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Da exclusão à explosão cultural: a Ala 09 da Inocentes mostra como o povo transforma resistência em tradição

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No Carnaval, não há protocolo que resista à força do povo. Em 2026, a Inocentes de Belford Roxo leva para a Avenida a Ala 09: “Os foliões populares invadem a festa”. Ela representa o momento simbólico em que o povo negro, excluído das recepções oficiais, rompe o cerimonial com dança, algazarra e criatividade improvisada.

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Detalhes da Ala 09, da Inocentes
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Segundo a narrativa do enredo, diante da exclusão, esses grupos criaram suas próprias manifestações: figurinos feitos com sobras de tecido, fitas coloridas, sombrinhas recortadas e a ocupação da praça com energia explosiva. Mais do que desordem, essa invasão marca o nascimento de uma força cultural que ajudaria a consolidar o frevo como expressão urbana e coletiva.

A ala encena a ocupação simbólica do espaço elitizado, a criatividade que nasce da precariedade, a explosão popular que rompe o protocolo e a transformação da exclusão em potência cultural.

No enredo, a Ala chega para quebrar o clima cerimonial e colocar a alma do povo na jogada, com a dança explosiva a força que emerge dos guetos pernambucanos desde o tempo de 1800.

Werino Gierinazani, fisioterapeuta, de 56 anos, estreia na Inocentes trazendo memórias afetivas de Pernambuco e reflexões sobre o Carnaval contemporâneo. Para ele, representar essa narrativa é celebrar a diversidade cultural brasileira.

“Muita coisa, porque na diversidade cultural do país, Pernambuco é muito importante no Carnaval brasileiro. Estar aqui representando, ainda mais isso que é o pagode russo, que eu cresci cantando, é maravilhoso. Representar Pernambuco dessa forma no Carnaval do Rio de Janeiro, que para mim é o único do mundo, é incrível. Certamente a falta de recurso amplia a criatividade. O que mais sinto quando vira o cotovelo na Avenida e a bateria começa, é a produção de um monte de substância no meu corpo e eu viro outra criatura. A festa é maravilhosa e a gente tem que viver o momento”, conta o fisioterapeuta.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Daniele de Sales, de 44 anos, cuidadora, desfila há cinco anos e carrega no discurso a vivência de mulher negra dentro e fora da festa.

“Eu vejo muito presente no Carnaval a falta de recurso virando criatividade. Desfilo desde os 12 anos. Eu sou uma mulher negra, então a gente acaba sendo excluída em muitas coisas, tem preconceitos. O Carnaval é onde a gente pode se divertir e ser igual a todo mundo. Quando o frevo começa, tudo arrepia, é um fogo, parece que eu tenho 15 anos de novo. É emoção, é felicidade. O povo de Belford Roxo tem garra e a gente veio brigar para ganhar”, comenta.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Arthur Sampaio Marinho, 23 anos, técnico em química, também vive seu primeiro ano na escola e enxerga na ala um reflexo da própria trajetória.

“Eu estou muito feliz por estar aqui pela primeira vez e representar uma história que representa a cultura da minha família, que é toda nordestina de Pernambuco, do Recife. Tem um significado muito grande. Às vezes, a criatividade existe, mas pela falta de recurso a pessoa não consegue mostrar o talento. Aqui na Baixada a gente é muito excluído de oportunidades, então estar numa ala que representa transformar exclusão em inclusão significa muito. Eu estudo em universidade federal, minha mãe é empregada doméstica, meu pai é motorista, e a gente vai quebrando barreiras. Quando o frevo começa, o coração transborda e você só se solta. Eu espero que a Inocentes arrase e que todo mundo curta”.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ana Paula Aragão, de 58 anos, bióloga, desfila há três anos e resume o sentimento coletivo da ala.

“É muita emoção participar da escola. É um movimento cultural com tanta história que eu me sinto emocionada de fazer parte. A criatividade e a falta de recursos caminham juntas, a gente faz malabarismo na vida o tempo todo. Por que não transformar exclusão em manifestação? A voz do povo é a voz do conjunto. Quando o frevo começa é emoção. E quando a ala entrar na Avenida, eu espero sentir muita alegria, muita emoção e torcer muito pela escola”, diz Ana Paula.

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A bióloga Ana Paula Aragão, de 58 anos
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Na Ala 09, a exclusão não é silêncio, é batida forte. Não é ausência, é ocupação. Não é limite, é reinvenção.

