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Vigário Geral 2026: Galeria de fotos do desfile

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Padre Miguel no desfile no Carnaval 2026

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Um desfile sublime da bateria “Guerreiros” da Unidos de Padre Miguel, na estreia de mestre Laion Jorge no Boi Vermelho da Vila Vintém. Um ritmo enxuto, equilibrado e muito bem equalizado foi exibido. Execuções de bossas em módulo foram simplesmente ovacionadas, num desfile que pode ser considerado, sobretudo, energético.

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Na cabeça da bateria “Guerreiros”, uma ala de cuícas sólida tocou junto de um bom naipe de agogôs, que executou um desenho rítmico nas nuances da bela obra da escola da Vila Vintém. Uma ala de chocalhos de nítida virtude técnica se exibiu de modo entrelaçado com um naipe de tamborins de imensa qualidade coletiva. O belíssimo casamento musical entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do destacado trabalho envolvendo as peças leves do Boi Vermelho.

Na parte de trás do ritmo da UPM, uma afinação privilegiada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram firmes, mas bastante precisos. Surdos de terceira com balanço encantador ajudaram no belo trabalho dos graves. Uma ala de repiques coesa tocou junto de um naipe de caixas espetacular, auxiliando de forma luxuosa no preenchimento musical dos médios.

Bossas profundamente conectadas à melodia do samba, aproveitaram as variações para consolidar seu ritmo. Além de boa musicalidade, os arranjos também exibiram uma consistente pressão sonora, provocada pela potente afinação de surdos. Num arranjo mais dançante, toda a bateria “Guerreiros” se posiciona de um só lado (posterior a cabine), reverenciando júri e público. A bossa em questão foi muito aplaudida, gerando comoção popular sempre que apresentada. Outra paradinha ovacionada era a do estribilho, onde ritmistas movimentavam os braços e depois faziam sinal de flecha, como o samba pede. A retomada era com pressão sonora e recebeu interação popular sempre que exibida.

Uma grande apresentação da bateria “Guerreiros” da UPM, na estreia de mestre Laion no Boi Vermelho. Um ritmo bastante equilibrado e com equalização de timbres bem privilegiada. Após uma exibição muito boa da primeira cabine, a bateria da Unidos seguiu sendo muito aplaudida, agora por todo o júri, numa apresentação energética no segundo módulo. Na última cabine (dupla) de julgadores, mais uma bela apresentação para coroar um belo desfile da bateria “Guerreiros”.

No “Quilombo da Diversidade”, Bangu transforma a Sapucaí em tribuna de orgulho e resistência

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A Unidos de Bangu levou para a Marquês de Sapucaí, como quarta escola da noite pela Série Ouro, um dos momentos mais políticos e emocionantes do Carnaval 2026. No enredo “As Coisas que Mamãe me Ensinou”, a agremiação homenageou Leci Brandão não apenas como sambista, mas como deputada atuante na defesa da cultura popular, das raízes africanas e dos direitos sociais.

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Um ponto alto desse discurso veio na terceira alegoria, o “Quilombo da Diversidade”, carro que coroou o desfile com a presença da própria artista e celebrou sua luta no mandato na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), incluindo leis aprovadas em prol das minorias.

Com destaques trans e forte presença da comunidade LGBTQIAPN+, o carro transformou a avenida em território de afirmação e orgulho. Entre plumas, cores vibrantes e mensagens de resistência, a militância ganhou forma estética e política.

ERICA SIPP
Érica Sipp, de 50 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Érica Sipp, de 50 anos, cabeleireira, desfilando há dois anos na escola, destacou a importância de ocupar esse espaço.

“É sempre bom levantar a bandeira do nosso público, da nossa comunidade LGBT. Ainda mais com Leci sendo a homenageada, já ele ela não deixa de ser uma militante. Então pra gente é muito importante lutar pela nossa causa”, afirmou.

Sobre a mistura entre arte e política no Carnaval, foi enfática: “Hoje em dia é muito importante. Pode juntar música, política, televisão. Pode misturar tudo, tudo é válido quando a causa é positiva”, disse.

Para ela, atravessar a Sapucaí teve um significado ainda mais profundo. “A gente que é trans bota a cara a tapa todo santo dia na rua. Poder passar pela maior passarela do mundo levantando a nossa bandeira é muito importante pra gente estar nessa causa”, concluiu.

LUCAS SANTOS
Lucas Santos, de 34 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Lucas Santos, de 34 anos, anestesista, estreante na Bangu, falou sobre representatividade e união. “Eu achei muito interessante pelas roupas, pelas cores, pela representatividade. Levar para um lado onde todo mundo está junto e todo mundo é aceito e normalizar tudo, eu acho muito legal”, afirmou.

Ao comentar o fato de a homenageada ser sambista e parlamentar, defendeu a união das duas esferas. “A arte movimenta as pessoas e ajuda a gente a se unir todo mundo junto. Eu acho que a arte defende o amor e a união de todo mundo”, disse.

Para ele, desfilar em homenagem a uma deputada que atua na causa é simbólico. “Todo mundo que defende a nossa causa e luta a favor disso é muito importante. Ter uma voz dentro do governo que defenda as minorias é sempre muito importante”, concluiu.

