De volta ao Pérola Negra, o carnavalesco André Machado aposta na força simbólica de Maria Bonita para conduzir o desfile da escola no Grupo de Acesso. A escolha do enredo nasceu de um encontro entre projeto pessoal e a identificação da presidente Sheila com a personagem, resultando em uma proposta que une pesquisa histórica, cultura nordestina e protagonismo feminino.
Foto: Divulgação
Dividido em três setores e três alegorias, o desfile percorre a trajetória da cangaceira desde o ingresso no cangaço até sua influência na cultura popular e na religiosidade. Com predominância de tons terrosos e uso de couro ecológico nas alegorias, a escola pretende aliar impacto visual à força do canto da comunidade na avenida.
Com o enredo “Valei-me, cangaceira arretada, Maria que abala a gira, valente e bonita que vence demanda”, assinado pelo carnavalesco André Machado, a Pérola será a sexta escola a passar pela Avenida no domingo de Carnaval.
Para o CARNAVALESCO, o artista abriu as portas do barracão e contou sobre todo o projeto para 2026.
A chegada do tema
“Assim que eu entrei na escola, por coincidência, eu tinha três enredos — e os três tinham mulheres como homenageadas. Eu contei para a presidente Sheila e, quando ela viu Maria Bonita, o olho dela começou a brilhar e ela deu um sorrisinho. Aí eu falei: ‘E aí, o que você acha?’. Ela respondeu: ‘Eu quero Maria Bonita’.
Como eu já tinha feito outros trabalhos envolvendo a cultura nordestina, gostei da decisão dela. Acho que é o momento ideal, porque a escola, no ano passado, foi campeã no Grupo de Acesso 2 com um enredo que contava a história de Exu mulher. Tem uma sequência bacana sobre isso.
Três anos atrás, fiz o enredo da Mancha Verde sobre o xaxado, então já tinha muito material de pesquisa, o que me facilitou bastante. E é um enredo que eu sempre tive vontade de fazer.
Uns dez anos atrás, em uma papelaria, me encantei com um livro que contava a história dela. Comprei pensando em, futuramente, desenvolver um enredo. Quando fui carnavalesco da Mancha e tive a oportunidade de conhecer a bisneta de Maria Bonita, mostrei o livro — e quem tinha escrito era uma tia dela, que inclusive autografou para mim.
Foto: Divulgação
A parte de pesquisa foi muito fácil nesse sentido. É um enredo muito bonito porque minha mãe é nordestina, meu pai é nordestino — essa cultura me encanta demais. E, graças a Deus, a Sheila escolheu esse enredo, porque facilita muito também a construção de um samba-enredo bacana”, contou.
Pesquisa do tema
“Eu já tinha um livro sobre Maria Bonita. Depois, quando fui para a Mancha fazer o xaxado, comprei outros e ganhei mais alguns. Juntei tudo isso para desenvolver o carnaval — me enriqueceu muito na pesquisa.
As pessoas, quando falam de Maria Bonita, pensam logo na figura do cangaço. É uma personagem controversa, porque tem um nome simbólico e vivia no meio de cangaceiros, um movimento que muita gente reprova por conta da violência.
É curioso ver uma mulher que largou a família — ela era casada, sofria no casamento, era espancada — e teve coragem de abandonar tudo para ir para o cangaço. Mesmo apaixonada, viveu no meio de homens. Isso mostra a força da mulher. Acho que a mulher nordestina tem muito de Maria Bonita, e isso tudo me fascinou para fazer esse enredo”, disse.
O desenvolvimento entre alas e alegorias
“A gente dividiu o enredo em três partes, três setores — e cada alegoria representa um setor.
Abrimos falando da Maria Bonita no cangaço, desde quando ela entra até sua morte. A comissão de frente mostra esse momento de transformação em cangaceira, o confronto com a polícia e a vivência no bando.
Logo depois vem a ala das baianas, representando a Rainha do Cangaço, quando ela se torna essa figura emblemática. Em seguida, temos o Bando de Lampião e Maria Bonita, e o nosso primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representa os dois.