Quando os foliões populares invadirem simbolicamente a festa na Avenida, será a prova de que o Carnaval continua sendo o maior palco da resistência brasileira: onde o povo transforma o que lhe negaram em espetáculo, tradição e potência cultural.

Unidos do Jacarezinho transforma Xande de Pilares em estrela maior da alegoria que encerra o desfile

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A terceira e última alegoria da Unidos do Jacarezinho levou à avenida uma verdadeira constelação para exaltar Xande de Pilares, um dos nomes mais queridos da música brasileira.

Decorado por estrelas e envolto em uma atmosfera de céu iluminado, o carro teve como inspiração a canção “Tá Escrito”, grande sucesso de Xande, que fala sobre fé, perseverança e trajetória. 

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Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A estética da alegoria também refletiu o momento da escola, que volta a desfilar na Sapucaí após 12 anos e precisou se reconstruir depois de perder grande parte de suas alegorias e fantasias em dois incêndios recentes no barracão e na quadra da escola. Xande esteve entre os principais apoiadores.

No geral, a alegoria dialoga com a identificação popular que marca a obra do artista: a ideia de que cada pessoa tem sua própria estrela para brilhar. E também a intenção de mostrar como ele é querido pelas pessoas, ao trazer amigos de Xande para compor o carro.

Na concentração, a emoção tomava conta dos amigos, familiares e admiradores que aguardavam o momento de entrar na avenida. O ator e comediante Hélio de la Peña, que estava presente no carro, destacou a importância da homenagem ao amigo e falou sobre a empolgação que sentiu ao saber que Xande seria enredo.

“Estamos aqui numa alegria tremenda de ver o nosso amigo merecidamente sendo homenageado. Uma figura do samba, um compositor inigualável, e é um prazer enorme estar aqui fazendo parte do grupo dos amigos do Xande. Assim que eu fiquei sabendo que ele seria homenageado, me interessou me engajar. O convite foi feito, pois ele estava reunindo os amigos, principalmente depois do incêndio que houve no barracão. Ele estava querendo que a coisa ficasse no nível que merece. E para isso estamos aqui”, disse o ator.

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Hélio de la Peña Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Sérgio Couto, irmão de Hélio de la Peña e amigo de Xande, também celebrou o momento com entusiasmo.

“O Xande é uma figura super importante do samba. Acompanho o trabalho dele há muito tempo. É uma satisfação e uma alegria ter essa oportunidade de estar aqui nesse momento importante para ele também. Ele está sendo homenageado”, disse.

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Sergio Couto. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Amiga de longa data, a atriz Carla Cristina Cardoso falou sobre a relação de parceria com o cantor e a emoção de estar participando dessa homenagem.

“O Xande é um irmão. O que ele faz, a gente vai atrás. Em tudo que ele está, eu estou. Quando eu faço alguma coisa, alguma peça, ele está sempre comigo. Ele é muito amigo, ele é muito real. Essa homenagem da Jacarezinho, mesmo após os problemas, as fantasias perdidas e o incêndio, não deixou os componentes tristes. Ele é o enredo, está emocionado, está feliz. Independentemente do que aconteceu, ele está feliz. Se o Xande está feliz, a gente está aqui de branco, feliz também”, declarou.

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Carla Cristina. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Entre os familiares, a emoção também era latente. Anny Caroline, de 21 anos, prima do artista, destacou o orgulho de acompanhar de perto a homenagem: “É uma alegria imensa. O sentimento é gratidão, porque ele é um cara merecedor. Eu acompanho a história dele desde que eu nasci. Me sinto muito honrada em fazer parte desse momento e por ele estar sendo homenageado. É gratificante, porque é importante uma pessoa que já passou por tanta coisa ser retratada na avenida dessa forma. E a gente está aqui prestigiando ele, muito feliz. E vai dar tudo certo, graças a Deus. Ele é o símbolo da nossa comunidade. É uma realização. Só sei que ele é muito merecedor de tudo isso”, afirmou.

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Anny Caroline e Inês Gabriele, primas de Xande de Pilares. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Inês Gabriele, de 17 anos, também prima de Xande, contou como a música do artista marcou sua vida.

“A música dele me marcou muito a vida toda. E o samba da escola está muito bonito, muito bem feito. O Xande só merece. A música fez parte da minha vida também, em vários momentos de superação, até na minha vida pessoal. Passei por várias coisas em que essa música me marcou bastante”.