CAIO EDUARDO
Caio Eduardo, de 21 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Também estreante, Caio Eduardo, de 21 anos, do setor administrativo na área elétrica, ressaltou o alcance social do tema.

“Esse tema tem muita relevância, porque atinge uma boa parte da população. A representatividade é muito importante até pra encorajar e pra que não ocorra tanta intolerância”, afirmou.

Sobre política e arte caminharem juntas, foi direto: “Tudo é política. Principalmente a arte é uma forma de manifestar esse lado crítico. Então tem tudo a ver”, disse.
Para ele, representar a diversidade em um carro como aquele é motivo de responsabilidade. “Tá aqui com essa fantasia maravilhosa representando a diversidade é muito lindo”, pontuou.

ALINE FERNANDES
Aline Fernandes, de 42 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Aline Fernandes, de 42 anos, também em seu primeiro desfile pela escola, falou sobre liberdade e verdade na representação. “Eu acho que a representação já vem da diferença da gente estar dando liberdade para todos os gêneros”, afirmou. Para ela, a atuação política da homenageada faz diferença. “Quando tem verdade é diferente. Eu acho que na Leci isso é um caso diferente. É um diferencial na nossa cultura brasileira e pro samba”, disse.

Desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, o desfile costurou ancestralidade, cultura e militância. No alto do “Quilombo da Diversidade”, Leci Brandão simbolizou não apenas a artista consagrada, mas a parlamentar que transformou o mandato em instrumento de luta.

Imbatível! Alegorias impactantes, qualidade estética e de quesitos colocam Unidos de Padre Miguel como candidata ao título

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A Unidos de Padre Miguel é definitivamente uma escola que não sabe brincar. Depois de um carnaval no Grupo Especial em que entendeu que recebeu um julgamento não lá muito justo, a UPM brindou a Sapucaí com mais um desfile primoroso. Como no ano passado, como em 2024, quando subiu, é certo que o Boi Vermelho, salvas raras exceções, é uma escola que faz desfile sempre de nível de Grupo Especial. Seja com mais ou menos componentes, seja com mais ou menos alegorias, a qualidade que vem é de excelência. E o que se viu em mais este carnaval foi isso: comissão de frente de alto nível, casal em alta consciência rítmica, desbunde na qualidade das fantasias, alegorias impactantes, samba na boca do público e uma comunidade aguerrida que canta e brinca carnaval como se estivesse no quintal da Vintém. De fato, o lugar da UPM não é nesse grupo.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, a Unidos de Padre Miguel foi a quinta escola a passar pela Sapucaí, nesta primeira noite de desfiles da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Paulo Pinna, que também assina a coreografia da comissão do Salgueiro, estreou no Boi Vermelho da Zona Oeste apresentando, inicialmente, ainda na coreografia, guardiões da memória que firmam o pé e riscam no solo sagrado a potência de uma aldeia que não se curva ao invasor. Com indumentária indígena e pele tingida de vermelho, esses guardiões adentram o tripé que representou uma aldeia que floresce de troncos velhos, que se enraíza na força e na ancestralidade e que se curva para consagrar o seu povo. Nesse momento, os guardiões da memória se enroscam nas raízes da Jurema. Ajuremado, no giro do Toré, o pajé conduz e induz o ritual, evocando a ira terrena e suplicando pelo fulgor de almas ancestrais.

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Nisso, surge a Kunhã-Eté, desbravadora, desconfiada, encaixando-se na sacralidade do passo marcado. Das águas sagradas do Rio Potengi, abençoadas pela Mãe D’Água e tingidas de urucum pelos potiguaras, surge a consagração: Kunhã-Eté, símbolo feminino. A pivô da comissão, representando Kunhã-Eté, nesse momento dança em um espelho d’água com efeito de chafariz. Do alto do tripé, da Jurema Sagrada, no clímax da comissão, surge a predestinação, em sangue quente, borbulhando nas veias de um corpo potente, emanando coragem, força e empoderamento. Uma comissão de nível de Especial pela sincronia da coreografia, encadeamento dos fatos apresentados, altíssima qualidade estética do tripé e do figurino dos componentes, que ainda brilhava e se destacava na luz cênica. Um dos melhores trabalhos de Paulo Pinna.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O experiente casal Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas estreou na UPM e encarnou o sangue potiguara, vermelho vivo como o urucum que tinge corpos e histórias. Ao vestirem-se de vermelho-sangue-urucum, o corpo indígena assume poder, beleza e proteção mágica, reafirmando sua ligação com a terra e com a Jurema Sagrada. O vermelho que dominou o casal é sangue que significa vitalidade e continuidade: o que escorreu para que a cultura sobrevivesse e se transformasse em canto.

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A dupla apresentou uma coreografia muito intensa, utilizando-se de forma bem eficiente do espaço. No início, o casal buscava giros e rodopios. Cris emendou uma sequência de giros bem intensa. Depois da apresentação do pavilhão para os jurados, os dois se encontram e, no refrão do meio, fazem um passo indígena no trecho “Ê cabocla pele morena”; na segunda vez, Marcinho faz um passo de ritual dos povos originários. No geral, uma dança sem problemas aparentes, intensa, com a parte clássica do que se pede para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, além de movimentos que remetem ao enredo de forma sutil, mas bem colocada na coreografia.

