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‘Quarto de despejo se tornou uma camisa de força para Carolina Maria de Jesus’, Fernanda Felisberto fala sobre o desafio da Unidos da Tijuca para 2026

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A Unidos da Tijuca está preparando, para o Carnaval 2026, um enredo que promete emocionar, tendo como título o nome completo da homenageada: Carolina Maria de Jesus. A escolha do carnavalesco Edson Pereira para exaltar uma das maiores escritoras brasileiras do século XX tem sido elogiada no meio acadêmico e carnavalesco. Para a professora e pesquisadora Fernanda Felisberto, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a escolha é mais do que acertada, é fundamental para reafirmar a existência e a obra de Carolina.

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Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, Felisberto começou destacando um detalhe importante: a inversão recorrente do nome da escritora.

“Todo mundo troca. Fala: Maria Carolina de Jesus. Mas é Carolina Maria de Jesus. Então, a primeira coisa é a gente firmar a existência dessa mulher”, declarou a pesquisadora, lembrando que enfatizar, no título do enredo, o nome de Carolina é um gesto que resgata a existência e a obra da escritora, frequentemente esquecidas na literatura brasileira.

“É preciso tatuar no imaginário popular o nome dela completo: Carolina Maria de Jesus. A palavra tem força”.

Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais singulares da literatura brasileira, emergiu de condições de extrema adversidade para revolucionar o cenário literário nacional e internacional. Publicou sua obra mais conhecida, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, em 1960. O livro, um diário de sua vida na favela do Canindé, em São Paulo, alcançou um sucesso estrondoso, vendendo 10 mil cópias em apenas uma semana após seu lançamento. O impacto de sua escrita transcendeu as fronteiras do Brasil, sendo traduzido para 13 idiomas e conquistando reconhecimento internacional.

No entanto, como aponta Felisberto, o contraste entre o sucesso estrondoso de Carolina no exterior e a persistente invisibilidade de sua obra no Brasil revela um apagamento estrutural profundo e problemático. “Como é possível o Brasil não conhecer essa mulher e, no exterior, ela estar traduzida para 13 idiomas? Bom, tem algum problema aí. A gente sabe qual é esse problema: o racismo”, afirmou a pesquisadora, que investiga a relação do mercado editorial com a autoria negra e integra o comitê editorial que organiza os manuscritos de Carolina junto à Companhia das Letras.

Na avaliação de Fernanda Felisberto, limitar Carolina Maria de Jesus apenas ao “Quarto de Despejo” é também uma expressão do racismo, que insiste em aprisionar a escritora na narrativa da miserabilidade. “Quarto de despejo se tornou uma camisa de força para Carolina. Mas é só a ponta do iceberg da obra dela”, afirmou.

Para ela, o grande desafio da Unidos da Tijuca será o de revelar ao público outras facetas da autora — a romancista, a poeta, a mulher que escreveu um livro de provérbios e até gravou um LP — e, assim, afirmar seu direito de ser reconhecida em toda a sua diversidade literária e artística.

“A Tijuca, de alguma forma, vai querer mostrar [as outras facetas de Carolina]. Não sei se é uma tarefa fácil para o grande público que abriu a porta do ‘Quarto de despejo’ e não quis mais fechar. Isso também eu acho que é uma experiência do racismo, sabe? Porque é uma experiência de colocar essa mulher negra só na narrativa da miserabilidade”, refletiu.

O que não pode faltar: afeto e maternidade

Questionada sobre o que não poderia faltar no desfile da Unidos da Tijuca no Carnaval 2026, Felisberto não titubeou: “afeto e maternidade”.
“Olham para a Carolina o tempo todo como se ela fosse uma catadora de lixo que escrevia. Ela era uma escritora que catava lixo para sobreviver”, declarou a pesquisadora, que relembrou que a autora começa o livro “Quarto de Despejo” falando do aniversário da filha, Vera Eunice, e que queria comprar um livro.

A pesquisadora rebate ainda a ideia de que o enredo será de lamento: “Isso é reflexo de quem abriu a porta do Quarto de Despejo e não quis sair. O desfile pode e deve mostrar a inventividade, a criatividade e as subjetividades que existem nas camadas populares”.

Carolina e o Borel: cadernos que podem se abrir

Fernanda Felisberto aproximou a trajetória de Carolina da realidade da comunidade do Borel.

“A Carolina é uma representação. Muitas mulheres no Borel têm cadernos guardados em casa, com histórias lindas para contar, mas talvez nem acreditem que o que escrevem é literatura. O projeto literário canônico sempre excluiu essas vozes. Carolina faz uma rasura nesse projeto ao dizer: o que a gente faz é literatura, sim”.

