A Unidos de Vila Isabel levará para a Marquês de Sapucaí, na terça-feira de Carnaval, três instrumentos que remetem diretamente à época de Heitor dos Prazeres: o ganzá, o agogô e o tamborim quadrado. Os instrumentos integrarão oficialmente a bateria da escola e serão inseridos em momentos específicos do samba, reforçando a proposta estética e histórica do desfile de 2026.
A iniciativa nasceu a partir das pesquisas realizadas pelo mestre de bateria Macaco Branco e sua diretora, Thalita Santos, durante o processo de imersão no universo do multiartista. A proposta não será apresentada como número especial, mas incorporada à formação tradicional da bateria, dialogando organicamente com a sonoridade da escola.
Segundo Thalita, a ideia surgiu após visitar uma exposição dedicada à trajetória de Heitor dos Prazeres.
“Quando o enredo foi lançado, veio imediatamente à minha cabeça a imagem daquela exposição, especialmente o tamborim quadrado. Em vários quadros do Heitor aparecem sambistas com ele nas mãos. Aquilo ficou muito forte para mim”, relembra.
Foto: Rafael Arante/Divulgação Vila Isabel
A partir daí, a dupla iniciou a busca por quem pudesse produzir os instrumentos com fidelidade histórica. O responsável foi o luthier Samuel, de Minas Gerais, especializado na confecção artesanal de instrumentos tradicionais.
“Encontramos um luthier Samuel, de Minas Gerais. Ele já produz pandeiros sem tirante, aquela peça de metal que prende e afina a pele. Antigamente não existia isso. A afinação era feita no fogo, porque a pele era de couro. Os ritmistas, inclusive, levavam papel de jornal no bolso para aquecer o couro e evitar que o instrumento desafinasse durante o desfile. Era algo muito raiz”, explica a assistente de bateria.
Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, com pesquisa de Vinícius Natal, a Unidos de Vila Isabel propõe uma celebração da ancestralidade africana, dos fundamentos do samba e da trajetória de Heitor dos Prazeres, ícone da cultura popular brasileira e personagem central na consolidação da identidade do samba carioca.
A Série Ouro do Carnaval do Rio transforma a Marquês de Sapucaí, nos dias 13 e 14 de fevereiro, em um grande espaço de mobilização social. Além dos desfiles das escolas de samba, o público que passa pela Avenida e pelos acessos às arquibancadas e frisas terá contato com campanhas de conscientização e mobilização social, abordando temas como o combate ao racismo, o enfrentamento à violência contra a mulher, o cuidado com a juventude, a proteção de crianças e adolescentes, os direitos humanos e a valorização da cultura afro-brasileira.
As ações integram o LIGA RJ Sustentável, projeto desenvolvido desde o ano passado e que consolidou a Série Ouro como referência nacional ao incorporar, de forma estruturada, práticas de impacto social, sustentabilidade e governança à organização do carnaval.
“Um evento desse porte tem alcance, visibilidade e responsabilidade. O carnaval é um espaço potente para dialogar com a população sobre temas urgentes, de forma direta, popular e acessível”, afirma Diego Carbonell, diretor de sustentabilidade da LIGA RJ.
Entre as iniciativas está a campanha “Carnaval sem racismo brilha mais”, integrada à ação “Nosso Rio Ancestral”, realizada em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, o Fórum Estadual dos Presentes a Iemanjá do Rio de Janeiro, a Rio-Urbe e o Instituto Casas Ancestrais. A mobilização prevê a distribuição de diversos materiais de conscientização, reforçando mensagens de enfrentamento ao racismo e de valorização das tradições afro-brasileiras.
O público jovem também é foco das ações. A Secretaria Municipal da Juventude Carioca promove a campanha “Festejar sim, exagerar não”, dentro da iniciativa CarnaJuv, com a distribuição de milhares de materiais informativos e a passagem de faixa na Avenida, incentivando uma folia com mais responsabilidade.
Outra frente importante envolve a proteção de crianças e adolescentes. A Riotur, o Ministério Público do Trabalho e a RIOinclui levam à Sapucaí a campanha “Todo mundo contra o trabalho infantil”, com alertas sobre trabalho infantil, violência e abuso sexual, além de orientações para denúncias pelo Disque 100.