Componente da Harmonia e fã declarada do cantor, Mônica Magalhães, de 50 anos, resumiu o sentimento de quem desfilou logo atrás da alegoria:

“É maravilhoso. O Xande é amor, é vida, é amizade, é cantor, é compositor, é uma estrela. E eu acho que tudo que ele faz é perfeito. Então a gente está aqui justamente não só para homenagear ele, mas também o Jacarezinho, que é uma escola linda, que está vindo para viver o que eles estão trabalhando o ano todo. Estou aqui muito feliz, muito feliz mesmo”

Sobre a música “Tá Escrito”, ela fez um relato pessoal: “‘Tá Escrito’ é uma coisa que faz a gente se sentir viva, por tudo que a gente já viveu. Ele traz uma história muito maravilhosa para cada um que entende o que viveu na vida. Então cada um tem a sua individualidade nessa música”.

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Mônica Magalhães. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Questionada se já precisou fortalecer a fé em momentos difíceis, ela respondeu: “Olha, não. Eu acho que eu sempre fui muito alegre. Tudo que a música trouxe foi somar mais à alegria. Eu não posso te dizer que tenha algo assim que tenha somado para a alegria que eu tenho. Então não tem nada mais que eu possa falar. O artista que ele é, único, um homem que sempre foi guerreiro no que viveu, veio lá da comunidade do Turano, passou por Chacrinha, Pilares. Então ele veio sempre para poder fazer alegria para o povo. Isso, para a gente, já resume o Xande”, concluiu ela sobre o desfile emocionante.

 

Entre o frevo e o imaginário: as baianas da Inocentes mostram como o povo transforma encontros em Tradição

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O Carnaval é território onde história e imaginação caminham juntas. Em 2026, a Inocentes de Belford Roxo leva para a Avenida o imaginário “Pernamburrusso” na Ala das Baianas, uma narrativa popular que associa certos passos do frevo à possível influência russa no início do século XIX, a partir da chegada da expedição Langsdorff ao Recife.

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Entre fato, fantasia e tradição oral, a história sugere um encontro festivo entre russos e pernambucanos, onde passos teriam sido trocados e reinventados. É essa mistura simbólica que conecta o Trem-de-Ferro do frevo às danças do Império do Czar, celebrando a ideia de que a cultura popular transforma encontros em identidade.

E quem melhor para representar essa travessia cultural do que as baianas, guardiãs da memória e da ancestralidade nas escolas de samba?

Para Maria Marques, 63 anos, professora e há dois anos na escola, o imaginário já basta por si só.

“O nosso imaginário vale muito, faz a gente viajar e imaginar coisas. Isso é muito bom”, afirma. Para ela, o Carnaval soube se reinventar ao longo do tempo. “Já foi muito tradição. Graças a Deus, hoje, fez uma repaginada com coisas futuristas, com tecnologias, conhecendo melhor o nosso Brasil e o mundo”.

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Foto: Juliane Barbosa/Carnavalesco

Quando se fala em frevo, Maria é direta: “Recife. Muita garra, muita energia, muito drible nos pés.” E quando o ritmo começa, ela sente que tudo se conecta: “Tudo é batuque, tudo é samba, tudo é frevo, tudo é axé.” Na Avenida, o que espera é simples e potente: “Energia da arquibancada gritando e cantando.”

Já Lúcia Helena, de 67 anos, doméstica e há 19 anos na Inocentes, prefere a comprovação histórica. “Eu preciso que seja comprovada”, diz sobre histórias curiosas. Defensora das tradições, ela carrega o Carnaval no sangue: “Desde que me conheço por gente eu sigo a tradição. Meu irmão foi ritmista, outro baterista, e eu com seis anos já desfilava.” Para ela, frevo é celebração pura: “Eu danço tudo, meu amor. Frevo é forte para a festa.” E quando o carro entrar na Avenida, a palavra que resume é clara: “Alegria. Felicidade”.

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No primeiro ano desfilando, Ana Helena Luna, de 51 anos, servidora pública, enxerga no Carnaval a convivência entre passado e futuro.

“As duas coisas se misturam. O novo e o antigo se retroalimentam. O Carnaval precisa juntar tradição e inovação para se manter vivo.” Ela conta que já viveu o frevo de perto: “Passei um Carnaval em Pernambuco e foi a coisa mais linda que já vi. Já dancei maracatu aqui no Rio, sou forrozeira também além de sambista.” Ao falar do Galo da Madrugada, ela celebra: “Viva o Galo, viva a nossa cultura popular brasileira.” Sobre o ritmo acelerado do frevo, define: “O tambor bate fundo no coração.” E diante da proposta do enredo, se emociona: “Adorei saber dessa junção, dessa influência russa sobre o brasileiro. Minha expectativa está lá no alto”.

