Cantora, compositora, atriz e dançarina, ela se tornou uma das primeiras funkeiras trans do Brasil a construir uma trajetória marcada pela música e pelo ativismo LGBT. No Carnaval de 2026, Pepita, aos 43 anos, ocupa o posto de rainha de bateria da Unidos de São Lucas, um dos lugares mais simbólicos do carnaval.
“Em alguns momentos na avenida, eu me emocionava muito, quando vi as pessoas gritando o meu nome e se emocionando com a minha presença ali. Então, acho que foi um desfile gostoso e muito prazeroso para mim. Estou leve, agora posso dizer que meu ano vai começar”, diz Pepita.
Ela é uma das poucas mulheres trans à frente de uma bateria no carnaval paulistano. Como rainha de bateria, ela fez sua passagem no desfile que ocorreu neste sábado, iniciando o carnaval de São Paulo com as escolas do Grupo de Acesso 2, no Sambódromo do Anhembi.
A agremiação traz para a avenida o enredo “Meu Tambor é Ancestral… Heranças e Riquezas de Um Povo… Um Brasil de Festas Pretas!”, que exalta a musicalidade afro-brasileira e as festas de matriz africana. E é com a bateria da escola, a USL, comandada pelo mestre Andrew Vinicius, que a escola da Zona Leste de São Paulo ganha ritmo.
Pepita também vive um ano simbólico em sua vida, no qual vê as conquistas deixarem ainda mais marcas em sua história de luta.
“Acho que está sendo especial, primeiro porque fiz aniversário, cheguei aos 43 anos viva e sendo mãe, esposa e filha. Isso em um país louco, cercado de preconceito. Então acho que, para este ano, o carnaval também foi uma pitada diferente, mais gostosa, um grito: ‘ó, eu tô aqui, eu existo, deixa eu viver’”, ressalta.
A história de Pepita revela uma conquista importante para a representatividade no samba, reafirmando o Carnaval como espaço de resistência e visibilidade.
“Acho que posso ser chamada de incômodo para algumas pessoas. Tirar as pessoas da zona de conforto, aquela dúvida: ‘Quem é essa, quem é essa?’. Sou a Pepita, rainha de bateria da Unidos de São Lucas, da USL, e comando com muito carinho e com muito respeito essa bateria. Muito prazer, serei o seu incômodo”, conclui a rainha de bateria.
Kamila Simioni, de 39 anos, entrou no ritmo acelerado do Carnaval de 2026, mostrando no desfile da Imperatriz da Pauliceia a sua estreia como rainha de bateria em São Paulo. A rainha não poupou energia para brilhar na avenida. Ela, que também é musa da Barroca Zona Sul, vive uma nova fase dentro do samba paulistano, já que vem se dedicando intensamente para defender duas cores no Anhembi.
Foto: Ana Carla Dias/CARNAVALESCO
“Foi uma experiência maravilhosa. É a primeira vez que eu saio como rainha de bateria. Já desfilo pelo segundo ano consecutivo como musa, mas rainha, não que seja mais ou menos importante, mas é diferente. A responsabilidade, o peso que a gente carrega, fazem ser uma experiência maravilhosa. Estou super feliz, super grata, foi incrível”, diz Kamila.
A Imperatriz da Pauliceia levou para a avenida o enredo “Congá, o Altar Sagrado da Minha Fé”, que propõe diversidade e o fim da inteligência religiosa. A bateria “Swing da Pauliceia” performou aos comandos da mestre Rafaella Rocha, a “mestra Rafa”, um dos poucos nomes femininos na regência de baterias em São Paulo. Ela é reconhecida como a primeira mulher a comandar uma bateria no Sambódromo do Anhembi.
Kamila Simioni, que distribuiu simpatia com o público na avenida, ganhou projeção nacional após participar do reality show A Fazenda, da TV Record. Quando anunciada oficialmente como rainha de bateria da Imperatriz da Pauliceia para o Carnaval de São Paulo 2026, Kamila assumiu uma das funções mais simbólicas do desfile.
“Quando me convidaram, não tinha noção do tamanho da responsabilidade que tinha. Em todos os ensaios eu vivenciava, mas, principalmente hoje, senti um pouco o peso dessa responsabilidade. Mas espero que tenha tirado de letra, espero que tenha ficado todo mundo feliz, a diretoria, a presidência e a comunidade”, conta.
À frente da “Swing da Pauliceia”, ela diz que sentiu firmeza para a conquista do acesso: “As expectativas são as melhores, tenho certeza de que a gente vai conseguir”, confirmou a rainha.
A X-9 Paulistana foi a quarta escola a desfilar no Sambódromo do Anhembi, no último sábado, pelo Grupo de Acesso II do Carnaval de São Paulo de 2026. A apresentação da escola da Parada Inglesa foi marcada por um bom conjunto de fantasias, e a atuação primorosa do carro de som e do casal de mestre-sala e porta-bandeira enriqueceram a travessia da Passarela do Samba, concluída após 50 minutos. O enredo da comunidade da Zona Norte foi “Yvy Marã Ei – A Busca pela Terra Sem Mal”, assinado pelo carnavalesco Amauri Santos.
Após cair para o Acesso II no ano anterior, a X-9 entrou com a responsabilidade de mostrar seu valor como bicampeã do Carnaval e propôs um desfile com temática que já a consagrou no passado. Houve quesitos muito bem apresentados, mas os problemas que a escola teve durante sua passagem, especialmente em Evolução, podem comprometer as expectativas quanto ao resultado da agremiação.
COMISSÃO DE FRENTE
O coreógrafo Pedro Bueno foi o responsável pelo desenvolvimento da comissão de frente, intitulada “O encontro da X-9 Paulistana com o mito guarani”. O quesito representou simbolicamente o encontro da escola com essa cultura originária, por meio da figura do pajé Guirapoty, líder espiritual da mitologia guarani, que recebe de Nhanderu a mensagem sobre a destruição do mundo e a busca pela Yvy Marã Ei, a “terra sem mal”.
A X-9 Paulistana foi personificada por uma protagonista vestida de bailarina, que carregava o símbolo da escola. Durante a dança, um outro indígena, com uma fantasia levemente distinta dos demais, interagia diretamente com ela, que se via em meio à narrativa do mito do surgimento da “terra sem mal”. Foi difícil identificar com clareza a narrativa em meio a poucos elementos visuais, muitas vezes caracterizados apenas por gestos corporais, o que fez a abertura do desfile ser pouco impactante.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Fotos: Felipe Araújo e Woody Henrique/Liga-SP
O primeiro casal da X-9, formado por Igor Sena e Júlia Mary, desfilou com fantasias representando “Anhangá e Jurará-Açú (O Espírito e a Mulher-Tartaruga)”. Foi uma apresentação de alto nível, mesmo em meio à chuva constante que caiu durante todo o desfile. A performance estava de acordo com a temática, com o mestre-sala carregando um maracá funcional como adereço de mão, que trouxe um elemento único à dança. Houve o cumprimento de todas as exigências do quesito em todos os módulos em que foram observados, o que, somado à criatividade da dupla, ajudou a melhorar o início do desfile da escola.
ENREDO
A X-9 Paulistana desfilou no Carnaval de 2026 com um enredo inspirado no mito guarani da Yvy Marã Ei, a “terra sem mal”, lugar sagrado onde não existe sofrimento e que pode ser encontrado neste mundo ou em outra dimensão. A narrativa foi construída como um diálogo simbólico entre a escola e o povo originário, acompanhando o ensinamento transmitido espiritualmente pelo criador Nhanderu ao pajé Guirapoty e o significado desse mito como orientação para a vida em sociedade. A proposta destacou a relação entre espiritualidade, natureza e convivência humana, encerrando o desfile com uma reflexão sobre as práticas necessárias para se alcançar essa terra imaculada diante das agressões sofridas pelo mundo nos últimos séculos.