No eixo de enfrentamento à violência de gênero, o Programa Empoderadas, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, realiza a campanha “No ritmo da folia, nossa voz é respeito”, com a distribuição de materiais de conscientização, como ventarolas, tatuagens e adesivos, além da exibição de faixa na pista da Marquês de Sapucaí.
Ainda no eixo de cuidado com as mulheres, a programação inclui a distribuição de centenas de doleiras, produzidas a partir de resíduo têxtil, em parceria com o Instituto Por Elas, como ação de proteção às mulheres durante o carnaval.
Uma das frentes consolidadas do projeto é a parceria com a Secretaria de Estado da Mulher, que trata de uma das pautas permanentes da LIGA RJ. O trabalho contínuo no combate à importunação sexual, à violência e ao feminicídio já rendeu à entidade o selo Empresa Amiga da Mulher, sendo a única liga carnavalesca do país a possuir um selo relacionado a essa pauta.
Para a secretária de Estado da Mulher, Heloisa Aguiar, a presença em um evento popular amplia o alcance das políticas públicas. “O Carnaval é uma das maiores manifestações culturais do nosso estado, e estar ao lado da LIGA RJ nesse momento é estratégico para fortalecer a rede de proteção às mulheres. Queremos que cada foliã saiba que não está sozinha. Além das ações presenciais, disponibilizamos o app Rede Mulher, que facilita o acesso à informação, aos canais de denúncia e aos serviços de acolhimento. Nosso compromisso é garantir que a alegria do Carnaval seja vivida com respeito e segurança para todas.”
As ações realizadas na Sapucaí fazem parte de uma agenda contínua. Ao longo do último ano, o LIGA RJ Sustentável implementou gestão de resíduos em grandes eventos, como o Esquenta Carnaval, compensou as emissões de carbono do último Carnaval e promoveu ações de educação ambiental. Nesse percurso, o projeto também desenvolveu iniciativas de valorização de passistas, com a realização de ensaios fotográficos com meninas das comunidades das escolas da Série Ouro, e investiu na formação contínua por meio da concessão de bolsas de idiomas para jovens foliões de todas as agremiações, além de bolsas de graduação e pós-graduação voltadas à formação de mestres de bateria.
Mais do que números ou relatórios, a proposta da LIGA RJ é usar a força do carnaval — um evento popular, acessível e de enorme alcance — para levar temas fundamentais a milhares de pessoas, com linguagem direta e próxima do público. A Avenida se transforma, assim, em um espaço de conscientização, reflexão e estímulo à mudança de comportamento, reforçando o papel do Carnaval como ferramenta de transformação social.
Esqueça a antiga divisão “meio a meio” que dominou a avaliação das histórias contadas na Marquês de Sapucaí nos últimos anos. A Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA) reescreveu as regras para o quesito Enredo no Manual do Julgador de 2026, transformando a avaliação em uma equação de três variáveis. Se antes o julgamento era binário, agora o carnavalesco terá que preencher três requisitos distintos para alcançar a nota 10, sob o olhar atento de um corpo de jurados ampliado para 06 avaliadores.
A mudança é drástica e promete alterar a estratégia de barracão: o quesito abandona a soma simples de dois subquesitos de valor igual (Concepção e Realização) utilizada em 2025, para adotar uma estrutura tripartida com pesos diferenciados.
Nova Matemática da Narrativa
Para o Carnaval de 2026, a nota final será a soma das seguintes fatias.
1. Realização (O Peso Pesado – 4,5 a 5,0 pontos): Continua sendo a alma do quesito. É aqui que se julga se o público e o jurado entenderam a história através das fantasias e alegorias e se houve a “carnavalização” do tema. Uma novidade no texto exige a “integração das soluções apresentadas para alegorias e fantasias dentro dos seus setores”;
2. Concepção (O Alicerce – 2,7 a 3,0 pontos): O desenvolvimento teórico e o argumento perdem peso na nota final (antes valiam até 5,0). O julgador avaliará a clareza e a coesão do roteiro, com um alerta inédito no manual: a roteirização não deve ser confundida com “cronologia”, dando liberdade para narrativas não lineares;
3. Criatividade (A Novidade – 1,8 a 2,0 pontos): A grande estrela do novo manual. A criatividade deixa de ser apenas um item diluído nos outros conceitos e ganha um subquesito exclusivo.