ENREDO

O enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, trouxe uma homenagem à indígena Clara Camarão, símbolo da força potiguara que combina ancestralidade, espiritualidade e resistência. Dividido em três setores, inicialmente a Unidos de Padre Miguel apresentou o nascimento encantado de Clara, evocando a profecia xamã que anuncia sua vinda ao mundo, flechada pela Mãe D’Água e banhada pelas águas do Potengi. O segundo setor trouxe feitos históricos da Kunhã-Eté, exaltando sua participação em batalhas contra os invasores holandeses.

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No último setor, Lucas Milato mergulhou no encantamento de Clara, sua transformação em entidade sagrada que habita a Jurema, eternizada como guardiã do povo, da floresta e da história. Enredo com a cara da Unidos de Padre Miguel, com ancestralidade, religiosidade, cultura e força de mensagem. Milato apresentou a história com diversidade nas fantasias, produzindo a estética indígena como pano de fundo, mas não só trazendo uma coleção de penas e palhas, e sim soluções criativas e foco no encadeamento da história.

EVOLUÇÃO

Apesar de terminar com a cronometragem máxima permitida, a Unidos de Padre Miguel soube dosar bem a sua passagem pela Sapucaí. Grande, a escola sabia que o ritmo não poderia ser tão arrastado. Então, deu um sprint de maior energia no início e chegou bem ao final sem ter que correr. Na pista, do componente, o que se viu foi alegria, espontaneidade, mas muita garra. O sangue nos olhos, que me permita Betinha da Vigário, esteve presente neste desfile da comunidade da Vila Vintém. Mesmo em algumas alas em que a fantasia era mais volumosa e o cansaço parecia bater, os foliões mantiveram o ritmo e a intensidade na dança e na alegria.

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Por fim, não foram identificados buracos, grandes espaçamentos ou alas se embolando durante o cortejo da UPM pela Sapucaí. A escola trouxe poucas alas coreografadas, que deram um brilho maior ao desfile sem prejudicar a espontaneidade do componente, além de estarem bem alinhadas com o contexto do enredo, como foi o caso da ala cênica “A Batalha de Tejucupapo”, que falava justamente do embate ocorrido nesse lugar contra os invasores holandeses. O figurino duplo trazia as mulheres lideradas por Clara Camarão e os soldados holandeses.

HARMONIA

Se estamos falando de uma escola que faz desfile de Grupo Especial, essa agremiação precisa ter um intérprete de elite no carnaval. E a Unidos de Padre Miguel tem. O multicampeão Bruno Ribas mais uma vez mostrou toda a sua qualidade para liderar o carro de som do Boi Vermelho da Zona Oeste, tendo a companhia, entre outras, da voz potente feminina de Lissandra Oliveira, que, inclusive, iniciou o desfile cantando o alusivo do samba.

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Bruno, com sua voz sedosa, única, com uma extensão vocal que compreende ir facilmente do grave ao agudo, ajudou a impulsionar mais um samba da Unidos que passou muito forte na Avenida. E, se a presidente Lara Mara pediu para o folião da Unidos de Padre Miguel “botar para fu…”, a comunidade respondeu com muita garra, mais uma vez, cantando o samba durante todo o tempo com energia, correção e intensidade.

SAMBA-ENREDO

O samba dos compositores Thiago Vaz, Jefinho Rodrigues, W. Corrêa, Richard Valença, Miguel Dibo e Cabeça do Ajax segue a predestinação da escola para colocar grandes obras na Sapucaí. Se, desde o esquenta, Bruno Ribas colocou a régua lá no alto cantando a obra do ano passado, o samba-enredo deste ano não ficou aquém. Com o andamento um pouco mais à frente, sem atrapalhar a força da divisão rítmica e da profundidade da melodia, a obra rendeu melhor que no ensaio técnico, interagindo com o público e fazendo com que a escola pulsasse, vibrando muito forte pela Sapucaí.

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Com um refrão de baixo mais forte, mais profundo, convocando o componente a lutar em versos como “Vai, meu Boi Vermelho, honre a tua história” e “Quantas vezes for preciso, haverá renascimento”, essa parte mexe com o componente e é, com certeza, a mais cantada com força pela agremiação. Já o refrão do meio, “Quando ecoa o tambor…”, tem muita musicalidade, ritmo e balanço, leva a dançar, e a bateria “Guerreiros”, de mestre Laion, ainda fortaleceu essa parte com uma bossa de toada indígena. Alto rendimento da obra na Sapucaí.

FANTASIAS

O conjunto estético desenvolvido por Lucas Milato apresentou volumetria, qualidade estética, leitura, criatividade, bom gosto e uso de materiais de excelente qualidade, além do cuidado nos detalhes, como a presença constante de adereços de mão e alto nível de acabamento dos figurinos. No início da escola, o carnavalesco mesclou o vermelho característico da Unidos de Padre Miguel e a estampa indígena, trazendo para a Sapucaí um tapete de grande volume de penas bem desenvolvidas com xilogravura indígena, que ajudavam a fazer da cabeça da escola um grande culto à cultura indígena e às origens da homenageada.

