar aqui representando a nossa escola e o Grajaú”, completou Waleska.

HARMONIA

Quando a escola opta por falar, na Avenida, sobre um poeta, é natural que um samba cadenciado, com poucos momentos de explosão, seja a escolha narrativamente mais adequada. Por outro lado, isso se torna um desafio para a equipe de Harmonia e para os quesitos musicais manterem os ânimos da comunidade constantemente acesos. Esse desafio se torna mais fácil quando a comunidade amadurece um senso de comprometimento ao longo de tantos anos, como é o caso do povo do Grajaú. A comunidade fez sua parte, brincou o carnaval com leveza, e a bateria “Pegada da Coruja” ainda colaborou com muitas bossas e até um longo apagão pagodeado. É esperado um bom desempenho no quesito no dia do desfile oficial.

EVOLUÇÃO

A Terceiro Milênio apresentou, neste segundo ensaio, um contingente suficiente para que, somado aos seis espaços destinados às alegorias — demarcados por faixas —, os portões da concentração fossem fechados em menos de meia hora de ensaio. O encerramento do treinamento ocorreu após 62 minutos, próximo do limite máximo, mas ainda assim houve diversos momentos que podem ser suprimidos em caso de necessidade.

Por exemplo, o fato de toda a escola ter permanecido imóvel por uma passagem inteira do samba, marcada sem bateria e ao som de um pagode — no estilo do que foi apresentado no minidesfile da Festa de Lançamento dos Sambas de Enredo — pode não se repetir da mesma forma no momento da avaliação oficial pelos jurados.

Mesmo com um volume geral pequeno, é preciso cautela. Entre os módulos três e quatro de julgamento, o espaço entre uma alegoria e o ponto em que a bateria retornou à pista após sair do recuo ficou perigosamente próximo do limite para caracterização de um buraco, algo que não ocorreu quando os ritmistas passaram pelo primeiro módulo. Fica a sugestão para que a escola evite cometer um deslize em um quesito que, em 2025, foi doloroso para algumas agremiações.

SAMBA-ENREDO

Como já citado, o samba da Estrela do Terceiro Milênio não é uma obra de explosão. É um samba poético, feito para falar de um poeta, e repleto de referências à obra de Paulo César Pinheiro. No carro de som, a escola conta com o comando dos intérpretes Darlan Alves e Grazzi Brasil, que possuem estilos de canto semelhantes, mais voltados à cadência. A obra é fácil de cantar, mérito dos versos simples e bem encaixados no andamento da bateria. Para levantar ainda mais o público, contudo, o ideal seria intensificar o vigor com que os intérpretes convocam a comunidade — e, por tabela, o público — a cantar junto. Isso não compromete necessariamente as notas do quesito, mas pode favorecer outros critérios ao manter a comunidade acesa por todos os módulos de julgamento.

Os intérpretes fizeram um balanço sobre a evolução do quesito ao longo do ciclo de ensaios técnicos, exaltando especialmente a força da comunidade do Grajaú.

Darlan Alves

“Esse foi aquele segundo ensaio em que geralmente tentamos corrigir o que ficou pendente da primeira apresentação aqui no Anhembi, quando ainda estávamos sem o som da Avenida. Hoje, já chegamos com essa oportunidade de ter o som instalado; isso muda completamente o clima. A adrenalina da galera está lá em cima. Corrigimos algumas coisas, sim, e foi um ensaio muito bom. A Milênio tem essa característica de, a cada ano, se firmar mais no canto e olhar muito para o chão da escola. É uma comunidade que canta, e hoje foi isso. Fizemos um apagão de uma passagem inteira e a escola toda cantou, foi lindo. Agora é colocar a fantasia, segurar a adrenalina e fazer uma grande homenagem ao Paulo César Pinheiro”, contou Darlan.

Grazzi Brasil

“Hoje foi de uma energia maravilhosa. Ensaiamos bastante, tentamos fazer um bom trabalho e o grande dia está chegando. A energia do desfile é outra, mas a intenção é sempre a mesma: fazer dar tudo certo. Estou feliz. Essa escola é maravilhosa. O Grajaú canta forte, e quando chega a hora do jogo é uma loucura. Fico apaixonada”, disse Grazzi.

OUTROS DESTAQUES

O conjunto da obra da bateria “Pegada da Coruja” foi sublime. Mestre Vitor Velloso comandou seus ritmistas com ousadia, aproveitando ao máximo as oportunidades que o samba oferece para a criação de bossas. A parte central da obra — somando os últimos versos da primeira parte, o refrão do meio e os primeiros versos da segunda — apresenta diversas variações rítmicas que exigem confiança e precisão, e tudo foi executado com excelência. Sávia David retornou ao Carnaval de São Paulo em 2026 e abrilhantou ainda mais o espetáculo do quesito, que também contou com um apagão de uma passagem inteira do samba, marcado pelo time de cordas. Grande apresentação instrumental da comunidade do Grajaú.