Para ela, o desfile da Unidos da Tijuca pode ter um efeito inspirador: “Tenho fé que muitos cadernos do Borel vão se abrir a partir desse carnaval”.

Frente Parlamentar estuda a criação da Escola Municipal do Carnaval para fortalecer cadeia produtiva do Rio

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A valorização da cadeia produtiva do carnaval esteve no centro das discussões da Frente Parlamentar em Defesa do Carnaval Carioca, em audiência realizada na Câmara Municipal. O vereador Felipe Pires (PT-RJ) apresentou propostas para ampliar a geração de receitas, qualificar profissionais e formalizar contratos via MEIs e pequenas empresas, além de anunciar a criação de uma Escola Municipal do Carnaval, inspirada na experiência recente da Universidade Livre do Carnaval (UniCarnaval), em Maricá.

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Foto: Divulgação/Rio Carnaval

Para Pires, a formalização dos trabalhadores é uma das prioridades da Frente. “Temos muito interesse em que esses profissionais se formalizem como microempreendedores individuais (MEIs). Isso lhes dá uma garantia mínima de previdência social e os protege em casos como acidentes de trabalho. Além disso, permite que as escolas eliminem contratos precários e garantam mais segurança aos profissionais”, disse o vereador, que propôs, em projeto de lei, que até 40% do valor total dos recursos destinados às escolas de samba possam ser utilizados para o pagamento de mão de obra.

Já o vereador Flavio Pato (PSD-RJ) reforçou que a organização antecipada da produção carnavalesca, especialmente com contratos formalizados, tende a atrair mais patrocinadores. “Quando as escolas têm uma programação financeira clara e segura, as empresas privadas se sentem mais estimuladas a investir. Não fica apenas nas mãos da prefeitura, outros entes também podem apoiar a festa”, ressaltou.

Uma das principais iniciativas discutidas é a criação da Escola Municipal do Carnaval, voltada para capacitação técnica e profissional dos trabalhadores que atuam na produção da festa. Felipe Pires explicou que a instituição será inspirada na UniCarnaval, inaugurada recentemente em Maricá.

“Estamos trabalhando muito forte nessa proposta. Nossa intenção é oferecer uma qualificação ampla que permita aos profissionais atuarem não só no carnaval, mas também no teatro, na produção cênica e em outras áreas ao longo do ano. Faremos, em breve, uma visita técnica à UniCarnaval, que já é uma referência aqui perto, na Região Metropolitana. Queremos conhecer de perto esse projeto e identificar boas práticas que possam ser implementadas na cidade do Rio”, destacou Felipe.

A UniCarnaval, inaugurada pela prefeitura de Maricá, é uma iniciativa pioneira que oferece cursos livres voltados à cadeia produtiva do carnaval e da cultura. A escola oferece cursos de gestão e produção e de construção do carnaval (croquis, enredo, fantasias e a parte técnica). O objetivo dos vereadores cariocas é importar o modelo, adaptando-o às necessidades específicas do carnaval do Rio.

Segundo Felipe Pires, a Frente Parlamentar ainda está estudando detalhes sobre a implantação da Escola Municipal do Carnaval. Novas reuniões deverão ocorrer para discutir os próximos passos dessa iniciativa e outras medidas para fortalecer a cadeia produtiva do carnaval.

Edson Pereira aposta em Carolina Maria de Jesus para conduzir a Unidos da Tijuca de volta à disputa do título

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A Unidos da Tijuca vai levar Carolina Maria de Jesus para a Marquês de Sapucaí como protagonista de seu enredo. Para Edson Pereira, carnavalesco da agremiação pelo segundo ano consecutivo, essa escolha carrega consigo um gesto poético e político. “Carolina sou eu, Carolina é você, Carolina são várias que existem no Brasil”, afirma ele, em entrevista ao CARNAVALESCO, realizada na noite de lançamento do enredo.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Antes de falar sobre o enredo de 2026, Edson avaliou o último Carnaval. Para ele, o saldo foi extremamente positivo, principalmente pela resposta da comunidade do Pavão. “Acho que foi superpositivo, independente do resultado, consegui atingir a comunidade, que esperava por um grande desfile. A Tijuca fez um grande desfile, não sou eu que estou dizendo isso, mas toda a comunidade. Nosso objetivo maior era o resgate da comunidade, da cultura preta dentro da escola novamente”, disse o artista. Em 2025, a escola do Borel levou para a avenida o desfile “Logun-Edé: Santo Menino que Velho Respeita”, resultando na 9ª colocação do Grupo Especial.