‘Recorte’ Vale Nota
A criação do subquesito Criatividade envia um recado claro às escolas: não basta contar bem a história; é preciso inovar na forma de contá-la. O manual instrui o julgador a pontuar a “criatividade das soluções apresentadas” e, especificamente, o “enfoque ou ‘recorte’ escolhido pelo pesquisador e/ou carnavalesco”.
Contudo, a Liesa faz uma ressalva importante para proteger a tradição: criatividade não deve ser confundida com ineditismo. Ou seja, um tema já batido pode ganhar nota máxima se for abordado sob uma perspectiva original e inventiva.
Livro Abre-Alas: A Lei da Avenida
Apesar das mudanças conceituais, o rigor técnico permanece. O roteiro entregue pela escola (Livro Abre-Alas) continua sendo o documento supremo de fiscalização.
As penalidades continuam severas para quem prometer e não entregar. A escola será penalizada se houver:
• Falta de alegorias, tripés ou alas previstas no roteiro.
• Presença de elementos não previstos no livro.
• Troca de ordem de alas ou alegorias que prejudique o entendimento da narrativa.
• Ausência de destaques de chão ou de alegoria que constem no descritivo oficial.
Veredito
Com 54 julgadores atuando no Grupo Especial em 2026, a margem para erros de interpretação diminui. O novo sistema de pesos privilegia a Realização (que vale metade da nota), sinalizando que, no fim das contas, o mais importante continua sendo a capacidade visual de traduzir o papel para a realidade da Avenida. No entanto, ao isolar a Criatividade, a LIESA força as agremiações a saírem da zona de conforto, premiando quem tiver a audácia de olhar para o enredo por um novo prisma.
A porta de entrada da escola de samba, responsável pelo primeiro impacto visual e emocional na Avenida, terá regras muito mais analíticas no próximo Carnaval. A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) reformulou a estrutura de avaliação da Comissão de Frente no Manual do Julgador de 2026, abandonando a divisão binária de 2025 para fragmentar a nota em quatro pilares específicos. Além disso, o quesito será avaliado por um batalhão de 06 julgadores, aumentando a pressão sobre coreógrafos e bailarinos.
Se em 2025 a nota era composta pela soma de dois grandes blocos (“Concepção/Indumentária” e “Apresentação/Realização”), para 2026 a Liesa detalhou a “fatura” da nota 10, criando pesos diferentes para cada aspecto do espetáculo.
Apresentação: O Peso Ouro da Nota
A grande novidade é a valorização extrema da execução. O novo subquesito Apresentação valerá, sozinho, de 3,6 a 4,0 pontos. É aqui que se define o jogo: o julgador avaliará o cumprimento da função de saudar o público, a coordenação, o sincronismo e a interação com o elemento cênico.
Isso sinaliza que, independentemente da ideia, a execução coreográfica perfeita e a capacidade de “vender” o espetáculo na frente da cabine serão os fatores determinantes para a nota máxima.
Matemática da Perfeição
Os outros 6,0 pontos da nota foram divididos igualmente entre três novos subquesitos, valendo de 1,8 a 2,0 pontos cada.
1. Indumentária / Tripé: Avalia especificamente a qualidade e adequação das fantasias e do elemento cenográfico (o tripé ou carro da comissão);
2. Concepção: Foca na clareza da mensagem e na capacidade de impactar positivamente o público e o jurado com a ideia proposta;
3. Criatividade: Ganha um campo exclusivo no mapa de notas. Aqui, além da solução plástica e coreográfica, os efeitos especiais passam a ser julgados explicitamente pela sua qualidade e funcionalidade;
Efeitos Especiais na Berlinda
Uma mudança sutil, mas perigosa para as escolas que apostam em tecnologia: o manual de 2026 é taxativo ao incluir a avaliação dos “efeitos especiais” dentro do subquesito Criatividade, analisando a “qualidade de execução, finalidade e atingimento do objetivo”. Se a mágica falhar ou o efeito não funcionar como prometido, a escola perderá décimos preciosos neste item específico.
