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Série Barracões SP: Nenê de Vila Matilde aposta na força da Ipiranga com São João para 2026

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A Nenê de Vila Matilde gabaritou os quesitos plásticos no Carnaval de 2025 e, para 2026, pretende manter o êxito. A escola, que está há alguns anos na briga para adentrar o Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, investirá em um enredo de fácil leitura, que relembra os gloriosos anos em que os matildenses desfilaram homenageando São Paulo. Com um enredo espiritualizado, lúdico e patrocinado, a Nenê promete trazer organização, confiança e ancestralidade para a Avenida.

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

Desfilará com o enredo “Encruzas – Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo”, assinado pelo carnavalesco Danilo Dantas, e será a quinta escola a passar pela passarela do Anhembi.

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Naomi Prado/CARNAVALESCO

Danilo abriu as portas do barracão e contou ao CARNAVALESCO o projeto que será desenvolvido na pista.

A chegada do tema

O carnavalesco contou como o tema chegou à escola e como foi desenvolvido até a conclusão final.

“O enredo começou com a sugestão do pessoal do Bar Brahma para o presidente e, com isso, ele pediu para tentarmos desenvolver vários caminhos. Tivemos umas cinco ou seis ideias até chegarmos aonde chegamos. Ficamos com três ideias e, juntando essas ideias, sobrou para mim fazer o resumo, transformar o que aconteceu em enredo.

Foram três ideias, três propostas de sinopse feitas, com desenvolvimento e com toda a criação. Uma era minha e, depois de juntadas as três, não chegamos a um consenso sobre qual seria o melhor caminho. Com isso, o presidente jogou na minha mão e disse: ‘Danilo, se vira, você tem que desenvolver uma linha lógica para esse enredo’.

Foi o caminho que seguimos. Desde o início o enredo era para falar algo ligado à rua, mas eu não queria ir para um caminho que muitas escolas já desenvolveram, seja no Rio, seja em São Paulo. Portanto, fomos para a ideia de falar de São Paulo através da vertente da Ipiranga com a São João, que é a esquina mais famosa do Brasil. Eu já tinha feito algo parecido em outros carnavais, em escolas de grupos inferiores, então dominava um pouco esse assunto. Foi fácil desenvolver e discorrer sobre a Ipiranga com a São João”, contou.

A dificuldade do desenvolvimento

Danilo contou sobre a dificuldade de entrelaçar todas as ideias até chegar a uma base sólida.

“A maior dificuldade foi tentar encaixar as três propostas. Tínhamos oito linhas de caminho para esse enredo. Dividimos em três e elas dialogavam de uma forma: uma iria para o lado religioso da rua em si, outra para o lado histórico e outra para o lado lúdico, que foi o que escolhemos — lúdico e poético.

Eu precisava trabalhar na área que tenho domínio, então procurei pegar um pouco de cada uma para desenvolver essa linha de raciocínio. Também precisava de algo que ligasse tudo isso à Nenê de Vila Matilde, porque seria muito sem sentido não falar da escola. O matildense precisa ter identificação com o enredo.

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Naomi Prado/CARNAVALESCO

No ano passado coloquei as duas águias voando numa história e, este ano, precisava de um link com a escola. Pesquisando, vimos que a Nenê tinha uma relação muito grande com a São João: foi tricampeã do carnaval da São João quando o desfile foi instituído oficialmente em São Paulo, em 1968, 1969 e 1970. Esse foi o fio condutor para mostrar a relação da Nenê com o centro da cidade”, disse.

A aceitação da comunidade

“No início acharam que o enredo era só sobre as religiões dos povos de rua e já gostaram disso. Outros torceram o nariz, achando que seria apenas isso, e teve quem dissesse: ‘Nossa, Ipiranga com São João é boêmio, é nostálgico’.

Quando entenderam que o enredo é sobre a esquina e que usamos uma pincelada de espiritualidade, compreenderam que não é um enredo religioso, mas uma homenagem à cidade de São Paulo — algo que a Nenê domina e já fez com sucesso. Colocamos também um toque de malemolência e africanidade no samba, encaixando isso na ideia de encruza”, explicou.

O enredo em setores

“Estaremos divididos em três setores.

O primeiro é histórico, mostrando a relação da Nenê, os ecos de um povo. A rua é tratada como uma alma encantada, com vida própria, gerando histórias. Mostramos construções históricas do centro, como o atual Santander, o Mercado Municipal e o Teatro Municipal, além do surgimento do Bar Brahma como polo da boemia.

O segundo setor fala da esquina musicada. Grandes artistas passaram por lá: Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Caetano Veloso. O bar virou ponto de encontro de toda a sociedade, inclusive estudantes na ditadura.

No terceiro setor voltamos à Nenê, mostrando o encontro da Ipiranga com São João com o Anhembi, especialmente pelo camarote do Bar Brahma. Encerramos com Exu abrindo e fechando os caminhos”, explicou.

O ponto alto do desfile

“O ponto alto é a mistura de espiritualidade com boemia. Isso mexeu com a escola. Nos ensaios, vimos gente de vermelho, com indumentárias religiosas. Incorporaram o enredo.

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Naomi Prado/CARNAVALESCO

Mostramos também a personificação do Seo Nenê nos malandros e boêmios, porque ele frequentava a São João. Esse início e final fortes mostram que a Nenê pode voltar a ser protagonista”, afirmou.

Desfile em cores

“A bateria vem de vermelho, assim como as passistas. Temos carro em preto e branco quando falamos de São Paulo. O abre-alas vem dourado, lembrando a era de ouro da cidade. É uma Nenê colorida, mas sem abandonar o azul e branco”, disse.

Materiais

“Usamos muito tecido brilhoso, glitterizado, lunita, estampados. O abre-alas é praticamente todo esculpido, com réplicas de cartões-postais. Vamos investir mais em iluminação e cenografia, com grupo cênico em todos os carros e um abre-alas com dois chassis”, contou.

Para comunidade

“Quero dizer que dá para acreditar. Pelas notas, fomos a escola que mais tirou 10, mas o descarte nos tirou o título. Temos condições de ganhar.

O samba foi criticado no pré-carnaval, mas hoje levanta a comunidade. É um trabalho pensado, milimétrico. Não é gigantismo é acabamento, coesão e clareza”, finalizou.