Vitor Velloso avaliou o último ensaio técnico da Estrela do Terceiro Milênio e falou sobre as expectativas para o desfile oficial.

“É sempre aquela ansiedade. Você faz o primeiro ensaio e depois vem o segundo para ajustar o que precisava. Conseguimos fazer esses ajustes. A principal questão agora era o andamento. Fizemos alguns acertos em uma bolsa ou outra e ainda temos mais uma semana de trabalho até o grande dia. O resultado foi positivo e seguimos firmes para o dia 14. No desfile oficial o clima muda muito. A galera fica mais ligada, mais atenta, porque é jogo valendo. Podem esperar uma bateria firme, com boa afinação, bom andamento e bom ritmo. É isso que vamos entregar.”

Mocidade Unida da Mooca apresenta conjunto de elite em seu segundo ensaio técnico

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Por Lucas Sampaio, Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira 

A Mocidade Unida da Mooca realizou, no último sábado, seu segundo ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em preparação para o desfile no Carnaval 2026. Em um treino no qual o conjunto da obra se apresentou de forma positiva e equilibrada, o ritmo da dança e a sintonia entre samba e bateria foram os grandes diferenciais ao longo da apresentação da escola, encerrada após 65 minutos na Avenida. A MUM será a primeira escola a desfilar no dia 13 de fevereiro, pelo Grupo Especial, com o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro.

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A afirmação a seguir pode parecer um exagero aos olhos de quem não esteve no Anhembi para acompanhar o segundo ensaio de uma escola que fará sua primeira participação na elite da folia paulistana em 2026, mas é preciso encarar os fatos: a Mocidade Unida da Mooca realizou um dos melhores ensaios da temporada e apresentou uma volumetria comparável à de escolas que vêm sendo cotadas para o título do Carnaval de São Paulo.

A plástica da escola, até o momento, é desconhecida, e todos sabem da realidade que envolve uma estreia em um novo grupo, ainda mais abrindo a primeira noite dos desfiles. Mas a equipe de profissionais que a MUM montou — e que já trabalhou na apresentação que garantiu o acesso — não é pouca coisa. Há muito comprometimento técnico e o apoio de uma comunidade apaixonada, o que se refletiu na catarse que tomou conta da Avenida no sábado. Se voltar no Desfile das Campeãs, a escola já fará história e isso será muito celebrado, mas a realidade é que a Mooca não dá indícios de que essa será uma passagem breve pelo Grupo Especial.

COMISSÃO DE FRENTE

“A Criação do Mundo” é o tema da comissão de frente da MUM, coreografada por Sabrina Cassimiro. Em atos desenvolvidos ao longo de duas passagens do samba, o quesito representa, por meio da dança, a lenda iorubá da origem de tudo. Há dois personagens que se destacam nessa coreografia, que conta ainda com outros atores coadjuvantes, os quais ora atuam no chão, ora sobem na alegoria que acompanha o quesito. Trata-se de um carro de tamanho expressivo, no qual se vê uma grande mão erguida acima de um círculo ainda descaracterizado, que provavelmente representa o planeta Terra.

A dança se destaca especialmente pela forma como a coreografia foi desenvolvida sobre a letra do samba. Em momentos de maior impacto, como no verso “Num ritual de devoção”, nas duas passagens da obra, os dançarinos parecem balançar no ritmo da melodia. Em determinado momento, o cumprimento da obrigatoriedade de apresentar a escola ocorre logo após o fim do refrão do meio, quando a melodia sofre um breve apagão natural. É um movimento rápido e peculiar, fugindo do padrão habitual, que deixa muito claro o que se propõe a representar. O quesito já abre as apresentações fazendo o público entrar no ritmo viciante do samba e tem grandes chances de alcançar a nota máxima se for bem executado no dia do desfile oficial.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Também com uma dança construída a partir do samba, o primeiro casal da Mooca, formado por Jefferson Gomes e Karina Zamparolli, teve ótimo desempenho nos módulos em que foi observado. A dança fluiu de forma natural, impulsionada pelo bônus empolgante que a melodia do desfile proporciona. É mais um casal que não se contenta em cumprir apenas o protocolo das obrigatoriedades e se dispõe a integrar, mesmo diante das responsabilidades do quesito, um espetáculo maior. O Carnaval se beneficia artisticamente de profissionais dotados dessa mentalidade.

O casal fez um balanço da evolução apresentada ao longo da temporada de ensaios técnicos no Anhembi, exaltando o conjunto formado com a escola nesse processo.