Analisando a sinopse e com base nos elementos apresentados na Avenida, a sensação é de que a escola tentou abranger informação demais no reduzido espaço que o Grupo de Acesso II proporciona. O elemento contemporâneo foi representado apenas por algumas alas, já direcionando a narrativa para a utópica Yvy Marã Ei. Será preciso aguardar para ver como os jurados interpretarão a densidade do enredo.
ALEGORIA
A X-9 Paulistana desfilou com dois carros alegóricos. A primeira alegoria recebeu o nome de “O incêndio, o dilúvio e a nova morada: Yvy Marã Ei” e representou o incêndio que, na mitologia guarani, foi ordenado pelo Criador Nhanderu para destruir a Terra, de modo a se erguer a “terra sem mal”, seguido da ascensão do pajé Guirapoty ao Yvy Marã Ei. A segunda, nomeada “Imaginando um futuro ancestral”, retratou a utopia de fazer do mundo em que vivemos uma verdadeira Yvy Marã Ei.
O conjunto alegórico cumpriu sua função narrativa dentro do enredo. O principal problema, porém, foi a qualidade do acabamento dos elementos. Grampos de fixação do plotter que fazia referência às águas no abre-alas estavam facilmente visíveis, além de a separação do corte do tecido estar excessivamente aparente. O segundo carro também apresentou falhas no acabamento de elementos visuais em forma de folhas de plantas, empobrecendo o conjunto visual geral da alegoria.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias apresentado pelas alas da X-9 se propôs a compor a linha narrativa da proposta do enredo dentro do que é descrito pela letra do samba. A representação visual até a Ala 7 retrata elementos da primeira parte da letra e do refrão do meio, com o restante da letra sendo representado no decorrer do desfile.
Em contraste com o conjunto alegórico apresentado, as fantasias de todas as alas e destaques contaram com bom acabamento e fácil leitura dentro de suas propostas individuais. A leveza e a qualidade dos materiais foram destaque, permitindo aos componentes brincar o Carnaval sem maiores preocupações, fazendo das vestimentas da X-9 Paulistana um dos principais destaques do desfile.
HARMONIA
A comunidade da X-9 Paulistana cantou corretamente o samba ao longo da Avenida. No início do desfile, a bateria da escola apostou em um apagão no refrão do meio, mas foi o único momento em que isso ocorreu, mesmo tendo havido uma resposta satisfatória dos componentes na altura da pista em que foram observados. No geral, os desfilantes fizeram sua parte para enriquecer a apresentação da escola.
EVOLUÇÃO
A escola teve problemas ao longo da Avenida, mesmo com os portões abrindo já com o carro de som cantando o samba. O início do desfile foi lento, e a X-9 precisou acelerar o passo a partir da metade final da passagem pelo Sambódromo. Uma baiana caiu em frente ao penúltimo módulo de jurados do quesito, e a escola continuou andando, o que causou um problema de interação com a destaque de chão que vinha logo atrás e também a abertura de um buraco em relação à ala seguinte. Também foram observados excessos de abertura de espaços entre elementos, em especial durante as apresentações do primeiro casal pelos módulos. Os portões foram fechados com exatos 50 minutos e 33 segundos, evidenciando as dificuldades do quesito no desfile.
SAMBA-ENREDO
Assinado pelos compositores Gui Cruz, Clayton Reis, Portuga, Reinaldo Marques, Imperial, Rogério, Digo Sá, Luciano Rosa, Luizão, Willian Tadeu e Vitor Gabriel, o samba-enredo da X-9 Paulistana foi defendido na Avenida pelos intérpretes Daniel Collête e Royce do Cavaco. Da primeira parte da letra ao refrão do meio, o mito guarani do surgimento da Yvy Marã Ei é retratado com considerável detalhamento. A segunda parte retrata a destruição da natureza nos tempos atuais e o anseio para que o mundo consiga alcançar um estado equivalente ao da “terra sem mal”.
É uma letra carregada de poesia e que conta com uma melodia serena, mas, ao mesmo tempo, poderosa. Consegue narrar o enredo com fidelidade, sem pecar na proposição de ser cantado pela comunidade em um desfile carnavalesco. Na Avenida, o samba foi interpretado com maestria pelos veteranos intérpretes, enriquecendo, assim, o desfile da X-9 Paulistana.
OUTROS DESTAQUES
Se houve um destaque especial e imponente além dos apontados, esse foi a Rainha da bateria “Pulsação Nota 1000”, Valéria de Paula. Além da beleza exuberante e de muito samba no pé, a majestade mostrou que não esteve na Avenida apenas para levantar o público, ajudando a fechar o espaço do recuo dos ritmistas em grande estilo. Os comandados do mestre Keel também tiveram um bom desempenho, apostando em um apagão bem executado e em bossas criativas que contribuíram positivamente para o desfile da X-9 Paulistana.
A Imperatriz da Pauliceia chegou para transformar o Anhembi em uma grande procissão, com santos católicos, entidades da umbanda e orixás do candomblé. Com o enredo “Congá – O Altar Sagrado da Minha Fé”, a escola da Zona Leste inseriu sua leitura religiosa no início da noite de sábado, sendo a segunda a desfilar pelo Grupo de Acesso 2.
Com forte chuva, pista molhada e um problema na entrada da última alegoria, a agremiação terminou dentro do tempo permitido, com os portões se fechando no laço, aos 49:56.
Apesar de eventuais deslizes, a escola apresentou alegorias e fantasias que dialogaram com o enredo, sempre em torno da religiosidade e de suas expressões na cultura popular. No fim, a Pauliceia deixou a avenida comemorando, com componentes cantando alto e demonstrando alívio e felicidade pelo desfile realizado.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, coreografada por Paula Penteado, apresentou a cena “A força do meu Congá”, concebida como um clamor simbólico de fé e devoção que abriu os caminhos da escola. A proposta reuniu diferentes figuras do universo devocional, como Exu, Ogum, Oyá, Zé Pilintra, Erê, Caboclo, Baiana, Preto Velho, Maria Padilha, São Miguel Arcanjo, Jesus e Nossa Senhora de Aparecida.
Fotos: Felipe Araújo e Woody Henrique/Liga-SP
O tripé materializou o altar sagrado do congá, acionado em momentos específicos da coreografia, com esculturas de Exu, Caboclo e Preto Velho na parte traseira do elemento. No chão, a coreografia se desenvolveu por cerca de cinco minutos, com todos os personagens em cena.
Em outro momento, as entidades ocuparam o tripé em uma coreografia que remetia a um ritual. Cerca de dois minutos depois, os personagens desceram e cercaram a figura de uma devota que clamava no congá.
A apresentação teve leitura clara, com coreografia bem executada e repetida ao longo das cabines.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal formado por Ronaldo Ferreira e Leila Cruz representou o encontro simbólico entre a religiosidade católica e as religiões de matriz africana. Mesmo sob forte chuva, o casal se apresentou com segurança, sem erros aparentes. A coreografia dialogou com o samba-enredo, explorando movimentos de cortejo, giros e apresentações firmes, além de passos que remetiam a danças afro. Nas cabines, o tempo médio de apresentação foi de cerca de três minutos, com performance que remeteu a uma saudação ao congá.
HARMONIA
A condução do canto, com Dom Junior à frente do carro de som, manteve o clima empolgado ao longo do percurso, com resposta perceptível das arquibancadas.
Já o rendimento das alas variou: as alas 3 e 4 demonstraram um pouco mais de cansaço a partir da metade da avenida, enquanto as alas 5 e 6 sustentaram o canto alto e forte até o fim, além de manterem boa organização de fileiras.
ENREDO
O desenvolvimento do enredo se estruturou com clareza a partir da ideia do congá como um altar em movimento, organizado em forma de procissão ao longo da avenida. A narrativa foi conduzida de maneira contínua, com setores que dialogavam entre si e mantinham unidade visual e simbólica, permitindo ao público acompanhar a proposta sem rupturas de leitura.