Sobre o enredo de 2026, Edson enfatizou o desejo de destacar personagens e trajetórias muitas vezes invisibilizadas. “Carolina sou eu, Carolina é você, Carolina são várias que existem no Brasil. Carolina do nosso povo preto, da mulher negra, da força, da resistência, da sabedoria, do conhecimento daqueles menos privilegiados. Acho que esse enredo vem para mostrar: quem tem valor não se perde”, declarou. Para Edson, a escolha por contar a história da catadora de lixo e escritora é um gesto de reparação que será feito na Marquês de Sapucaí. “Faltava essa homenagem para a Carolina em vida, mas nunca é tarde para a gente recuperar os nossos valores, a nossa identidade cultural. Carolina representa tudo isso e o Carnaval é o maior espetáculo da Terra construído com a inteligência do povo preto. Nada poderia ser melhor do que homenagear Carolina nesse espetáculo”, disse.

Durante o processo de pesquisa, Edson contou que se emocionou com alguns episódios da trajetória da escritora. “Existem muitos mitos que envolvem a Carolina, que são fatos muito pontuais, mas o que mais me deixou emocionado, vamos dizer assim, foi a forma como ela foi tratada diante da burguesia da sua época”, declarou o artista sobre a vida de Carolina Maria de Jesus, que publicou seu primeiro livro, “Quarto de Despejo”, em 1960. Apesar do tratamento que recebeu, ele destaca a dimensão alegre da homenageada.

“Independentemente de ser uma mulher que sofreu muito, ela também era muito divertida, ela também cantava, dançava, se divertia, ela gostava de carnaval — e isso vai estar muito latente dentro do nosso desfile”, projetou o carnavalesco.

Com a sinopse já divulgada, Edson também projetou a expectativa sobre os sambas concorrentes. “Quando a gente começa um novo trabalho, a gente está gestando um outro filho. É um momento de tensão, aquele friozinho na barriga, mas é gostoso porque acho que isso move a emoção do artista e nós conseguimos transmitir a emoção do que a gente está dando plasticidade e fazendo acontecer na avenida”, disse.

Desde sua chegada à escola, Edson tem sido elogiado por dirigentes e componentes. Ele credita esse reconhecimento ao entrosamento com a comunidade do Borel. “Quando o carnavalesco se integra com a música, a comunidade, o casamento é perfeito. A comunidade do Borel, da Tijuca, esperava por um grande desfile e eu consegui entregar isso para eles. Eu sou mais uma peça desse tabuleiro. E eu fico muito feliz de poder fazer parte de tudo isso”, afirmou.

Com enredo e sinopse lançados, a Unidos da Tijuca começará em breve o seu processo de disputa de sambas para 2026. A escola mira, com firmeza e sensibilidade, fazer de Carolina Maria de Jesus um desfile marcante na avenida.

‘Levar quem conhece de samba para ensinar a nossa arte’, Mayara Lima fala sobre viagens internacionais e Reinado no Tuiuti

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Em meio à preparação para o Carnaval 2026, a rainha de bateria do Paraíso do Tuiuti, Mayara Lima, está espalhando o samba pelo mundo. Depois de uma breve passagem pela Argentina, ela passou 20 dias na Austrália divulgando o samba e a cultura brasileira em workshops e apresentações. Orgulhosa de levar sua arte ao exterior, Mayara fez um balanço, ao CARNAVALESCO, de sua trajetória à frente da bateria da escola de São Cristóvão e projeta o futuro como referência para outras mulheres no Carnaval.

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Foto: CARNAVALESCO

“É muito bom poder viajar levando a nossa cultura para o mundo. É uma das coisas que mais amo fazer na vida, e isso me enche de orgulho”, afirmou. Na visão de Mayara, levar o samba para fora também é uma maneira de honrar o legado das mulheres que abriram caminhos no Carnaval. “Trabalhar com uma cultura tão rica, tão viva, é lembrar que ela merece respeito e que é uma grande honra fazer parte de tudo isso”, completou.

Depois de dois dias de workshops em Córdoba, na Argentina, Mayara realizou uma turnê nas cidades de Sydney, Camberra, Adelaide, Brisbane e Sunshine Coast. Para a sambista, ensinar o samba no exterior deve ser feito por quem vive a cultura desde cedo, dentro das quadras das escolas e em um aprendizado passado de geração em geração. “É levar com propriedade a nossa cultura, com lugar de fala, ir lá ensinar o que você vive, com a sua vivência desde que nasceu”, defendeu.