Jefferson e Karina

“Eu acho muito positivo. Hoje ventou um pouco, mas foi menos do que na outra semana. Conseguimos evoluir muitas coisas. A coreografia está bem fluida, o andamento da escola ajudou muito. Foi bom na semana passada, mas esta semana foi bem melhor. Se for nesse andamento, vamos conseguir desfilar bem felizes. Conseguimos sentir a escola pulsando muito. A escola fez uns três paradões em que conseguimos ouvir bem o canto, e toda vez que isso acontece dá uma energia a mais para nós. Tecnicamente falando, ainda vamos ensaiar mais. Ainda temos duas semanas e vamos aproveitar bem para vir 100% afiados, porque é uma estreia no Grupo Especial. Queremos desfilar à altura do Carnaval que a escola está propondo, e acho que pode ser uma das maiores aberturas do Carnaval de São Paulo”, avaliou Jefferson.

“É isso que ele falou. Deu para sentir bastante no primeiro e no segundo ensaio. Agora vamos fazer nossos ensaios particulares nessas últimas semanas para ajustar o que precisar. Saímos bem satisfeitos dos dois ensaios, com certeza”, completou Karina.

A dupla demonstrou otimismo em relação ao desfile de estreia da MUM no Grupo Especial, mas também se mostrou consciente e focada no objetivo primordial da escola.

“A gente tem sempre que sonhar e trabalhar para o maior. Estamos buscando a nota máxima. Do fundo do meu coração, desejo muito que a escola tenha a alegria de estrear tentando voltar para as Campeãs. São 14 escolas, mas acredito que temos condições, tecnicamente, de brigar por uma posição e tentar essa proeza”, disse Jefferson.

“Estamos trabalhando pelos melhores resultados e pela nossa realização pessoal. Sempre quisemos dançar juntos. Saímos do Acesso, chegamos ao Especial. Para nós, isso já é uma vitória. Agora é aproveitar, ser feliz e, se Deus quiser, trazer a nota para que a escola permaneça no Especial e, quem sabe, esteja entre as Campeãs”, concluiu Karina.

HARMONIA

Um dos lemas da Mocidade Unida da Mooca é “Escola que canta, ganha”. Quem acompanha a MUM há anos sabe da força da comunidade nesse quesito. O trabalho do diretor de harmonia Yves Alexeiv, iniciado ainda em 2025, manteve essa identidade. Todas as alas cantaram forte durante toda a Avenida, sem sinais de cansaço, demonstrando vibração e determinação dignas de aplausos.

EVOLUÇÃO

A seriedade do diretor ao longo de toda a Avenida, caminhando da comissão de frente à última ala e retornando pelo outro lado, só deu lugar a sorrisos quando o portão da dispersão se fechou após 65 minutos de ensaio. Mesmo com cinco minutos de atraso para iniciar a entrada na Passarela, a Mooca evoluiu com fluidez, controlando bem o ritmo e realizando paradas estratégicas para testar a resposta do canto da comunidade. Resta saber se essa segurança se repetirá no desfile oficial.

SAMBA-ENREDO

Um samba que nasceu antes mesmo da sinopse — algo raro nos dias atuais. A MUM optou por esse caminho inverso em plena estreia no Grupo Especial, e o resultado foi uma obra que conquistou o Anhembi nos dois ensaios técnicos. Antes mesmo da comissão de frente entrar na Avenida, o refrão de cabeça foi cantado à capela pela comunidade, com resposta imediata das arquibancadas.

Emerson Dias

“A escola está em um momento especial. A magia do Carnaval contagiou a Mocidade. O povo está cantando absurdamente, a escola cantando absurdamente. Estamos abusando da força do samba, fazendo paradões e provocando o canto. A resposta vem sempre. Evolução e harmonia são os pontos principais, e nisso a Mocidade tem nota 10”, explicou o intérprete Emerson Dias.

Durante a passagem da MUM, Emerson e Gui Cruz chegaram a subir na grade do Anhembi para interagir com o público. Ao lado da estreante Sté Oliveira, formaram uma equipe afinada e energética, conduzindo a obra com maestria.

“Não sei se vamos manter todas as paradas no desfile, mas a ousadia vai existir. Estamos chegando agora no Especial e precisamos chegar chegando”, completou Emerson.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Chapa Quente”, comandada por mestre Dennys Silva, empolgou o público com grande quantidade de bossas e apagões. Os ritmistas demonstraram alto nível de ensaio, atuando como uma única mente coletiva. Uma estreia no Grupo Especial com autoridade, ainda mais valorizada pela presença da rainha Valeska Reis.

Mestre Dennys

“Após o último ensaio, fizemos muitas reuniões para encontrar diferenciais. A bateria abraçou a ideia e ensaiamos bastante. Agora é manter os pés no chão, respeitar o grupo e focar nos detalhes. Estou muito feliz, mas principalmente concentrado para fazer um grande desfile”, afirmou mestre Dennys.