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FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Historiadora e desfilando há três anos, Cláudia Turco busca o equilíbrio entre rigor e imaginação. “Eu busco comprovar, mas é sempre bom ter um pouco de imaginação.” Para ela, o Carnaval sobrevive justamente na mistura. “Ele busca inovação para se manter vivo, mas também se segura muito nas tradições. É a mistura dos dois.” Quando pensa em frevo, lembra do Recife, dos bonecos gigantes de Olinda e do Galo.

E mesmo sem nunca ter arriscado os passos acelerados da dança, admite: “A gente se anima, dá vontade de se mexer.” Na hora da entrada na Avenida, a expectativa é intensa: “É muita emoção, muita emoção mesmo”.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Entre comprovação e fantasia, tradição e inovação, as baianas da Inocentes mostram que a cultura popular não precisa escolher um lado. O frevo pode dialogar com o Império do Czar. O Recife pode conversar com a Rússia. O que nasce desse encontro real ou imaginado é tradição.

E quando as saias girarem na Avenida, será a prova de que o Carnaval continua fazendo o que sempre fez de melhor: transformar histórias em espetáculo e encontros em identidade.

União do Parque Acari 2026: Galeria de fotos do desfile

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‘É emoção demais ser morador da favela e ser homenageado’: Xande de Pilares fala sobre homenagem do Unidos do Jacarezinho

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O cantor Xande de Pilares foi o grande homenageado da Unidos do Jacarezinho, que abriu a primeira noite de desfiles da Série Ouro do carnaval carioca, na última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí. Com o enredo “O Ar Que Se Respira Agora Inspira Novos Tempos”, a agremiação celebrou a trajetória do artista, que desfilou na terceira e última alegoria, inspirada em sua música “Tá Escrito”, ao lado de amigos e parceiros de caminhada.

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Xande de Pilares é o grande homenageado da Unidos do Jacarezinho. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Momentos antes de entrar na avenida, Xande falou ao CARNAVALESCO sobre a felicidade de ser celebrado em vida pela comunidade onde construiu parte de sua vida e de sua história no samba. Ao comentar o significado da homenagem, não conseguiu esconder o sentimento que tomou conta de si: “É emoção para caramba ser morador da favela e estar sendo homenageado”.

Cria de diferentes comunidades da Zona Norte, o cantor destacou sua relação afetiva com o Jacarezinho e o reconhecimento no carnaval, mesmo fora de sua escola de coração, o Salgueiro.

“Não é o Salgueiro, mas é a escola da comunidade que eu morei. Como eu já morei no Salgueiro, nasci no Turano, morei no Az de Ouro. O Jacarezinho é uma escola de samba onde eu já ganhei samba que compus. É uma escola que já saí na bateria, que eu conheço os compositores como Barberim, como Macambeira, Gilson Bernini, que é meu parceiro atual. Mas o que me chama a atenção é eu estar vivo, sendo homenageado”, declarou.

Xande Meio
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Ele também lembrou o momento delicado vivido pela agremiação, que chegou ao desfile após perder grande parte de seu conjunto alegórico e de fantasias após dois incêndios.

“Todo mundo sabe o que aconteceu. Todo mundo procurou contribuir para amenizar o problema. Eu fui um dos contribuintes, mas eu estou muito feliz por estar vivendo isso. A gente tem que valorizar cada página do livro que a gente escreve”, disse ele, muito emocionado.

Durante a conversa, Xande voltou a um tema recorrente em sua obra: os sonhos. Para ele, continuar sonhando é o que sustenta a caminhada iniciada ainda na juventude.

“Eu sonhava apenas em ser compositor. Não imaginava tudo isso. Hoje, em 2026, estou sendo homenageado e continuo sendo aquele garoto que sonhava todos os dias. Nunca vou parar de buscar realizar meus sonhos”, afirmou.

A presença do cantor na última alegoria transformou o encerramento do desfile da Unidos do Jacarezinho em um dos momentos mais emocionantes da noite, unindo celebração, resistência e reconhecimento da comunidade que ajudou a formar sua história.