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Destaque para a primeira ala, “Troncos Velhos”, pela riqueza de detalhes e pela volumetria da fantasia, que vinha antes do abre-alas. Depois, temos na Unidos a aparição de um dourado, às vezes mais predominante na fantasia, outras em contraste com cores mais claras, como o verde e o azul das baianas no figurino “Kunhã Clara Guerreira”, que trouxe como símbolo a própria Clara Camarão. O traje evocou o movimento circular das águas e das florestas – o azul das saias dialoga com a proteção da Mãe D’Água, enquanto os grafismos indígenas e as folhas da mata reforçam a ligação espiritual e ancestral dos potiguaras. No final, a predominância do verde quando o desfile encerra ao falar do encantamento de Clara e da espiritualidade indígena. Destaque para a fantasia “Jurema Sagrada”, da ala 15, e “Encantamento da Mata”, logo em seguida. Trabalho primoroso de Lucas Milato. Alta qualidade estética.

ALEGORIAS

A Unidos de Padre Miguel trouxe para este desfile um conjunto alegórico formado por três alegorias, e todas apresentaram alta qualidade de acabamento, boa leitura, criatividade, volumetria, traço limpo nas esculturas e consonância com a estética das alas que vinham antes ou depois. O carro abre-alas, “A Consagração de Kunhã-Eté”, representou o momento em que a heroína Clara Camarão passou a carregar a missão de ser guerreira revelada pelas forças encantadas e ancestrais. O carro era composto por um corpo cilíndrico representando o Rio Potengi em tons vermelhos e, sobre a base, uma sucessão de elementos míticos, traduzindo a relação entre o mundo real e o encantado. Além disso, a alegoria possuía movimento na cauda da criatura aquática que vinha na parte de trás.

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A segunda alegoria, “A Batalha de Guararapes”, trouxe o cenário das guerras luso-brasileiras contra a ocupação holandesa no Nordeste. Plasticamente, o carro apresentou um cenário de guerra. Na frente, leões sangrando, significando a derrota dos invasores. Nas laterais, o exército luso-brasileiro, composto por portugueses e indígenas. Este carro apostou no dourado. Já a terceira alegoria, “Território Encantado”, apresentou Clara Camarão deixando o plano dos homens e adentrando o plano encantado. O carro traz o verde de uma terra de encantaria, com as matas. Toda a sua estrutura é tomada por troncos, cipós e raízes. Grandes cabeças indígenas compõem as laterais. No centro, no alto, um cocar e o corpo radiante de Clara pintado em seu novo plano. Talvez seja a melhor alegoria que vai passar pela Série Ouro, carro de altíssimo nível estético e de muito volume.

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OUTROS DESTAQUES

A bateria “Guerreiros”, agora sob a coordenação de mestre Laion Jorge, trouxe a fantasia “Invasores Holandeses”, assumindo a forma dos exércitos flamengos, militares que ocuparam o Nordeste. A bateria levantou a Sapucaí fazendo coreografia, inclusive realizando o gesto da flecha no trecho do samba “e seja a flecha viva da memória”, além das bossas bem encaixadas na obra.

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A rainha Dedê Marinho veio com a fantasia “Resistência Indígena”, com o vermelho tomando todo o figurino, como se a terra estivesse viva no corpo da rainha através de LEDs. Bruno Ribas tacou fogo na Sapucaí ao cantar o samba do ano passado, “Egbé Iyá Nassô”, no esquenta. A presidente Lara Mara inflamou a escola em seu discurso antes do samba, lembrando da força de renascimento do Boi Vermelho.

Negritudes de Acari: Componentes se reconhecem em artistas do Teatro Experimental do Negro

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Terceira escola da noite da última sexta-feira, a União do Parque Acari abriu o desfile, em homenagem a Brasiliana, com uma ala que representou artistas precursores da brasilidade cênica e da dramaturgia brasileira: o Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias do Nascimento em 1944. Fundamental para a presença negra nos palcos, historicamente elitizados, o TEN transformou o teatro em instrumento de denúncia e afirmação racial, exaltando a cultura e a experiência negra e periférica em suas obras.

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Estandarte de Ruth de Souza em ala que homenageia o Teatro Experimental do Negro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A ala, vestida com uma bata estampada e adornada com motivos africanos como buzios e estampas Ankara e Bongolans, carrega também estandartes com imagens de Lea Garcia, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Rute de Souza. Os componentes da escola ressaltam a alegria de representarem os artistas.

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Silvio Ribeiro conheceu o Teatro Experimental do Negro através do enredo da agremiação e de sua participação na ala.

“Infelizmente não conhecia, apesar da minha idade, mas já tinha ouvido falar por alto sobre o Teatro Experimental do Negro. Agora procuro me aprofundar mais no conhecimento, porque como eu sou amante da história, estou até começando a me virar mais na história do negro. Isso vai ser bastante importante esse desfile também, porque agora está me dando essa consciência. Esses artistas que a escola representa, que eu já conhecia, como que eu estou contente de representar eles dentro desse estandarte”, contou ao CARNAVALESCO.

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Silvio Ribeiro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Por outro lado, conhecendo Abdias do Nascimento, Rute de Souza e tantos outros ícones representados nos estandartes, Silvio se sente interpretando cada um deles.