Comunidade canta com a alma, casal brilha e Salgueiro emociona em ensaio de alta densidade artística

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Por Guibsom Romão, Marcos Marinho, Matheus Morais e Marielli Patrocínio

Sendo a segunda escola da noite a ensaiar no sábado, o Salgueiro levará para a Sapucaí uma das homenagens mais honradas e necessárias de todos os tempos, um tributo à carnavalesca Rosa Magalhães. Com o enredo intitulado “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira, o Salgueiro fechará o carnaval de 2026, sendo a última escola da terça-feira, 17 de fevereiro.

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COMISSÃO DE FRENTE

No seu segundo ano à frente do quesito pelo Salgueiro, Paulo Pinna e seus 15 componentes apresentaram uma coreografia saudosista, relembrando a icônica comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense, criada pelo coreógrafo Fábio Mello em 2004, no enredo “Breazail”. Vestidos de bruxa, com um figurino que remete diretamente ao utilizado em 2004, que era verde, as personagens que antes faziam feitiçaria para transformar o pau-brasil em vermelho passaram a usar a tinta para avermelhar o próprio figurino, em um jogo simbólico de inversão cromática.

Assim como a comissão original de 2004, a do Salgueiro se apresentou sem elementos cênicos, apostando exclusivamente na força da coreografia. A apresentação foi impecável naquilo a que se propôs, com uma dança solta, expansiva e que ocupou toda a pista, revelando semelhanças claras nos gestos e desenhos coreográficos da obra original.

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Trata-se de uma coreografia que exige alto grau de alinhamento e sincronia entre os componentes, tarefa sempre complexa nesse tipo de proposta, mas que o Salgueiro executou com maestria e segurança. O entrosamento do grupo e a leitura clara dos movimentos reforçaram a narrativa proposta, sem ruídos ou descompassos.

A caracterização facial de bruxa ficou primorosa, contribuindo decisivamente para a construção estética da cena e para a ambientação mística pretendida pela comissão.

Em suma, com uma proposta baseada na memória afetiva do carnaval e na valorização da dança como elemento central, a comissão de frente do Salgueiro apresentou uma coreografia limpa, bem executada e carregada de significado.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O sempre excelente casal do Torrão Amado, Sidclei Santos e Marcella Alves, que já tem gabaritado o quesito por três anos seguidos, fez uma apresentação esplêndida.

Com um figurino branco, com algumas rosas vermelhas, o casal arrancou gritos e aplausos de quem assistiu, tamanho foi o afinco e a destreza contidos na apresentação.

O casal é imbatível junto, mas, se colocassem uma parede dividindo os dois ou se vendassem os olhos deles, nada mudaria, pois a sintonia e a sincronia são perceptíveis de longe nessa dupla.

Sidclei desempenhou o papel de um galanteador em torno de Marcella, conduzindo de maneira segura, técnica e charmosa o seu bailado.

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Já Marcella, com o seu longo mastro, que nem lhe permite segurar um pedaço da bandeira, dançou com enorme segurança, mantendo-a o tempo todo desfraldada. Além de conduzir o pavilhão com um controle impecável, ela executa todo o bailado com enorme elegância e delicadeza.

Para coroar a apresentação, o casal reafirmou por que é referência absoluta no quesito. Com técnica apurada, leitura precisa da coreografia e uma conexão que dispensa artifícios, Sidclei Santos e Marcella Alves entregaram um bailado de altíssimo nível. Uma atuação madura, impactante e digna de quem, ano após ano, transforma excelência em marca registrada na Sapucaí.

HARMONIA E SAMBA

Com uma comunidade comprometida como a salgueirense, abraçando o samba como sempre, foi fácil a obra de Rafa Hecht, Marcelo Motta e suas respectivas parcerias cair na boca do povo. Parece que a Sapucaí entendeu a importância de homenagear Rosa Magalhães nesta oportunidade e canta o samba com a alma. Da avenida às arquibancadas, é notável que todos estão brincando de carnaval com esse samba.

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O desempenho do intérprete Igor Sorriso é elogiável, assim como o trabalho magistral do diretor musical Alemão do Cavaco.

Como síntese desse momento, o Salgueiro mostrou que a comunhão entre comunidade, obra e execução ainda permanece, e o resultado transcende a técnica. O samba ganhou vida própria na avenida, impulsionado por um canto coletivo forte e emocional.

EVOLUÇÃO

O andamento da escola na pista oscilou e de maneira acentuada. Ora a escola andava morosamente, ora estava em um ritmo mais rápido, o que, após a bateria entrar no segundo recuo, fez a escola acelerar o passo. Em alguns momentos, algumas alas ficaram bem espaçadas para evitar clarões na pista.

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Fica o ponto de atenção para o ensaio técnico do sábado seguinte. São correções possíveis e esperadas em ensaios técnicos que, uma vez sanadas, tendem a garantir uma evolução mais fluida e segura na avenida. Destaque positivo para a vibração dos componentes e a espontaneidade durante todo o ensaio técnico.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Viviane Araujo em estado de graça, foi mais uma noite em que ela deu um show à parte. Vestida de cisne, toda de branco, homenageando a comissão de frente feita por Rosa Magalhães na Imperatriz Leopoldinense em 2005, no enredo ‘Uma Delirante Confusão Fabulística’, Vivi saudou todo o público e esbanjou simpatia pela avenida.