Freddy Ferreira analisa a bateria do Jacarezinho no desfile no Carnaval 2026

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Um bom desfile da bateria “Show Mil” da Unidos do Jacarezinho, na estreia de mestre Pelezinho na Sapucaí. Um ritmo potente, com afinação pesada de surdos foi apresentado. Com um conjunto de bossas que atrelou a sonoridade a história musical do homenageado, teve de alusão a virada possante da bateria do Salgueiro até a paradinha do pagode para reverenciar Xande de Pilares como tema da escola.

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Na primeira fila da bateria “Show Mil” vieram xequerês, pandeiros, reco-reco, tantan e repiques de mão, sendo todos importantes durante a bossa do pagode. Uma boa ala de cuícas ajudou no preenchimento das peças leves, junto de agogôs que pontuavam as variações melódicas do samba-enredo executando seu desenho rítmico. Um naipe de chocalhos sólido exibiu consistência coletiva tocando interligados a uma ala de tamborins eficiente, que realizou uma convenção rítmica simples, pautada pelas nuances da melodia.

Na cozinha da bateria do Jacarezinho, uma afinação de surdos pesada e muito boa foi notada. Marcadores de primeira e de segunda foram firmes durante todo o cortejo. O balanço envolvente dos surdos de terceira contribuíram no trabalho dos graves. Caixas de guerra com bom volume tocaram junto de repiques coesos, complementando a sonoridade dos médios.

Bossas que buscavam conexão musical com a proposta sonora do homenageado foram exibidas. Com destaque para a paradinha do pagode, onde integrantes da primeira fila entravam por dentro do corredor para exibir o arranjo, que ainda era finalizado junto de um solo envolvendo o naipe de tamborins. Bossas que utilizavam as nuances melódicas para consolidar seu ritmo foram apresentadas, com grande pressão sonora, envolvendo os pesados surdos, tornando os arranjos potentes.

Uma boa apresentação da bateria “Show Mil” do Jacarezinho, na estreia da regência de mestre Pelezinho na Sapucaí. Um ritmo com pressão e bossas atreladas ao enredo foi apresentado. A melhor apresentação foi no último módulo de julgamento, onde está a cabine dupla. Após uma boa apresentação na primeira cabine julgadora, a segunda podia ter sido melhor, caso a bossa do pagode não tivesse sido apresentada somente com o “rabo” da bateria virada para o júri. Mas nada que tirasse o brilho desse bom desfile da bateria “Show Mil” do Jacarezinho.

No compasso do pavilhão: casal e comissão sustentam a Jacarezinho em noite desafiadora nos demais quesitos

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No reencontro com a Marquês de Sapucaí, após 13 anos longe, a Unidos do Jacarezinho abriu os trabalhos nesta sexta-feira de desfiles da Série Ouro. Com uma comissão de frente modesta, mas competente, e um casal bem aguerrido, a Rosa e Branco encontrou dificuldades nos demais quesitos. O desfile terminou com 57 minutos, dois além do tempo permitido e a escola sofrerá penalização.

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A escola levou para a pista o enredo “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, uma homenagem a Xande de Pilares, que se apresentou como uma declaração de amor ao samba nascido e cultivado na favela, território onde vozes aprendem primeiro a cantar na roda antes de ecoarem no rádio, assim como foi a de Xande. No entanto, mediante a precariedade das fantasias e alegorias, pelos infortúnios que a escola enfrentou, a compreensão ficou difícil.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

ENREDO

Assinado pelo carnavalesco Bruno de Oliveira, o desfile se estruturou em três setores que percorreram a trajetória do artista Xande de Pilares como quem folheia um álbum de memórias afetivas.

* LEIA AQUI: “É emoção demais ser morador da favela e ser homenageado”: Xande de Pilares fala sobre homenagem do Unidos do Jacarezinho

O primeiro setor, “O Ar que se respira agora inspira novos tempos”, mergulhou nas origens, revisitando a infância, a Folia de Reis, o rádio como janela para o mundo e os primeiros versos que encantaram o poeta. O abre-alas “No Jacarezinho deu nó na tristeza e fez da vida carnaval” traduziu, com a velha guarda em cima do carro, que foi na favela do Jacarezinho que Xande iniciou sua carreira como sambista, sendo o morro do Jacarezinho uma encruzilhada essencial para transformar os rumos e os caminhos de Xande. A falta de fantasias, comprometidas no incêndio que a escola enfrentou há pouco tempo, deixou não apenas este setor, mas os dois seguintes, difíceis de compreender.