“Eu sinto como se tivesse “incorporando” cada um desses personagens. Eu vou me sentir na avenida como se fosse um desses”, afirmou.

Já Cristiane de Souza, apaixonada por teatro, tinha conhecimento sobre o TEN antes mesmo do desfile, e reconhece a importância do teatro como instrumento popular de cultura.

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Cristiane de Souza. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou apaixonada por teatro, independente de que teatro seja, teatro é sempre teatro. E exaltar a cultura nos tempos de hoje que todo mundo só pensa na internet, fica muito na tela, ir ao teatro é uma coisa… é um universo diferente, que não precisa ter muita grana. Tem peças populares, de fácil acesso pra quem tem menos grana, cultura para todo mundo”, disse.

Numa fantasia que representa tanta ancestralidade negra, o jovem Yuri Vinicius, 19 anos, sente o peso e responsabilidade de representar uma ala tão significativa.

“É algo forte. A gente vê tudo que foi construído na nossa parte teatral do nosso país, tudo que foi construído com muito orgulho de ser um povo brasileiro, de mostrar a nossa africanidade aqui no nosso país, que temos heranças. É muito divertido também. A gente está aqui levando essa energia e, claro, a gente também faz parte desse teatro. Também é uma responsabilidade grande, porque eu acho que não é qualquer um que pode colocar fantasia e sair desfilando. A gente tem que saber o que a gente está interpretando”, disse.

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Yuri Vinicius. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Maria Clara Aguiar, de Brasília, veio ao Rio de Janeiro desfilar na Sapucaí pela primeira vez, trazida por uma amiga da agremiação. Emocionada, fala sobre a emoção de carregar um estandarte que representa Léa Garcia, e ressalta que a luta contra o racismo é de todos.

“Para mim representar mulheres fortes é sempre uma honra. O artista negro tem que ocupar os espaços que são dele, que são de direito. Isso é uma festa popular fortíssima, então ter um movimento forte como esse é tudo. É uma resistência gigantesca. Apesar de ser uma mulher branca, eu acho que a gente não pode se isentar. A gente tem que lutar contra, não é ficar ali em cima do muro, não. Tem que sempre ir contra”, afirmou.

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Maria Clara. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Ao exaltar a negritude que ocupou espaços historicamente elitizados, Andrea Araújo, que é médica, compartilha a identificação com sua trajetória ao ver outros ícones negros em lugar de destaque e reconhecimento, apesar do racismo.

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Andrea Araújo. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou uma negra que lutei muito pra me formar como médica e manter minha cultura. É difícil quando a gente vem de uma outra realidade, ascender socialmente. A gente encara muitos obstáculos, então eu tinha que estar nesse lugar de representatividade”, declarou.

Velha Guarda da Bangu exalta Leci sob a proteção dos ‘santos’ da Mangueira na Sapucaí

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A Unidos de Bangu transformou a Marquês de Sapucaí em território de memória e reverência na noite em que foi a quarta escola a desfilar pela Série Ouro. Com o enredo “As Coisas que Mamãe me Ensinou”, homenagem à cantora e compositora Leci Brandão, a agremiação levou para a avenida um desfile marcado por ancestralidade, força feminina e compromisso social. Na segunda alegoria, intitulada “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, a Velha Guarda ocupou o centro da cena, simbolizando a conexão entre Bangu e Mangueira sob o olhar de esculturas de Cartola, Dona Zica e Jamelão.

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O carro representou o encontro da tradição da Zona Oeste com a da Zona Norte. Entre esculturas que remetiam aos pilares do samba mangueirense, os integrantes mais antigos da escola lembravam que ali estava a raiz — a memória viva que sustenta o presente.

NEUZA DA SILVA
Neusa, baluarte da agremiação
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Baluarte da agremiação, Neusa Oliveira, de 83 anos desfila desde criança e se emocionou ao falar da homenagem.

“Eu vi muita coisa nessa vida, muita vitória e muita dificuldade também. Ver a Bangu homenageando a Leci é uma emoção grande. Ela é Mangueira, mas virou mãe de todo mundo que ama o samba. Isso é bonito demais”, afirmou.

Ao comentar a presença simbólica dos ícones Verde e Rosa no carro, completou: “É como se eles estivessem olhando pela gente. Cartola, Dona Zica, Jamelão. Tudo isso é raiz. Dá até arrepio”, disse.

MARIA DO CARMO JORGE
Maria do Carmo Jorge, de 60 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Maria do Carmo Jorge, de 60 anos, está há uma década na escola e destacou o sentimento de união entre territórios.

“A Velha Guarda recebe com orgulho. É uma homenagem que une bairros, une comunidades”, afirmou. Sobre Leci, reforçou a admiração: “Ela é voz do povo, é coragem. Ela canta o que muita gente sente. Por isso a gente se rende”, concluiu.

JACKSON DOS SANTOS
Jackson dos Santos, de 72 anos.
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Com 20 anos de desfile, Jackson dos Santos, de 72 anos, ressaltou o peso histórico do momento. “A Bangu já passou por muita coisa, e ver essa homenagem é sinal de maturidade. A gente reconhece quem construiu o samba”, afirmou. Cercado pelas esculturas, sentiu a força da tradição. “É como desfilar acompanhado de lendas. A gente sente uma força diferente na avenida”, disse.