Ela também vê na internacionalização de profissionais do carnaval uma forma de combater a apropriação cultural: “Poder diminuir um pouco dessa apropriação — muitas pessoas vêm pra cá, levam o samba pra lá — e levar, de fato, quem conhece, quem entende de samba, para poder ensinar a nossa arte, a nossa cultura”.

Reinado no Tuiuti

À frente da bateria do Tuiuti desde 2023, Mayara define o reinado como um divisor de águas em sua vida pessoal e profissional. “Viver esses anos à frente da bateria do Tuiuti, eu digo que foram os melhores anos da minha vida, junto com o nascimento do meu filho”, contou.

Ela destacou que o samba não apenas consolidou sua trajetória artística, mas também a transformou como mãe, trazendo ensinamentos aplicados na educação do filho. Reconhecida pelas coreografias que apresenta nos ensaios e desfiles, Mayara ressalta que o maior objetivo vai além da performance: “Estar na frente da bateria do Tuiuti é um grande sonho pra mim, uma grande honra, e representar diversas meninas que também sonham em estar nesse lugar é o mais importante”, finalizou.

Sidclei e Marcella falam sobre responsabilidade, tradição e emoção no ano da homenagem a Rosa Magalhães

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O carnaval é feito de camadas: história, emoção, técnica, ancestralidade e inovação. Dentro desse universo, o casal de mestre-sala e porta-bandeira ocupa um lugar simbólico e decisivo, onde cada gesto carrega o peso de décadas de tradição e o olhar atento de jurados, público e comunidade. Em 2026, Sidclei e Marcella vivem um dos momentos mais marcantes de suas trajetórias, defendendo as cores do Salgueiro em um desfile que presta homenagem a uma das maiores referências da história do carnaval brasileiro: Rosa Magalhães.

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Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval

Com a responsabilidade de representar não apenas uma escola, mas um legado artístico que atravessa gerações, o casal fala sobre expectativas, pressão por notas, escolhas coreográficas, mudanças no julgamento e o cuidado com cada detalhe que compõe a dança. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Sidclei e Marcella refletem sobre o que significa estar na avenida neste ano tão simbólico.

Antes mesmo de falar em notas, técnica ou fantasia, existe um sentimento que atravessa todo o trabalho do casal: o peso simbólico do enredo e da homenagem. Para eles, 2026 não é apenas mais um carnaval, mas um marco que exige consciência histórica e sensibilidade artística.

“Este ano é muito especial, principalmente por homenagear um grande ícone do Carnaval. A Rosa Magalhães marcou a história do carnaval. É uma responsabilidade muito grande ser o mestre-sala e o casal que vai representar o legado dela. Falar de Rosa Magalhães é contar um pouco da história do samba, do sambista e do próprio carnaval”, disse Sidclei.

Marcella complementa destacando que essa responsabilidade ganha ainda mais força por estar diretamente ligada à escola que ambos carregam no coração. Para ela, o contexto emocional se mistura à técnica, tornando cada ensaio e cada decisão ainda mais significativos.

“Poder fazer isso defendendo as cores da nossa escola, o Salgueiro, que é a nossa escola de coração, e homenagear alguém tão importante, não só para o Salgueiro, mas para o carnaval como um todo, é um privilégio e uma emoção muito grandes.”

Quando o assunto passa da emoção para a competição, o tom muda, mas não perde a profundidade. A busca pela pontuação máxima sempre fez parte da rotina dos casais, mas o atual modelo de julgamento trouxe novas camadas de complexidade. Para Sidclei e Marcella, pensar apenas nos tradicionais 40 pontos já não é suficiente.

“Agora não são mais 40, são 60 pontos. A gente não sabe quais envelopes vão ser abertos, então precisamos encantar seis olhares diferentes, com pensamentos, ideias e percepções diferentes. Apesar de existir um manual e um roteiro, são seis seres humanos diferentes”, afirmou Sidclei.

Essa multiplicidade de olhares exige um trabalho ainda mais estratégico e detalhista. Marcella explica que o casal precisou repensar a forma de construir a dança para que ela fosse completa e coerente, independentemente de qual jurado estivesse avaliando.

“Por isso, nosso trabalho este ano foi ainda mais minucioso, pensado para atender, dentro de um mesmo conjunto, esses seis olhares. Não adianta buscar 40 se você não buscar 60, porque, na nossa visão, todas as seis notas têm a mesma importância”.