A abertura dos caminhos com Exu, a exaltação de Ogum no abre-alas e a sequência dedicada aos diferentes orixás se articularam de forma progressiva, com alas e alegorias construindo uma leitura encadeada do universo devocional apresentado. A presença recorrente de búzios nas fantasias reforçou essa unidade temática e contribuiu para a coesão do conjunto, que se manteve consistente até a culminância no louvor às Yabás.
EVOLUÇÃO
O desfile apresentou boa fluidez geral, com alas organizadas e deslocamento contínuo na maior parte do percurso. Houve, porém, um problema na entrada da última alegoria, que atrasou momentaneamente o andamento do desfile e exigiu que a ala posicionada à frente do carro aguardasse para avançar. A situação gerou uma ameaça de abertura de buraco naquele trecho, sem que o espaço vazio chegasse a se configurar um erro. No restante do desfile, as alas se mantiveram bem, com destaque para a última alegoria, com crianças cantando forte em cima do elemento alegórico.
SAMBA
O samba-enredo, conduzido por Dom Junior, sustentou o andamento do desfile mesmo sob forte chuva, com boa resposta do público e das alas nos momentos de maior apelo. A bossa aplicada no refrão do meio se mostrou empolgante na avenida, criando um ponto de energia que ajudou a manter o fôlego do canto coletivo.
Estreante no comando do carro de som, Dom Junior chamou o público e conduziu o samba com presença e entrega, sem se deixar abater pelas condições climáticas. A resposta das alas oscilou em alguns trechos, acompanhando variações observadas na harmonia, mas o conjunto manteve o andamento que esse samba forte pede.
FANTASIAS
As fantasias acompanharam de forma direta o desenvolvimento do enredo, com alas que representaram a mistura de credos, entidades e orixás. A ala 2 chamou atenção de forma positiva e apresentou dois elencos distintos: um ligado ao batucajé, com trajes e coreografias inspirados nas danças das religiões afrodiaspóricas, e outro que simbolizou a tirania religiosa da “casa-grande”, representada pela figura de padres. A leitura visual foi clara e estabeleceu contraste direto entre fé, resistência cultural e repressão religiosa.
A ala dedicada a Obaluaiê se destacou visualmente pela inspiração em trajes tradicionais de devotos, com uso de palhas e discos recobertos de pipoca no chapéu e na gola.
A ala de Nanã apresentou boa concepção estética, mas com limitações de funcionalidade, já que o “chorão” do chapéu dificultava a visão de alguns componentes. Na ala 9, que representou Oyá, foi observado um caso pontual de fantasia com estrutura se desprendendo durante o desfile, contornado com solução improvisada para manter o componente em evolução.
ALEGORIAS
As alegorias materializaram os eixos centrais do enredo, com o abre-alas dedicado a Ogum, trazendo simbologia do orixá, uso marcante de búzios e efeitos de fumaça, além de figuras que remetiam à devoção popular, como referências a procissões de São Jorge. A última alegoria, “Louvor às Yabás”, apresentou impacto visual e crianças animadas à frente, cantando o samba com energia.
Foi justamente esse carro que enfrentou dificuldade na entrada na avenida, vindo com oscilação perceptível, o que impactou momentaneamente a evolução do setor. A alegoria trazia uma escultura giratória no topo, com movimento tão sutil que a intenção cênica não ficou totalmente clara, sem ser possível afirmar se a rotação lenta fazia parte da proposta ou se houve limitação técnica.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Swing da Pauliceia” foi um dos destaques do desfile, sob o comando da consolidada mestra Rafa. A apresentação concentrou atenção pela caracterização ligada a Ogum e pela interação direta com a arquibancada Monumental, no setor B. Em frente ao setor, os ritmistas realizaram coreografia na bossa, virando para o público e levantando a arquibancada. A presença de Mestra Rafa, primeira e única mulher no comando de uma bateria no carnaval paulistano, mais uma vez se destacou pela condução segura e impacto.
A rainha de bateria Ariê também foi um dos destaques de chão da escola da Zona Leste, com forte interação com o público, cantando o samba e sambando à frente da bateria no ritmo conduzido.
Terceira escola a desfilar pelo Grupo de Acesso 2 neste sábado, a Torcida Jovem realizou um desfile que pode brigar pelo acesso, a depender dos outros desfiles. A agremiação oriunda da torcida organizada do Santos Futebol Clube apresentou poucos problemas, tendo uma questão ou outra, sobretudo no quesito Evolução. Porém, o fato é que os apontamentos positivos são maiores.
A Jovem teve uma comissão de frente de fácil leitura e rica em detalhes, que foi o ponto alto do desfile da agremiação. Vale destacar também o casal Gabriel Vullen e Joice Prado, que passou pela avenida com segurança. Aparentemente, a escola conseguiu consertar um problema de anos anteriores: o quesito Alegoria evoluiu corretamente, com carros bem acabados, principalmente o abre-alas. Entretanto, a escola precisou apertar o passo no final, fechando os portões de sua apresentação com 49 minutos e 33 segundos.
Fotos: Felipe Araújo e Woody Henrique/Liga-SP
A Torcida Jovem apresentou no Anhembi o enredo “Axé, raízes e ritmos da cultura afro-baiana”, desenvolvido por uma comissão de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob a liderança do coreógrafo Fernando Lee, a dança representou “Nkisis: as Entidades Sagradas do Povo Bantu”. A coreografia consistiu em mostrar a religiosidade da Bahia em conexão com a África. De fácil leitura, os guerreiros bantos eram o ponto central da encenação, dançando pela pista o tempo todo e ficando responsáveis por fazer a saudação ao público e a apresentação da escola, itens obrigatórios no manual do julgador.
A comissão também contava com a presença de uma criança e uma senhora. A senhora segurava um livro e apresentava ao garoto o mundo da África baiana, enquanto ele entregava sua cabeça à religião em determinado momento da coreografia. Na parte de trás, havia um tripé simbolizando a árvore da vida e, de dentro dele, surgiam as entidades, chamadas de nkisis, que seguravam objetos típicos dos orixás. As fantasias foram de fácil leitura, assim como toda a dança. A comissão de frente foi um grande ponto positivo para a escola no desfile.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Gabriel Vullen e Joice Prado desfilou representando “Rei e Rainha Africanos”. Com fantasias luxuosas nas cores dourado e preto, o casal repetiu o desempenho que vem apresentando há alguns anos e realizou um desfile à altura do que a escola precisa.
Na análise das três primeiras cabines de mestre-sala e porta-bandeira, o casal executou todos os movimentos obrigatórios que o quesito exige, além de apresentar uma coreografia bem convincente dentro do samba e em consonância com o enredo. Todos os movimentos de matriz africana foram claros. O sincronismo nos movimentos e nas finalizações foi nítido. Assim, Gabriel e Joice repetiram a dose do ensaio técnico e realizaram um desfile que pode render frutos à Torcida Jovem na apuração.
HARMONIA
A comunidade alvinegra apresentou um canto satisfatório. É nítido que a escola teve um crescimento considerável neste quesito em 2026, e o desfile traduziu isso. O volume não foi alto, mas a escola soube executar o canto do samba-enredo em sincronia com a bateria e o carro de som.
O refrão de cabeça, o refrão do meio e os versos finais do samba foram as partes mais cantadas, principalmente a segunda parte, pois, em alguns trechos, a melodia sobe e exige maior projeção vocal, tornando o canto mais audível.
ENREDO
A Torcida Jovem aprecia essa linha de enredo afro misturada com elementos do Brasil. Em 2025, falou sobre o Maranhão e utilizou referências semelhantes no desfile e, agora, seguiu para a Bahia. Além disso, manter essa linha permite à escola reaproveitar materiais de anos anteriores, o que foi muito bem feito neste desfile.