Ficha técnica
3 carros alegóricos
14 alas
1.700 componentes
Diretor de barracão: Cristiano Paixão

Carnavalesco da Estácio de Sá projeta desfile emocionante e colorido

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Pelo terceiro ano consecutivo assinando o desfile da Estácio de Sá, Marcus Paulo, pesquisador de assuntos afrocentrados com foco na decolonialidade, projeta um carnaval de cores e emoção para contar a história de Tata Tancredo, o papa negro da umbanda.

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Fotos: Divulgação

“Construir este enredo e posteriormente o carnaval, me trouxe mais perto da escola e do morro do São Carlos. O Tata Tancredo foi uma pessoa influente no morro, na cultura carioca e me aproximar dele me fez entender mais a paixão do estaciano pela sua escola”, comentou o carnavalesco.

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Fotos: Divulgação

Marcus Paulo a três anos vem desenvolvendo um trabalho consistente na escola alcançando bons resultados como o terceiro lugar, em 2024, e o vice-campeonato, em 2025. E neste ano sonha em ser o campeão da Série Ouro e voltar a desfilar no Grupo Especial: “O projeto de toda escola é voltar ao à elite do carnaval do Rio de Janeiro e temos um samba que é a cara da comunidade, que está cantando muito nos ensaios”.

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Fotos: Divulgação

Para o carnaval de 2026 o artista projeta uma abertura colorida e aos moldes do homenageado: “O Tata Tancredo veio de uma família festeira, a Estácio de Sá é uma escola festeira e estamos falando de carnaval então nada mais coerente do fazer essa abertura com cores”, revelou o carnavalesco.

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Fotos: Divulgação

A Estácio de Sá será a quinta escola a desfilar no sábado dia 14 de fevereiro.

TV Brasil exibe a folia em Salvador e apresenta desfile das escolas de samba da Série Prata do Rio no Carnaval

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TV Brasil transmite uma ampla programação de Carnaval com destaque para as manifestações da cultura popular a partir de sexta (13). A emissora mostra a folia de rua em Salvador em vários dias e o desfile das escolas de samba da Série Prata do Rio de Janeiro, com exclusividade na telinha, direto da Intendente Magalhães, nos dias 15 e 16 de fevereiro, ao vivo, para todo o país.

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Foto: Jefferson Machado / GOVBA

Durante a festa momesca, a TV Brasil acompanha os blocos de rua e os grandes shows de ícones da música nacional, principalmente dos ritmos baianos, com as personalidades nos mais importantes circuitos de Salvador, na faixa Carnavais do Brasil. A programação inclui blocos afro, afoxés, de samba, de reggae e de índio.

O canal celebra as apresentações de fenômenos da cultura popular que arrastam foliões nos circuitos Barra-Ondina, Campo Grande e Pelourinho, com imagens da TVE Bahia, em rede. As atrações de Salvador ganham a telinha na sexta (13), às 23h; no sábado (14), às 21h; e na terça (17), também às 21h.

A transmissão do desfile das escolas de samba da Série Prata é comandada pelos jornalistas Tiago AlvesBia Aparecida e Flávia Grossi. Os apresentadores recebem convidados especiais no estúdio para comentar a evolução das agremiações e analisar a performance das escolas que pretendem subir para a Série Ouro para desfilar na Sapucaí em 2027.

A programação entra no ar às 18h no YouTube da emissora. Já na televisão, a TV Brasil mostra a festa momesca a partir das 20h30 no domingo (15) e das 21h na segunda (16). A repórter Anna Karina acompanha os preparativos das escolas no início dos desfiles, direto da concentração. Já o noticiário da dispersão pauta os repórteres Fernanda Cruz no domingo (15) e Vladimir Platonow na segunda (16).

Ao todo, 29 agremiações percorrem a Estrada Intendente Magalhães em dois dias de desfile. As escolas celebram as manifestações da cultura nacional com a irreverência e a garra das comunidades. Tiago Alves e Bia Aparecida conduzem a transmissão do canal no domingo (15), enquanto Flávia Grossi faz dupla com o jornalista na segunda (16).

O cortejo inclui pavilhões tradicionais que já desfilaram no Grupo Especial como Renascer de Jacarepaguá, Vizinha Faladeira, Tradição, Lins Imperial, Império da Tijuca, São Clemente, Acadêmicos da Rocinha e Leão de Nova Iguaçu, entre outras agremiações.

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Foto: Rodrigo Peixoto / TV Brasil

No domingo (15), a transmissão da TV Brasil recebe como convidados a pesquisadora Bia Chaves, a produtora cultural Helyane Silsan, o jornalista Rodrigo Santos e o coreógrafo Marcos Bandeira. Já os comentaristas no estúdio da emissora na segunda (16) são a jornalista Suelen Martins, a diretora de bateria Thayane Cantanhêde, o mestre de bateria Dinho Santos e o sambista Pedro Araújo.


Programação da faixa Carnavais do Brasil na TV Brasil

Carnaval de Salvador

13 de fevereiro (sexta), às 23h
14 e 17 de fevereiro (sábado e terça), às 21h

Desfile das Escolas de Samba da Série Prata do Rio de Janeiro

15 de fevereiro (domingo), às 20h30, com exclusividade, na TV Brasil e às 18h, no YouTube da TV Brasil

16 de fevereiro (segunda), às 21h, com exclusividade, na TV Brasil e às 18h, no YouTube da TV Brasil

Carnaval para sentir: das ruas ao sofá, a mesma emoção em cada batida

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Fevereiro chegou e, com ele, uma certeza quase universal no Brasil: o Carnaval não é apenas uma festa, é um estado de espírito. Durante todo o mês, o país vibra como se cada tambor marcasse não só o ritmo do samba, mas também a urgência de viver intensamente, como se fosse a última grande celebração antes de “o ano começar oficialmente”.

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Foto: Dolby Atmos/Divulgação

Essa experiência, no entanto, não se limita a um único cenário. O Carnaval é plural, multicultural e democrático. Ele acontece nos blocos de rua, nos trios elétricos, nas micaretas, nos salões e avenidas, ao som do samba, do frevo, do axé. Mas acontece também dentro de casa, reunindo famílias e amigos que transformam a sala no próprio camarote, sem abrir mão da emoção.

Porque, onde quer que o Carnaval aconteça, há algo que conecta todas as experiências: o impacto visceral do som. Os batuques que fazem o corpo responder antes mesmo da razão, a bateria que acelera o coração, os agudos dos intérpretes que arrepiam a pele. O Carnaval é, acima de tudo, algo que se sente.