O abre-alas fala da Maria do Cangaço. Nas pesquisas vi que os cangaceiros eram exímios na confecção das próprias roupas em couro. Como eu nunca tinha feito um carro com esse material, aproveitei — até porque dialoga com a paleta de tons terrosos da frente da escola.
Foto: Divulgação
Depois entramos na cultura: mostramos a caatinga, a dificuldade de viver naquele ambiente, até chegar à música. Temos uma ala sobre ‘Mulher Rendeira’, canção entoada pelos cangaceiros.
No segundo setor, mostro a influência de Maria Bonita na cultura nordestina — mulheres que lutam pelo sustento, que migram para a cidade grande inspiradas nessa coragem. Temos também Luiz Gonzaga, que cantou muito sobre ela, e uma encenação de festas juninas, onde muita gente quer ser Maria Bonita por um dia.
O meu xodó é o último carro: Maria Bonita na Umbanda, até se tornar entidade. O quanto ela é forte culturalmente a ponto de virar essa representação espiritual. Essa ideia foi da própria Sheila”, contou.
A recepção da comunidade
“Foi uma recepção muito boa, talvez por dois motivos. Primeiro pelo meu retorno ao Pérola. Graças a Deus fiquei aqui seis anos e fiz seis grandes carnavais.
E esse enredo é muito comentado desde que surgiu. Quando anunciei Maria Bonita, a aceitação foi imediata, porque ainda está viva na memória da comunidade”, disse.
Ponto alto do desfile
“Tenho alguns pontos-chave que acho que, visualmente, vão ser muito fortes, como a ala das baianas na frente da escola.
Mas o último carro é meu xodó. O piso não é só madeira — é todo trançado, um trabalho super artesanal. Acredito muito na força disso.
Apesar da parte plástica, acho que um grande foco do desfile vai ser o povo cantando”, destacou.
As cores e os materiais
“Uma cor que eu nunca tinha utilizado em carros alegóricos é o marrom. E outro material é o couro ecológico. Quando fiz a ala das baianas com esse material, percebi como funcionava bem.
Isso também dialoga com a história, porque os cangaceiros produziam suas próprias roupas. Então o material não está ali à toa”, explicou.
Aos telespectadores
“Vai ser um carnaval mágico. Quem estiver em casa ou na avenida vai se identificar muito com o enredo. O nosso samba — não é porque é nosso, não — mas acho que é um dos melhores do Grupo de Acesso.
Podem esperar uma escola com muita garra, com muita vontade de chegar ao Grupo Especial”, finalizou.
Desfilante há mais de dez anos, a professora Daniela Moreira compartilhou com o CARNAVALESCO sua visão sobre a importância da presidenta Lara como liderança feminina à frente do boi vermelho da Vila Vintém. Para Daniela, a dirigente representa não apenas renovação, mas também compromisso e amor pela escola.
Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO
Segundo a professora, mesmo sendo muito jovem, Lara demonstra competência, responsabilidade e dedicação na condução dos trabalhos. “Ela tem amor pelo que faz, e isso inspira todos nós”, relata Daniela, ao destacar o empenho da presidenta na organização e no fortalecimento da agremiação.
A trajetória de Lara com a escola, no entanto, vem de longa data. Daniela lembra que a atual dirigente cresceu acompanhando a história da instituição, frequentando os ensaios desde a época de sua avó, Dona Deise, figura tradicional na comunidade e que foi destaque no abre-alas durante ensaio recente da escola.
Para a desfilante, essa conexão familiar reforça o sentimento de pertencimento e explica o comprometimento da jovem liderança.
“Ela carrega a tradição no sangue, mas também traz novas ideias”, afirma.
A presença de mulheres em posições de liderança, como a de Lara, também é vista por Daniela como um marco importante para o boi vermelho da Vila Vintém, fortalecendo a representatividade feminina dentro da agremiação e na comunidade.