O paradão da bateria, com o violino sendo tocado, emocionou o público. Em um dos momentos, os componentes soltaram bexigas vermelhas, brancas e rosas que voaram pelo ar, enquanto uma luz rosa iluminava a avenida, causando um efeito emocionante, como se estivessem enviando aqueles balões pra celebrar alguém que está no céu.

Vila Isabel transforma Sapucaí em terreiro e quintal com canto arrebatador e excelente atuação do casal

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Por Marcos Marinho, Guibsom Romão, Marielli Patrocínio e Matheus Morais

Antes mesmo de a Vila Isabel pisar oficialmente na pista, a Marquês de Sapucaí já havia sido transformada em terreiro e quintal azul e branco. O canto catártico da comunidade e do público, sustentado desde os primeiros versos por Tinga à frente do carro de som, e a atuação de excelência do casal de mestre-sala e porta-bandeira marcaram o primeiro ensaio técnico da escola para o Carnaval 2026. Em um treino de forte adesão coletiva e alto rendimento musical, a Vila apresentou domínio do samba de ponta a ponta e performances que consolidaram a escola como um dos grandes destaques da noite. A escola será a segunda a desfilar na terça-feira de Carnaval, com o enredo “Macumbebê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, com pesquisa do enredista Vinícius Natal.

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COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Vila Isabel, apresentada no primeiro ensaio técnico na Marquês de Sapucaí, parte de uma proposta dramatúrgica que remonta ao fundamento da relação entre samba e macumba. Coreografada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a abertura do desfile encontra na trajetória de Heitor dos Prazeres o eixo para afirmar que samba e religiosidade se constituem mutuamente na história da cultura negra carioca.

Essa leitura se organiza já na composição do elenco e nos figurinos. A maior parte dos bailarinos surge vestida de branco, com indumentárias que remetem aos paramentos de pessoas iniciadas no candomblé, configurando a cena como um espaço ritual. No centro da narrativa está o personagem-pivô, representação de Heitor dos Prazeres, vestido com colete e calça azuis, camisa e sapatos brancos, cores que dialogam com a identidade visual da Vila Isabel. Ao seu redor, dois bailarinos incorporam a ancestralidade do homenageado: Oxum, em figurino dourado e com um espelho cobrindo o rosto, e Xangô, em tons vermelhos, empunhando seus oxês.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

A comissão entra nos módulos de julgamento no trecho “Nossa favela branca e azul do céu” e encontra no refrão principal, “Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê Xangô”, o eixo da construção coreográfica. A cada saudação, o orixá citado assume o centro da cena, executando movimentos associados à sua simbologia ritual. Oxum protagoniza sua dança; em seguida, Xangô entra em cena. Desde esse primeiro momento, a Vila Isabel estabelece com clareza a ideia de retorno ao terreiro, ao quintal, ao espaço onde samba e macumba se misturam sem separação.

Outros trechos do samba aprofundam essa leitura. No verso “Negro Príncipe de Ouro”, seguido por “Um Ogã Alabê, macumbeiro”, a cena se reorganiza em roda: o personagem de Heitor samba no centro, interage com os iniciados e estabelece um diálogo corporal que traduz com precisão a relação entre samba e religiosidade. O movimento da roda, os gestos e a ocupação do espaço reafirmam que essas manifestações se formam no mesmo chão.

Há, portanto, uma afirmação clara: é nesse quintal-terreiro que Heitor dos Prazeres se forma, articula sua espiritualidade e se torna sambista. A comissão traduz essa origem comum em cena, construindo uma leitura fina sobre a indissociabilidade entre samba e macumba, sem recorrer ao didatismo ou a efeitos grandiosos.

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O destaque individual fica para o personagem-pivô, que estabelece comunicação direta com o público e assume com clareza o papel de eixo narrativo da comissão. Em comparação aos ensaios de rua, a apresentação na Sapucaí torna a leitura da proposta mais evidente, sobretudo pela entrada dos figurinos e acessórios, que organizam e potencializam o sentido da cena.

Não se trata de uma comissão baseada em impactos espetaculares, mas de um trabalho consistente, de leitura clara e bem resolvida, que aposta na força simbólica e na coerência dramatúrgica. Ao abrir seu desfile retomando o fundamento da relação entre samba e macumba, a Vila Isabel transforma a Sapucaí, simultaneamente, em terreiro e quintal, gesto que sintetiza com precisão o que o enredo propõe e o que a escola afirma logo nos primeiros passos de sua apresentação.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane viveram uma grande noite na Marquês de Sapucaí. Com uma performance de alto nível, marcada por entrosamento, vigor e refinamento estético, o casal se afirmou como um dos grandes destaques do ensaio. A dança da dupla se destaca pela beleza do cortejo, pela condução segura da cena e pela forma elegante e potente com que defenderam o pavilhão da Vila Isabel, entregando uma apresentação que desde já se inscreve entre as mais consistentes desta segunda noite de ensaios técnicos.