Um dos temas que mais gera debate dentro e fora da avenida é a relação entre coreografia e tradição. Para muitos, a palavra “coreografia” ainda carrega um estigma de engessamento, mas Sidclei faz questão de desconstruir essa ideia, trazendo um olhar mais técnico e menos superficial sobre o termo.

“Existe muita confusão em torno da palavra coreografia. Coreografia não é passo marcado ou dancinha. É organização de movimento, com início, meio e fim. Manter a tradicionalidade da dança de forma organizada não tem mistério”.

Marcella reforça que o desafio não está em escolher entre tradição ou inovação, mas em equilibrar as duas coisas de maneira respeitosa e criativa. Segundo ela, o diferencial está justamente nos detalhes que não quebram a essência da dança, mas a valorizam.

“O nosso desafio é trazer essa tradição com algo a mais, com aquela pitada, aquele molho, aquele borogodó que faz a diferença, sempre respeitando, preservando e valorizando a essência da nossa arte”.

Outra mudança significativa no carnaval recente foi a implantação da cabine espelhada de julgamento, que alterou completamente a dinâmica da apresentação dos casais. Para Sidclei, essa mudança eliminou zonas de conforto e obrigou todos a repensarem sua ocupação espacial na avenida.

“A cabine espelhada tirou um certo conforto, não só da gente, mas de todos os casais. Isso acabou deixando a dança mais dinâmica e trouxe mais liberdade de movimentação”, explicou.

Marcella destaca que essa nova configuração exige não apenas técnica, mas preparo físico e mental ainda maiores. A dança passa a ser constante, sem pausas estratégicas, e precisa manter o mesmo nível de entrega em todos os ângulos.

“Agora temos a obrigatoriedade de dançar em 360 graus, para todos os lados da avenida. Quem está em volta assiste à mesma beleza e à mesma dedicação. Isso exigiu um condicionamento ainda maior, porque não existe mais aquele momento de respiro”.

Por fim, quando o assunto chega à fantasia, o casal prefere manter o mistério, mas deixa claro que o figurino carrega um significado especial dentro do contexto do enredo. Mesmo com poucas palavras, a emoção transparece na resposta.

“É uma grande homenagem à nossa mestra”, destaca Marcella.

Rita Lee no coração da Mocidade: independentes celebram a irreverência da homenageada

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O anúncio de que Rita Lee será enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel em 2026 acendeu o entusiasmo no coração dos torcedores. Entre os independentes ouvidos pelo CARNAVALESCO, a escolha da cantora é vista como um casamento perfeito entre a irreverência da artista e a ousadia que sempre marcaram a verde e branco.

Juventude e liberdade

Pedro Mendes, de 20 anos, estudante de Engenharia Química, enxerga em Rita a síntese daquilo que a Mocidade sempre carregou de mais provocador.

Pedro Mendes
Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“Ela foi e sempre será símbolo de libertação, de igualdade, de mostrar que todos nós podemos ser o que quisermos, mesmo quando a vida tenta nos censurar. A Rita é a cara da Mocidade dos anos 90, quando a escola tinha enredos de delírio, de prazer, de falar livremente sobre nós. Ela pode ser a ponte para nossa estrela voltar a brilhar”, afirmou.

A padroeira da liberdade

Suane Lindomar, também com 20 anos, destacou a potência feminina do enredo.

Suane Lindomar
Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“Acho que vai trazer a vivência da Rita como mulher, como padroeira da liberdade, e a escola precisa disso para se levantar. A Mocidade vai ter a chance de surpreender de novo. Eu mesma acompanhava a Rita em shows, antes de ela falecer. Até hoje escuto suas músicas com amigos e vou trazer esse espírito para o desfile”, disse.

Tradição de enredos femininos

Para Renato Souza, 30 anos, profissional de marketing digital, a escolha da homenageada reafirma uma tradição da escola.

Renato Souza
Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“A Mocidade já exaltou Elza Soares, Elis Regina, Tia Chica… então Rita Lee entra nesse histórico de enredos femininos. Mais que a obra musical, ela representa irreverência, transgressão e ludicidade, características que combinam muito com a escola”, apontou.

A cara do Brasil

Lucas Vasques, 24 anos, assessor da prefeitura, ampliou a leitura sobre a dimensão de Rita para além da música.

Pedro Vasques
Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“É impossível quem é do samba não gostar da Rita. Ela representa a essência do que é o Brasil: cultura nacional, valorização da nossa identidade. Mesmo sem ter sido sambista, Rita é brasilidade em estado puro. Para a Mocidade, isso simboliza diversidade e tradição, valores que sempre fizeram parte da nossa escola”, refletiu.