Com união entre tradição e renovação, a escola segue seus preparativos, tendo à frente uma dirigente que, apesar da juventude, já demonstra maturidade e paixão pelo pavilhão que defende.
“A escola é super bem organizada, isso é mérito dela e da família dela.”
Desfilando há dois anos, Manuela carrega uma relação antiga com a escola. Desde a infância, ela frequenta os ensaios ao lado da mãe, criando um vínculo afetivo que hoje se traduz em participação ativa na avenida. Em entrevista, a jovem ressaltou a força do enredo da Unidos de Padre Miguel (UPM), que traz como figura central Clara Camarão, mulher indígena ainda pouco conhecida por grande parte dos brasileiros. Para Manuela, a escolha do tema representa um importante gesto de reconhecimento histórico e cultural.
Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO
“É uma oportunidade de dar visibilidade às mulheres caboclas e às mulheres brasileiras”, afirmou.
Segundo ela, levar essa narrativa para a avenida é ampliar vozes que, por muito tempo, foram silenciadas. A desfilante também destacou a dimensão do carnaval como vitrine cultural. Ao abordar a trajetória de Clara Camarão no maior evento audiovisual do mundo, a escola reafirma seu compromisso com a valorização da história e da identidade feminina no Brasil. Para Manuela, mais do que um desfile, trata-se de um ato de representatividade e memória coletiva, que fortalece não apenas a comunidade da escola, mas também o reconhecimento das raízes indígenas na formação do país.
“Trazer a história dela é ressaltar a força da mulher.”
Torcedora da agremiação, Dinecy Castro destacou a importância de ampliar a presença feminina em cargos de destaque no carnaval. Para ela, o fato de a escola contar com uma mulher em posição de decisão representa um avanço significativo e abre caminhos para um futuro com maior representatividade.
Foto: Vanessa Vicente / CARNAVALESCO
Segundo a componente, a ocupação desses espaços por mulheres pode estimular novas lideranças a assumirem funções estratégicas dentro das escolas de samba, como intérprete oficial, diretora de carnaval e outros postos tradicionalmente ocupados por homens.
“É uma mudança que inspira e mostra que é possível”, afirmou.
A torcedora acredita que o movimento é um passo importante para transformar a estrutura do carnaval, especialmente nas agremiações do Rio de Janeiro, onde as escolas exercem forte influência cultural e social.
Para o futuro, Dinecy projeta um cenário com ainda mais mulheres à frente das escolas de samba, ocupando cargos de liderança e protagonizando decisões que impactam diretamente o espetáculo.
“Espero ver cada vez mais mulheres na linha de frente, conduzindo nossas escolas com competência e sensibilidade”, concluiu.
A deputada estadual Dani Monteiro, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, participou da inauguração, nesta sexta-feira (13), do Centro de Convivência das Ambulantes do Carnaval, instalado na Casa do Catador, na Cidade Nova. A iniciativa foi viabilizada após articulação com a concessionária Águas do Rio e Secretaria do Meio Ambiente, em parceria com o deputado federal Pastor Henrique Vieira, e reuniu o coletivo Elas por Elas, movimento Trabalhadores Sem Direitos, ambulantes e representantes da sociedade civil.
O espaço, que fica na Rua Viscondessa de Pirassununga, passa a oferecer pontos de hidratação, acolhimento e estrutura de apoio e descanso para trabalhadores informais que enfrentam longas jornadas sob calor intenso durante o Carnaval. A ação busca garantir condições básicas de saúde, descanso e higiene para quem sustenta a dinâmica econômica da festa nas ruas, especialmente na região central da cidade, próxima ao Sambódromo.
Foto: Divulgação
“Hoje a gente celebra uma vitória da classe trabalhadora que faz o Carnaval existir e se perpetuar como o maior do mundo. São ambulantes e catadores que colocam comida na mesa de milhares de famílias e ajudam a movimentar uma festa que deve gerar cerca de R$ 5,9 bilhões na economia e receber 8 milhões de pessoas. Não existe esse número grandioso sem o trabalho árduo deles. Em meio a uma gritante crise climática, garantir água, cuidado e um espaço digno é também reconhecer que direitos humanos também são renda, saúde e respeito para quem mantém a cidade de pé, seja no dia a dia, seja nas grandes festas”, celebrou Dani Monteiro.