WALMIR ANTONIO
Walmir Antônio, 66 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Já Walmir Antônio, de 66 anos, que há 27 desfila pela escola, falou sobre o simbolismo de “vestir” a alma Verde e Rosa. “A gente veste o Verde e Rosa com dignidade. É respeito à história e à tradição”, afirmou. Para ele, a homenageada é incontestável. “A Leci é resistência, é luta, é talento. Não tem como não tirar o chapéu”, concluiu.

SONIA MARIA
Sônia Maria, 79 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Sônia Maria, 79 anos, há 10 desfiles na Bangu, resumiu o sentimento da ala. “A Velha Guarda recebe essa missão com carinho. Samba é união”, disse. Sobre a artista, reforçou: “A Leci é rainha porque é verdadeira. Ela canta com o coração”, afirmou.

Desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, com samba-enredo assinado por Dudu Nobre, Junior Fionda, Vou Pro Sereno, entre outros compositores, o desfile celebrou a trajetória de Leci Brandão como defensora da cultura popular, das raízes africanas e dos direitos sociais. Na segunda alegoria, porém, foi a Velha Guarda quem deu o tom mais profundo: entre memórias e esculturas sagradas do samba, a Bangu mostrou que tradição se reconhece, se respeita e se abraça.

União da Ilha 2026: Galeria de fotos do desfile

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile no Carnaval 2026

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Um ótimo desfile da bateria “Caldeirão da Zona Oeste” (CZO) da Unidos de Bangu, na estreia do experiente mestre Dinho na agremiação. Um ritmo equilibrado, com andamento confortável e bossas pautadas pela simplicidade musical foi exibido.

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Na parte da frente da bateria da Unidos de Bangu, um naipe de cuíca ressonante se exibiu junto de uma ala de agogôs sólida, que pontuou as nuances melódicas através de sua convenção. Um naipe de chocalhos com boa técnica tocou demonstrando entrosamento com uma ala de tamborins de boa coletividade, que efetuou um desenho rítmico, baseado nas variações na melodia do samba.

Na cozinha da bateria CZO, uma afinação muito boa de surdos foi percebida, dando impacto sonoro nítido aos potentes graves. Surdos de terceira deram um balanço envolvente ao miolo do ritmo. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas de guerra com bom volume.

Bossas com boa musicalidade ajudaram a impulsionar a obra da escola, além de auxiliar na evolução dos componentes. Boa conversa rítmica no estribilho serviu para atrelar a africanidade sempre presente na carreira da homenageada, Leci Brandão. De uma sagacidade ímpar a nuance rítmica que exibiu uma levada de Mangueira dentro do final da segunda do samba, num arranjo sutil, mas com sonoridade impactante. Uma criação musical pautada pela simplicidade nos arranjos e tendo na assimilação fácil um dos seus maiores trunfos, permitindo espontaneidade por toda a pista.

Uma ótima apresentação da bateria CZO da Unidos de Bangu, sob o comando de mestre Dinho, estreando na regência da escola. Um ritmo pautado pela simplicidade musical criativa ajudou a impulsionar o bom samba da escola, além de auxiliar o desfilante. Impressionante como a leveza dos arranjos ajudou os ritmistas na espontaneidade, aumentando a sensação de grande desfile.

Do Quintal à Sapucaí: Bangu homenageia Leci com solidez e emoção

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Sendo a 4ª escola da noite a desfilar na primeira noite de desfiles da Série Ouro, a Unidos de Bangu, com o enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, homenageou a trajetória de Leci Brandão na música, na política, na Mangueira e no ativismo. Com uma comissão didática e segura e um casal tecnicamente consistente e elegante, a Bangu deixa a Sapucaí com credenciais para pleitear boa colocação na apuração de quinta-feira. A escola terminou o esfile com 56 minutos, 1 minuto além do máximo permitido, e, será penalizada na apuração.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

De autoria dos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, a escola transformou a avenida em extensão do quintal e da militância da artista, costurando ensinamentos maternos, consciência social e samba como ferramenta de transformação.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão é coreografada por Fábio Costa e composta por 15 componentes. Sete malandros em prateado reluzente e sete cabrochas em vermelho intenso representaram a alma do samba que conduz Leci pela vida. Intitulado “Alma do Samba”, o número trouxe o samba na vida de Leci, apresentando-se com essência e espírito que se expressam na música, na cultura e na paixão pela vida, sendo a alma de sambista que a leva à quadra da Mangueira e às rodas de samba desde criança.

* LEIA AQUI: No “Quilombo da Diversidade”, Bangu transforma a Sapucaí em tribuna de orgulho e resistência

Falando em criança, a pivô da comissão era uma garotinha, que interagiu o tempo todo com os malandros e as cabrochas. A coreografia no chão foi muito bem executada, com passos de samba e dança de salão; a essência sambista foi traduzida.

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Mas o ponto alto foi o tripé que a comissão trouxe: uma vitrola que se abria e na qual os bailarinos subiam. Do interior da vitrola surgia uma Leci madura, microfone em punho, acompanhada por um caboclo, Iansã e Ogum, referências diretas às citações do refrão do samba.