Um casamento de ousadia

A convergência dos depoimentos dos torcedores mostra como a presença de Rita Lee no enredo de 2026 já mobiliza paixões e esperanças. A irreverência da cantora, seu lugar como símbolo de liberdade e sua ligação com a cultura nacional parecem ter encontrado morada no coração dos independentes.

A expectativa é de que a artista inspire a Mocidade a reencontrar os dias de brilho, com a ousadia que fez a verde e branco escrever algumas das páginas mais marcantes da história do carnaval carioca.

À frente do marketing do Camarote Rio Praia, Danielly Valente celebra o carnaval como cultura viva

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Com uma trajetória profundamente conectada ao carnaval carioca, Danielly Valente, de 32 anos, é hoje um dos nomes por trás do posicionamento e da identidade do Camarote Rio Praia. Diretora de Marketing da marca, ela está à frente da Valente Design, agência responsável por toda a comunicação do camarote na edição de 2026, consolidando um trabalho que une estratégia, sensibilidade cultural e respeito à maior manifestação popular do país.

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Foto Daniel Costa/Camarote Rio Praia

Formada em Design pela ESPM, Danielly atua há mais de 10 anos nas áreas de branding e marketing digital, desenvolvendo projetos que valorizam identidade, narrativa e conexão genuína com o público. Sua relação com o carnaval, no entanto, vai muito além do campo profissional: é uma vivência construída ao longo dos anos, dentro e fora da avenida. Desde 2016, trabalha diretamente com o carnaval, tendo iniciado sua trajetória como assistente de carnavalesco na Escola de Samba Grande Rio, experiência que moldou seu olhar, ampliou seu repertório criativo e reforçou seu compromisso com a cultura do samba.

No Camarote Rio Praia, a diretora acompanha o projeto desde o início das operações, em 2018, contribuindo para a construção de um posicionamento autêntico e alinhado à essência do Rio. Este é o segundo ano em que assume integralmente a liderança das estratégias de marketing do camarote, o primeiro foi em 2024 e traz uma visão ainda mais madura, integrada e conectada à cidade e às suas tradições.

Nesta edição, Danielly lidera não apenas a comunicação, mas também as estratégias de marketing e parcerias, ampliando o entendimento do Rio Praia como um espaço que celebra o carnaval do Rio de forma genuína, popular e afetiva. Entre as novidades, estão ativações inéditas como o projeto Rodas de Samba e o Arrastão do Cordão da Bola Preta, iniciativas que reforçam a ligação do camarote com o samba, o pagode, os blocos de rua e a energia que faz o carioca se sentir em casa.

“Mais do que um camarote, o Rio Praia é carnaval do Rio. Aqui é samba, pagode e bloco. Tudo que o carioca ama e sabe fazer. É um privilégio contar essa história e valorizar nossa cultura com quem faz parte dela”, afirma Danielly Valente.

Para ela, o carnaval não se resume ao espetáculo dos dias de desfile. “O carnaval começa muito antes da avenida. Ele envolve um ano inteiro de dedicação, talento e resistência. É cultura viva, é celebração, é visibilidade e também pertencimento. É o momento em que o Rio mostra quem é, com sua estética, sua música, seus personagens, sua criatividade e sua história”, destaca.

Esse olhar sensível e estratégico se reflete em cada ação conduzida por Danielly à frente do marketing do Camarote Rio Praia. Seu trabalho traduz o carnaval não como produto, mas como expressão cultural, fortalecendo narrativas, valorizando quem faz a festa acontecer e reafirmando o Rio Praia como um espaço onde o carnaval é vivido em sua forma mais verdadeira.

Unidos da Tijuca: coreógrafas Bruna Lopes e Ariadne Lax falam sobre aprendizados e expectativas para 2026

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O Carnaval de 2025 marcou a estreia conjunta das coreógrafas Bruna Lopes e Ariadne Lax à frente da comissão de frente da Unidos da Tijuca. O desafio foi duplo: além de conduzir um quesito central na apresentação da escola, as duas também precisaram criar laços de confiança e entender os pontos fortes de cada uma para consolidar a parceria.

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Foto: Divulgação/Tijuca

“Foi um ano de conhecimento. Nunca tínhamos trabalhado juntas, então era preciso encontrar essa liga, perceber até onde cada uma podia ir e também entender toda a equipe. Agora, em 2026, estamos mais confortáveis, já conhecemos a equipe inteira da Tijuca”, resumiu Ariadne.