Vestindo prata, Dandara conduziu o pavilhão com graciosidade e elegância, enquanto Raphael, em terno branco, apresentou uma condução firme e precisa. Juntos, defenderam o pavilhão da Vila Isabel com domínio pleno da cena, articulando cortejo, bailado e apresentação do pavilhão de forma orgânica e envolvente. A dança do casal se impôs pela sintonia nos movimentos, pela presença cênica e pela clareza com que dialoga com o enredo.

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A observação da coreografia nos módulos de julgamento se estrutura a partir do trecho do samba “Sonhei Macumbembê, sonho Samborembá”. É nesse momento que Dandara entra em cena com rápidas bandeiradas e giros velozes, instaurando uma dimensão onírica que atravessa toda a apresentação do casal. Esse gesto inicial funciona como um disparador dramatúrgico: a porta-bandeira parece abrir um portal que transporta a Sapucaí para outra dimensão temporal, alinhando o bailado à proposta narrativa do enredo.

No refrão principal, “Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê, Xangô”, o casal oferece um dos momentos mais marcantes da noite. Na primeira execução do trecho, Raphael e Dandara apresentam um bailado clássico de mestre-sala e porta-bandeira, com giros rápidos, desenho limpo e rigor técnico. Na repetição do refrão, a coreografia se transforma: Dandara passa a incorporar gestos associados à simbologia de Oxum, enquanto Raphael responde com movimentos ligados à simbologia de Xangô, acompanhando as citações do samba.

Esse momento ganha ainda mais potência com a alteração da iluminação da pista, que passa a destacar exclusivamente o casal. A Sapucaí parece suspender o fluxo para observar a cena, criando um efeito de encantamento que acrescenta densidade à performance. Trata-se de um instante de grande impacto sensorial e simbólico, em que bailado, luz e música se alinham com precisão.

Outro trecho de grande beleza acontece quando o samba diz “Pintar a Unidos de Vila Isabel”. Nesse momento, Raphael e Dandara simulam o gesto de pintar o próprio pavilhão, incorporando o verso à coreografia de forma inventiva e sensível. É um detalhe que reforça a relação entre dança e narrativa, sem quebrar a fluidez do bailado.

Dandara se destaca especialmente pela elegância e pela qualidade dos giros, que nos ensaios de rua apareciam mais leves e que, na Sapucaí, ganharam força, vigor e projeção. Os giros são executados sem hesitação, com finalizações precisas e sincronização absoluta com Raphael. O casal chega junto aos pontos de marcação, mantém o olhar vivo e estabelece uma comunicação intensa entre si e com o público, evidenciando um trabalho consistente de ensaio e lapidação coreográfica.

A coreografia encontra seu fechamento simbólico no trecho “Pode até fazer quizumba, só não pode separar”, posicionando o casal como tradução viva da indissociabilidade entre samba e macumba que atravessa o enredo. Raphael e Dandara flutuam pela Sapucaí com leveza e controle, sustentando a proposta ao longo de toda a pista.

A dupla apresenta, sim, todos os elementos necessários para alcançar a pontuação máxima no desfile oficial. A apresentação no primeiro ensaio técnico credencia Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane à prateleira de cima dos casais de mestre-sala e porta-bandeira do Grupo Especial, pavimentando desde já uma defesa de pavilhão capaz de emocionar público e jurados no Carnaval de 2026. Trata-se de uma atuação de excelência, que combina rigor técnico, sensibilidade cênica e leitura fina do enredo, confirmando um trabalho maduro, preciso e profundamente conectado à proposta da Vila Isabel.

SAMBA E HARMONIA

Foi arrebatador o início do ensaio técnico da Vila Isabel. Já nos primeiros versos cantados por Tinga, antes mesmo de a escola entrar na avenida, a Sapucaí veio abaixo, cantando em plenos pulmões o samba de 2026. O impacto inicial revela uma comunidade com a obra na ponta da língua e um samba que estabelece, desde a largada, uma relação direta e explosiva com público e componentes.

O canto da escola é indiscutivelmente forte, sobretudo nos momentos centrais da obra. Pré-refrão e refrão principal explodem na boca do componente da Vila Isabel, criando sucessivas ondas de resposta ao longo da pista. Há potência, volume e, principalmente, entrega coletiva. A sensação é de que o samba já foi completamente incorporado pela comunidade, que canta de ponta a ponta com segurança e convicção.