* LEIA AQUI: Velha Guarda da Bangu exalta Leci sob a proteção dos ‘santos’ da Mangueira na Sapucaí

Distribuindo a coreografia pelo tripé e com instrumentos musicais retirados dele, o show se encerrava com homens fazendo uma ilusão, como se o violão estivesse flutuando.

Nos três módulos de jurados, a comissão se apresentou sem erros, carismática e causando excelente efeito visual.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Leonardo Moreira e Bárbara Moura veio vestido de “Ancestralidade Familiar”, com as cores dourada e vermelha. Eles representaram a conexão com os antepassados, em especial a de Leci com seus pais, simbolizando as raízes da identidade cultural e comportamental da artista.

O figurino estava muito bem elaborado; a ancestralidade e a família eram visíveis nas fotos de Leci coladas na fantasia, como se fossem porta-retratos colocados carinhosamente.

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Com uma coreografia muito bonita e, muitas vezes, didática, o casal teve seu desempenho evoluindo conforme passava pelas três cabines. No primeiro módulo, a porta-bandeira demonstrou nervosismo visível na expressão facial em alguns momentos, deixando a dança não tão fluida em algumas passadas. O vento se fez presente durante a apresentação; mesmo com a bandeira molhada, era notável que ele atingia o pavilhão de forma considerável. No entanto, Bárbara tirou de letra, não se abateu nem deslizou na condução da bandeira, apresentando segurança e mais leveza na dança, assim como Leonardo, que rapidamente notou o vento e demonstrou destreza ao pegar o pavilhão no segundo módulo, mesmo sob forte interferência que quase o tirou de sua mão. Foi aí que o nervosismo da primeira cabine começou a desaparecer.

Na terceira cabine, a apresentação foi perfeita; a química entre eles, que era tímida no início, já dava sinais de maior entrosamento.

Podem esperar boas notas na apuração; foi uma bela apresentação.

ENREDO

Dividido em três setores, o desfile foi concebido sem se apoiar em uma narrativa meramente biográfica. A Bangu optou por um desfile que evocou valores, posturas e aprendizados. A figura de Leci apareceu não apenas como cantora e compositora, mas como cronista do cotidiano, política, lésbica e mangueirense.

No primeiro setor, “A Ancestralidade que Trago Comigo”, o abre-alas “Minha Ancestralidade me Moldou” representou a proteção dos orixás de Leci (Ogum e Iansã) em sua trajetória de vida e toda a construção de costumes e ensinamentos de seus pais.

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No segundo setor, “Uma Carreira Construída à Base do Amor e da Fé”, a alegoria “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa” trouxe a forte ligação de Leci com o morro e a Estação Primeira de Mangueira, mesmo sem ter morado lá.

No terceiro setor, “Socialista Graças a Deus”, a alegoria “Quilombo da Diversidade” foi a representação fiel da luta e do compromisso de Leci com as causas sociais. Bandeiras LGBT, remetendo à orientação sexual da cantora, foram o destaque que encerrou o desfile.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

As três alegorias da Bangu não apresentaram nenhuma avaria ou problema visual. Todas estavam bem finalizadas, com detalhes e adereços bem feitos e seguros. Destaque para a unidade regular em todos os carros.

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O abre-alas “Minha Ancestralidade me Moldou” apresentou uma belíssima Iansã na ponta do carro. A segunda alegoria, “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, como o nome já diz, bem verde e rosa, remetendo à paixão de Leci Brandão pela Mangueira, causou belo efeito na avenida, embora as esculturas com orelhas desproporcionais tenham quebrado a sobriedade do conjunto, conferindo ao carro um tom involuntariamente jocoso.

A última alegoria, “Quilombo da Diversidade”, na qual Leci veio sentada à sua frente, representou toda a luta da artista e sua reafirmação como mulher lésbica. O carro, assim como os outros, não apresentou nenhum problema estético.

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FANTASIAS

Apesar de modestas, todas as alas estavam com fantasias sem avarias. A escola dificilmente poderá perder décimos com as alas que desfilaram. No entanto, as fantasias das composições, especialmente na alegoria “Quilombo da Diversidade”, apresentaram concepção simplificada e baixo volume cenográfico, o que pode impactar a leitura plástica do conjunto.

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HARMONIA

O carro de som passou muito bem pela avenida, mas não é possível dizer o mesmo sobre o canto da escola, que passou desequilibrado pelas alas. Mesmo com o bom desempenho dos intérpretes Fred Viana e Pipa Brasey, o canto da comunidade se mostrou irregular entre as alas, com trechos visivelmente enfraquecidos e componentes pouco engajados. Poderia ter sido melhor; algumas alas passaram com muitos componentes calados.

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SAMBA

Composto por Dudu Nobre, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Binho Teixeira, Laura Roméro, Junior Falcão, André Baiacu, Geraldo M. Felicio, Valtinho Botafogo, Gilsinho da Vila, Fábio Bueno, JV Albuquerque, Jonas Marques e Juca, o samba apresentou força no refrão “Ogunhê, meu pai Ogum / Epahey Oyá / Bato cabeça pra saudar seus orixás”. Com sua letra, serviu perfeitamente para homenagear Leci Brandão, com citações às suas músicas famosas, como “As Coisas que Mamãe me Ensinou” e “Zé do Caroço”. O samba foi potente na avenida.