A bateria “Firmeza Total”, comandada pelo mestre Caverna, sabe explorar bossas dentro desse tipo de tema. O desfile, com suas alegorias e fantasias distribuídas em nove alas de enredo, apresentou de forma satisfatória a África Baiana, especialmente sua essência religiosa, traduzida principalmente na comissão de frente, que foi o ápice do desfile.
EVOLUÇÃO
Mesmo com o ritmo cadenciado do samba-enredo, foi possível notar o comprometimento dos componentes com a evolução. Os desfilantes dançaram entre suas fileiras sem comprometer o espaçamento. As fantasias leves contribuíram positivamente para isso.
Na evolução coletiva, não foram observados espaçamentos graves, como buracos ou divisão de escola. Todas as grades foram respeitadas. A escola correu risco em dois momentos: o quadripé “Blocos de Axé”, que veio no meio da escola carregando uma destaque, apresentou muita dificuldade de deslocamento. Várias pessoas precisaram ajudar para que o elemento prosseguisse pela pista e, por vezes, ele chegou a ficar torto. Ainda assim, as lideranças conseguiram contornar a situação sem gerar buracos.
Outro momento delicado ocorreu entre o elemento alegórico da comissão de frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, quando algumas grades se abriram, chegando perto de formar um buraco. Conclui-se, portanto, que a evolução da Torcida Jovem foi satisfatória, restando observar como os jurados avaliarão esses pontos.
SAMBA
O desfile marcou a estreia do intérprete Ivanzinho pela escola alvinegra. Ele, junto ao carro de som, conduziu o samba de forma satisfatória. Durante o percurso da avenida, o cantor não utilizou muitos cacos, priorizando um canto mais linear. O entrosamento da ala musical com a bateria “Firmeza Total” fluiu de maneira correta.
FANTASIAS
Na ótica dos jurados, as fantasias apresentadas foram de fácil entendimento. Em relação à criatividade, destacaram-se a segunda ala, que representou Exu, e a sexta ala, que simbolizou a “Coroa de Preto”. Esta última se notabilizou por exibir frases como “Respeite a minha ancestralidade” e “Poder preto”.
O acabamento foi satisfatório. Os materiais utilizados foram simples, mas suficientes para representar bem a escola no quesito. O grande destaque das vestimentas foi a leveza, sem exageros: costeiros e adereços de cabeça leves permitiram uma evolução adequada dos componentes.
ALEGORIAS
Se a parte plástica foi um problema em anos anteriores, desta vez a Jovem apresentou um belo conjunto. Sem falhas de acabamento, a escola trouxe soluções inteligentes, incluindo um quadripé no meio do desfile, apesar das dificuldades para seu deslocamento. De fácil compreensão, a primeira alegoria representou a África, e a segunda, a Bahia.
O carro abre-alas desfilou com o tema “Nações Africanas – Grandeza de Cultura”. Uma alegoria de grande beleza, toda em preto e branco, com esculturas de mulheres negras nas laterais e, na parte superior, uma árvore simbolizando as raízes africanas. O carro contou com a presença das crianças e da velha guarda.
A segunda alegoria simbolizou a “Bahia que vibra axé”. Em uma cena emocionante para os torcedores da agremiação, o saudoso fundador da Torcida Jovem, Cosme Damião, foi retratado como a figura que conduzia um trio elétrico. O carro, bastante colorido, apresentou elementos como esculturas de negros tocando tambor e coqueiros, representando a Bahia em sua essência.
OUTROS DESTAQUES
Os ritmistas, comandados pelo mestre Caverna, desfilaram representando o “Malê Debalê”, optando pela estratégia de marcar o samba e realizar bossas em momentos estratégicos.
A ala das baianas passou inteira cantando o samba. As mães do samba da Torcida Jovem desfilaram vestidas como “Guardiãs da Ancestralidade”.
O Paraíso do Tuiuti se prepara para viver um novo capítulo em sua história. Em entrevista exclusiva ao CARNAVALESCO, o presidente da agremiação, Renato Thor, revelou que a escola ganhará uma nova quadra logo após o desfile deste ano. O anúncio, que promete sacudir a comunidade de São Cristóvão, é fruto de uma articulação direta com a Prefeitura do Rio de Janeiro.
Segundo Thor, a confirmação veio através de uma ligação do prefeito Eduardo Paes e do ex-presidente da Embratur, Marcelo Freixo. O novo espaço será construído no próprio bairro de São Cristóvão, em uma localização estratégica, ainda mais próxima da comunidade. Para o presidente, o momento não poderia ser mais oportuno para o pavilhão azul e amarelo.
“Acho que está na hora de o Paraíso do Tuiuti ter a sua quadra. A que temos hoje é a paixão da nossa vida, mas não cabe mais o Tuiuti lá dentro”, afirmou o dirigente, destacando que o crescimento da escola nos últimos anos exige uma estrutura mais ampla para comportar seus segmentos e torcedores.
Clima de festa em São Cristóvão
O presidente não escondeu o entusiasmo ao dar a notícia para os seus componentes e moradores do bairro. A promessa é que o novo “terreiro” seja recebido de braços abertos, marcando um salto de infraestrutura para a agremiação que se consolidou no Grupo Especial.
“Dei essa notícia hoje para a comunidade, para todo o bairro de São Cristóvão. Estou muito feliz”, celebrou Thor, reforçando o compromisso com o bem-estar e o futuro da escola. A expectativa agora se volta para o pós-carnaval, quando as obras devem começar para garantir que o Tuiuti tenha uma sede à altura de sua grandeza.
O Amizade Zona Leste abriu, no último sábado, os desfiles das escolas de samba em São Paulo no Carnaval de 2026. A apresentação do Trevo, válida pelo Grupo de Acesso II, teve no canto da comunidade e na bateria os principais destaques da apresentação, concluída após passagem de 48 minutos pelo Sambódromo do Anhembi. O enredo da agremiação foi “Xangô e Iansã – O casal dendê no Ylê do Amizade”, assinado pelo carnavalesco Rogério Sapo.
Um desfile agradável para quem pisa na Avenida disposto a brincar o carnaval. O comprometimento da comunidade da escola fez valer sua presença, cantando de forma empolgada conforme um tranquilo cortejo ocorria sem preocupações. A grande atuação da bateria contribuiu para esse alto astral, e a constante chuva, que caiu durante todo o desfile da escola, não desanimou os desfilantes em nenhum momento. Mesmo que a escola tenha apresentado problemas em certos quesitos, é inegável que o primeiro desfile do Carnaval de 2026 foi digno do palco principal da folia paulistana.
COMISSÃO DE FRENTE
O coreógrafo Renato Martins foi o responsável pelo desenvolvimento da coreografia da comissão de frente, nomeada “Guerreiros”. O quesito representou na Avenida Xangô e os guerreiros do Reino de Oyó. Na primeira parte da apresentação, o protagonista é treinado pelos coadjuvantes para batalhar, sendo coroado como rei por eles ao fim da segunda etapa.
Fotos: Woody Henrique e Felipe Araújo/Liga-SP
A apresentação ocorreu ao longo de duas passagens do samba, com os elementos destacados se desenvolvendo na primeira etapa. O protagonista ora evolui em sincronia com metade dos coadjuvantes, ora com os outros, até que, no momento da coroação, ele passa a ditar os movimentos até o final, antes de sentar-se no trono que percorreu a Avenida sob um tripé.
A dança é de leitura fácil e cumpriu bem a demanda do quesito. Porém, ao longo do primeiro módulo, um dos componentes teve problemas com o cinto de sua fantasia. Problemas de acabamento das roupas, gerando inconformidades visuais, podem comprometer o julgamento da escola.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal do Amizade, formado por Victor Hugo e Pâmela Sousa, desfilou com fantasias representando os “Súditos de Oyó”. A dupla foi acompanhada por um grupo de guardiões, que os circundava ao longo da Avenida. O casal apresentou certa inconsistência na dança durante a apresentação no primeiro módulo, mas a preocupação maior ocorreu durante a passagem pela última cabine do quesito, onde a porta-bandeira teve uma clara dificuldade de segurar o pavilhão para executar sua dança. Os problemas identificados podem dificultar sua avaliação.