Na tarde desta quinta-feira (12), às vésperas do desfile oficial, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Em Cima da Hora, Marlon Flôres e Winnie Lopes, visitou o ilustre Carlinhos de Jesus em seu estúdio de dança, em Copacabana.
Fotos: Will Alves
A ida foi uma surpresa preparada pela azul e branca de Cavalcanti: apresentar, em primeira mão, o figurino que o casal levará para a Marquês de Sapucaí.
Renomado bailarino e coreógrafo, Carlinhos de Jesus iniciou sua trajetória no mundo do samba ainda criança, como passista da própria Em Cima da Hora. Foi na escola que conquistou seu primeiro Estandarte de Ouro — lembranças que guarda com carinho e que vieram à tona ao reencontrar representantes da agremiação.
Fotos: Will Alves
“A Em Cima da Hora me ensinou tudo o que sou hoje. Tudo o que aprendi devo a essa escola. Receber o primeiro casal aqui é uma alegria imensa. Ver de perto o figurino que eles levarão para a Avenida me emociona”, afirmou.
Carlinhos não estará presente no desfile deste sábado (14), devido a um compromisso profissional previamente assumido. Ainda assim, garantiu que sua torcida será intensa.
Fotos: Will Alves
“Tenho certeza de que farão um lindo desfile. A escola está bonita, está com garra. Meu coração estará com eles.”
Com o aval do artista, Marlon e Winnie celebraram o momento especial às vésperas do grande dia.
“É um momento muito importante. Receber o carinho e a validação de alguém com tanta história nos fortalece ainda mais para entrar na Avenida”, destacou o mestre-sala.
Fotos: Will Alves
Para Winnie Lopes, a bênção tem um significado ainda mais simbólico. “Carlinhos é uma referência no mundo do samba e, para nós, tem um valor especial porque ele nasceu artisticamente aqui. Ele amou o figurino e a nossa dança. Isso nos deixa ainda mais confiantes.”
A Em Cima da Hora será a segunda escola a desfilar no sábado de Carnaval e apresentará o enredo “Salve Todas as Marias – Laroyê Pombagiras”, assinado pelo carnavalesco Rodrigo Almeida.
Ao escutar as palavras de Heitor dos Prazeres, homenageado da Vila Isabel no Carnaval 2026, os carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad reconheceram, na obra do multiartista, um princípio estético: o sonho. Esse princípio ganha forma nas técnicas que atravessaram a vida e a arte de Heitor e se traduz no projeto visual que a azul e branco levará à Sapucaí.
Foto: CARNAVALESCO
Para Bora e Haddad, o sonho não se refere a uma experiência do dormir, mas a um modo de fabular o mundo a partir da vida cotidiana, da festa, da fé e das experiências coletivas. Essa compreensão aproxima a obra de Heitor dos Prazeres da própria lógica das escolas de samba, entendidas como espaço de imaginação compartilhada, celebração da ancestralidade e afirmação da identidade negra.
“Esse sonho que o Heitor pintou e cantou a vida inteira é uma espécie de ‘Kizomba’, o próprio sonho de uma escola de samba: essa união comunitária, esse desejo de celebrar a vida, a alegria e a própria ancestralidade, com suas visões feéricas e invenções tecnológicas”, declarou Bora.
Dessa compreensão do sonho surgem as primeiras imagens do desfile. Nas alegorias, técnicas como a carpintaria, a escultura, a alfaiataria e, sobretudo, a pintura transformam em forma, cor e matéria o universo de Heitor dos Prazeres, anunciando uma Vila Isabel que se quer salpicada de tinta do início ao fim e inaugurando o percurso visual que a escola levará à avenida em 2026.