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EVOLUÇÃO

É um quesito para a escola se preocupar: muitos componentes apenas andavam pela avenida. A escola acelerou o passo do meio para o final. A bateria não entrou no segundo recuo, mas isso não foi suficiente para evitar a correria no último setor. Terminando o desfile com 56 minutos, um acima do máximo permitido, a escola será despontuada em 0,1 ponto na apuração.

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A Unidos de Bangu apresentou um desfile coeso, visualmente regular e conceitualmente bem resolvido. Comissão e alegorias sustentaram a proposta com segurança, enquanto pequenos ajustes em harmonia e evolução podem pesar na leitura dos jurados. Ainda assim, a escola deixou a Avenida com uma homenagem firme, consciente e competitiva.

OUTROS DESTAQUES

Os carros alegóricos causaram belíssimo efeito na Sapucaí. Muito significativo um desfile homenageando uma mulher lésbica ter uma rainha trans, como Camila Prins.

Terreiro que forma, Sapucaí que consagra: Acari transforma fé em arte no abre-alas da Série Ouro

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A União do Parque Acari desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a terceira escola a passar pela Avenida. Levando o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a agremiação abriu o desfile com uma declaração estética e política sobre pertencimento. As escolas disputam uma vaga no Grupo Especial de 2027, e o primeiro carro já sinalizou o tom da narrativa. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes das primeiras alas falaram sobre o impacto da alegoria e a expectativa para a reação do público.

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Abre-Alas da Acari. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A primeira alegoria representou a formação e o batismo do Grupo dos Novos, embrião do que viria a ser o Brasiliana. A proposta destacou o terreiro como espaço de formação artística e afirmação cultural, ponto de virada estética e identitária. Foi nos terreiros de candomblé que o grupo buscou a essência de sua musicalidade e de suas representações cênicas. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

No histórico Ilê de Joãozinho da Gomeia, integrantes foram batizados e passaram a integrar o núcleo artístico da companhia. A ambientação do carro evocava o xirê, reafirmando o sagrado como fonte criadora.

Na parte frontal do abre-alas, a representação de Exu, orixá da comunicação entre visível e o invisível, conduzia a narrativa visual. Frequentemente alvo de demonizações por uma cultura eurocêntrica, Exu surgia ali ressignificado, central e majestoso. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Esculturas de homens negros, com trajes inspirados nos bailarinos do grupo, reforçavam a dimensão estética e política da obra. Estamparias e referências ao Ilê da Gomeia atravessavam a composição. No alto, a imagem de Joãozinho da Gomeia abençoava a cena, como símbolo de orientação espiritual e artística.

A imponência do abre-alas emocionou quem estava na concentração. “Espetacular! O carro é maravilhoso, ele é muito bonito, gigante. Ele é lindo mesmo. Imponente. Tem que pedir licença para Exu, abrir os caminhos. Quanto mais força a gente conseguir tirar de um terreiro, ou seja de qualquer outro local faz sempre bem pra gente”, afirmou Marcos Lima, 40 anos, técnico de informática. 

A fala traduz o sentimento de reverência e reconhecimento que tomou conta dos componentes. Para muitos, abrir caminhos é também afirmar identidade.

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Marcos e Marleno. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Marleno, 46 anos, técnico de radiologia, também destacou a simbologia do momento. “O carro é muito bonito mesmo e é Exu, né. Abrir os caminhos para o Parque Acari. Abrir o desfile assim é uma energia muito boa. Exu é caminho aberto. Preconceito cultural sempre tem em relação a nossa religião, as pessoas têm a cabeça muito fechada”, contou. 

Já Gina Rumy, 47 anos, comerciante, ressaltou o impacto visual: “Essas cores vibrantes que chamam muita atenção e riqueza visual para a escola”. As declarações reforçam o orgulho coletivo que atravessa a comunidade.

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Gina e Tatiane. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para Tatiana Pereira, 44 anos, engenheira, o carro representou mais que estética. “Vendo a alegoria senti um destaque para nossa comunidade, sendo representada na Avenida. A emoção das pessoas que contempla tudo isso”, relatou. A presença de símbolos do terreiro no abre-alas foi compreendida como afirmação de protagonismo negro em um espaço de grande visibilidade. Ainda que não conhecessem a história do Grupo dos Novos antes de ela se tornar enredo, os entrevistados reconheceram a importância da narrativa. A Avenida, nesse sentido, se transforma em sala de aula e altar.

Ao levar para a Sapucaí a história de um grupo que encontrou nos terreiros a base de sua expressão artística, o Parque Acari transforma o sagrado em espetáculo sem esvaziá-lo de sentido. O abre-alas sintetiza a ideia de que o terreiro é também espaço de formação estética, política e comunitária. 

Entre esculturas, cores e símbolos, a escola reafirma que abrir caminhos é reconhecer as origens. Se depender da força evocada na concentração, Exu já cumpre seu papel. E a comunidade de Acari segue desfilando com fé, memória e afirmação cultural rumo ao sonho do acesso ao Grupo Especial.