ENREDO
O enredo do Amizade Zona Leste foi ilustrado por meio de quatro diferentes atos. O primeiro, apresentado pela comissão de frente, seguido pelo carro abre-alas e encerrado na Ala 2, narrou a trajetória de Xangô. A Ala 3 e o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira representaram, respectivamente, o amor e a união do casal de orixás. O terceiro ato, da Ala 4 até o segundo carro, abordou a história de Iansã.
A apresentação foi encerrada com uma exaltação ao sincretismo religioso no Brasil, com destaque para o terceiro casal, que homenageou a agremiação coirmã Unidos de Santa Bárbara, fundada em um terreiro dedicado à Orixá dos Raios e cujo nome faz referência à santa associada à entidade. Um enredo de fácil leitura por meio dos quesitos visuais apresentados ao longo da Avenida, que, combinados com a letra do samba, formaram um conjunto adequado dentro da proposta da escola. Pode ser um fator positivo no dia da apuração.
ALEGORIAS
O Amizade Zona Leste desfilou com dois carros alegóricos. A primeira alegoria recebeu o nome “Reino de Oyó” e teve como foco principal referenciar a figura do orixá Xangô, que, na crença iorubá, foi rei daquelas terras. A segunda, nomeada “Raios de Iansã”, exaltou a força de Iansã, destacando especialmente os raios dentre os elementos associados à entidade.
O conjunto alegórico cumpriu bem o seu papel dentro do enredo. Os orixás estavam representados com suas cores tradicionais e transmitiram a mensagem com clareza. O acabamento das alegorias era simples, mas sem falhas, o que pode significar que a escola pode esperar por boas notas no quesito.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias apresentado por meio das alas do Amizade Zona Leste condiz com a divisão explicada anteriormente no quesito Enredo, formando um conjunto narrativo objetivo, alinhado à divisão dos atos do enredo.
As vestimentas eram de fácil leitura e cumpriram bem o seu papel narrativo, mas em algumas alas foram observadas falhas de acabamento, como partes ausentes em fantasias de baianas e falhas em adereços nas Alas 4 e 8. A depender da observação dos jurados e da quantidade de irregularidades, alguns décimos podem ser perdidos no quesito.
HARMONIA
Um dos pontos mais fortes no desfile do Amizade Zona Leste, o canto da comunidade foi forte e animado ao longo de todas as alas que desfilaram pelo Sambódromo do Anhembi. A chuva até tentou atrapalhar a festa, mas a disposição dos desfilantes em brincar o carnaval animou até mesmo a bateria da escola, que respondeu com apagões sempre bem respondidos. Destaque especial para a Ala 9, que estava radiante e empolgada.
EVOLUÇÃO
A evolução da escola ao longo da Avenida não teve preocupações. O cortejo ocorreu com tranquilidade e fluidez, com os portões fechando após 48 minutos de desfile. Chamou atenção a demora da escola para iniciar sua apresentação, com a comissão de frente só começando a coreografar após seis minutos da sirene inicial. Essa situação pode explicar a decisão da escola de não realizar o recuo da bateria, que poderia ter comprometido o encerramento do desfile no tempo regulamentar. Conforme observado, é um quesito que pode trazer segurança para a escola na apuração.
SAMBA-ENREDO
Assinado pelos compositores Turko, Rafa do Cavaco, Maradona, Imperial e Fábio Souza, o samba-enredo do Amizade Zona Leste foi defendido na Avenida pelo carro de som comandado pelo intérprete Cris Santos. A primeira parte do samba é dedicada a Xangô, enquanto o refrão do meio sugere o encontro com Iansã. Já a segunda parte divide sua narrativa entre referências à orixá dos Raios, ao casal e ao sincretismo religioso. O refrão principal não desenvolve a história, funcionando apenas como elemento de exaltação dentro do tema do enredo.
É possível identificar a presença dos quatro atos apresentados pelos quesitos visuais. Entretanto, assim como a própria comissão de frente indica logo no início do desfile, há uma desproporção narrativa nos versos, com maior ênfase em Xangô. Trata-se de uma letra dentro dos padrões esperados para um desfile composto por poucos elementos, como se costuma ver no Grupo de Acesso II, mas que poderia apresentar maior equilíbrio narrativo.
Na Avenida, o samba do Amizade funcionou bem na voz da comunidade, mas o carro de som teve problemas para retornar a cantar após a execução de alguns apagões executados pela bateria. Resta ver a influência dessa falta de sintonia no julgamento do quesito.
OUTROS DESTAQUES
Comandada pelo mestre Vinícius Nagy, a “Batucada do Amizade” brincou à vontade com as oportunidades que a melodia do samba permite e executou um repertório generoso de bossas. A boa comunicação entre os ritmistas e a comunidade permitiu que apagões fossem executados e bem respondidos pelos desfilantes em vários momentos da Avenida. Fantasiada de “Rei Xangô”, a bateria cumpriu bem o seu papel de animar o público mesmo em meio à chuva constante.
Por Marielli Patrocínio, Matheus Morais, Guibsom Romão, Luiz Gustavo e Júnior Azevedo
Debaixo de forte chuva, a Acadêmicos de Niterói realizou um ensaio técnico marcante na Marquês de Sapucaí e mostrou consistência na apresentação do enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, que levará para a avenida no Carnaval 2026. Mesmo em condições adversas, a escola apresentou um desfile organizado, de leitura clara e forte carga emocional, com destaque para a comissão de frente e para a presença da primeira-dama Janja Lula, que participou do ensaio ao lado de artistas, intelectuais e personalidades ligadas à cultura e à política brasileira.
Assinada pelos coreógrafos Handerson Big e Marlon Cruz, a comissão de frente foi o grande destaque do ensaio. Com forte carga emocional e abordagem biográfica, a apresentação conta a trajetória do operário que se tornou presidente de forma sucinta, objetiva e facilmente compreensível para o público e para o julgamento.
A coreografia é executada por um corpo numeroso de bailarinos, dividido em dois grupos bem definidos: os boias-frias e os metalúrgicos. O elemento central da encenação é um tripé cenográfico em formato de andaime, que inicialmente abriga os metalúrgicos, enquanto os boias-frias ocupam a pista com uma dança dinâmica, de passos bem marcados e forte expressão corporal.
Na chegada do refrão, há uma troca de posições entre os grupos, com os metalúrgicos descendo para a dança e os boias-frias ocupando o andaime, o que imprime dinamismo e mantém a narrativa em constante movimento. Em momentos-chave, os dois grupos interagem diretamente, reforçando a ideia de coletividade e luta de classes presente no enredo.
O andaime se divide em quatro partes, ampliando o espaço cênico e permitindo uma apresentação central pensada especialmente para a cabine espelhada, onde a coreografia ganha frontalidade e impacto visual. Trata-se de uma comissão extensa, com duração superior a uma passada e meia do samba, mas que sustenta o interesse do início ao fim, mantendo coerência narrativa e eficiência técnica.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Emanuel Lima e Thainara Matias realizou uma apresentação forte e emocionante, mesmo sob chuva intensa. Vestidos com figurinos em azul-claro, demonstraram grande sincronia, conexão e domínio da dança.
A coreografia combina leveza e fluidez com passos marcantes, bem definidos, valorizando o pavilhão da escola. Thainara conduziu a bandeira com extrema segurança, deslizando pela pista apesar do piso molhado, enquanto Emanuel apresentou uma dança segura e expressiva.
Fotos: Divulgação/Rio Carnaval
Um dos momentos mais simbólicos da apresentação acontece no trecho “revolucionário é escolher seus heróis”, quando o casal faz o símbolo do “L” com as mãos, gesto que dialoga diretamente com o enredo e reforça a leitura política e biográfica da proposta.