Rigor nas Penalidades
As penalidades continuam severas. A queda acidental de qualquer parte da indumentária (chapéus, esplendores, calçados) será punida se prejudicar a estética ou a apresentação. O mesmo vale para danos visíveis nas fantasias ou no tripé.
Veredito
Com a ampliação do corpo de jurados para 54 pessoas (6 por quesito) e a fragmentação da nota, a margem para subjetividade diminui. Para 2026, a Liesa exige uma Comissão de Frente que não apenas tenha uma boa ideia (Concepção), mas que vista bem seus componentes (Indumentária), inove com propósito (Criatividade) e, acima de tudo, execute a dança com perfeição técnica e emoção (Apresentação). O recado está dado: a coreografia vale ouro.
O coração da escola de samba vai bater em um compasso diferente, e mais analítico, no próximo Carnaval. A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) divulgou o Manual do Julgador para 2026 trazendo mudanças estruturais profundas na forma como os mestres de bateria e seus ritmistas serão avaliados. Se em 2025 a avaliação era baseada em critérios gerais, o novo regulamento introduz o sistema de pontuação por subquesitos, exigindo uma estratégia milimétrica das agremiações.
A principal novidade é o fim da nota única baseada em uma lista de critérios genéricos. Para o Carnaval de 2026, a nota final da Bateria (de 9,0 a 10,0) será a soma de três pilares específicos, cada um com seu “peso” definido na caneta do julgador.
1. Manutenção da Cadência (valendo de 3,6 a 4,0 pontos): O julgador observará a regularidade e a sustentação do andamento em consonância com o samba-enredo, sem alterações bruscas.
2. Conjugação dos Instrumentos (valendo de 2,7 a 3,0 pontos): O foco aqui é a perfeita união dos sons e a execução precisa das bossas e paradinhas.
3. Criatividade e Versatilidade (valendo de 2,7 a 3,0 pontos): Avalia-se o arranjo musical, a dificuldade de execução e o nível de complexidade das convenções propostas.
Em comparação, o manual de 2025 listava critérios semelhantes, como a manutenção da cadência e o arranjo musical, mas não estabelecia faixas de pontuação específicas para cada aspecto, deixando a composição da nota mais subjetiva dentro dos critérios gerais. Agora, um erro de afinação ou uma bossa mal executada tem um “preço” tabelado na planilha de notas.
Tempo de Apresentação: O Risco Calculado
Uma observação crucial permanece, mas com novo peso: não existe tempo mínimo obrigatório de apresentação para os jurados. A bateria pode se apresentar andando,. No entanto, o manual de 2026 é enfático ao incluir, dentro do subquesito de Cadência, a avaliação sobre se o tempo utilizado foi “suficiente para a avaliação do Quesito”. Ou seja, “passar batido” pelo módulo pode custar décimos preciosos na primeira faixa de pontuação.
Olhos (e Ouvidos) Redobrados
A pressão sobre os ritmistas será ainda maior devido ao aumento do corpo de jurados. Enquanto em 2025 o julgamento era realizado por 36 julgadores (4 por quesito), o Carnaval de 2026 contará com 54 julgadores, sendo 06 para cada quesito. Isso significa mais ouvidos atentos a cada naipe e menos margem para erros passarem despercebidos.
O Que Não Muda
Apesar das inovações técnicas, algumas proteções às características das escolas permanecem. O julgador continua instruído a não levar em consideração.
• A quantidade de componentes (respeitando o mínimo do regulamento);
• A ausência de determinados naipes por tradição da agremiação;
• O uso de instrumentos de sopro;
• Eventuais panes no sistema de som da Sapucaí
Veredito
Para 2026, a Liesa sinaliza que busca um julgamento mais técnico e fracionado. As baterias não precisarão apenas emocionar; precisarão gabaritar uma “prova” dividida em três etapas distintas. A criatividade continua valiosa, mas a regularidade da cadência recebeu o maior peso na balança, provando que, no Rio de Janeiro, manter o ritmo é, literalmente, o critério mais valioso da festa.