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Na sequência, o segundo setor, “Pinto de Rosa e Branco a Inspiração”, trouxe a carreira no carnaval, celebrando o compositor de sambas-enredo marcantes, especialmente sua relação com o Salgueiro, com a alegoria “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, com o clássico Preto Velho do Salgueiro, presente no carnaval da Academia do Samba em 2025, e um Zé Pelintra, remetendo ao carnaval do Salgueiro de 2016, da mesma escola.

O último setor, “Coroado na Favela”, apontou para a consagração, sintetizada na alegoria “É Deus Quem Aponta a Estrela Que Tem Que Brilhar”, na qual vieram Xande, sua família e amigos próximos. O carro, revestido de um tecido com estrelas, tentou apresentar a narrativa da estrela que nasceu no morro e iluminou o país.

COMISSÃO DE FRENTE

Intitulada “O Verso que encantou o Poeta”, a comissão foi coreografada por Akia de Almeida. A apresentação simbolizou o instante inaugural em que a palavra virou destino. Composta por 15 componentes, vestidos de bate-bolas, e um homem vestido de Xande de Pilares, a comissão foi competente, simples e sem elementos cênicos.

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Os bate-bolas, vestidos com roupas coloridas e distintas entre si, evocaram e incentivaram o bailarino vestido de Xande a compor. Ele, que entrava e saía perdido de cena, parecendo não saber o que estava fazendo ali, no decorrer da coreografia se encorajava e começava a se tornar artista. Na primeira cabine, ele fingia compor em cima de uma mesa de partitura, que caiu no primeiro módulo e foi descartada nas outras duas apresentações. No fim da coreografia, um bate-bola dava um cavaquinho na mão dele e, extremamente parecido com o cantor homenageado, ele performou cantando e tocando ao mesmo tempo. Para quem acompanha a carreira de Xande, não precisava de mais nada: estava tudo ali.

A coreografia era boa e foi bem executada, mas um figurino mais elaborado melhoraria a performance. No trecho “É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar”, havia uma chuva de faíscas, fechando a apresentação.

Em suma, foi uma boa apresentação, modesta, mas competente, refletindo o empenho de todos do quesito para uma boa entrega da escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Na dança do pavilhão, o primeiro casal, Maycon Ferreira e Lorenna Brito, com a fantasia “Estrela da Inspiração”, representou com elegância o brilho que conduziu a obra do homenageado. Com fantasias pretas com penas rosas, a dela, e pretas, a dele, cheias de estrelas prateadas, a indumentária representava a estrela, símbolo que acompanha a vida de Xande de Pilares. A dança foi correta e muito bem executada. Eles dançaram com vigor e segurança.

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A fantasia de Lorenna poderia ter uma saia mais baixa e com mais penas. No início, a saia curta parecia atrapalhar a dança dela, mas foi apenas impressão, pois ela se sustentou com facilidade nos três módulos. Assim como Maycon riscou a avenida e cortejou sua porta-bandeira com maestria e precisão. Foi um casal elegante e risonho, com uma apresentação correta e muito bem-feita.

EVOLUÇÃO

A escola enfrentou alguns problemas no quesito, que irão, inevitavelmente, onerar a pontuação na quinta-feira. Com dois buracos na pista, ambos nas apresentações da bateria diante dos módulos 2º e 3º, a escola não segurou o desfile para a bateria se apresentar.

Com 55 minutos na pista, tempo máximo permitido, a bateria se apresentava no último módulo de jurados, com a ala “Amigos do Xande” seguindo para a dispersão, deixando a pista livre e com buraco para a bateria finalizar o desfile.

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Apesar de animados, os componentes aparentavam estar abatidos no desfile; andaram chacoalhando o corpo, sem sambar de fato.

A escola finalizou o desfile aos 57 minutos, dois a mais do que o permitido, o que acarretará a perda de 0,2 décimos na apuração de quinta-feira.

HARMONIA

O samba passou muito bem pela avenida. Os intérpretes Aílton Santos e Thiago Acácio conduziram o samba de maneira magistral. A escola cantou pouco. Por conta da evolução comprometida, a harmonia também deve ter décimos perdidos, uma vez que o canto da comunidade foi irregular, visto o ritmo instável que a escola teve na avenida.

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ALEGORIA E ADEREÇOS

As alegorias da Unidos do Jacarezinho apresentaram problemas de concepção e acabamento. Todas as três tinham apenas tecido como revestimento, sem nenhum adereço. Com madeira exposta no abre-alas e piloto sentado em cima do tripé “Salgueirense da Cabeça aos Pés”, este deve ser mais um quesito em que a escola será despontuada.