SAMBA E HARMONIA
A Acadêmicos de Niterói aposta em um samba extenso, mas de fácil entendimento do enredo e boa aceitação tanto do público quanto da comunidade. A obra flui bem ao longo do desfile, com destaque para o refrão do meio, que funciona como ponto alto musical.
O intérprete Emerson Dias demonstrou potência vocal e bom controle da condução, sustentando o samba do início ao fim com segurança. A ala musical acompanhou bem o intérprete, mantendo coesão e sustentação rítmica.
A harmonia se manteve em nível regular durante toda a passagem da escola, sem grandes oscilações, com todas as alas cantando de forma consistente, mesmo sob chuva, o que reforça o envolvimento da comunidade com a obra.
EVOLUÇÃO
Apesar de ser uma escola de menor porte, a Acadêmicos de Niterói apresentou uma evolução fluida e bem organizada. A escola aproveitou bem a largura e o comprimento da pista, com alas bem enfileiradas, espaçadas e corretamente preenchidas.
O desfile transcorreu sem corridas ou travamentos, e a agremiação atravessou a Sapucaí dentro do tempo regulamentar, demonstrando planejamento e controle da evolução, mesmo em condições climáticas desfavoráveis.
OUTROS DESTAQUES
A presença da primeira-dama Janja Lula foi um dos momentos mais simbólicos do ensaio. Janja desfilou com carisma e empolgação, integrando uma ala especial ao lado da ministra Anielle Franco e de diversas personalidades da cultura brasileira, como Chico Rubens Paiva, Ivo Herzog e sua esposa, Antônio Pitanga, Dadá Coelho, Thomas Aquino, Júlia Lemmertz, Malu Valle, Paulo Betti, Denise Fraga, Kleber Toledo, Débora Lamm, Inês Viana e Bete Mendes, entre outros.
A ala formada por essas figuras públicas reforçou o caráter simbólico, político e cultural do enredo, ampliando sua repercussão para além da avenida.
Mesmo sob chuva intensa, a Acadêmicos de Niterói deixou uma impressão positiva no ensaio técnico, apresentando um trabalho coerente, emocionalmente potente e tecnicamente bem estruturado. Um desfile que aponta para uma narrativa clara, de forte apelo simbólico, e que promete provocar reflexão e emoção no Carnaval 2026.
Por Guibsom Romão, Marielli Patrocínio, Matheus Morais, Júnior Azevedo e Luiz Gustavo
No seu segundo ensaio técnico, a Unidos da Tijuca levou à Marquês de Sapucaí e mostrou que está preparada para a caminhada rumo ao Carnaval 2026. Em um ensaio marcado por simbolismo e emoção, a escola transformou a Sapucaí em palco de resistência ao exaltar a trajetória de Carolina Maria de Jesus. Com uma comissão de frente potente e majoritariamente feminina, um casal de mestre-sala e porta-bandeira que uniu técnica e entrega, um samba cantado em coro consciente e uma evolução segura, ainda que cadenciada, a Tijuca apresentou um conjunto coeso, no qual narrativa, estética e identidade caminharam lado a lado. Entre livros erguidos, punhos cerrados e versos que ecoaram como manifesto, a escola reafirmou a força de seu enredo e deu sinais de que pode emocionar no desfile oficial. A agremiação encerra os desfiles da segunda-feira de carnaval com o enredo “Carolina Maria de Jesus”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira.
Composta por 11 mulheres trajando vestidos em amarelo e azul e quatro homens com figurinos em tons de bege, a comissão de frente da Unidos da Tijuca, sob a direção coreográfica de Ariadne Lax e Bruna Lopes, traduziu em movimento a força simbólica do enredo. Mais do que executar passos, o grupo construiu uma narrativa corporal potente. Punhos cerrados, gestos amplos e expansivos, expressões densas: as bailarinas não apenas dançam, elas dramatizam a trajetória de Carolina Maria de Jesus, a catadora de papel que transformou a própria vivência em literatura e conquistou, pela palavra, o seu lugar ao sol.
A apresentação tem início no verso “Sou a liberdade, mãe do Canindé”. Nesse momento, a pivô se adianta ao módulo dos jurados e se apresenta como Carolina. O gesto do punho erguido, recorrente ao longo da coreografia, ganha múltiplos significados: luta, resistência e reivindicação. É um símbolo que atravessa a encenação e sintetiza a essência da homenageada.
O protagonismo é assumidamente feminino. Enquanto os homens, ao fundo, desfraldam uma bandeira com a imagem de Carolina e a inscrição “A luta continua”, as bailarinas retiram de seus bolsos exemplares de Casa de Alvenaria. O livro, erguido ao alto como antes o punho fechado, transforma-se em instrumento de manifestação. A palavra passa a ocupar o lugar do grito; a literatura, o espaço da denúncia.
No desfecho, a pivô abre a saia e revela a frase “Quem inventou a fome são os que comem”, síntese da crítica social que permeou tanto a vida quanto a obra de Carolina. Seja como catadora, seja como escritora, sua luta sempre foi contra a fome física e estrutural.
Na cabine espelhada, a coreografia assume forma circular, ampliando a percepção dos movimentos e conferindo tridimensionalidade à apresentação, o que valoriza ainda mais o desenho cênico pensado pelas coreógrafas.
Em suma, foi apresentada a mesma coreografia da semana anterior, com igual vigor, carga emocional e execução segura. Pela prévia, é possível projetar que a versão oficial tem tudo para emocionar a Sapucaí e reafirmar a potência narrativa da comissão tijucana.
“Nossa coreografia permaneceu a mesma da semana passada. Obtivemos êxito no dia de hoje, cumprindo o que estamos desenvolvendo há mais de três meses nesses exaustivos ensaios. Assim, hoje concluímos com sucesso aquilo que viemos propor e realizar nesta noite”, comentou Bruna.
“Nós optamos por fazer o que já vínhamos repetindo nos ensaios de rua e o que fizemos no primeiro ensaio técnico. Optamos por repetir a coreografia e há, sim, alguns spoilers do que virá no desfile oficial. Temos elementos, obviamente, para engrandecer o espetáculo e a história de Carolina, para ser contada da melhor forma”, completou Adriane.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Assim como a comissão de frente, Matheus Miranda e Lucinha Nobre cruzaram a Marquês de Sapucaí com a missão clara de emocionar e cumpriram. O figurino do casal não era apenas indumentária, mas discurso. No terno de Matheus, inscrições e referências à homenageada; no vestido de Lucinha, uma saia construída a partir de colagens de imagens, papéis e livros que remetiam diretamente ao universo de Carolina Maria de Jesus. Havia ali simplicidade estética, mas, sobretudo, densidade simbólica. A vida e a obra da escritora estavam costuradas em cada detalhe.
Um dos momentos mais tocantes acontece no verso “Aos barracos do Borel”. Ao som desse trecho, Lucinha abraça o pavilhão com delicadeza e intensidade, em um gesto que transcende a coreografia e se transforma em declaração de amor ao morro que dá origem à escola. É um abraço que carrega pertencimento, memória e identidade.
Fotos: Divulgação/Rio Carnaval
Durante toda a apresentação, Lucinha dançou com a bandeira plenamente desfraldada, exibindo-a com imponência e executando suas tradicionais bandeiradas com firmeza e segurança. Há técnica, mas há também entrega.
Matheus, por sua vez, riscou a avenida com elegância e precisão. Seguro nos movimentos, cortejou sua porta-bandeira com destreza, conduzindo a dança com leveza e domínio do espaço. Juntos, formaram um conjunto harmônico, no qual técnica e emoção caminharam lado a lado, reafirmando a capacidade do casal tijucano.