A relação entre Carnaval e entretenimento doméstico não é recente. A primeira transmissão dos desfiles das escolas de samba aconteceu ainda na década de 1960, abrindo caminho para que milhões de brasileiros pudessem vivenciar a magia da Avenida sem sair de casa, transformando salas de estar em espaços de encontro onde gerações torcem, celebram e criam memórias juntas.

É nesse mesmo período que a Dolby Laboratories inicia sua trajetória. Desde 1965, a empresa vem transformando a forma como o público se relaciona com o audiovisual, inovando para tornar o entretenimento em casa cada vez mais imersivo, emocional e próximo da experiência real.

Com o Dolby Atmos incorporado a muitos dos sistemas de entretenimento doméstico atuais, os sons do Carnaval não saem simplesmente da tela; eles envolvem você.

Para quem escolhe viver o Carnaval em casa, a emoção pode, e deve, ser tão intensa quanto a da rua. Torcer pela escola de samba do coração vai além de decorar o samba-enredo. É um ritual que atravessa gerações, une histórias, cria memórias e faz vibrar com cada virada da bateria, cada surdo, cada chocalho e cada grito que ecoa pela Sapucaí. Basta fechar os olhos para sentir.

Com as transmissões dos desfiles das Escolas de Samba em Dolby Atmos pela Globoplay, Rede Globo de São Paulo e do Rio de Janeiro, a sala de casa se transforma, e a distância entre o sofá e a avenida simplesmente desaparece.

O Carnaval é essa celebração única que se adapta a cada pessoa, a cada escolha, a cada espaço. Seja no meio da multidão ou em casa, com quem se ama, a intensidade permanece. Porque Carnaval não é sobre onde você está – é sobre o que você sente.

E quando a tecnologia trabalha a favor da emoção, como faz a Dolby há quase seis décadas, a experiência deixa de ser apenas assistida e passa a ser vivida. Das ruas ao sofá, o Carnaval continua sendo aquilo que sempre foi: uma explosão de som, cultura e sentimento, sentida em cada batida.

 

 

Série Barracões: Tiago Martins ousa com Lula e amplia a aposta da Acadêmicos de Niterói na estreia no Especial

Recém-chegada ao Grupo Especial, a Acadêmicos de Niterói decidiu não seguir o roteiro tradicional das escolas que chegam à elite do carnaval carioca. Em vez de apostar em um enredo “seguro”, a agremiação escolheu homenagear Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente da República, em um momento em que o país ainda vive os efeitos de uma forte polarização política.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A decisão colocou a escola no centro do debate desde o início da temporada. Internamente, porém, a escolha também dialoga com outra disputa: a que envolve o próprio lugar da agremiação no Grupo Especial. Para o carnavalesco Tiago Martins, a lógica de sobrevivência que costuma orientar as recém-promovidas precisava ser transformada.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Procurei fazer algo diferente porque todas as escolas que sobem estão sempre fazendo o certinho. E é aquele ditado: ‘Quem sobe, desce’. Isso me deu a oportunidade de criar e ousar, de fazer o melhor para a Acadêmicos de Niterói”, declarou o carnavalesco.

A ousadia aparece também na dimensão do projeto. Mesmo recém-promovida, a escola prepara um desfile de grande porte, com alegorias robustas e ambição visual de quem não pretende apenas permanecer.

“Perguntam: ‘Ah, é político?’. É, assim como Rita Lee é [um enredo] político, como Ney Matogrosso é político. Todos eles têm passagens por lugares difíceis e complicados. E o carnaval é político. Estamos aí para fazer essa grande homenagem para esse homem”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o carnavalesco diz que houve cuidado para que o desfile não fosse confundido com propaganda eleitoral. Segundo ele, a construção do enredo evitou qualquer referência que pudesse caracterizar campanha:

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“A gente não tem slogan, a gente não tem número, a gente não tem faixas, frases, nada que fale sobre eleição. Nos preocupamos muito para o desfile não virar uma campanha”.
O ponto de partida: a fome, o fantástico e o amor de mãe

Antes de chegar ao operário, ao sindicalista ou ao presidente, o enredo da Acadêmicos de Niterói começa na infância, em Garanhuns. É ali que o desfile se ancora para apresentar a experiência da fome pelo imaginário popular.

No primeiro setor entram as lendas da cabra cabriola, do bicho-papão e da cobra muçurana — histórias contadas às crianças quando alguém morria de fome ou não sobrevivia ao parto. O fantástico surge como recurso narrativo para tratar de uma realidade dura, criando uma abertura que mistura fantasia e escassez.

Ao falar sobre a pesquisa, Tiago Martins destacou outro elemento que o marcou profundamente: a relação entre Lula e a mãe, Dona Lindu.

“O que acho de mais interessante na pesquisa do enredo é o amor da mãe pelo filho e o amor do Lula pela mãe”, contou.
Entre os episódios que atravessaram o processo de pesquisa está a morte de Dona Lindu, em 1980, quando Lula estava preso durante a ditadura militar.

“E, quando a mãe morre, o Lula está preso. E ele é carregado pelo povo até o caixão da sua mãe para poder fazer o sepultamento”.

A partir desse conjunto — a infância marcada pela fome e o vínculo com a mãe — o desfile constrói sua base emocional antes de avançar para os capítulos da migração, da metalurgia e da projeção nacional do homenageado.

Um desfile que se transforma

Se o enredo começa no agreste pernambucano, a estética também acompanha essa travessia. Tiago Martins afirma que o desfile foi pensado como um percurso visual que muda ao longo da Avenida, acompanhando as fases da vida do homenageado.

“Esse é um desfile em homenagem ao Lula que vai se modificando. Começamos com o mundo fantástico da criança, depois continuamos em Garanhuns, no Sertão, na seca, o pau de arara trazendo a família para São Paulo. Chegando em São Paulo, abordamos a ditadura, a greve, a metalúrgica.

Em seguida, os projetos sociais que foram feitos quando ele se tornou presidente. E terminamos com os dias atuais, com tudo o que vem acontecendo e que estamos acompanhando pela TV, pela rádio, pela internet”, detalhou o artista.

A transformação não é apenas temática, mas também cromática. Segundo o carnavalesco, o desfile altera suas cores e atmosferas conforme avança, culminando em uma imagem final que recupera as cores da bandeira nacional.