Para Bruna, o segundo ano será de amadurecimento e ajustes técnicos. “A gente deu um match muito rápido, mas agora é rever o que deu errado. Falando bem praticamente, olhando para as notas, o que os jurados apontaram como falhas. Aprender com esses erros para não repeti-los e, se Deus quiser, gabaritar em 2026”, declarou.

A força do samba no processo criativo

A definição do samba-enredo da Tijuca, que escolheu a parceria de Lico Monteiro como hino do Carnaval 2026, também tem impacto direto no trabalho da comissão.

“Tivemos três obras lindíssimas na final. Qualquer uma que vencesse iria acrescentar muito. Essa safra nos ajuda desde a leitura da sinopse, quando já vamos ampliando ideias. Foi uma sorte termos tido sambas tão inspirados, todos eles nos engrandecem”, avaliou Ariadne.

Mudanças e permanências

O que manter e o que transformar em relação a 2025? As coreógrafas são taxativas: cada enredo pede uma estética própria.

“Nada se mantém. Alguns bailarinos continuam, mas a proposta é completamente diferente. Estamos falando de Carolina Maria de Jesus, uma mulher, uma batalhadora, exaltando a literatura. É um enredo feminino, que por si só já muda toda a concepção do trabalho”, explicou Bruna.

Questionadas se a comissão será formada apenas por mulheres, elas despistam:

“Vamos ter de tudo.”

Troca com o carnavalesco

Outro ponto destacado é a parceria com Edson Pereira, carnavalesco da escola.

“A gente sempre teve uma troca muito forte. Começamos debatendo bastante o enredo e depois o estudo e a pesquisa ficam por nossa conta. Quando surge uma dúvida ou achamos algo interessante, levamos a ele e à equipe dele”, declarou Ariadne.

Bruna completou:

“Este ano, por estarmos mais à vontade, o trabalho tem uma marca mais nossa, mais de Ariadne Lax e Bruna Lopes mesmo.”

Com a experiência adquirida no primeiro desfile e a inspiração do novo enredo, a dupla garante que a comissão de frente da Tijuca em 2026 virá diferente, com a marca da força feminina e literária de Carolina Maria de Jesus.

‘Comissão das nossas vidas’: Cláudia Mota e Edifranc Alves falam sobre maturidade na chegada à Portela’

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A chegada de Cláudia Mota e Edifranc Alves à Portela marca o início de uma nova fase para o quesito Comissão de Frente da azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira. Em entrevista ao CARNAVALESCO, os coreógrafos falaram sobre maturidade, a parceria com o carnavalesco André Rodrigues, a força do enredo portense e as mudanças no julgamento do quesito para o Carnaval 2026.

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Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

No balanço sobre o trabalho no Paraíso do Tuiuti, a dupla ressaltou a emoção de contar a história de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti não indígena do Brasil. “Foi um momento maravilhoso que vai ficar marcado no nosso coração sempre”, afirmou Cláudia Mota.

Já Edifranc Alves destacou que o principal objetivo da comissão foi promover o acolhimento à comunidade LGBTQIAPN+: “A escola trouxe acolhimento e o processo artístico foi baseado na vida delas”. Parte do elenco, inclusive, foi formado exclusivamente por pessoas trans, reforçando o caráter de representatividade da apresentação.

Convite da Portela e momento de maturidade da dupla

A oportunidade de assumir a comissão da Portela surgiu logo após o Carnaval 2025. Edifranc considera que o convite chegou em um momento de transição para o casal: “Abraçamos com muita responsabilidade o convite dessa magnífica escola”. Para Cláudia, trata-se de um salto na carreira: “A Portela é uma escola histórica e grandiosa, é uma honra estar aqui. É também um salto nosso, que chegamos aqui em um momento de maturidade”.

Parceria com André Rodrigues e enredo sobre Príncipe Custódio

Na preparação para o desfile, a sintonia com o carnavalesco André Rodrigues se tornou um diferencial. “Temos uma linguagem parecida, muito objetiva e direta. Trouxemos uma proposta para ele e para o presidente, que está dando todo o suporte. Estamos com uma equipe de ouro. Nós vamos fazer a comissão das nossas vidas”, destacou Cláudia.

O enredo de 2026, que homenageará Príncipe Custódio e o Batuque riograndense, já inspira o processo criativo da dupla. Edifranc ressaltou a força da narrativa que valoriza a cultura negra do Sul e citou três personagens que certamente estarão presentes na Comissão: Bará, o Príncipe Custódio e o Negrinho do Pastoreiro.