Lucinha Nobre declarou: “Hoje a gente veio mais devagar, no ritmo da fantasia. Semana passada a gente ‘botou fogo’. Esta semana, tentamos vir no ritmo da fantasia, do que queremos entregar semana que vem. A gente sabe que semana que vem é o resultado final de tudo o que vem sendo trabalhado desde abril. Não tivemos férias. Começamos a trabalhar em maio para chegar nisso que estamos apresentando aqui. Ensaiávamos duas vezes por semana, de forma solitária, eu e Matheus, com a ajuda da Ariadne também, que pegou nosso trabalho no início junto com a Gabriela. Depois fomos crescendo… aí chegou a Camille, que veio de Portugal, ela já trabalha comigo há muito tempo. Estamos nesse processo de busca da perfeição e do entrosamento. Todo mundo falava que a gente não tinha muito entrosamento. Existe muito preconceito com casal que está começando, e é muito difícil recomeçar. Mas a história da minha carreira como porta-bandeira é essa: eu nada fiz além de recomeçar. Não tenho vergonha nenhuma da minha trajetória; muito pelo contrário, tenho muito orgulho. Tenho orgulho de ter caminhado até aqui, de ter honrado todos os pavilhões pelos quais passei, de ser querida. Hoje tinha muita gente da Mocidade aqui e eu recebi o carinho dessas pessoas. Estou muito, muito feliz. Acho que meu reencontro com a Tijuca, 15 anos depois, tinha que acontecer. E, como leitora de Carolina Maria de Jesus quando adolescente, eu me sinto parte dessa história, desse enredo. Hoje fiz questão de assinar o nome de vários componentes, diretores, pessoal de ala, bateria, cantores, todo mundo assinou essa blusa, porque aqui a gente traz a palavra da Carolina Maria de Jesus. Quero dizer também que essa roupa foi feita pela Érica Modesto, idealizada pela Érika, com confecção da Ágatha Lacerda. Estou muito feliz e orgulhosa”.
Matheus afirmou: “Emoção. É o que define a Tijuca hoje. A escola está de peito aberto e recebeu esse enredo da mesma forma. Todo mundo comprou a ideia, todo mundo está feliz, comemorando tudo ao mesmo tempo. É uma mistura de sentimentos, porque representar e falar de Carolina não é mole. Representar toda a sua história, suas obras… é incrível compartilhar esse momento. Entrei muito emocionado e, quando deu a largada, eu incorporei. Incorporei a história da Carolina, o personagem, todas as mulheres pretas que lutaram. É isso que vou fazer até o desfile: incorporar e emocionar”.
EXPECTATIVA PARA O DESFILE OFICIAL
Lucinha: “Eu espero que faça jus a tudo o que a gente trabalhou, porque trabalhamos muito. Eu só quero que as pessoas olhem, vejam e reconheçam. Que entendam e curtam como eu estou curtindo”.
Matheus: “Que venha logo. Todo mundo está ansioso, com o coração acelerado, o ano inteiro pensando nisso. Estar aqui é uma oportunidade única. Espero o ano inteiro para viver esse momento e estou ansioso para chegar aqui e compartilhar minha felicidade, minha emoção e meu sorriso”.
SAMBA E HARMONIA
Com a introdução de Lissandra Oliveira, cantora de apoio da escola, dizendo: “Sou Carolina Maria de Jesus, aquela que venceu a fome, reescrevendo o Brasil”.
O ponto alto do samba na avenida acontece quando ele se aproxima do pré-refrão e desemboca no refrão principal: “Sou a liberdade, mãe do Canindé / muda essa história, Tijuca”. A reação da comunidade é instantânea. A melodia cresce, o canto ganha corpo, impulsionado pela pulsação da bateria e pela condução segura do carro de som.
No paradão da bateria com o carro de som, o silêncio rítmico abriu espaço para um dos momentos mais arrebatadores do ensaio. De longe, ecoou forte o verso “Sou a liberdade, mãe do Canindé”. A frase atravessou a Sapucaí como um chamado.
Além de estar na ponta da língua, o samba da Tijuca é cantado com vontade e ânimo por sua comunidade, que o projeta da maneira que o enredo pede.
Marquinhos ArtSamba, em mais uma noite, fez uma apresentação exemplar e correta. Em um samba que não pede cacos nem brincadeiras, conduziu com maturidade e segurança.
Em suma, foi um coro que vibrou com consciência do que estava sendo dito. O gesto coletivo transformou o trecho em manifesto, fazendo da avenida um grande ato simbólico de resistência e afirmação.
“Hoje foi bem melhor. Às vezes a gente executa algo e não sai como o esperado; uma coisa é um ensaio de rua, outra é aqui na Marquês de Sapucaí. Geralmente executamos algumas coisas nos ensaios de rua para testarmos aqui; pode dar certo como pode dar errado. Na semana passada tentamos algumas coisas que não deram certo; hoje procuramos manter mais a cadência, cantar o samba mais reto, porque o samba pede. É um samba bonito. Só tenho que agradecer a essa rapaziada maravilhosa que está junto comigo. O som hoje foi muito bom; no início falhou um pouco, o fone não estava muito legal, mas depois se acertou, tudo dentro do que eles combinaram com a gente”, afirmou Marquinho Art Samba.
EVOLUÇÃO
Diferentemente do ensaio anterior, a Unidos da Tijuca apresentou uma evolução mais controlada e linear. As alas cruzaram a avenida com notável alinhamento, mantendo espaçamentos regulares e um ritmo cadenciado, mais desacelerado. A fluidez esteve presente, mas a escola optou por atravessar a Sapucaí com o “pé no freio”, administrando cada setor com cautela.
Não houve intercorrências nas transições, tampouco problemas nas entradas e saídas dos recuos de bateria, o que demonstra organização e domínio do tempo de desfile. Ainda assim, percebeu-se que, nos minutos finais, a escola manteve essa contenção de forma ainda mais acentuada, prolongando o andamento e encerrando o ensaio aos 74 minutos.
“Foi a nossa última oportunidade de pisar aqui antes do desfile oficial. Foi importante para testarmos algumas coisas que identificamos no último ensaio e que precisavam de ajustes, especialmente nas questões de evolução e harmonia. Fizemos o dever de casa e aproveitamos o ensaio de hoje para realizar esses ajustes. Agora vamos fazer um ensaio com a comunidade no Borel, que é sempre muito importante para a escola, porque pegamos o axé lá do morro para levar à avenida. A comunidade comprou a ideia do enredo e do samba. A escola está cantando muito, e acredito que a emoção será a marca do nosso desfile. A comunidade já está recebendo as fantasias, feliz da vida. Estamos entregando tudo com tranquilidade, o barracão também está pronto. Estamos preparados para fazer um grande desfile, à altura da Tijuca e à altura de Carolina”, explicou Elisa Fernandes, diretora de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
Outras alas desfilaram com livros nas mãos, elemento simbólico que se integrou com naturalidade à proposta do enredo. O gesto simples de erguer ou conduzir o livro durante o canto reforçou a ideia da palavra como instrumento de transformação.
Um dos momentos mais delicados e cativantes veio com o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por duas crianças. A presença dos pequenos trouxe leveza e esperança. O detalhe da chupeta amarrada na ponta do pavilhão é um gesto singelo, mas carregado de simbolismo: mistura de inocência, tradição e continuidade. Uma cena que reforça que o futuro da escola aprende, desde cedo, a amar e respeitar o seu pavilhão.
MESTRE CASAGRANDE
Balanço do ensaio: “Primeiramente, gostaria de agradecer ao meu presidente. Nesta semana, solicitamos alguns ajustes e ele prontamente nos atendeu, mostrando que não é apenas um gestor administrativo, mas também um grande gestor de pessoas. Quero parabenizar o presidente Gabriel David e toda a equipe pela melhoria no som, além de agradecer todo o esforço da Liesa. Falando da bateria, foi maravilhosa. Acho que conseguimos cumprir todas as metas que traçamos lá no nosso ensaio de rua e na quadra. Trouxemos isso para o ensaio técnico e o desempenho foi muito satisfatório. Fizemos as bossas onde queríamos, a bateria sustentou o samba o tempo inteiro e o entrosamento com o carro de som foi perfeito. O balanço é muito positivo”.