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À frente do carro de som, Tinga dá um show à parte. Desde o aquecimento, o intérprete atua como verdadeiro condutor do canto, impulsionando a Sapucaí a cantar junto. Ele demonstra domínio absoluto da obra e sabe como poucos incentivar o público a responder no momento certo, especialmente na convocação do refrão principal, que cresce e explode sob sua condução. Tinga também reconhece os instantes em que precisa dialogar diretamente com o componente da Vila para manter o vigor do canto, equilibrando comunicação, comando e musicalidade.

O carro de som sustenta esse trabalho com eficiência, oferecendo base para que o intérprete possa brincar com a obra, convocar o público e mobilizar o povo do samba. Um dos momentos mais marcantes do ensaio acontece aos 38 minutos, quando a escola executa um paradão e toda a Sapucaí canta, em volume impressionante, o refrão principal. A cena sintetiza a força do samba e o grau de adesão coletiva alcançado pela Vila Isabel.

De forma geral, o canto da escola se mantém forte ao longo de toda a apresentação e se destaca como o mais potente da noite. O componente canta tudo, sem quedas abruptas ou dispersão, revelando um nível elevado de assimilação da obra. Há, no entanto, um ponto de atenção: na segunda metade do ensaio, percebe-se uma leve queda de rendimento no canto. A força se mantém, mas com menor intensidade, o que indica a necessidade de ajustes para garantir sustentação plena de ponta a ponta.

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. O rendimento do samba, a resposta da comunidade e a relação construída com o público confirmam a potência da obra. O canto da Vila Isabel é forte, envolvente e profundamente coletivo, um samba que convoca, que emociona e que transforma a Sapucaí em um grande coro.

EVOLUÇÃO

A evolução da Vila Isabel no primeiro ensaio técnico se sustenta, antes de tudo, na segurança com que a comunidade domina o samba. Com a obra na ponta da língua, as alas evoluem com confiança e fluidez, permitindo que os corpos estejam mais livres e disponíveis para brincar, interagir entre si e dialogar com o público. Essa familiaridade com o samba se traduz diretamente em uma evolução leve, solta e prazerosa de acompanhar.

No início do desfile, a escola apresenta uma evolução mais rápida, especialmente até a passagem da comissão de frente e do casal de mestre-sala e porta-bandeira pelos módulos espelhados. Após esse momento inicial, o ritmo da evolução se torna mais cadenciado, permitindo maior acomodação das alas e melhor organização do conjunto na pista.

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Na metade do tempo de apresentação, a Vila Isabel cria um forte impacto visual ao iluminar a Sapucaí com luzes azul e branca, enquanto os totens que representam as alegorias soltam fogos de artifício. O recurso funciona não apenas como efeito visual, mas como elemento dinamizador da evolução, renovando a energia dos componentes e criando novos picos de envolvimento ao longo do desfile.

Um dos pontos positivos do ensaio é justamente a capacidade da escola de propor diferentes momentos dentro da evolução. Paradões, efeitos de luz e fogos são utilizados de maneira estratégica para evitar uma apresentação linear e estimular o componente a manter o canto, a presença e a entrega corporal. Esses recursos ajudam a sustentar o rendimento da escola e apontam caminhos importantes para equilibrar evolução e harmonia, especialmente na segunda metade do desfile, quando o canto apresenta leve queda de intensidade.

Vale destacar a condução do segundo recuo da bateria, realizada com tranquilidade e boa leitura de pista. A escola reduz momentaneamente o ritmo da evolução para permitir a entrada da bateria no recuo, enquanto a ala de passistas ocupa o espaço de forma orgânica. Os componentes seguem cantando, brincando e interagindo, mantendo a fluidez do conjunto sem rupturas ou desorganização.

O saldo da evolução é amplamente positivo. A Vila Isabel evolui com naturalidade, controle e segurança, construindo uma apresentação fluida, bem distribuída no tempo e marcada por momentos de renovação de energia.

OUTROS DESTAQUES

Destaque para a bateria “Swingueira de Noel”, comandada por Mestre Macaco Branco, que teve papel central no rendimento da escola. Em diálogo direto e afinado com a ala musical, a bateria apresentou um desempenho de alto nível e se consolidou como um dos pilares da noite. Com domínio absoluto do samba, executou bossas pensadas para a obra e sustentou com segurança a pulsação da escola ao longo de todo o percurso, garantindo base rítmica consistente para canto, evolução e interpretação.

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Outro ponto que chamou atenção foi a presença da rainha de bateria Sabrina Sato, que desfilou com fantasia nas cores do Brasil. Além da presença cênica, Sabrina protagonizou momentos de afeto e descontração ao interagir com Gael, filho do mestre Macaco Branco, criando momentos de muita fofura na Avenida. Detalhes que ajudam a compreender a força afetiva deste ensaio técnico da Vila Isabel.