Abre-alas: Onde o sonho de Heitor começa a tomar forma na Vila Isabel
A primeira imagem do desfile da Vila Isabel em 2026 já tem forma: um abre-alas inspirado nos ranchos carnavalescos que marcaram a infância de Heitor dos Prazeres. Divulgado nas redes sociais nas últimas semanas, o carro apresentou ao público os primeiros sinais do universo visual concebido por Leonardo Bora e Gabriel Haddad e antecipou o caminho plástico que a escola pretende levar à Sapucaí.
Mais do que uma referência histórica, o rancho aparece como porta de entrada simbólica do enredo. Ao retomar a tradição dos cortejos festivos que ocuparam as ruas do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, a alegoria projeta um cenário de celebração coletiva em que festa, memória e presença negra se afirmam como fundamento da narrativa visual.
“A abertura é um rancho, essa tradição carnavalesca das mais feéricas e iluminadas que temos. Era esse o cenário que o Heitor via quando criança, desfilando nos ranchos, e foi a partir dessa imagem que a gente pensou o abre-alas como um rancho dedicado a Heitor dos Prazeres”, explicou Gabriel Haddad.
No barracão, a alegoria ganha densidade por meio de um trabalho artesanal que envolve diferentes frentes de criação. Escultura, carpintaria, pintura, acabamento e a produção de joias cenográficas constroem uma imagem marcada pela exuberância visual e pelo cuidado com os detalhes, reafirmando a artesania como linguagem fundamental do desfile.
A apresentação do carro ao público também evidenciou a natureza processual do carnaval. “É um trabalho que está sempre sendo avaliado. A alegoria no papel é uma coisa, no barracão é outra, e na avenida é completamente diferente. Mesmo ainda sem os destaques, os efeitos finais, o chassi acoplado, a recepção foi muito generosa e reconheceu o cuidado do trabalho”, afirmou Leonardo Bora.
O carnavalesco destacou ainda a atuação da equipe responsável pela execução da peça, com menção à diretora-chefe Daiane Almeida, ao escultor Max Miller e aos profissionais de ferragem, pintura, carpintaria, vidraçaria e alfaiataria.
As roupas das composições teatralizadas foram desenvolvidas por Rogério Pacheco, em um processo que exigiu modelagem e acabamento rigorosos. “Quando as pessoas percebem esse cuidado, a gente fica muito feliz, porque ele foi pensado com carinho em busca de muito axé para a comunidade da Vila”, completou.
Um desfile salpicado de tinta
A pintura assume protagonismo no projeto visual da Vila Isabel para 2026. Fantasias nascem do gesto manual do pincel, enquanto tripés e partes das alegorias recebem tinta diretamente na madeira, materializando, em cor, superfície e textura, o universo de Heitor dos Prazeres.
A aposta coloca a pintura no centro do projeto visual. Para Leonardo Bora, ela não entra apenas como referência ao artista homenageado, mas como linguagem do próprio desfile: “Ela não é só um tema, ela é forma”, resumiu o carnavalesco.
A partir dessa premissa, Leonardo Bora e Gabriel Haddad trabalham para manter visível o gesto artesanal. Pinceladas aparentes, fantasias pintadas à mão, tripés pintados e superfícies que preservam textura e camadas criam a sensação de um cortejo “salpicado de tinta” do início ao fim.
O azul aparece como fio condutor dessa atmosfera. Recorrente na obra de Heitor e identidade cromática da escola, a cor ajuda a costurar variações de grafismos como listras, xadrez, losangos e bolinhas. “A ideia é construir quase um fundo, como um céu azulado, para que as pessoas possam flutuar na avenida, cantar o samba, brincar”, explicou Bora.
A artesania se estende também à alfaiataria. As fantasias foram desenhadas com redução de volume e maior liberdade de movimento, buscando deixar o componente mais solto para evoluir na pista — uma escolha que dialoga diretamente com as diretrizes mais recentes do regulamento e com a expectativa de uma evolução mais leve.