Expectativa para o desfile oficial: “A expectativa é a melhor possível. Estamos trabalhando muito, a bateria está focada, o grupo está muito unido. Sabemos da responsabilidade que é defender as cores da nossa escola, mas estamos preparados. Semana que vem é o dia de colocar em prática tudo o que ensaiamos nesses meses todos e, se Deus quiser, buscar a nota máxima e colocar a Tijuca no lugar que ela merece”.
Por Luiz Gustavo, Marielli Patrocínio, Matheus Morais, Guibsom Romão e Júnior Azevedo
A Estação Primeira de Mangueira pisou na Marquês de Sapucaí na última sexta-feira para realizar seu segundo e último ensaio técnico da temporada 2026, exibindo toda a força de seu explosivo e histórico chão. Foi um desempenho com cara de Mangueira: uma escola aguerrida, animada, cantando muito, com componentes felizes. A agremiação também contou com uma comissão de frente de bom nível, uma bateria tinindo, bom desempenho do samba e um casal em fase primorosa, com mais um rendimento irrepreensível. Matheus e Cintya se mostram um casal arrojado e com o espírito da velha Manga, de energia contagiante. Um ensaio substancialmente superior ao apresentado na semana anterior. A Verde e Rosa será a última escola a desfilar no domingo de carnaval, apresentando o enredo “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidney França.
Karina Dias e Lucas Maciel trouxeram uma comissão com os mesmos elementos do primeiro ensaio técnico: componentes representando as forças da natureza, com uma roupa rosa e um preto-velho como elemento central. Uma comissão esteticamente bonita e de bom impacto, com excelente sincronia e execução dos movimentos. Na segunda parte do samba, os integrantes simularam estar dentro da floresta por meio de um pano verde, um efeito simples e muito bem realizado. Tudo muito bem concatenado e bem amarrado, uma apresentação de muita qualidade.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Matheus e Cintya formam um casal em estado de graça neste pré-carnaval, com um arrojo de impressionar. Uma apresentação ousada, com alto grau de dificuldade, realizada com uma tranquilidade absurda por parte de ambos. Desde a entrada, com uma bela sequência de giros de Cintya, a série se mantém em excelente ritmo, com muito dinamismo na execução dos movimentos. Cintya intercala seu rodar característico, com o corpo levemente curvado, com giros mais suaves, todos cravados com muita categoria. Matheus brinca com as pernas em um bailado malandreado que beira a perfeição na execução dos passos, tanto nos rodopios evoluindo pela pista quanto nos giros em torno do próprio eixo. A coreografia tem alguns elementos baseados na letra do samba, como no refrão central, mas é predominantemente solta, em uma série que não amorna em momento algum. Um desempenho espetacular do casal neste ensaio.
Fotos: Divulgação/Rio Carnaval
EVOLUÇÃO
A Mangueira evoluiu com muita força pela Marquês de Sapucaí, preenchendo a pista com bastante volume e componentes utilizando muito os braços e brincando dentro das alas. Foi um excelente desempenho em termos de lateralidade e empolgação, mantendo uma evolução quente e sem arrastar pela avenida. A Verde e Rosa vem com algumas alas coreografadas, o que deixa a evolução mais marcada em alguns momentos, mas isso não travou a escola, que aproveitou o volume de espaço que as coreografias proporcionam.
Os desfilantes chegaram com muita tranquilidade aos metros finais do sambódromo, quando os diretores seguraram um pouco a escola para testar o canto e permitir que a bateria se apresentasse com mais calma, o que deixou a escola parada por alguns minutos. No geral, foi uma evolução bem correta e também vigorosa por parte da agremiação, que terminou seu ensaio com 76 minutos.
“Chegamos bem preparados para este último ensaio. O que tínhamos que acertar do ensaio anterior, acertamos. Eu vi uma escola sabendo desfilar, sabendo cantar; encontrou o ponto do samba que canta, encanta, evolui e dança, que são as premissas para buscarmos a nota técnica, a nota do jurado. Mas a Mangueira emociona, e eu acho que a escola está fazendo isso. Existem diversos trechos do samba em que a gente canta olhando para os componentes, apontando o dedo, pulando; isso faz a energia vir de dentro para fora. A Mangueira chega firme, chega bem para esta semana. Faltam umas quatro alas para entregar fantasia, o barracão está em ponto de bala para sair e desfilar. É agradecer a toda a diretoria, a todos os segmentos; a Guanayra é incansável, dá estrutura para a gente ensaiar, para colocar a escola na rua. Está chegando o dia 15, Mangueira é a última escola a desfilar. Vamos com tudo”, afirmou Dudu Azevedo, diretor de carnaval.
HARMONIA E SAMBA
O samba mangueirense teve um desempenho muito bom no ensaio técnico, levado com categoria por Dowglas Diniz, que teve a difícil missão de solar em várias bossas sem o acompanhamento dos apoios, sustentando o canto o tempo todo. A obra não cansou, também potencializada pelo ótimo desempenho da bateria, e alcançou bom rendimento não apenas nos refrãos, mas em trechos como o início da segunda parte e, principalmente, o momento que antecede o refrão de cabeça, quando há uma subida de tom no trecho “Yá, Benedita de Oliveira, mãe do morro de Mangueira, abençoe o jeito Tucuju”. A obra, que se mostra mais poética do que explosiva, exibiu grande funcionalidade e se manteve firme durante toda a passagem da escola.
O canto seguiu essa toada e foi bastante satisfatório durante praticamente toda a apresentação, com uma pequena queda na empolgação dos componentes nos últimos minutos, quando a escola segurou a evolução na altura do último módulo. De resto, foi um canto acompanhado por todas as alas, inclusive as coreografadas, que não deixaram o ritmo cair. O samba tem bastante variação melódica e alguns trechos em que o tom baixa, como na segunda parte do refrão central, mas nada disso comprometeu o forte desempenho da comunidade, que levou no gogó com potência. Um bonito momento da Mangueira, que mostrou enorme evolução em relação ao primeiro ensaio técnico no quesito.
OUTROS DESTAQUES
A bateria comandada por Rodrigo Explosão e Taranta Neto teve excelente desempenho, marcado pelo arrojo nas bossas, como a sustentada pelas caixas de marabaixo. Um ótimo rendimento que potencializou a passagem do samba da agremiação. Os mestres falaram sobre o ensaio e a perspectiva para o desfile oficial.
“Acho que o ensaio de hoje foi muito mais consistente do que o da semana passada. Claro que o primeiro ensaio tem aquela tensão a mais, por isso acho que o ensaio de hoje foi excepcional, nível de desfile, é o que esperamos repetir no domingo que vem. A expectativa é Mangueira no topo sempre, já entramos na avenida com esse pensamento. É chegar aqui, fazer o melhor para ajudar a escola e, consequentemente, ser campeã na quarta-feira”, disse Taranta.
“Foi um ensaio bastante consistente, a galera conseguiu limpar tudo o que a gente precisava do ensaio anterior. Hoje foi um ensaio com cara de desfile e, se Deus quiser, a gente vai fazer um pouco melhor do que isso para gabaritar a nota. O nosso intuito é sempre brigar pelo título, a escola está trabalhando muito desde quando escolheu o samba. Teve um trabalho da galera da harmonia junto com a gente, junto com a presidenta, colocando o barracão em dia. As fantasias já estão sendo entregues com uma semana, duas de antecedência. Agora nos resta chegar aqui, a bateria responder, cada um fazer a sua parte para a gente brigar por esse título”, declarou Rodrigo Explosão.
Evelyn Bastos veio à frente da bateria com uma fantasia que representava uma árvore e, como de costume, se destacou pela beleza, presença e samba no pé. Sem dúvida, uma raiz mangueirense. A ala das baianas veio bem vestida e rodando forte na Sapucaí, sem esquecer do samba na ponta da língua.