“Do início até o final, as pessoas vão ver um desfile que muda esteticamente, muda de cor. Guardei as cores da bandeira do Brasil para encerrar o nosso desfile”, revelou.

No setor da metalúrgica, o projeto aposta em materiais que remetem ao metal e em uma representação ampliada do operário. Já no momento dedicado aos programas sociais, a alegoria central assume a forma de uma pirâmide social em transformação, sintetizando visualmente a ideia de mobilidade — e também de retrocesso — social.

Liberdade criativa

O desfile marca o retorno de Tiago Martins ao Grupo Especial. Em 2022, ele assinou pela São Clemente o enredo “Minha Vida é uma Peça”, em homenagem a Paulo Gustavo. A escola acabou rebaixada naquele ano, e o processo criativo, segundo ele, foi atravessado por interferências.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Eu tinha um enredo e, de um dia para o outro, o enredo era outro. Pensei se ficaria ou não, mas estava passando por necessidade, praticamente dois anos sem carnaval por causa da pandemia. Comecei a escrever uma sinopse, comecei a levar a história para um lado, quando recebi uma sinopse com áudio falando como eu deveria fazer o carnaval. Eles, ao mesmo tempo, deram e não deram a oportunidade para eu ser carnavalesco”, contou.

Depois da saída, Tiago foi convidado para assumir a Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2024. A parceria resultou no título da Série Ouro em 2025 e no acesso ao Grupo Especial.
“Perguntei ao presidente se poderíamos [eu e o enredista Igor Ricardo] desenvolver o enredo da nossa maneira, e ele disse que tínhamos liberdade total”.

Para o carnavalesco, o momento representa uma virada profissional:
“Eu precisava disso para me sentir importante como artista. Fui muito desvalorizado e a Niterói me abraçou de uma forma que muito me valoriza. Hoje estou no lugar certo, na hora certa, no momento certo, com o enredo certo para fazer história”.
Brasília e a expectativa da Avenida
A construção do enredo levou a equipe até Brasília para apresentar o samba ao presidente. O encontro foi marcado por emoção.

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

“Quando acabamos de escutar o samba lá, ele começou a chorar e a contar, com a voz embargada, a história dele”, contou.
Segundo Tiago, Lula relembrou episódios ligados à fome e à pobreza:
“Quando ele vai inaugurar uma praça ou qualquer coisa e alguém fala para ele sobre a pobreza e a fome, ele diz que entende, porque também passou por isso. Ele entende a dor de não ter. E isso mexeu muito comigo”.
A presença do presidente na Sapucaí ainda é incerta. A escola reservou espaço no último carro alegórico, mas não há confirmação.
“Ah, meu coração vai pirar, a Sapucaí vai pirar! É o sonho da gente ter ele presente no nosso desfile para concretizar esse enredo”.
Caso não participe, a primeira-dama Janja ocupará o espaço ao lado de 45 convidados.

Conheça o desfile

A Acadêmicos de Niterói levará para a Avenida um desfile com 7 alegorias, 25 alas e cerca de 3 mil componentes.

1º Setor – A fome pelo imaginário popular
Abre-alas ambientado no agreste pernambucano, com lendas como cabra cabriola, bicho-papão e cobra muçurana. O carro terá três chassis e trará Lula criança sobre um pé de mulungu, simbolizando esperança.

2º Setor – Garanhuns
O sol, a seca, a fome e os retirantes partindo em pau de arara rumo a São Paulo.

3º Setor – O operário
Lula engraxate, ambulante e torneiro mecânico. Surge o sindicalista, as greves e a prisão na ditadura. Destaque para uma grande metalúrgica com escultura monumental do homenageado.

4º Setor – A pirâmide social
Representação dos programas sociais, mobilidade econômica e combate à fome. A alegoria central é uma pirâmide em transformação.

5º Setor – Brasil contemporâneo
Diálogo com os dias atuais e encerramento com as cores da bandeira nacional, reforçando que pertencem ao povo brasileiro.

Série Barracões SP: Império de Casa Verde promete ‘retorno triunfal’ em enredo sobre balangandãs

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Após um 2025 com uma decepcionante décima primeira colocação, o Império de Casa Verde chega para 2026 com a autoestima renovada por conta do enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza. Abrindo o sábado do Grupo Especial, a agremiação resgata uma tradição recente de desfiles que abordam grupos minoritários na sociedade brasileira.

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Para saber mais sobre o que virá no desfile do Tigre, o CARNAVALESCO entrevistou o carnavalesco Leandro Barboza e o enredista Tiago Freitas para a Série Barracões SP. É importante relembrar que, ao contrário do que acontece com as treze coirmãs do Grupo Especial, o Império de Casa Verde não utiliza o espaço destinado a ele na Fábrica do Samba — e, sim, mantém um espaço próprio ao lado da quadra da instituição, na Rua Brazelisa Alves de Carvalho.

Cultural até no início

Ao ser perguntado sobre como surgiu a ideia de falar dos balangandãs, o carnavalesco destacou que um evento, em especial, teve papel fundamental na concepção da temática:

“Eu e o Tiago já tínhamos uma ideia de fazer algo nessa linha. Aí, um grande amigo nosso, o Rodney William, estava na Bahia e falou que estava acontecendo uma exposição sobre o tema. Chamei o Tiago, fomos na hora e disse que era para a gente puxar essa ideia. O Rodney nos alimentou no início, com muito material de lá — já que ele tinha o conhecimento de várias pessoas. Em paralelo a isso, o Tiago começou a se aprofundar nas pesquisas. E, quando a gente apresentou na escola, deu tudo super certo. O presidente na época, o Alexandre, topou na hora a temática. A gente ficou em cima do muro ainda, porque tinham dois enredos patrocinados. Mas, um pouco depois do Carnaval, a gente já estava com esse enredo na gaveta, trabalhando. A demora para a divulgação foi pelo patrocínio desses dois outros enredos que estavam estudando a parte financeira”, revelou.