“A gente reduziu um pouco o tamanho das fantasias para deixar o componente mais solto, mais livre na avenida. Isso já era um desejo nosso e agora também dialoga com o novo regulamento, que passa a observar mais diretamente a leveza e a espontaneidade do desfile”, explicou Haddad.
Na Sapucaí, a promessa é que o público reconheça não apenas a imagem final, mas o próprio modo de fazer: um desfile atravessado pela pintura e salpicado de tinta do primeiro ao último setor, em que forma, cor e gesto manual prolongam, na avenida, o sonho artesanal que estrutura o enredo da Vila Isabel em 2026.
O contágio do samba-enredo
Se a pintura estrutura o campo visual do desfile, é o samba-enredo que vem fazendo a Vila Isabel vibrar coletivamente. Desde as primeiras apresentações na disputa, a obra escolhida pela azul e branco ultrapassou o percurso competitivo tradicional e passou a ser tratada como aclamação da comunidade, instaurando um clima de contágio que atravessou a temporada de ensaios de rua.
Para a dupla, essa resposta imediata revelou a força comunicativa da parceria de André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho. “Foi um samba que explodiu já como concorrente. Desde as primeiras apresentações, a gente sentiu um envolvimento muito forte das pessoas, um samba que mexeu com o emocional, que contagiou a comunidade”, afirmou Haddad.
A repercussão transformou a escolha em experiência coletiva antes mesmo de o desfile ganhar forma plena na avenida.
Parceria, amizade e pesquisa
A parceria entre Leonardo Bora, Gabriel Haddad e o pesquisador Vinícius Natal antecede a própria formação da dupla como assinante de desfiles e se confunde com uma trajetória de amizade construída dentro do carnaval.
“É incrível, porque a nossa amizade com o Vinícius vem antes de a gente começar a trabalhar juntos, antes de a gente começar a assinar desfiles”, lembrou Haddad.
O primeiro encontro aconteceu em 2012, na arquibancada do Desfile das Campeãs, e, já no ano seguinte, o grupo dividia a criação de um carnaval coletivo na Mocidade Unida de Santa Marta, onde conquistou o título.
A convivência seguiu por diferentes experiências, da Sossego à Cubango, onde, em 2019, o enredo “Igbá Cubango, a Alma das Coisas e a Arte dos Milagres” surgiu atravessado pelo sonho.
Para Bora, a presença de Vinícius é estruturante não apenas pela proximidade afetiva, mas pela densidade de sua pesquisa.
“É uma figura fundamental para a compreensão da nossa própria relação. É um amigo com quem a gente troca vivências carnavalescas desde sempre e um pesquisador muito cuidadoso”, afirmou.
No encontro em torno de Heitor dos Prazeres, as investigações seguiram caminhos complementares: enquanto a dupla aprofundava a visualidade e o universo plástico do artista, Vinícius desenvolvia estudos sobre o Heitor sambista, o cidadão do pós-abolição e a expressão da modernidade negra no Rio de Janeiro.
Dessa confluência orgânica de olhares nasceu o enredo da Vila Isabel. Mais do que colaboração pontual, trata-se de uma continuidade construída no tempo, capaz de ampliar a pesquisa e enriquecer a criação.
“Se torna mais rico você desenvolver um enredo a partir de outros olhares”, resumiu Bora.
O processo ainda mobilizou arquivos de familiares de Heitor, instituições de memória e novas parcerias de investigação, em uma pesquisa que a equipe espera ver seguir em desdobramento mesmo depois do carnaval.
Dakar: o sonho encontra a África no último quadro da Vila Isabel
O desfecho do desfile da Vila Isabel se ancora em um encontro que aproxima definitivamente a trajetória da escola da de Heitor dos Prazeres fora do Brasil. Em 1966, ambos participaram do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. A agremiação apresentou o documentário Nossa Escola de Samba, enquanto Heitor integrou a programação com o filme Heitor dos Prazeres, registro dedicado à sua vida e obra.
Mais do que um episódio biográfico, a passagem pelo Senegal sintetiza o sentido do enredo. Depois de imaginar a África durante décadas em suas obras, Heitor a encontra no mesmo movimento em que a própria Vila Isabel atravessa o Atlântico para exibir sua memória negra.