Cabine Espelhada: ‘Situação Difícil’

Sobre a estreia da cabine espelhada no julgamento do quesito, o coreógrafo reconheceu a complexidade do desafio: “Situação difícil”, resumiu. Cláudia acrescentou que o impacto será sentido por todas as escolas e que apenas os ensaios poderão dimensionar melhor a novidade.

“Pode ser que a gente esteja criando um bicho de sete cabeças, mas a gente só vai saber daqui a duas semanas, quando começam os nossos ensaios. Será um desafio para todas as comissões”, finalizou.

Nilópolis confia no Bi: comunidade aponta forças da Beija-Flor para 2026

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Em Nilópolis, a palavra “bi” circula com naturalidade, mas não sem humildade entre os componentes da Beija-Flor. Entre passistas, baianas, ritmistas e torcedores que participaram, a crença no bicampeonato está apoiada na organização da escola, no trabalho da bateria e na atuação conjunta entre direção, harmonia e comunidade — tudo isso em um Carnaval considerado cada vez mais competitivo e imprevisível.

A confiança que move Nilópolis

Entre os torcedores ouvidos pelo CARNAVALESCO, prevalece a sensação de que a Beija-Flor chega forte para a disputa do bicampeonato. Para Cássio Dias, 50 anos, servidor público e primeiro passista com 38 desfiles pela Azul e Branco, a mobilização é geral:

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Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“Todo o povo nilopolitano está acreditando no bicampeonato. Estamos com humildade, respeitando todas as coirmãs, mas viemos para brigar por mais uma estrela”, declarou.

No departamento musical, o discurso acompanha a vibração dos demais componentes. Diego Oliveira, 34 anos, diretor de bateria da “Soberana” e compositor, resume a preparação para 2026 como “um novo começo”.

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Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“O bi vai ser consequência. Estamos tratando como se fosse o primeiro campeonato. É muito trabalho, muita dedicação da direção, da harmonia, dos cantores, dos ritmistas. Eu acredito que vamos fazer história em fevereiro”, disse.

Bateria, comunidade e conjunto: as forças que sustentam o otimismo

Para brigar pelo bicampeonato, a Beija-Flor aposta no enredo “Bembé”, assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo, que contará a história do maior candomblé de rua do mundo, realizado em Santo Amaro, na Bahia. Ao analisarem a pré-temporada da escola, os componentes convergem em dois pontos: bateria e conjunto.

Matias Ribeiro, 27 anos, jornalista e estreante na escola, concorda:

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Foto: Marcos Marinho / CARNAVALESCO

“A bateria é o coração da escola. Tem tirado boas notas nos últimos anos e acho que dá para tirar 40 pontos outra vez. E os ensaios são muito rigorosos. A galera está comparecendo e não está errando. Isso faz diferença.”

Já o veterano Cássio amplia o foco da análise para outros quesitos:

“A nossa força é o conjunto. É o casal, é o samba, é o enredo, que conta a história do povo negro mais uma vez. E a comunidade nilopolitana. Tudo junto é o que empurra essa escola na direção do ‘bi’”, afirmou.

Diego reforçou que a escola só precisa “fazer o dever de casa”:

“Sou suspeito para falar. A Beija-Flor tem vários quesitos fortes. A gente fica muito confortável. O negócio é fazer o dever de casa e deixar o resto nas mãos de ‘Papai do Céu’.”

O tabu do bicampeonato e a disputa cada vez mais acirrada

O último bicampeonato da Beija-Flor foi conquistado em 2007 e 2008, com os desfiles “Áfricas – Do Berço Real à Corte Brasiliana” e “Macapaba: Equinócio Solar, Viagens Fantásticas ao Meio do Mundo”. Desde então, nenhuma escola voltou a repetir a façanha — um tabu que, há 18 anos, permanece aberto no carnaval carioca.

Matias, que pesquisa academicamente as notas dos jurados no carnaval carioca, destacou o novo cenário competitivo:

“O Carnaval mudou muito. As notas fecham no dia do desfile e não tem como fazer comparação com as escolas que desfilam nos outros dias. Está muito difícil prever a campeã. É imprevisível.”

Já Cássio, que viveu aquele ciclo vitorioso como pivô da comissão de frente, percebe algo familiar:

“A energia de 2007 e 2008 é a mesma de hoje. Sem salto alto, com todo o respeito às coirmãs, temos convicção da nossa responsabilidade.”

Diego mantém a confiança no trabalho:

“Carnaval é muito disputado, nota a nota. As coirmãs vêm fortes, mas confiamos no nosso trabalho.”