Início no campo

Com uma exposição como ponto de partida, foi possível começar a pesquisa no próprio evento. Tiago explica:

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

“A gente faz essa prévia de pesquisa em cima do que tem lá em Salvador, que é a exposição ‘Dona Fulô e Outras Joias Negras’, que esteve em cartaz no Museu de Arte da Bahia (MAB). Eu já sabia que, para mim, dentro dos meus sentimentos de pesquisa, Fulô seria a condutora, a narradora do nosso enredo. A gente se aprofundou em quem foi Dona Fulô, apelido de Florinda Ana do Nascimento. A gente carrega toda a história dela dentro da nossa setorização, do envolvimento dela com a escola — no sentido figurado, é claro: como a narradora vai tocar a escola e como a escola vai tocar a narradora. Trabalhamos dessa maneira até chegar à condutora do enredo”, afirmou.

Dificuldades e destaques

O enredista também falou sobre a principal preocupação no desenvolvimento do enredo:

“Nosso principal desafio foi como não fazer isso se repetir ou ficar repetitivo por se tratar apenas de um elemento — os balangandãs. Para isso, fiz um desdobramento de pesquisa para que não ficasse cansativo para o público nem para o jurado. Encontramos saídas visuais e narrativas, quebrando um pouco da expectativa só do ouro. Essa foi minha maior dificuldade no começo”, comentou.

O trabalho dos ourives, iniciado graças às escravas de ganho, também foi destacado:

“Me chamou muita atenção os ourives que, clandestinamente, faziam esses trabalhos. A joalheria brasileira começa com eles, com esses negros que moldavam joias de forma clandestina. Pensar que com eles nasce a joalheria brasileira é muito forte. Por isso os ourives têm uma importância muito grande no nosso enredo”, afirmou.

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Setorização

Para contar essa história, o Império terá divisão em cinco setores:

“Dividimos a escola em cinco setores. O Setor 1 é a comissão de frente, com Dona Fulô sonhando um sonho místico. A partir desse sonho, surge toda a narrativa. No Setor 2, as joias aparecem como amuleto espiritual. No Setor 3, como cofre ancestral, a riqueza no corpo. O Setor 4 traz as joias como reza e batuque, o afro-catolicismo. E o Setor 5 trabalha as joias como ganho de liberdade, mostrando as profissões que garantiram autonomia a essas mulheres”, detalhou.

Cores e materiais

Leandro destacou a predominância cromática e escolhas de materiais:

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

“A escola vem com muito ouro, muito dourado. Cerca de 80% da escola é em ouro. Mas trazemos também um setor inteiro em prata e falamos das pedras preciosas, especialmente em azul. Estamos usando muito acetato, algo que não era comum no Império, além de bastante metal nas alas”, explicou.

Retomada

Leandro vê o desfile como continuidade temática:

“Esse desfile complementa 2023 e 2024. Seria nossa terceira apresentação nessa linha. A comunidade abraçou muito e estamos felizes com o resultado”, afirmou.

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Tiago reforçou: “A comunidade se reconhece como ponto de negritude. A Casa Verde é um dos bairros mais negros de São Paulo e a resposta ao enredo foi imediata”, disse.

Destaques

Leandro apontou quesitos de atenção:
“A comissão de frente é uma grande aposta, com coreografia do Sérgio Cardoso. A bateria dispensa comentários. E fechamos o desfile com a Velha Guarda e figuras como as amas-de-leite”, destacou.

Tiago complementou de forma poética: “O começo e o final se conectam: é o sonho e a liberdade vencendo. O que não se contou na História estará na Avenida, de forma respeitosa e sagrada”, afirmou.

“Podem esperar o retorno de um Império triunfal, grandioso em chão, visual, fantasia e alegoria”, encerrou Leandro.

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Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Tiago concluiu: “O Império está concentrado, ensaiando muito e vai surpreender. Será um desfile técnico e emocionante”.

Ficha técnica
Alegorias: 4 (abre-alas duplo), 1 tripé e elemento alegórico da comissão de frente
Alas: 18
Componentes: 1.800
Diretor de barracão: Ney Meirelles

Feminismo negro e ancestralidade guiam a Mocidade Unida da Mooca em sua chegada ao Grupo Especial

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A Mocidade Unida da Mooca, para 2026, fará sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo apostando em um enredo de forte impacto social e simbólico. Com “Gèlèdés – Agbára Obìrin”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro, a escola levará para a Avenida uma narrativa que mergulha na potência do feminismo negro, na ancestralidade africana e na força espiritual e política das mulheres negras ao longo da história.

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A proposta une pesquisa acadêmica, militância, religiosidade e construção estética autoral, partindo do Instituto Gèlèdés e das reflexões de pensadoras como Sueli Carneiro, Conceição Evaristo e Maria Beatriz Nascimento. A MuM, conhecida pela força plástica e por enredos marcantes, promete uma abertura impactante na sexta-feira de Carnaval.

A escola, que inicia seus projetos a partir do samba-enredo, desenvolveu a temática por meio de um processo interno que priorizou originalidade estética, identidade conceitual e coerência narrativa, consolidando um desfile que pretende unir emoção, política racial e grandiosidade visual em sua estreia na elite do samba paulistano.

Para o Carnavalesco, a MuM abriu as portas de seu barracão para conversarmos com o artista Renan Ribeiro.

Chegada do tema

Renan contou como o tema chegou até a Mooca, escola que inicia seus projetos a partir do samba-enredo:

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

“Antes de termos o Instituto Gèlèdés como homenageado, tínhamos três ideias, três temas, mas ainda não eram três enredos; eram três temáticas que nos agradavam. Começaram a ser construídos três sambas, um para cada tema. Para selecionar, houve uma eliminatória interna, e sentimos que um deles não iria avançar. O enredo não encaixava, o samba não tinha a que se adequar. Não estava perto daquilo que imaginávamos para uma estreia no Grupo Especial.

Os outros dois ganharam mais corpo, mas um começou a lembrar caminhos já trilhados pela escola. Desde a minha recontratação, eu, Rafael e a direção decidimos propor algo diferente: metodologia, estética e dinâmica internas novas. Não podíamos repetir.

A temática ligada ao feminismo negro ganhou mais liberdade e corpo. Dentro dela havia possibilidades de enredo. Mesclamos algumas ideias para construir o Gèlèdés”, relatou.

O enredo

O carnavalesco detalhou o desenvolvimento até a escolha final:

“A partir da pesquisa inicial sobre a sociedade africana Gèlèdés, um culto urbano feminino e secreto, nos ligamos automaticamente ao Instituto Gèlèdés, pelo ativismo do feminismo negro. Chegamos a Sueli Carneiro e a outras pensadoras como Helena Teodoro, Conceição Evaristo, Maria Beatriz Nascimento e Djamila Ribeiro.