Ao escolher esse encontro como último quadro, a escola inverte o percurso tradicional dos enredos afro, que costumam partir da África para chegar ao Brasil. Aqui, o caminho nasce no corpo coletivo do samba, na matéria artesanal do desfile e na alegria como gesto de existência, para então alcançar o continente africano não como origem distante, mas como continuidade viva.
É nesse ponto que o sonho retorna — não mais apenas como princípio estético identificado pelos carnavalescos na obra de Heitor dos Prazeres, mas como experiência coletiva que reinventa passado e presente, pintura e avenida, memória e celebração.
Na Sapucaí, a África deixa de ser imagem sonhada para se tornar encontro partilhado — e o sonho, longe de se encerrar, segue desfilando como promessa de comunidade, altivez e alegria negra que a escola insiste em imaginar, ano após ano, em seus carnavais.
Conheça o desfile
5 alegorias
3 tripés
5 setores
27 alas
3.200 componentes
1º Setor — Príncipe Lino
O desfile se abre com a infância de Heitor dos Prazeres entre os ranchos carnavalescos ligados às casas de Tia Ciata e Tio Hilário. O brilho desses cortejos, observado ainda menino, antecipa o artista, o brincante e o sujeito do samba que ele se tornaria.
A alegoria traz balangandãs ampliados e joias de axé como metáfora desse olhar infantil sobre a festa e, ao mesmo tempo, sobre o nascimento do samba na região da Praça XI e da Pedra do Sal.
2º Setor — Ogã-Alagbê Nilu
Ainda jovem, Heitor é iniciado nos terreiros e passa a frequentar especialmente a casa de Tia Ciata, onde se torna ogã, responsável pelos tambores e pelo canto. Nesse espaço, diferentes manifestações culturais — cirandas, jongos, maracatus, cateretês — se encontram, formando o caldo que daria origem ao samba.
Na leitura do enredo, o terreiro se expande como metáfora da própria cidade: a cidade como grande terreiro, onde música, religiosidade e convivência se misturam.
3º Setor — Mano Heitor dos Cavacos
A troca do piano pelo cavaquinho marca a afirmação de Heitor como sambista nos anos 1920. Entre a Festa da Penha, disputas de autoria e circulação pela cidade, ele se consolida como compositor, músico e personagem central do universo do samba.
O setor apresenta também o modo de vida boêmio, a confecção e pintura dos próprios instrumentos, a noite carioca, os cabarés e as paixões que atravessam sua trajetória artística.
Gabriel Haddad relaciona esse percurso ao próprio desenvolvimento do samba:
“Ele cresce vendo os ranchos desfilarem, passa a frequentar os terreiros e entende sua relação com os instrumentos como Ogã-Alagbê Nilu, organizando a música do terreiro de Tia Ciata. Tudo isso vai se misturando até culminar no momento em que ele se torna um grande sambista, conhecido como Mano Heitor.”
4º Setor — Afro-Rei Pierrot
Heitor se afirma como compositor de carnaval, vence o concurso de Zé Espinguela em 1928 e convive com figuras como Paulo da Portela, Cartola e outros fundadores das primeiras escolas de samba.
O setor destaca sua atuação como brincante dos blocos de rua, compositor de marchinhas — entre elas Pierrot Apaixonado, em parceria com Noel Rosa — e personagem influente na formação do carnaval carioca.
5º Setor — Embaixador
O último quadro apresenta Heitor como artista reconhecido além do samba: cenógrafo, figurinista, radialista, compositor de trilhas, participante da primeira Bienal de São Paulo e representante brasileiro no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar.
É nesse ponto que sua trajetória se cruza com a da própria Vila Isabel. Em 1966, ambos chegaram ao Senegal levando seus filmes — Heitor dos Prazeres e Nossa Escola de Samba, registro do carnaval que levou a escola ao Grupo Especial — selando o encontro que encerra o desfile.