Freddy Ferreira analisa bateria da Portela no ensaio técnico na Sapucaí

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Uma grande apresentação no ensaio técnico da bateria “Tabajara do Samba”, da Portela, marcando a estreia do mestre Vitinho. Uma bateria portelense com seu característico peso de surdos, musicalidade refinada nas bossas e nível técnico apurado nos mais diversos naipes.
Na parte da frente do ritmo da Portela, um naipe de chocalhos de nítida virtude sonora coletiva tocou interligado a uma ala de tamborins de alta qualidade técnica. O casamento musical entre chocalhos e tamborins — ambos uníssonos — foi o ponto alto do belo trabalho das peças leves portelenses, que ainda contaram com um naipe de agogôs sólido, executando convenções rítmicas e pontuando as variações melódicas do samba da escola. Uma ala de cuícas segura tocou de forma ressonante, auxiliando também no preenchimento musical da cabeça da bateria. Na primeira fila do ritmo, um naipe de xequerês se exibiu de modo correto, assim como ritmistas tocando tambor de ilú, que também deram sua contribuição rítmica às peças leves.
Na cozinha da Águia, percebeu-se uma afinação de surdos extremamente acima da média. Os marcadores de primeira e segunda foram firmes e precisos, enquanto os surdos de terceira ficaram responsáveis pelo típico balanço da bateria da Portela. Uma ala de repiques tocou de forma coesa junto a um naipe de caixas bastante consistente, com toque coletivo de destaque e a clássica rufada portelense bem pontuada.
Bossas de alto impacto musical foram exibidas com segurança durante todo o cortejo. Sempre baseadas nas nuances melódicas do samba, imprimiram musicalidade e se aproveitaram da pressão sonora dos surdos para a construção da sonoridade. Conversas rítmicas envolvendo os mais diversos naipes fizeram parte das paradinhas, ajudando a impulsionar os componentes da agremiação com bossas dançantes. Destaque para o belo arranjo do refrão do meio, com direito à bateria abrindo no centro para um momento coreografado e dançante. Esse, aliás, foi um dos instantes em que a “Tabajara” mais se movimentou, atraindo forte ovação popular. As movimentações coreografadas em meio ao ritmo provocaram aplausos sempre que exibidas, evidenciando um conjunto que alcançou alta performance técnica aliada a uma entrega energética.
Um grande ensaio técnico da “Tabajara do Samba”, na estreia de Vitinho como mestre de bateria da Portela. Um ritmo genuinamente portelense foi apresentado, aliado a bossas dançantes e impactantes. A coletividade musical apurada de todas as peças foi um dos grandes destaques da bateria da Águia. Um ensaio técnico que renova a esperança de uma “Tabajara” pronta para brigar pela pontuação máxima no desfile oficial, após uma exibição segura, técnica e vibrante.

Freddy Ferreira analisa bateria do Paraíso do Tuiuti no ensaio técnico na Sapucaí

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Um ensaio técnico muito bom da bateria “Super Som”, do Paraíso do Tuiuti, sob o comando do mestre Marcão. Uma conjunção sonora de destaque foi exibida. Bossas com boa musicalidade auxiliaram a impulsionar o melodioso samba da escola de São Cristóvão, garantindo boa receptividade do público quando executadas.

Na parte da frente do ritmo do Tuiuti, um naipe de chocalhos de exímia qualidade técnica tocou interligado a uma ala de tamborins com trabalho coletivo bem caprichado. O casamento musical integrado entre tamborins e chocalhos contribuiu para o brilho sonoro das peças leves, que também contou com o luxuoso auxílio de um naipe de cuícas ressonantes.

A cozinha da “Super Som” apresentou uma afinação de surdos acima da média, auxiliando marcadores de primeira e segunda a realizarem um trabalho sólido e preciso. Os surdos de terceira deram um balanço único aos graves. Repiques de boa técnica musical tocaram junto de um naipe de caixas bem consistente, evidenciando o grande trabalho envolvendo os médios. Na parte de trás do ritmo, surgiram as congas, utilizadas magistralmente em uma bossa específica.

Bossas altamente musicais foram executadas de forma cirúrgica pela “Super Som”. O belo solo das congas no refrão do meio tem potencial para ser arrebatador no dia do desfile oficial. Exibido junto de chocalhos e cowbell, promete ser um dos pontos altos da musicalidade da escola. A conversa rítmica dos diversos arranjos, aproveitando-se das nuances do melodioso samba do Tuiuti, mostrou-se apropriada e funcional durante todo o cortejo.

Uma apresentação muito boa da bateria “Super Som”, dirigida pelo mestre Marcão. Um ritmo bem vinculado à bela obra da escola do bairro imperial foi exibido. Uma bateria do Tuiuti que esbanjou classe ao tocar, executou arranjos requintados e apresentou ótima fluência entre os mais diversos naipes, graças a uma boa equalização de timbres. Mestre Marcão, seus diretores e ritmistas têm motivos de sobra para saírem satisfeitos e otimistas desse grande treino no campo de jogo, visando o desfile oficial.