Sabendo disso, sentei com a Thaísa e propus que ela pesquisasse livremente, tendo apenas a temática como limite. Quinze dias depois marcamos um encontro. Ela leu a pesquisa dela, eu li a minha — era a mesma coisa. Mesmo desenrolar, mesmo desfecho: o conceito de Agbára, essa energia que governa as mulheres negras. Em 20 minutos dissemos: temos um enredo.

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Foto: Naomi Prado / CARNAVALESCO

O presidente Rafael aprovou e seguimos para o próximo passo, já com samba e enredo definidos”, contou.

O que mais chamou atenção no tema

Renan destacou o ponto de partida conceitual:

“Uma frase da Thaísa foi o start: existe uma forma de organização que faz as mulheres negras caminharem para o mesmo lugar, mesmo sem acordo entre elas. Em contextos e épocas diferentes, as histórias se conectam.

Ela disse que toda mulher negra que cruza com outra na rua se olha, se reconhece. Perguntei a várias e todas confirmaram. Entendi que existe uma energia que governa essas mulheres. Chegamos ao Agbára Obìrin: a potência do feminino africano.

Paralelamente, textos de Sueli Carneiro trazem pontos importantes, como a ideia de que a fragilidade sempre foi atribuída à mulher branca. A mulher negra foi vista como resistente, sem direito à fragilidade.

Na espiritualidade africana, a mulher tem papel de equivalência ou superioridade: yalorixás, yabás, lideranças femininas. A sociedade africana espelha esse divino”, explicou.

Desenvolvimento dos setores na Avenida

Renan detalhou a narrativa visual:

“A abertura é a construção do Agbára. Abrimos com a criação do mundo na perspectiva africana, ligada a Odudua, a mulher que cria o mundo. O abre-alas é um grande assentamento feminino.

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Foto: Naomi Prado / CARNAVALESCO

Depois atravessamos o oceano, chegando ao período da escravidão. O Agbára permanece vivo no Brasil. No setor seguinte, a mulher reconecta-se às raízes através do conceito de Mulheres Atlânticas, baseado em Maria Beatriz Nascimento.

No terceiro setor mostramos movimentos que comprovam essa força: Irmandade da Boa Morte, afoxés, quilombos, marisqueiras de Sergipe, Maria Felipa, Teresa de Benguela e militantes ligadas ao Instituto Gèlèdés. O enredo carrega forte mensagem política e social”, relatou.

Materiais nos carros alegóricos

O carnavalesco explicou as escolhas estéticas:

“Pensamos também nos critérios de julgamento, como diversidade entre alegorias. Priorizamos um trabalho artesanal.

No abre-alas usamos bambu e cestaria: oito caminhões de material e quase três meses de trabalho manual com artistas de Parintins. A iluminação é interna, como um abajur. O bambu traz rusticidade e elegância, que associo ao feminino.

O segundo carro destaca transparência, ferro aparente, movimento mecânico e artistas circenses — é um carro aquático.

No terceiro teremos chafariz e cascata de água, simbolizando limpeza espiritual.

O quarto homenageia o Instituto Gèlèdés: urbano, moderno, futurista, grafitado pelo artista Cabelo, com imagens de mulheres do feminismo negro”, contou.

Ficha técnica

4 carros alegóricos

2.000 componentes

19 alas

Diretor de barracão: Diego

Série Barracões SP: Milênio transformará Anhembi em poesia

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A Estrela do Terceiro Milênio se consolidou no Grupo Especial de São Paulo e, para 2026, investirá em cativar o público com emoção e criatividade. A comunidade do Grajaú será a quinta a cruzar o Anhembi no sábado de Carnaval com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo. A agremiação apostará na força da palavra, na grandiosidade das composições e na emoção para reverenciar um dos maiores letristas da música brasileira, levando para a Avenida a trajetória, as parcerias e o legado de um artista que fez da poesia sua eternidade. Ao CARNAVALESCO, o artista Murilo Lobo discorreu sobre a proposta que será desenvolvida durante o desfile da agremiação.

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Chegada do tema

Murilo contou como surgiu a ideia do enredo e como ele foi aprovado pela diretoria e pelo homenageado.

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

“O Alex me apresentou, em um dia, uma canção, parceria do César Rêvenil com João Nogueira, As Forças da Natureza, e falou: ‘Você já prestou atenção que essa letra é praticamente um enredo por inteiro?’.

E eu fui olhar aquele samba e realmente ele era fantástico. Questionei: quem escreveu isso? E vi lá o nome de Paulo César Pinheiro. Eu tinha assistido recentemente ao musical Clara, a guerreira, que tinha a cena do casamento deles e tudo mais, mas fui ligando os fatos e decidi pesquisar esse cara.

Tomei um choque. Primeiro pela história espetacular de vida, depois por uma obra incrível: mais de duas mil composições, mil e quinhentas gravadas, quinhentas parcerias, mais de 800 intérpretes o gravaram. São números superlativos. Para além disso, uma questão muito pessoal: das dez músicas que eu diria que são minhas prediletas de vida, seis eram de Paulo César Pinheiro e eu não sabia. A gente costuma se lembrar de quem canta as canções, mas esquece de quem doou a alma para escrevê-las.

Eu trouxe para a direção a ideia e todos tiveram a mesma reação de perguntar quem era. Fui mostrando as canções e todo mundo foi sentindo a mesma coisa: ‘Que bacana fazer um enredo tão necessário’. Mas surgiu a dúvida se ele aceitaria, por ser carioca.

Tentei contato por rede social, telefone… nada. Então procurei a Luciana Rabello, esposa dele. Escrevi uma carta me apresentando, falando da escola e da homenagem. Ela respondeu que achou linda a proposta e que consultaria o Paulo.

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

Depois ela retornou dizendo que ele autorizava e que poderíamos ficar à vontade. No começo de dezembro fomos ao Rio conhecê-lo pessoalmente. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Ele está com uma questão motora, mas com a mente perfeita. Vibrou o tempo todo. Foi lindo”, relatou.

Enredo desenvolvido em alegorias

O carnavalesco explicou como virão as quatro alegorias na Avenida e o contexto de cada uma.

A abertura terá Olodumarê, o criador, segurando um grande espelho com portas giratórias, simbolizando o dom divino refletido na obra do poeta.