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SAMBA

Composto por Paulinho Bandolim, Tomate Show, Rodrigo Jacopetti, Bruno Dallari, Godoi, Guto Cachaça, Dodô Ananias e Rafa Cria, a obra cumpriu o seu papel em homenagear o artista. Com uma letra muito boa e de fácil compreensão, o refrão “Sapucaí vai tremer quando a sirene tocar / Jacarezinho, taca fogo no gongá / Vai ter pagode pelos becos e vielas / Salve, Xande de Pilares / Hoje, coroado na favela” deu um agito nas frisas e arquibancadas, mesmo que de maneira tímida. Em resumo, o samba merecia um desfile à sua altura.

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FANTASIAS

Abalada pelo incêndio que aconteceu na quadra da escola, no dia 5 de fevereiro, a escola desfilou com três alas sem fantasia, apenas com a camiseta da comunidade. A primeira ala estava sem a cabeça da fantasia, apenas com a calça e a camisa estampada, sem dizer nada sobre o enredo, assim como a bateria.

A ala das baianas, com poucas integrantes, desfilou com roupas brancas, mas com texturas e tecidos totalmente distintos entre si.

As alas de passistas, a das crianças, a dos compositores, a internacional, a “Amigos do Xande” e a que representou o Império Serrano foram as únicas que desfilaram com fantasias.

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OUTROS DESTAQUES

A ala das crianças, apesar de bem pequena, teve uma fantasia didática e bem-feita, sendo um charme para o desfile.

Inocentes de Belford Roxo 2026: Galeria de fotos do desfile

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Jacarezinho 2026: Galeria de fotos do desfile

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Série Barracões SP: Exaltando os anti-heróis, Tucuruvi promete emoção para 2026

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Após um 2025 marcado por desafios e pela queda de divisão, o Acadêmicos do Tucuruvi aposta em um enredo autoral e reflexivo para o próximo Carnaval. Com o conceito de “anti-herói”, a escola propõe uma narrativa sobre dualidade, identidade brasileira e resistência, reforçando o diálogo entre comunidade e proposta artística.

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Foto: Divulgação

Desenvolvido pelo carnavalesco Nicolas Gonçalves em parceria com o enredista Clayton, o projeto mergulha em referências da literatura, da cultura popular e da ancestralidade para construir um desfile dividido em três setores. A ideia é provocar reflexão sem abrir mão da emoção, característica marcante da agremiação da Zona Norte.

Com o enredo “Anti-Herói Brasil”, a escola será a terceira a desfilar no domingo de Carnaval.

O CARNAVALESCO visitou o barracão da escola e conversou com Nicolas sobre o desenvolvimento do enredo.

O conceito do tema

“Nós, carnavalescos, sempre temos uma gaveta cheia de ideias esperando para acontecer, e foi assim que surgiu. Com tudo o que passamos em 2025, eu lembrei desse enredo que eu tinha. Não estava desenvolvido, mas eu gostava muito do termo anti-herói. Achava interessante essa relação, essa dubiedade, esse meio caminho entre o herói e o vilão, mas de um jeito abrasileirado. Enfim, me debrucei sobre isso.

Quando sentei com o Rodrigo para renovar e continuar na escola, conversamos muito sobre o que passamos e sobre o que queríamos. Ele me disse que não queria apagar o que vivemos, não queria passar uma borracha. Tudo é aprendizado, mas também não podemos ficar na dor, nos diminuir ou entristecer a ponto de não fazer acontecer.

E acho que foi esse sentimento que senti na comunidade: estamos tristes, mas com sangue nos olhos para mostrar que não merecíamos cair. Percebi que isso dialogava muito com o anti-heroísmo — quase virou o subtítulo do enredo: ‘Nossa jornada não é perfeita, mas o propósito é legítimo’. O anti-herói tem essa questão”, contou.

A dificuldade do desenvolvimento

“Eu tive a felicidade de receber o Clayton como enredista este ano. Foram umas três semanas mergulhados nisso. É muito gostoso fazer um enredo abstrato, porque permite mais liberdade para guiar os caminhos da pesquisa. Dificuldade mesmo não tivemos.