A segunda alegoria trará um Brasil tropical em tons avermelhados, representando o sangue derramado na construção do país, com esculturas de negros e indígenas e referência ao Canto das Três Raças.

Outra alegoria abordará a relação entre Paulo César Pinheiro e Clara Nunes, com um altar sincrético reunindo santos católicos e orixás, inspirado no ambiente espiritual do casal e na canção Um Ser de Luz.

Já o último carro falará da consagração do poeta e do processo de criação, com esculturas, livros e um espelho onde o homenageado se vê refletido em sua própria obra.

Proposta diferenciada

A ideia é apresentar um carnaval inovador na história da escola.

“É um carnaval com 8 alegorias. O julgamento mudou, então podemos apresentar não só os quatro carros, mas também quadripés alegóricos.

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

Os nossos quadripés têm cerca de 9 metros de altura. Estamos tentando trazer um carnaval diferente, com 128 esculturas. Um carnaval escultural”, explicou.

O projeto aposta em recortes digitais, acetatos e volumes, além de uma paleta harmonizada com as cores da escola.

Os casais

Murilo também revelou a concepção dos casais.

O primeiro casal virá representando o Deus Apolo, simbolizando a música e a poesia, e a musa inspiradora do poeta.

O segundo casal representará a literatura e o poeta autodidata, inspirado na formação intelectual de Paulo César Pinheiro através dos livros.

Baianas, bateria e passistas

As baianas virão inspiradas em Bodas de Ouro, com referências a Ivone Lara, alianças e pautas musicais.

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Foto: Naomi Prado/CARNAVALESCO

A bateria representará O Besouro, o Cordão de Ouro, musical criado pelo compositor.
As passistas virão como Clara Nunes, simbolizando a primavera, enquanto os passistas masculinos representarão o poeta beija-flor.

Ponto alto do desfile

“O ponto alto será o impacto da emoção, da beleza e do lirismo. É um projeto diferente, um conjunto alegórico bem diverso”, afirmou.

Ficha técnica

4 carros alegóricos
3 quadripés
16 alas
1.600 componentes
1 elemento alegórico (Comissão de Frente)
Diretor de barracão: Joinha

Carnaval: 5 curiosidades sobre a data

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Uma das festas mais populares do mundo, o Carnaval tem suas origens na Antiguidade pré-cristã e foi incorporado, delimitado e datado pelo calendário do cristianismo. “Antes de sua validação pela Igreja, era um período de festas profanas, invernais, regidas pelo ano lunar. Os povos pagãos realizavam rituais, utilizavam fantasias e máscaras, dançavam para seus deuses – essa manifestação destacava a sobrevivência humana em face aos rigores do frio e aos riscos da morte por enfermidades ou por violência”, explica Ana Beatriz Dias Pinto, especialista em comportamento humano e professora da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

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Foto: Divulgação/PG1 Comunicação

Confira 5 curiosidades que ajudam a entender o Carnaval:

Qual o significado da palavra Carnaval?

Para alguns, o nome da expressão latina carne vale! (adeus, car-ne!), anunciaria entrada na abstinência quaresmal. Em Roma, com os povos pagãos, havia uma festa, a Saturnália, na qual um carro no formato de navio abria caminho em meio à multidão, que usava máscaras e promovia as mais diversas brincadeiras em honra ao imperador. A origem da palavra carnaval seria carrum navalis (carro naval). Essa interpretação é contestada pela Igreja (que passou a realizar procissão semelhante, mas para seus santos). Atualmente, a etimologia mais aceita liga a palavra carnaval à expressão carne levare, ou seja, afastar a carne, do latim levare, “tirar, sustar, afastar”. No início do cristianismo, no hemisfério norte, a manifestação de sobrevivência ao inverno através de comilanças pantagruélicas era um último momento de consumo de carne e de festejos antes do período de abstinência e de conversão à qual a Quaresma convidava. Portanto, sair às ruas para dançar, festejar os Santos, beber e comer carne era uma oportunidade de alegria, que só voltaria com a Páscoa (40 dias depois).

O que inspirou os desfiles de Carnaval?

As procissões inspiraram os desfiles de Carnaval. Elas consistem em marchas solenes de caráter religioso, organizadas pela Igreja Católica, geralmente pelas ruas de uma cidade. Os padres e outros clérigos saem paramentados, carregando imagens, crucifixos, à frente de andores, estandartes, pálios ricamente decorados, velas, lanternas, archotes, cruzes alçadas, lampadários e bastões. Eles são levados por fiéis, também paramentados, das diversas irmandades e confrarias, religiosos e religiosas, e pelos leigos, em geral, formados em duas ou mais alas. As procissões rezam e entoam cantos, hinos e motetos, acompanhadas por fanfarras, bandas, música de instrumentistas, corais e cantores. Além do som de sinos ou matracas, e até de rojões, dependendo do caráter da procissão. Nas procissões há cumprimento de promessas e alguns andam de pé descalço, carregam pedras, andam um trecho de joelhos… As passeatas e manifestações de rua, de operários, estudantes e grevistas, por exemplo, adotaram a liturgia católica das procissões e saem com seus símbolos, estandartes, cantos e palavras de ordem (às vezes desordem) ao mesmo estilo.

Os blocos, maracatus, cordões e vários grupos carnavalescos construíram suas coreografias, apresentações e forma de desfiles sobre o modelo das procissões. Há até estudos antropológicos sobre essa contribuição da sagrada procissão ao desfile do Carnaval.

O que o Carnaval representa hoje em dia?

“Com o Carnaval, as pessoas expressam a esperança, a chegada de tempos melhores (primavera no Hemisfério Norte) e a oportunidade de extravasar antes de iniciar um período mais introspectivo e reflexivo para os cristãos, por ocasião da Quaresma (um período de 40 dias de orações e jejum em preparação para a Páscoa)”, conta a especialista.

Quando é comemorado o Carnaval?

Em algumas localidades, como na Europa, o “tempo” do Carnaval começa no Dia de Reis (Festa da Epifania) e acaba na Quarta-feira de Cinzas, às vésperas da Quaresma. Ainda é assim na Itália, no famoso Carnaval de Veneza, onde após a Festa de Epifania começam as apresentações de bandas de flautas e tamborins com desfiles de máscaras. No Brasil, é celebrado na terça-feira que antecede a Quarta-Feira de Cinzas (sofrendo variações a depender da região onde é celebrado).

O Carnaval fora de época é uma festa católica?

Sim, é mesmo – em tese. O nome que se dá ao carnaval fora de época é micareta, que significa literalmente “meio da Quaresma”. E não tem nada a ver com careta, cara feia ou máscaras. O nome micareta deriva da festa católica francesa, chamada de micarême. Ela acontecia na França, desde o século XV, bem no meio do período de quarenta dias de penitência da Igreja Católica. No meio da Quaresma havia uma suspensão do jejum, da abstinência e uma pequena celebração. “A introdução da micareta, da micarême, como festa urbana ocorreu primeiramente em capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Desde os anos 1990 a micareta vem se espalhando por várias capitais e cidades brasileiras, como Curitiba, com bloquinhos que se reúnem em praças centrais e mesmo no Largo da Ordem”, afirma. As micaretas também ocorrem em países como Itália, Canadá e Portugal. Hoje, no Brasil, uma micareta é essencialmente um carnaval fora de época, pois perdeu seu sentido religioso. É muito comum na Bahia, onde diversas cidades definem datas para as suas micaretas ao longo de todo ano.

Protagonismo feminino reinventa o Carnaval no Brasil

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O Carnaval se formou a partir do encontro de diferentes influências históricas e sociais. Desde o início, as mulheres colaboraram para a transformação dessa expressão cultural em patrimônio coletivo. Nomes como Tia Ciata e Dona Ivone Lara foram essenciais para fortalecer o samba e definir os caminhos do Carnaval no Brasil. Pensando nisso, a Disal, referência no mercado editorial, apresenta uma seleção com obras fundamentais para compreender a importância da atuação feminina na maior festa popular do país.

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Foto: Divulgação/DISAL

As chamadas tias baianas, matriarcas negras, muitas vindas da Bahia para o Rio de Janeiro no final do século XIX, desempenharam um papel fundamental na formação do Carnaval urbano. Essas mulheres foram responsáveis não apenas pela preservação da memória cultural, mas também pela criação de redes de sociabilidade que fortaleceram o samba e o Carnaval.

No início do século XX, Tia Ciata foi uma das principais articuladoras da vida cultural negra no Rio de Janeiro. Suas referências vinham do samba de roda, originário do recôncavo baiano, onde nasceu, além dos conhecimentos sobre ervas e culto aos orixás. A matriarca abriu o quintal de sua casa, na Praça Onze, para que músicos pudessem cantar e tocar, em um período em que o samba era proibido por lei. Acredita-se ter sido ali o surgimento de “Pelo Telefone”, considerada a primeira música de samba gravada, de autoria de Donga.

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Tia Ciata. Foto: Divulgação/DISAL

Décadas depois, Dona Ivone Lara rompeu barreiras sendo a primeira mulher a integrar a ala de compositores do Império Serrano. A artista dedicou-se à enfermagem por 37 anos antes de iniciar sua carreira na música, aos 56 anos, consolidando-se como uma das maiores referências do samba, atuando como compositora e cantora. Sua trajetória não apenas redefiniu a participação feminina na criação musical do Carnaval, como também abriu espaço para novas gerações de compositoras e intérpretes.

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Dona Ivone Lara. Foto: Divulgação/DISAL

“Registrar em livros as histórias das mulheres que marcaram o carnaval é uma forma de manter viva a memória dessas trajetórias tão potentes. Quando valorizamos essas narrativas, garantimos que novas gerações conheçam, reconheçam e se inspirem na força, na criatividade e na resistência dessas mulheres, que ajudaram a construir não só a festa, mas também a nossa cultura e identidade”, explica Clineia Candia, pedagoga e parceira da Disal.

O movimento dessas e outras mulheres foi essencial para preservar o samba e abrir caminhos para que o gênero se estruturasse e ganhasse visibilidade. Conheça mais sobre as mulheres que colaboraram com o desenvolvimento do Carnaval:

Tia Ciata – A grande mãe do samba

Em Tia Ciata, A Grande Mãe Do Samba, somos convidados a um passeio de volta ao início do século XX e à Pequena África, região no centro do Rio de Janeiro que foi palco de transformações que marcaram a cultura de todo o país. Como guias desse passeio, temos a graciosa personagem fictícia Boneca e ninguém menos do que o próprio Nei Lopes, que se torna também personagem e trava com Boneca um delicioso diálogo sobre música, religião, tradição, Carnaval e muito mais.

Disponível em: https://www.disal.com.br/produto/9925805-Tia-Ciata-A-Grande-Mae-DoSamba

Dona Ivone Lara E O Sonho De Sambar E Encantar

A biografia ilustrada mostra como a música popular brasileira é celebrada tanto pelas lindas canções como pelas histórias inspiradoras de grandes artistas. A trajetória da dama do samba brasileiro se inicia com um contato musical desde a infância, passa pela carreira de mais de trinta anos na área da saúde e culmina com o reconhecimento na música como cantora e compositora. Com texto e ilustrações leves e divertidas, a vida, a arte e os sonhos da sambista vão envolver os leitores.

Disponível em: https://www.disal.com.br/produto/9926674-Dona-Ivone-Lara-E-O-Sonho-De-SambarE

Canto de rainhas

Canto De Rainhas: o poder das mulheres que escreveram a história do samba”, do jornalista Leonardo Bruno, reúne histórias de grandes mulheres que se dedicaram a esse gênero musical, romperam as barreiras do machismo e do racismo tão entranhadas entre nós até hoje e conquistaram definitivamente o público. Ao acompanhar as trajetórias dessas artistas, o autor constrói um panorama da música brasileira nas últimas décadas e das conquistas das mulheres na área.

Disponível em: https://www.disal.com.br/produto/9338272-Canto-DeRainhas

Jovem Chiquinha Gonzaga, A – 2ª Ed

Chiquinha Gonzaga foi uma pioneira na defesa da cultura nacional e uma mulher adiante do seu tempo. Este livro narra a infância e a juventude dessa brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 1847, filha de um rígido militar e de uma modesta mestiça. Lutando contra todas as adversidades, foi em busca de seus sonhos, consagrando-se como um dos grandes nomes da música popular brasileira.

Disponível em: https://www.disal.com.br/produto/5796423-Jovem-Chiquinha-Gonzaga-A-2aEd