O mais complicado foi fazer o recorte, porque é um enredo muito aberto. Existem muitos anti-heróis — e todos nós somos. A conclusão é essa. Então, como recortar e enquadrar isso em três carros e tantas alas? A dificuldade foi entender como passar a mensagem sem esquecer ninguém.

Mas a pesquisa foi muito interessante. Tivemos carinho, esmero e delicadeza, porque é um enredo sensível, que pode cair em preconceitos ou generalizações. Acho que tivemos o tato de construir uma narrativa interessante, que estou doido para que as pessoas vejam”, falou.

A comunidade com o enredo

“Não foram receptivos de imediato, assim como não foram com Ifá e com Assojaba, porque são enredos complexos. Hoje vemos muitos enredos indo para caminhos mais panfletários, de fácil identificação. E senti que o Tucuruvi faz o caminho contrário.

Quando trouxemos Ifá, houve resistência — inclusive com o samba, pelas palavras em iorubá. Existe essa resistência porque não é fácil. Mas aí surgiu o diferencial: a comunidade começou a parar, estudar, entender, pesquisar. Isso foi se construindo.

Em Assojaba aconteceu o mesmo, com termos em tupi e uma narrativa densa. E foi muito bonito ver as pessoas se aproximando do enredo.

Para mim não tem coisa mais divertida do que alguém chegar e comentar sobre a pesquisa, sobre o que descobriu. É esse casamento entre comunidade e enredo. O anti-herói não foi diferente.

São enredos complexos, mas complexidades que fazem bem para a comunidade, que ajudam a construir uma escola que estuda, que se aprofunda — sempre com alegria e samba. Tenho certeza de que será assim novamente”, afirmou.

O enredo em setores

“A gente divide a escola em três setores.

Na abertura falamos da ancestralidade e trazemos o ensinamento de Baquetá, o senhor da terceira cabaça, para explicar o espírito anti-heróico.

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Foto: Divulgação

Um itã conta que Exu recebe duas cabaças: uma com o bem e outra com o mal. Ele pede uma terceira e mistura os conteúdos. Assim, bem e mal passam a coexistir em equilíbrio. Esse é o espírito anti-heróico: entender essa dualidade.

A partir daí, vamos aos anti-heróis já registrados. Fazemos o mesmo movimento de escritores brasileiros que, para falar do país, precisaram olhar para o povo real.

Trazemos personagens da literatura e do cinema que refletem o brasileiro, como Chicó e João Grilo, de O Auto da Compadecida, e Macunaíma, grande anti-herói da nossa literatura. Esse é o segundo setor.

No terceiro, somos mais explícitos: os anti-heróis do cotidiano — pessoas que vivem às margens e nem sempre são vistas.

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Foto: Divulgação

A ideia é coroar essas pessoas, dar visibilidade e encerrar com essa premiação simbólica. Esse é o anti-herói Brasil, o anti-herói Tucuruvi”, explicou.

O ponto alto do desfile

“É difícil responder — é como pedir para um pai escolher o filho favorito.

Abrimos com grandiosidade, apostando em materiais diferenciados, como fizemos em Assojaba. Também teremos um carro com crítica forte, como o de Dom Pedro no ano passado. Acho essencial a escola provocar reflexão.

E fechamos com emoção — Tucuruvi é uma escola que se emociona na Avenida.

Se eu pudesse destacar algo, seria isso: vamos falar de anti-heróis, mas estaremos falando do Tucuruvi. O ponto alto não será uma alegoria específica, mas a emoção como um todo”, disse.

As cores e os materiais na passarela

“No ano passado pensamos muito na colorimetria. Fizemos uma abertura azul com neon. Este ano, novamente, pensei numa paleta diferenciada.

Gosto muito da abertura: usamos páginas de livros — páginas que escrevem história — impregnadas na cenografia. Será uma abertura com muito branco da folha, mas com escrita.

Também trabalhamos o preto e branco da dualidade de Exu e da terceira cabaça. Brincamos bastante com essas cores”, explicou.

Para a comunidade

“Quero deixar um recado para a comunidade: agradecer por acreditarem no meu trabalho e nessa ousadia.

A gente precisa assumir esse papel diferente — algo que antes até gerava bullying, mas hoje nos fortalece.

Não tenham medo de ousar, de ser felizes. Contem com a gente para corrigir os erros técnicos e fazer um carnaval bonito, colhendo o que merecemos. Contem comigo, porque eu conto com vocês”, finalizou.

Ficha técnica

Alegorias: 3

Alas: 19

Diretor de barracão: Jonatas Ramos